Leituras inextinguíveis (19): Baía dos Tigres, por Pedro Rosa Mendes, uma obra-prima na descida aos infernos (1)

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Confesso que sempre me atraiu a literatura de reportagem e tenho tido privilégio de verificar que temos documentos notáveis de nomes cimeiros do jornalismo português. Mas depois de Kaputt, de Curzio Malaparte, não conheço esplendor literário sobre os horrores da guerra como este livro descomunal, uma viagem num mundo em descalabro, onde se quebraram todas as regras, Baía dos Tigres, Publicações Dom Quixote, 2010.

Pedro Rosa Mendes

O escritor e jornalista Pedro Rosa Mendes, em 1997, propôs-se realizar a travessia do continente africano, por terra, “De Angola à Contracosta”. Queria afoitar-se a levar por diante o itinerário seguido por Capelo e Ivens. Como observou José Eduardo Águalusa, “um século depois, muitas guerras depois, através de estradas já mortas e campos semeados de minas”. O relato desta aventura é um livro esplêndido, uma pedra preciosa da literatura de viagens, um género literário em que damos cartas, seguindo a herança, ao melhor estilo, do que escreveu e viveu Fernão Mendes Pinto. O que nos oferece esta “Baía dos Tigres” é um género de odisseia. Regressando a José Eduardo Águalusa, “com heróis anónimos, habitantes dos limites da vida, e também monstros, estranhos monstros reinventado o horror no seu vasto território de sombras”. Portugal precisava de um livro como este. Um livro capaz de justificar todo um passado comum de errância pelo mundo e de renovar a chamada literatura de viagens.

O núcleo central da obra descreve situações da guerra civil angolana. Dentro da banalização do horror com que nos atrai do princípio ao fim, vamos começar exatamente perto do final na Pousada Número Um da Jamba: “Tem 16 hóspedes que estão lá para sempre. Não tem iluminação porque é melhor assim para eles. Não se vê e a escuridão tem pudor do pesadelo que esconde, recortado contra um cheiro nauseabundo. Quando se entra os olhos ganham a vertigem do chão e o estômago quer voltar para trás. Os ocupantes são 6 quartos e um corredor de homens amontoados, quase todos cegos ou amputados e ainda outros que são surdos. Na verdade, o grupo maior é daqueles que estão cumulativamente imóveis em todas essas desgraças: não veem, não ouvem, não mexem. Todos falam e mesmo os que não têm língua olham de uma maneira ensurdecedora.

A Pousada Número Um foi o primeiro centro de acolhimento de deficientes das FALA, criado no início da guerra quando Savimbi e um punhado de homens fizeram quartel-general no canto inferior direito da sua retirada de Luanda. Em Angola, a morte é um luxo barato. O preço maior é ficar vivo quando a vida é uma mercadoria insuportável. Em 1976, a Pousada era o exemplo Número Um do carinho que o Galo Negro dedicava aos heróis da luta: os homens que tinham pago esse preço exorbitante em lascas do próprio corpo. Têm minas na ponta das muletas, granadas onde faltam as mãos e bombas ao alcance das pestanas. Comércio de troca direta, a guerra deles: um pé por cada passo, um dedo por cada atraso, um homem por cada palmo, um grito por cada dor”.

Pedro Rosa Mendes não aterrou em Luanda à procura de uma reportagem de guerra, embora soubesse que a guerra aqui permanecia, tinha pela frente uma linha sinuosa que vai de Luanda a Quelimane. Uma odisseia, iria descobrir, cheia de campos de minas, o repórter vai descobrir aqueles azares da fortuna em que um guerrilheiro se desencantará, passando para o adversário, encontrará durante a viagem algumas dessas histórias em Angola e Moçambique.

