Do petróleo à luz eléctrica na Vila de Constância

Em Correio dos Leitores

Quem ainda se recorda dos tradicionais candeeiros à moda antiga da Vila de Constância,  substituídos  nos primeiros mandatos da gestão de António Mendes?  Na altura os modelos colocados procuravam imitar os antigos, e ainda aí estão, compondo a paisagem do burgo e emprestando-lhe uma tonalidade amarelada, romântica. Tal coloração sempre é mais acolhedora e contrasta com as  novas lâmpadas brancas,  directas, vindo de baixo ou de cima, potencialmente agressivas para a vista de quem tem olhos claros. Hoje em dia, parece, recomendam-se lâmpadas LED para projectos de iluminação pública de espaços ajardinados, por razões de economia, duração, e de não aquecimento das plantas e mesmo de segurança. São contextos distintos. Mas o objecto deste artigo é sensivelmente divergente dessa polémica. Aqui, visa-se apenas um olhar e um registo da paisagem em que sobrevivem elementos do passado ou os seus protótipos modernos. É um olhar de leigo, informal, que procura perceber até onde vai a defesa e a preservação da paisagem urbana, no que tange aos seus elementos característicos. Procura-se ao mesmo tempo lançar uma sinopse sobre a instalação eléctrica em Constância.

Quem se passeia pelas ruas típicas de Constância pode ainda encontrar – ainda pode –  esses nostálgicos candeeiros, presos nas fachadas e nas esquinas dos edifícios. Há candeeiros de rua  antigos que são considerados verdadeiras peças de arte urbana. Falamos pois de, património.

Mário Mendes Lopes, antigo presidente da edilidade, um apaixonado pelo cinema e cultor desta arte, deixou-nos algumas imagens notáveis da vila de Constância num filme editado em 1938 mas que conterá filmagens desde 1924 a julgar pela descrição recente que a CMC divulgou. Nesta película, legada a Manuela de Azevedo e depois cedida à Associação da Casa Memória de Camões em Constância, surge no final uma imagem da vila nocturna, bucólica, única, com os candeeiros acesos. A serem imagens de 1924, então, os candeeiros ainda eram a petróleo.  Em talhe de foice posso asseverar que a escritora e jornalista Manuela de Azevedo, fundadora  da  então independente Associação da Casa Memória, de Camões (com outra designação) me disse que foi ela que  no tempo ainda do Estado Novo pediu a colaboração do Ministério da Guerra para se recuperar a película original do filme. Assim, esta versão que a CMC recuperou agora. por minha sugestão, é  uma terceira  edição.

Como curiosidade encontrámos no Arquivo Municipal de Constância duas informações: uma, sobre o registo dos contratos celebrados entre a Câmara Municipal e entidades várias, durante o período compreendido entre 22-11-1891 e 13-12-1893, nomeadamente, um auto de fornecimento de 25 candeeiros para iluminação pública, outra, dando-nos notícia de um  auto de arrematação do fornecimento do petróleo para a iluminação pública da vila durante o futuro ano de 1913.

O Concelho de Constância aparece-nos apenas em 1933, a saber, no quadro dos concelhos com rede eléctrica inaugurada (em Abrantes a inauguração ocorreu em 1909) segunda uma tese de doutoramento de João Figueira sobre o Estado na Electrificação Portuguesa (1945-76), publicada há nove anos atrás. Recuando  no tempo alguns anos, sabemos por este mesmo estudo que em 1928 a Hidroeléctrica do Alto-Alentejo (sociedade anónima de responsabilidade limitada) passou a apostar na hidroelectricidade de uma região mais desfavorecida que incluía o concelho de Constância e outros do nosso distrito. De facto, no quadro de electrificação do pais, balanço de Dezembro de 1926 (o mesmo estudo anterior) o concelho de Constância aparece-nos sem rede eléctrica. Em 1939 a Hidroeléctrica do Alto Alentejo explorava já o Concelho de Constância.

É em 1945 que surge finalmente a criação da Hidroeléctrica do Zêzere, cabendo-lhe numa primeira fase a realização do projecto hidroeléctrico mais emblemático deste período, a barragem e central de Castelo de Bode.

Segundo a tese que seguimos de perto, esta empresa viria apenas a realizar três aproveitamentos hidroeléctricos no rio Zêzere, Bouçã, Cabril e Castelo de Bode, que inaugurou entre Janeiro de 1951 e Outubro de 1955.

Em Fevereiro de 1954, o outro aproveitamento que também fazia parte da concessão que lhe tinha sido atribuída em Dezembro de 1945, o aproveitamento de Constância, no rio Zêzere, foi suspenso devido ao seu reduzido interesse económico ficando, no entanto, essa decisão para reavaliação posterior, adianta o autor.

