História de vida de uma mulher que acartava os barrotes do rio

Em Correio dos Leitores

“Histórias de vida no feminino” é o título da iniciativa com a qual o Museu dos Rios e das Artes Marítimas de Constância. vai assinalar o Dia Internacional da Mulher. A actividade é dinamizada online. De acordo com o noticiado «Na história da nossa vida todos temos, pelo menos, uma mulher que pela sua atitude corajosa, generosa e resiliente ou pela sua criatividade ou habilidade, foi notável aos nossos olhos…»

Com o intuito de perpetuar a história dessas mulheres que nos marcaram ou marcam, o Museu lança o repto aos participantes que queiram enviar textos e fotos para defesa das memórias colectivas os quais depois divulgará.

Quando na edição anterior do grupo das redes sociais «Amigos de Constância», creio que em 2011 ou 2012, referi um caso de uma mulher de Constância que começou a trabalhar desde muito cedo, a acartar barrotes do “rio” e que fazia as redes de pesca , o então presidente quis logo saber quem era para se fazer uma espécie de retrato sobre essas memórias.

Até hoje a mulher do «rio» que nos anos 40 fazia trabalho de homem, ainda não foi contactada. Por acaso a pessoa que atrás refiro é uma das mulheres que chegou a integrar o Núcleo de Constância do MDM no início dos anos 90. E, já agora, era uma simpatizante activa do MDP/CDE mesmo antes da Revolução de Abril e sempre se manteve fiel a esse ideário, até à sua dissolução. Com ela assisti às sessões políticas durante a Revolução e no PREC no antigo cine-teatro, quando no calor dessas assembleias se faziam acusações de «vira-casacas».

Com ela cheguei a ir ao posto antigo da GNR várias vezes, por causa dos PIDES que em 1974 andavam fugidos por aqui e eram objecto de mandado. Recordo-me pelo menos de dois casos em que esses agentes se refugiaram na zona norte da EN n.º3 da vila, pela calada da noite. Sabia-se dessas movimentações na zona e o perfil dos ditos não enganava.

Com o meu pai muitas vezes de prevenção nos quartéis, chegado da guerra de África, vivíamos as contingências duma iminente guerra civil. Como isso marca uma criança! Estávamos colados ao antigo rádio, procurando os postos que mais ousadamente furavam o regime ou, depois, a «situação». Com ela assisti no cimo da encosta do Zêzere, aos voos rasantes nos Pára-quedistas em 1975 quando pouca gente ousava sair de casa.

Uma história de vida que passa pelo «rio» a acartar barrotes que vinham a flutuar nas águas e que depois eram transportados para as camionetas. Ganhava 12 escudos por dia e trabalhava para os empreiteiros dos Vieiras e dos Cruzes. Ganhava como as mulheres maiores de idade.

O peso e a violência da tarefa, que os homens ali exerciam, era também o seu carma. Andou pelo campo na apanha da azeitona, esteve em serviço de casas no Algarve, de parentes da família Duarte Ferreira, em Alpiarça, numa Quinta famosa, Dom João, que recebia o Presidente da República ao fim de semana, na Golegã, na casa de um médico conhecido, eu sei lá.

Uma história de vida que começou em Abrantes e em Lisboa, em casa da tia e da avó que a criou, e que passou por Viseu, depois, já com os pais e irmãos, várias vezes, até chegar a Constância em 1937. O pai era militar e foi mobilizado várias vezes o que implicava levar a família às costas.

Uma história de vida que passou depois por Tancos militar onde foi a primeira funcionária a coser pára-quedas em Portugal. O machismo de Kaulza de Arriaga viria a reservar aos homens o monopólio dos pára-quedas. E os empregos na área foram extintos para as mulheres. Anos de serviço perdidos.

Memórias de quem ainda tem a memória de ter sido vítima de um crime atroz em Viseu, de uma tentativa de rapto, a caminho da Quinta do Viriato. E tantas vivências que fazem da vida desta mulher uma película agridoce que só me orgulha do ventre de onde saí.

O então presidente da CMC que desistiu rápido de perseguir o seu retrato, perdeu a oportunidade de um retrato de vida. Outros haverá e que agora esta iniciativa da edilidade de procurar retratos de vida de mulheres anónimas, os ajude a recuperar para memória de todos aquilo que ontem rejeitaram.

Desde a participação nos teatros, nas revistas, nas operetas, no rancho, nos cortejos de oferendas, quer como membro quer como filha de um dos principais organizadores, trabalhava no duro para a comunidade constanciense e era ainda em casa o braço forte duma família numerosa. Sempre lutou e labutou pelo amor da sua vida, «contra tudo e contra todos» como se fiz na gíria. E fugia de bicicleta para ir ao seu encontro nesses tempos autoritários de namoro à janela a lembrar os tempos medievais. Mas não! Esta mulher não aceitava a tradição pouco consentânea com a dignidade das mulheres. É uma história linda de amor A dessa mulher e do seu marido o qual dentro de dias, faria 90 anos.

É a história da mulher que a câmara chegou a querer retratar antes de saber o nome. Sabia parte da história. Mas não sabia o nome. E quando o soube, já não queria saber…É também uma história de sofrimento e de luta heróica contra a maldita doença, há duas décadas. É um testemunho de resistência como nunca vi. Faço parte dessa história. Estou dentro da história.

É a história da menina que um dia destravou o carro de praça do tio, o «Fonaca» de Abrantes, o padrinho, Chauffeur, fazendo-o entrar pelo Chave d’Ouro adentro na Barão da Batalha, ali, paredes meias na rua onde nasceu, das Flores.

A menina que nos anos 30 calcorreava as ruas de Lisboa, descendo pela Luciano Cordeiro até perder de vista a sua tia artista que tocava piano e era corista. A menina que espreitava da varanda no Largo da Anunciada e que viu no Coliseu a estreia de «Jesus Cristo». Meu Deus, há quantos anos foi isso.

A menina que ia de comboio de Abrantes para Lisboa com a avó a quem o regime sequestrou o marido para as colónias. A avó, a peixeira de Abrantes com quem percorria a Rua da sardinha. Esta também era uma heroína que ficou com uma data de filhos para criar.

Histórias de vida de uma mulher anónima no feminino. Para celebrar o dia internacional das mulheres.

José Luz

(Constância)

PS – não uso o dito AOLP

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