E seguidamente descreve a batalha de Cuíto Cuanavale, onde combateram angolanos das FAPLA, guerrilheiros da SWAPO, tropas cubanas e aviões soviéticos contra angolanos da UNITA, comandos sul-africanos e aviões franceses: “Milhares de homens morreram com bombas, morteiros, rockets, minas, tanques, metralhadoras, fome, pântanos, crocodilos. Com a loucura: é incontável o número de todos os outros que deixaram ali a vida e regressaram a Moscovo, Havana ou Joanesburgo contrabandeando a sua bagagem de pesadelos. O Cuíto Cuanavale é um epicentro do nada, mas possui a única pista asfaltada da região preciosa para o transporte de tropas e material. O seu controlo podia decidir a guerra, como veio a acontecer”. O repórter anda por perto, deambula por ruínas de alvenaria, ali não há eletricidade, água canalizada ou potável, é a desolação absoluta. As histórias sucedem-se, nenhuma é verdadeiramente feliz, Pedro Rosa Mendes prossegue viagem num doloroso anda-para, tomas notas sobre vidas fantasmáticas e a descida aos infernos prossegue com minas à frente, atrás, à esquerda, à direita, mais dor parece impossível, como ele escreve:

“Andar de dia. Andar de noite. Comer fuba ou não comer nada. Poupar a última lata. Ferver chá colhido em arbustos. Cozinhar em panelas negras na terra lavrada pelos pneus. Comer a última lata. Comer à mão em pratos de esmalte esboroado. Imaginar água fresca. Salivar línguas de sal. Quebrar de frio uma hora depois da Lua. Abafar de calor uma hora depois do Sol.

Sonhar com uma cama.

Acordar com ratos.

Adormecer com um susto.

Desprezar as lágrimas.

Evitar os cães.

Defecar à frente dos outros. Tomar banho nos rios, nadar na sesta dos crocodilos, fugir das cobras, secar o corpo com as mãos. Colher os arrepios por fora dos ossos, vestir a pele da roupa imunda. Vomitar o próprio cheiro. Dormir ao relento, dormir em alerta, em trânsito, em casas abandonadas, em colchões de palha e piolhos, em cobertores com buracos e sarna”.

O repórter tem que atravessar a Jamba, é retido, ali passa horas intermináveis à espera de autorização para continuar. Sabe escutar, apercebe-se de dramas, daquelas guerras em que rapidamente se passa de herói a traidor, de quinta-essência a refugo. E vamos sendo atormentados com histórias macabras com a do Fogacho:

“Fogacho estava condenado. Como oficial das FALA, foi integrado no exército único ao abrigo do Protocolo de Lusaca. Era uma das patentes da UNITA nas FAA; tenente-coronel. Há um ano que tinha trocado o mato pela cidade. Agora ia a Jamba, por terra, buscar a mulher, os filhos e duas viaturas que lá continuavam. Mas ninguém chega a Jamba por terra. Nem mesmo um tenente-coronel da casa. Ou talvez, melhor: muito menos um tenente-coronel que trocou de casa.

Luanda é só traição. Esses ditadores se passeiam lá nos governos, comendo do nosso petróleo. Eles financiam o totalitarismo com o petróleo. Enquanto lhes bastar o petróleo não vamos ter cheiro de pluralismo. Devíamos ter estendido a guerrilha nas plataformas. Quando lhes estoirar nas mãos, aí eles percebem.

(…) Fogacho era estrangeiro. De Angola para Angola, do Bailundo para Luanda, mudara para sempre de país. Na UNITA, que sempre fanatizou a pureza, não há dupla nacionalidade. Fogacho foi para não voltar. Além disso, a cidade é uma sedução em si, depois de 20 anos no mato”.

A viagem prossegue, o escritor desorienta-nos com histórias e situações entre Angola, a Zâmbia e Moçambique, histórias de horror, de corrupção, daquela pura maldade que só é possível nas guerras (por definição insanas), onde foram esquecidos todos os princípios.

Estamos agora no Planalto, numa região também controlada pela UNITA, somos brindados por prosa de primeiríssima água:

“Lutaram pela sua terra, muito e tanto, até fazerem dela uma terra de guerreiros, e de nenhum outro cultivo. Começaram então a nascer dela, homens com raízes aéreas, raízes da terra, até ao osso do caule, até à seiva do nervo. Raízes no lugar das pernas, férteis na terra que as mutilou.

