Comeres & beberes – Elefante

Em Ribatejo Cool

A pandemia instituiu a refeição do sobra tempo porque os intervalos entre as refeições regulares alargaram-se permitindo remexer em papéis antigos, escarafunchar memórias com dispares consequências. A que vou trazer à tona tem como ingrediente carne de elefante em três cozeduras.

O elefante em causa caiu numa armadilha nas cercanias do Dinge, enclave de Cabinda, nos idos de 1969, por isso mesmo foi abatido, tendo sido atribuído à Companhia de Comando e Serviços, o que à partida causou alegria comestível apesar de ninguém ter alguma vez comido carne proveniente do corpulento animal que só tínhamos visto nos filmes fosse na qualidade de animal de carga, ou em festas e desfiles na Ásia e, alguns de nós, numa célebre fita na qual os elefantes ultrapassaram os Alpes em plena invernia.

No quartel esquartejaram o elefante, ao jantar foram avantajados bifes estufados do paquiderme, só que a rijeza dos mesmos impediu a sua consumição. No dia imediato o vagomestre entendeu ordenar aos cozinheiros a preparação da carniça na cozedura de guisada com batatas, o resultado não foi melhor, os nossos dentes bem se esforçaram, no entanto, só esparços e minúsculos bocados foram deglutidos. O pessoal manifestou desagrado atirando os restos mortais do bicho, na terceira tentativa. Cozido com arroz, o resultado não foi melhor. A ignorância no modo de escolha das vitualhas e preparo culinário gorou alterar-se a dieta castrense em época de forçado (tal como agora) de forçado confinamento, diferente nas causas, uma guerra estúpida e mal ajustada no tempo, cujo fim seria o de poupar na despesa da nossa manutenção no cumprimento das nossas obrigações militares.

Se tivéssemos cultura gastronómica saberíamos que a tromba e os pés do elefante são as partes mais fáceis de serem cozinhadas depois de 15 horas a cozerem em lume belicoso e/ou longa maturação de dias. No cerco de Paris em 1870, período de enorme penúria, o Jardim Zoológico fornecia carne de elefante aos restaurantes parisienses, o renomado Café Anglais apresentava aos clientes um estufado de pés de pequenos elefantes com presunto, alho, especiarias e vinho da Madeira. Nessa altura um talho vendia enchidos com sangue desses animais.

Os encantadores elefantes minimizavam os efeitos da catástrofe alimentar dos parisienses, agora a esperança, também por aquelas paragens reside nas vacinas. Oxalá que sim!

Armando Fernandes

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