Leituras inextinguíveis (17): O meu amigo Jules Maigret, detetive de eleição

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Na vastidão do subgénero literário intitulado Crime e Mistério avultam escritores e detetives que ao longo de gerações continuam a entusiasmar os seus devotos.

Georges Simenon

Georges Simenon (1903-1989) é o quarto autor de língua francesa mais publicado no mundo. Seguramente este autor de origem belga usufruiu de uma experiência de vida que lhe permitiu, graças ao seu génio, aproveitar as diferentes profissões que exerceu, com especial relevo para o jornalismo, a frequência no mundo da noite, o ter feito cursos sobre criminologia e desde jovem, já instalado em Paris, ter publicado freneticamente contos e romances, publicados em folhetins, de todos os géneros policiais, eróticos, melodramáticos e até lamechas.

Escreveu cerca de 200 obras entre 1923 e 1933 e o seu acervo de artigos jornalísticos é infindável. Em 1929, escreveu Pietr, o Letão, é o primeiro livro em que surge Maigret, que se mete num comboio para ir visitar um amigo, começa uma perseguição, é ferido, e conduz toda a investigação num quarto de hotel, aparece Madame Maigret que tem nesta obra alguma atividade detectivesca. Maigret vai ganhar uma popularidade desmedida. Simenon escreverá ao todo 84 aventuras do comissário. Em paralelo, o escritor traça uma outra linha de romances chamados duros, isto enquanto viaja um pouco pela França, durante a II Guerra Mundial vive na Vendeia, findo o conflito parte para os Estados Unidos, torna-se um viajante compulsivo e em 1972 deixa de escrever. É nessa altura que se lança na preparação das suas gigantescas Memórias Íntimas, um tocante depoimento autobiográfico, publicado em 1981, e que também está traduzido em língua portuguesa. Escusado é dizer que muitos dos seus romances foram adaptados ao cinema e à televisão, teve um ator de eleição, Bruno Cremer, o grande ator Gérard Depardieu também foi tentado pelo papel.

Afinal, o que distingue Maigret de outros talentosos investigadores? Não é amador, é comissário na Brigada de Homicídios, em Paris. É um homem comum, gosta de comezaina em tasquinhas, vai ao cinema e almoça e janta fora com a sua mulher, o casal visita mensalmente o Dr. Pardon, que o ajuda a refletir sobre a personalidade de criminosos, dá-se muito bem com a sua equipa de colaboradores, onde há figuras bizarras como o inspetor Lognon, macambúzio, um sentimento de infortúnio estampa-se no rosto, tem todo o seu tempo disponível tomado por cuidar da mulher praticamente inválida.

O casal Maigret vive numa pequena casa no Boulevard Richard-Lenoir, Madame Maigret de há muito se habituou às ausências do marido quando este tem interrogatórios pela noite fora ou investigações inesperadas que o levam a falhar as refeições. Conhecemos muito da vida do casal, o jogo em que o comissário diz que vai ficar na cama até mais tarde, a mulher prepara-lhe carinhosamente o pequeno-almoço e quando abre a porta já Maigret está à janela, calçou pantufas e enfiou o roupão, mira os edifícios em frente. Vamos pegar numa obra-prima intitulada Um Natal de Maigret, cuja tradução mais recente se intitula Maigret e os Mistérios de Natal, Asa Editores, 2007.

É dia de Natal, Maigret está a ver à janela duas mulheres que saem do prédio em frente e que têm todo o ar de que estão a vir para lá. E assim foi, bateram à porta, Madame Maigret fala de duas senhoras que insistem em falar com ela, conhece uma delas, Mlle. Doncoeur, “Mora em frente, no mesmo andar que nós, e trabalha o dia inteiro junto da janela. É uma rapariga de bem, faz bordados finos para uma loja do faubourg Saint-Honoré. Até cheguei a perguntar a mim mesma se ela não estará por acaso apaixonada por ti”. O comissário surpreende-se e a mulher atalha: “Quando sais de casa, ela levanta-se frequentemente para te seguir com os olhos”.

A história de Mlle. Doncoeur, que vem acompanhada de Madame Martin, é no mínimo intrigante. Vive lá em casa uma criança, Colette, sobrinha de Madame Martin, quando de manhã Mlle. Doncoeur a foi visitar, a criança anunciou que fora visitada pelo Pai Natal que lhe trouxera uma boneca.

E começa um daqueles interrogatórios em que Maigret vai identificando atmosferas, pessoas, iluminando situações, havia ali um dado que lhe prendeu a atenção, o visitante, o dito Pai Natal, esteve a levantar tábuas de um soalho, e depois saiu, parecia que se tinha esfumado. O comissário faz inúmeras perguntas, quer saber algo sobre os pais de Colette. Maigret vai visitar a criança, Madame Martin aproveita e pretexta que vai às compras, Colette responde a todas as questões postas pelo comissário, a nova conversa entre ele e Madame Martin já se faz de um clima de crispação, o comissário quer saber onde e com quem trabalhou antes de casar, volta para casa e por telefone desencadeia um inquérito. Mr. Martin é representante comercial, anda por fora, já está de regresso, também intrigado com aquele inusitado Pai Natal.