Aparecem, altos, sem espessura, de dentro da neblina do Planalto, do interior do perfume fresco do eucalipto. É de manhã que saem. E vêm. Aparecem, testemunhando o pesadelo e o milagre, agarrados à silhueta das árvores, confundindo-se com elas, caminhando no alto das suas raízes-ossos-troncos-madeiras-andas-próteses: muletas: uma nova espécie, meio-homem, meio-planta, metade-vida e metade-fingida. Os vegetais da terra que se tornou esta.

É de manhã e é para mim que avançam. O cheiro das folhas pica as narinas: aproveito, choro e disfarço, sucumbo. A primeira árvore de madeira-carne alcançou o sítio de onde o choque não me deixa mexer. Aperto, nessas mãos mesmo, o tesouro vivo que lhe resta: as mãos”.

E, mais adiante:

“Um ex-combatente com dupla amputação de pernas está erguido no alto das raízes que lhe enchem as calças. Um dos pés é um bocado de pneu, com a marca Michelin ainda visível no relevo do ‘peito’. Mostra-me as suas próteses com orgulho, porque eu não acreditava que as usasse: tinha-o visto chegar de bicicleta”.

Temos novas peripécias em terras do Galo Negro, já se saiu de Caiundo, segue-se um interrogatório burlesco feito por um administrador da UNITA, em Calai. Na continuação, ocorre uma reflexão ao escritor: “Angola elaborou de forma perversa o conceito de que informação é poder. O que é visto por ser contado, o que é dito já não pode ser retirado. Para uma população em guerra, condenada a servir dois totalitarismos siameses, a informação pode regressar como arma nas mãos do inimigo”. E segue-se uma exposição espantosa sobre a cultura da mentira. A viagem tem altos e baixos, acidentes de percurso, entremeiam-se relatos pavorosos, histórias que até podiam ser pícaras, não tivessem como pano de fundo a destruição, a maldade mais velhaca, e por vezes ocorrem aparecer pontos de heroísmo, vale a pena ler e reler a odisseia de Daniel Libermann, um hino à tenacidade. Há histórias de gente muito antiga, descreve-se a pescaria do Mucuio, falemos então de peixe:

“Pode ser uma mulamba de espada, mulamba de corvina, mulamba de carapau. É a forma de abrir o peixe antes de mais. O peixe é aberto pelas costas, pela espinha, e geralmente tira-se a cabeça se é para mulamba de corvina ou de carapau. Depois faz-se uma moura muito leve, com pouco sal, de maneira a não ficar com muito sabor. Deixa-se algumas horas: põe-se a secar um ou dois dias, é rápido. Aqui comemos o peixe grelhado, que é o mufete – o carapau grelhado sem tirar as vísceras, vai para a brasa todo ele, completo. A cabeça é a melhor parte do peixe – o mesmo para o kalulu, com óleo de palma”.

Volta-se a cenários de destruição, estamos de novo no Cuíto:

“O Cuíto é uma vala comum. Há gente enterrada em todo o lado. No adro, na igreja, naqueles jardins, na avenida, nas casas, nos quintais, nos prédios (…) Disparava-se blindados com os canos na horizontal. Disparava-se de uma casa para a outra, a 20 metros do alvo. Tiro à vista, o ódio em cheio no branco dos olhos. Um oficial francês, em operações de desminagem e formação no Cuíto, contou-me que até aí, Julho de 1997, tinham encontrado 71 tipos diferentes de explosivos.

– Costumamos gozar e dizer que, com um pouco de trabalho, acabaremos por encontrar os 700 que faltam – existem cerca de 800 tipos de munições referenciadas em todo o mundo. Aqui a guerra foi diferente de todas as que conheço, Camboja, Afeganistão, Bósnia. Nesses sítios as munições estão dentro do convencional. Minas, aqui, são de todo o tipo. Não há sequer, minas artesanais. O material aqui é do mais sofisticado que há. Israelitas, sul-africanos, chineses, coreanos, franceses, russos, americanos, tudo. É uma espécie de universidade para nós. E ninguém ouviu falar do Cuíto.

