A Lebre de Março II

Em Opinião

A lebre recebeu hoje na toca a visita com pedigree do primo Coelho Branco que tem pancada na mola e lhe disse que andava a formar um partido ( o PDJ- Partido da Droga a Jacto), para concorrer cá no altiplano às autárquicas pois entre março e abril há-de o cuco vir.

Bebemos chá e, como anda sempre a assapar, aconselhei-o a ir pelo Largo do padre Chiquito cheio de buracos onde se podia meter, caso encontrasse alguém no centro histórico, coisa mais difícil agora que achar o Marcelo aos beijos a lambuzar idiotas piores que ele ou o fim deste pandemónio.

Foi aqui que o primo me contou o seu programa para combater a desertificação daquilo com a terraplanagem de tudo até às Portas do Sol e fazer lá um aeroporto para os aviões da droga do Brasil, de quem ali o nosso Cabral registou a patente, a fim de com o negócio da passa, o PDJ passar a parvónia de capital do gótico, que já rendeu a alma ao Veríssimo, ao estado seguinte que é o classicismo do chuto flamejante em jacto privado, num céu aberto de manfios a branquear marcolinos, erguer torres, e encher as ruas de casinos e coelhinhas de fazer parar o trânsito, disse-me, a babar-se todo aquele D. Juan das coelheiras, pois em março onde quer eu passo, ou antes, passa.

A lebre ainda está arrelampada de serem sempre os malucos a terem as melhores ideias e, como tem visto muito, rebobinou as sinapses e recordou o que tem sido a história municipal desde a manhã dos cravos murchos: o primeiro que mandou nela foi um nem carne nem peixe que atou as botas cedo; seguiu-se outro que andou à nora primeiro mas depois recompôs-se, tratou com desvelo do património antes que tratassem dele uns que ajudou a trepar ao poleiro e, como moeda de troca, nunca mais se meteu noutra; a este sucedeu um que era do Barreiro que veio com entradas de leão mas deu em jardineiro de florestas secas e saiu como sendeiro ficando como os pirilampos que tanto aparecem como desaparecem; depois veio, a pedido dalgum inteligente, um do Alentejo transplantado para a Lezíria que saía à avó por parte do pai e arrancou logo todas as flores de jardins e parques menos as próprias, calcetou a avenida frente ao tribunal e deixou lá à cidade por recuerdo um bom par de cornos que arretem para um grupo de forcados como bonecos, embelezando de arte desta qualidade o burgo, espalhando adjectivos de cavalariça muito de se ouvirem e ainda mais de ler; a este seguiu-se o verdadeiro da fábula Ricardo Coração de Leão, destemido cavaleiro que não temeu enfrentar o da língua afiada em torneio que ainda dura, que é valente e com o gosto de licenciar pocilgas, se o deixarem, há-de povoar de suínos o Largo da antiga Feira o que seria também muito de se ver, e cheirar.

Felizmente vamos ter dentro em breve o hospital dr. Bernardo Santareno que como sabem é o dramaturgo Martinho do Rosário, o qual há-de presidir aos moribundos com a leitura do «Pecado de João Agonia»; aos esfaqueados em rixas com « O Crime da Aldeia Velha»; e aos sem esperança com « A Promessa» no futuro eterno do céu da pardalada.

Bom, esta já vai longa que a lebre tem mais que fazer, é só para dizer que continua de molho sem ser o de vilão e agora anda a ler a «Santareneida» que é, nada mais, que o famoso drama perdido do dr. Bernardo do Hospital, que escapou até ao seu ilustre biógrafo, o injustiçado José Miguel Noras a que nada escapa de coisas raras… não é nada, é o poema herói-cómico do Francisco Paula de Figueiredo (1796), coisa fina que até regala; e não ponham o focinho muito de fora que o espinhoso ronda pois se em março canta a perdiz, ano feliz. Au revoir, muchachos!

LM

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