Nem as câmaras municipais nem as Juntas de Freguesia dispunham de meios para a produção de energia. Assim,  limitavam-se a  proceder à exploração de minúsculas redes de distribuição com a energia que lhes era fornecida pelas grandes companhias eléctricas.

No caso da Junta de Freguesia de Montalvo,  de acordo com a dissertação de João Figueira, apesar da rede eléctrica ter sido construída a expensas da Câmara Municipal de Constância, esta Junta solicitou que a sua gestão ficasse a seu cargo pedido que, esclarece,  foi aceite, «tendo esta Junta explorado esta concessão desde 1935 até Abril de 1957, altura em que a Câmara Municipal resgatou a concessão», termina.

Na vila de Constância existia uma figura típica o «Zé Alho», pau para toda a obra camarária, que zelava pelos velhinhos candeeiros.  Era uma figura estimada por todos e que ainda não saiu da memória de várias gerações.

Uma outra curiosidade. Em 1968 a tarifa do preço de venda de energia para usos domésticos (escudos/kWh) era de dois escudos, como nos revela João Figueira citando como fonte a estatística das fontes eléctricas em Portugal.

Com a publicação de nova legislação em 1971, a Câmara de Constância veio a integrar a Federação de Municípios do Ribatejo em cuja composição  participavam outras câmaras do distrito de Santarém, como Vila Nova da Barquinha, Golegã  entre outras.

Esta integração nas redes eléctricas não foi feita de imediato no caso das câmaras de Constância, Mação, Sardoal e Vila Nova da Barquinha,  obedecendo a uma plano faseado e gradual de três anos, debaixo da supervisão da Federação  então  constituída. Na opinião de João Figueira não era dada nenhuma explicação para esta situação. Segundo este autor «tal dever-se-ia às debilidades das redes de transporte de energia e de interligação com os restantes». A integração das redes eléctricas destes municípios na Federação foi assim realizada de forma gradual entre finais de 1971 e meados de 1977.  Em Janeiro de 1972 integraram a Federação os municípios de Alpiarça, Cartaxo, Constância e Golegã. A rede eléctrica da vila de Constância era muito inconstante. Sempre que fazia mau tempo a luz faltava, levando os piquetes várias horas para  resolver os problemas. Lá vinha o Mário, o Fernando, o Chico, o José Jorge, sempre prontos e operacionais. A Federação tinha uma oficina no Bairro Novo. Recordo-me bem de na minha infância faltar a luz na rua e em casa, com frequência. Valiam-nos os velhinhos candeeiros a petróleo. A vila tinha várias fases na rede. E ficava mesmo às escuras com frequência. Qualquer coisa, dizia-se logo, «foi na cabine». E não era, claro.

Na edição de 1 de Maio de 1971 do jornal “Nova Aliança”, Joaquim dos Mártires Neto Coimbra, cronista de Constância e meu antigo mestre dá-nos a seguinte notícia: «Foi inaugurada no Sábado de Aleluia a luz eléctrica não só na freguesia de Santa Margarida da Coutada, como no Lugar de Santo António, pertencente à freguesia e Vila de Constância».  Na mesma notícia J. Coimbra refere que este melhoramento foi iniciado por Júlio Feijão, anotando que a sua conclusão se deveu, passo a citar, «ao dinamismo do actual presidente da Câmara Municipal,  sr Aurélio Dias Nogueira».

Em virtude da desastrosa participação na Grande Guerra, a partir de 1914 assistiu-se a um relativo abrandamento da instalação das redes eléctricas. O autor do estudo que vimos citando aponta  dificuldades no  acesso aos equipamentos e aos técnicos  os quais, sublinha,  «na maior parte dos casos, eram dos países beligerantes». A título de curiosidade refere ainda  que algumas instalações conseguiram ser concluídas “à justa”,  dando o exemplo do caso de Fafe, rede inaugurada em Outubro de 1914, «por os técnicos alemães envolvidos neste empreendimento terem regressado à Alemanha para serem incorporados nos exércitos». Noutros casos os projectos foram mesmo adiados por vários anos, como em Bragança etc. O que as guerras fazem à humanidade dos homens…

Fazendo a síntese, João Figueira. Conclui: «Passado o período da Guerra e os difíceis anos que se lhe seguiram, assistiu-se a uma forte aceleração deste processo nos anos 1920 atingindo-se no final deste período os 116 municípios com redes eléctricas instaladas», ou seja,  remata, «mais 88 novas redes eléctricas instaladas, a par da ampliação das redes já existentes em alguns concelhos».

José Luz

(Constância)

PS – Não uso o dito AOLP

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