As crianças aqui brincam com projéteis ar-terra, que têm um palmo e pouco de comprimento e lhes podem explodir nas mãos a qualquer momento porque não detonaram na queda. Uma ficou em bocados com uma coisa dessas há pouco tempo. Não sei como vão reconstruir isto”.

E a viagem prossegue até Bibala, no sopé da chela, depois Lobito. O viajante telefona para Lisboa, informam-no que morreu Al Berto. Temos mar e linha férrea, avistam-se desmobilizados, mutilados e desempregados. Temos seguidamente uma descrição em Lubumbashi, Congo, vive-se no caos, falam portugueses, contam histórias, andam tropas ruandesas por ali. Mais histórias desta vez em Elizabethville. E a trama regressa a Angola, a Caiundo, entram novas personagens, desta feita os sul-africanos como John Van Der Merwe, comandou os Flechas Negras que, juntamente com o batalhão Búfalo puseram em retirada as tropas de Agostinho Neto e Fidel Castro, do Cuando Cubango até ao Cuanza Norte, este soldado excecional veio da base ómega, Faixa de Caprivi, Sudeste Africano, é uma das histórias mais surpreendentes e galvanizantes deste livro. John Van Der Merwe confessa-se ao escritor: “Não estou a dizer que fui um assassino: somos treinados para isso, faz parte da vida de um gajo. Fui um indivíduo que em combate carregou muitos homens neste ombro, pretos inimigos, para os salvar. Salvei muita gente. Nunca tive tendência para eliminar pessoas. E foi por isso que não aguentei muito mais tempo. Tenho passagens tristes. Mas matar por prazer não”.

Há sempre histórias e testemunhos para contar. Tome-se a vida de Ben-Ben:

“Ben-Ben, futuro chefe do estado-maior das FALA e delfim de Jonas Savimbi, era apenas um alferes quando foi a casa de João Miranda no Dirico para o escoltar à morte. João Miranda estava havia 20 dias em prisão domiciliária porque a UNITA o acusara de ser um agente da PIDE. O preso não se revia em nenhuma das acusações.

João Miranda, natural de Bragança (1945) e em Angola desde os 11 anos, tinha família e loja no Dirico. A administração, a polícia e os muitos amigos na pequena povoação tentaram protegê-lo da condenação, mas a UNITA insistia em relacioná-lo com a PIDE. A solução foi a fuga. O agente Covachan da PSP (mais tarde fez parte da segurança do presidente Ramalho Eanes), preparou-lhe a fuga numa noite de Janeiro de 1975, providenciando diesel às escondidas para que João Miranda pudesse atingir o Mucusso.

A mulher, Elisabete, e as filhas saíram noutra viatura com o pretexto de irem na direção contrário, de compras ao Huambo. O plano era atravessarem o rio Cubango de canoa, no Calai. Quando chegou ao Mucusso e passou a fronteira para o Sudoeste Africano, as autoridades sul-africanas responderam com rapidez. Comunicaram com o comando do Rundu, que enviou prontamente tropas para receber a família no Calai”. Há um Paulo de Sousa em Lusaca que é super-enérgico e super-influente, o repórter esboça uma água-forte portentosa, inigualável. Como portentosa é a descrição dos bombeiros, mestiços ou negros, que representavam interesses comerciais em zonas do sertão angolano onde os brancos não podiam chegar. A história é tão mais curiosa dado o facto de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco se terem antecipado meio-século à primeira travessia do continente por Livingstone (1854-56) de Luanda a Quelimane. E sabe-se que tal aconteceu de ciência certa, Pedro João Batista escreveu um diário. E o autor observa: “Uma das delícias do Diário de Pedro João Baptista é o seu estilo. Não era um letrado não sendo um analfabeto, era um militar sertanejo. Escrevia com os pés mas olhava com génio. O pombeiro inventou uma gramata anárquica, onde o discurso direto irrompe sem aviso e os verbos não têm isso de conjugação, onde a pontuação tem a irregularidade do fôlego e expressões eruditas convivem com um léxico existente em nenhum dicionário. Os conceitos científicos não estão lá. Os pontos cardeais não existem mas é uma evidência que Leste se diz “andar com o sol na cara”. O rigor da descrição é tal que foi fácil identificar os locais e acidentes por onde passou o pombeiro”.