Os colaboradores de Maigret já estão todos em campo, reproduzem os passos seguidos por Madame Martin desde que protestou ir às compras, segue-se um torvelinho de telefonemas para a empresa onde ela trabalhou, a intriga adensa-se, houve um patrão que desapareceu inopinadamente, Simenon adverte-nos sub-repticiamente que avançamos para o olho do furacão.

Naquele dia de Natal, um nevoeiro denso e amarelado caíra sobre a cidade de Paris, os inspetores percorrem os locais onde viveu Madame Martin antes de casar, as conversas telefónicas não param, os diferentes motoristas explicam por onde andou Madame Martin.

E começa um magistral corpo a corpo, nesse momento o comissário Maigret já não faz cerimónias: “Livre-se de não dizer nada, de não responder a nenhuma pergunta. O seu marido chega às 11h17 e talvez então, na presença dele, a senhora decida mostrar-se mais loquaz”. E ficamos a saber que a relação entre o patrão de Madame Martin extravasava a via profissional, ela resiste a contar a verdade, o comissário não larga a presa: “O que mais me choca, não é tanto o que a senhora possa ter feito, mas sim o seu sangue frio. Já me passaram pelas mãos muitas pessoas, homens e mulheres. E já passaram três horas desde que nos encontramos neste frente a frente e pode-se dizer que, desde hoje de manhã, a senhora já esteve por várias vezes quase a ceder, mas acabou por nem sequer pestanejar. O seu marido vai regressar e, a partir dessa altura, a senhora vai de certeza tentar colocar-se no papel de vítima”. E desanca-a com os factos apurados os inspetores apuram ter havido um assassinato, Madame Martin guarda a maquia roubada, um milhão de francos, e entramos de rompante nas confissões: “Detesto a mediocridade. Fui pobre toda a vida. Durante toda a vida não ouvi falar de outra coisa senão de dinheiro e de privações. Toda a minha vida vi as pessoas que me rodeavam a fazer contas e mais contas e também eu fui obrigado a fazê-las”.

E aos solavancos vai-se soltando a verdade, Madame Martin está em pânico, não quer ver o marido. E esta obra-prima tem o seu termo com um gesto de invulgar ternura de Madame Maigret. Só de madrugada e depois de conversar com Martin e o pai de Colette é que o comissário voltou a casa, atravessou o Boulevard e encontrou a mulher a dormir na poltrona:

“ – Estás sozinho?

E, como Maigret ficara a olhar para ela com um olhar espantado e divertido:

– Não trouxeste a pequena?

– Esta noite não. A menina está a dormir profundamente. Amanhã de manhã, então sim, poderás ir buscá-la, mas tem o cuidado de ser o mais simpática possível para com Mlle. Doncoeur.

– A sério?

– Mandar-te-ei duas enfermeiras com uma maca.

– Mas, então… Vamos poder…?

– Chiu!… Isto não vai poder ser para sempre, estás a perceber? É possível que Jean Martin se conforme com a ideia… Mas também pode acontecer que o irmão dele se emende, volte a ser um homem normal e um dia venha a constituir uma nova família…

– Em suma, ela não vai poder ser nossa para sempre?

– Nossa, para sempre, não. Só emprestada. Mas eu pensei que isso seria melhor do que nada e que tu, mesmo assim, irias ficar contente.

– Claro, claro que estou contente… Mas… mas…

Madame Maigret fungou, procurou um lenço, mas, não o tendo encontrado, não teve outra alternativa senão esconder o rosto no avental”.

Esta primeira história é um prodígio de escrita, a seguinte não fica atrás. Desesperado, um rapaz que está a ser perseguido por um criminoso deixa pelas ruas de Paris um engenhoso rasto. A atmosfera criada por Simenon na Central Telefónica da Polícia com centenas de cavilhas, numa altura em que anda um criminoso em série sem ser possível identificá-lo, é assombrosa.

Vamos conhecer o agente Lecoeur, que tudo anota quanto à natureza das ocorrências, desde afogamentos a estrangulamentos e que em dado momento descobre que o sobrinho viu um crime, é um relato trepidante, com um fim feliz, depois do assassino ter sido adormecido com uma violenta pancada numa tasca, releva toda a humanidade com que Simenon põe no final da novela: “Um miúdo, todo vaidoso, atravessa Paris, refastelado num carro-patrulha da polícia”.

Leio sem nunca me cansar com este universo onde há tantas vezes descidas aos infernos e onde se disseca sem mistificações o caráter misterioso da natureza humana. Guardo os velhos livros traduzidos pela Vampiro, tinha capas admiráveis assinadas por um artista injustamente esquecido, Cândido da Costa Pinto.

Mário Beja Santos

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