Outra apreciação exemplar é a do brigadeiro-general Kalutotai: “O brigadeiro-general vive numa das pequenas casas arrasadas pela invasão sul-africana e pela guerra civil. Não serão mais do que 10, as ruínas delas, moradias de guerreiros, sem arruamento mas alinhadas numa alameda de árvores enormes que dão sombra a uma história de violência total. A mobília desapareceu no fogo e o resto são instalações de zinco, esteiras, buracos de bala e de obus, alguidares e cães, roupas que secam e bebés que choram a céu aberto. Estes são os privilégios de Kalutotai, comandante da UNITA na área militar do Caiundo. A localidade do Caiundo – o antigo centro de cantineiros, lojistas do mato – erguia-se numa elevação sobre o Cubango, a ponte que ligava ao Sudoeste Africano foi dinamitada em 1975. De dia, se é de paz, o brigadeiro senta-se na varanda térrea e, sem mexer um dedo, ou mexendo apenas o pequeno chicote contra a perna esticada, controla a reta que trás ao rio a estrada de Menongue para a Namíbia. Ele vê sempre muito antes de ser visto. É talvez por isso que continua vivo. O Caiundo é uma célula onde flutuam canoas e Kalutotai é comandante da sua própria prisão perpétua. Em Angola, os partidos – dois exércitos – não são opções ideológicas, tornaram-se simples contingências geográficas – combate-se e vota-se pelo sítio onde se está”.

É Kalutotai que autoriza que o autor prossiga viagem, será uma viagem indescritível. A carta que Pedro Rosa Mendes escreve ao senhor Ventura, diretor da Direção de Estrangeiros e fronteiras de Angola, Cuíto, Bié, Angola, é prosa memorável, crítica mais mordaz aos pequenos poderes do funcionário déspota e mesquinho não pode haver. O autor despedaça-o, redu-lo à sua insignificância: “Disseram-me que Vossa Excelência era muito nervoso e muito crente. Fiquei chocado e contente. Gente assim produz conversões dramáticas. Deus é a sua última hipótese.

Como na última vez que o vi, Vossa Excelência não me está a olhar nos olhos: nessa ocasião não conseguia, hoje não pode. Dá igual: “Não lhe dou mão nem adeus. Nada fez para merecer isso”.

Viajamos aos tropeções, sempre pela mão do autor, atravessamos fronteiras, conhecemos pessoas extraídas de preciosas antologias do exótico ou do extraordinário. Viajamos à toa, por vezes com a respiração suspensa, o autor corre perigos: “José rema o meu sarcófago pelas ilhas e rápidos. Costuramos uma fronteira: há ilhas que são Namíbia, outras são Angola. Vou deitado no chão da canoa, com os braços estendidos ao lado do corpo, e a canoa adapta-se ao meu corpo. A cabeça e os ombros encaixam nela. Um sarcófago é isso, uma caixa à medida para a última travessia. Tivemos de aguardar a noite para voltar a Angola encobertos por ela. Devido ao embargo das Nações Unidas, a fronteira angolana está fechada nas áreas controladas pela UNITA, como é o caso do Cuando Cubango. Na Faixa de Caprivi o controlo é muito apertado. As patrulhas namibianas andam rio acima e rio abaixo. São renhidamente zelosas eficientes, quando veem alguém atravessar o rio atiram a matar”.

O belo horrível é dado pelo cristalino da língua, impecável, e os pormenores mais medonhos, contados com absoluta dureza. Ouve-se um piano, este sufoca os gritos dos executados, temos uma descrição do horror absoluto:

“Os jovens da Organização dos Pioneiros de Angola tinham a sua bandeira e toda a gente tinha que se pôr em sentido num raio de três quarteirões quando era hasteada. Quem não, levava um tiro ou era preso, os meninos da OPA treinavam-se nisso para ser futuros dirigentes. Os camponeses não sabiam, distraiam-se, eram levados para a cave daquela casa abandonada – era de uma professora de música que fugira meses antes – e torturados ao som do piano para o piano abafar os seus gritos. O terror lança mão de qualquer objeto. Até de um piano”.

Pedro Rosa Mendes pega por vezes num protagonista que vai acompanhar uma narrativa dramática, onde não falta o horror e as situações delirantes. É o caso de Maria Alexandre Dáskalos que disse a um embaixador em Luanda acerca da guerra que ia voltar que seria pior do que antes e que recebeu uma resposta vexatória: “Estou aqui para lidar com negros. Os brancos de Angola são filhos de emigrantes miseráveis”. E o pior veio mesmo, em Huambo. Depois da ocupação da cidade pela UNITA, o MPLA regressou em fevereiro de 1976, enviando a pior espécie de gente. Quando Maria Alexandra voltou a Luanda, alertou os militares e civis que iriam aparecer mais vítimas. “No quartel-general das FAPLA disseram-lhe que o Huambo era um caso perdido e que já tinham consciência disso há seis meses atrás. Não fizeram nada para salvar a vida dos seus militantes. No estado-maior das FAPLA ouviu também uma frase que lhe ficou para sempre: a revolução precisa de heróis. Foi a definitiva machada enquanto militante do MPLA”.

E há as descrições apocalíticas dos dramas vividos nas regiões transfronteiras. O viajante pretende atravessar de Kanyemba para o Zumbo. Vê o sol a desaparecer vermelhão na cordilheira do Zambeze. E chegaram ao Zumbo, onde não há comida, nem eletricidade, telefone, água ou estrada, ouve-se o resfolegar dos hipopótamos no rio. A descrição que se segue é inesquecível: “Zimbabueanos, zambianos e moçambicanos sobem as escadas do terraço, como se subissem da água, e entram na casa da imigração para carimbar passaportes – bocados de papel amarrotados que inventam três países diferentes nesta corrente igualmente leitosa. Há uma fronteira tripla onde o Zambeze entra em Moçambique: Moçambique é aqui e do outro lado, o Zimbabué é do outro lado mas mais a montante, a Zâmbia é deste lado mas também a montante, com outro rio entre nós e ela, o Luangwa, afluente do Zambeze. Zumbo, Kanyamba e Feira (o posto zambiano) são uma encruzilhada do nada, pontos cortados dos respetivos centros. Pesca-se muito e o peixe circula em quantidade – come-se em Harare, Lusaca e até Lubumbashi. A água é, portanto, a única nacionalidade.

Os pescadores sobem as escadas dos escravos, as escadas onde estou há horas agrilhoado ao flutuar dos hipopótamos. O posto tem uma bandeira no mastro ao fundo do terraço e posso quase fingir, neste ponto alto, que é a Emigração é um barco de pavilhão FRELIMO a quem proibiram o rio”.

As histórias prosseguem, há crianças em permanente risco de vida, e há crianças que aprendem as regras mais elementares da sobrevivência, um exemplo: “Os putos do Lobito Velho inventaram uma armadilha para apanhar gaivotas na baía. Espetam dois pauzinhos verticais na areia, à beira da água, de forma a aguentarem-se sozinhos, e atam um fio entre os pauzinhos. Deixam um laço bem largo, com uma ponta ligada a uma pedra. Colocam um isco entre os paus. As gaivotas apanham o isco entre voo, passando pelo meio dos paus e enfiando o bico no laço. O nó aperta-se com o próprio impulso do pássaro, asfixiando-o em poucos segundos. A pedra não deixa as gaivotas levantar voo. Os putos precipitam-se sobre as aves, partem-lhes uma asa e começam a depená-las ainda vivas”.

Isso tudo já é pungente, o mais horrível está por chegar, o massacre em Wiriyamu:

“Ao meio-dia, 13 horas, começou. A 6.ª Companhia de Comandos fez o assalto praticamente em simultâneo em Wiriyamu, Juwau, Chaola e Jimusse. O massacre foi em todos os sítios com um sistema igual. Eles faziam o seguinte: foi um sábado, as pessoas estavam a beber pombe, a conviver, havia portanto aglomerados nos sítios de bebida tradicional. Os comandos pegavam, metiam as pessoas nas casas maiores e incendiavam-nas e elas morriam queimadas lá dentro. Algumas que tentavam fugir eles matavam a tiro e outras até à baioneta. Até às crianças, pegavam e atiravam-nas para cima das palhotas em fogo. No Jimusse foi onde morreu mais gente mas puseram o local do monumento aqui porque era melhor. No Jimusse juntaram as crianças e as mulheres num sítio e os homens noutro. Punham os homens em fila indiana e três militares armados mandavam-nos correr para ver quem acertava primeiro. Alguns conseguiram fugir aos ziguezagues e a correr. Houve mulheres e crianças que assistiram à morte dos pais e maridos, mesmo em frente deles. No fim, pegavam em granadas e atiravam para os aglomerados de mulheres e crianças”.

Todas as digressões têm imensos riscos, mas há pontos onde se deve esperar sempre uma tragédia, assim:

“De Benguela ao Lubango corre uma das estradas mais perigosas de Angola, das mais riscas em histórias de sangue: as perseguições, os combates, as emboscadas, as serras onde se perderam guarnições das FAPLA, campos das FALA, bases da SWAPO. A viagem é longa e penosa. Tem que ser feita em dois dias porque o piso está péssimo – só os 80 quilómetros finais, a partir de Cacula, demoram 4 horas. Normalmente não se viaja depois do sol-pôr. Em guerra, é um paraíso da guerrilha. Na bizarra paz angolana, é território para os bandos armados. Os camionistas de Benguela avançam para a Huíla armados e em comboio”. É perto do fim de toda esta dolorosa narrativa que se fala na baía dos tigres: “Os cães na Baía dos Tigres eram apanhados da seguinte maneira: os colonos arranjavam uma gaiola muito grande e punham um angolano lá dentro, ou um gajo que aparecesse a querer ganhar dinheiro. Metiam o gajo numa jaula dentro da outra, depois de o fazerem correr um bocado para ele ficar a pingar suor. E ele ficava a ali. Os cães vinham de noite, sentiam o cheiro do tipo. Mas ele já tinha um atilho na porta e quando os cães entravam ele puxava e os cães ficavam enjaulados. O homem passava lá a noite com o cão a babar-se de ladrar. Os colonos vendiam os cães. Cães bravos. Atacavam tudo o que viam”.

E findamos este horror de dramas com Domingos, a quem 14 anos em combate ensinaram que o pior da guerra são os heróis. “Domingos Pedro, 31 anos, angolano é refugiado em Mongu, capital da Zâmbia Ocidental. Estava no Rivungo (Cuando Cubango) quando o conflito recomeçou em 1992. Resolveu fugir, atravessando o rio Cuando. Salvou-se de morrer na guerra para viver na miséria. É natural do Bié. A família ficou para trás, como é também normal entre grande parte da população angolana afetada pela guerra – os parentes mais queridos desapareceram algures num pontoo, ataque, emboscada, evacuação, num desadeus traumático. Uma espécie de morte sem a perfeição do luto que liberta os sobreviventes”. Em criança, Domingos já estava incorporado nas FAPLA, anos depois mudou para a UNITA. “Por duas razões de convicção: uma, foi capturado; duas, MPLA e UNITA há muito que deixaram de precisar de um ideal nos seus soldados – basta-lhes o sacrifício e a disciplina”. E ficamos a saber como vive Domingos: “Domingos atravessa o Cuando a salto, contratado por traficantes interessados em entrar-se em perigo e sair com diamantes. Sete anos de Luanda, sete anos de Jamba. Domingos tem uma lucidez privilegiada”. A sua conclusão aproxima-se da tragédia desta empolgante literatura de viagens que é a Baía dos Tigres:

“Já não há mais nada a libertar. O quê? É negócio, no fim. Um é o petróleo, o outro é os diamantes e o mercúrio. O povo não recebe. Não tem parte. O povo morre. O Santos começou a divergir depois da morte do Neto. E o Savimbi diz-se que nunca teve governo, mas um chefe deve tratar bem os empregados”.

Incontestavelmente, uma obra-prima que ultrapassa as dimensões de todos os dramas vividos na descolonização.      

Mário Beja Santos

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