Monumento aos combatentes de Constância: omite o “Império” e “Guerra de Espanha”

Em Correio dos Leitores

O Município de Constância aprovou recentemente  um projecto de monumento com a legenda “Os combatentes de Constância por Portugal”.  A notícia anda aí a circular e contém declarações do presidente da câmara.

O monumento só abrange os portugueses que combateram por Portugal (pelo Império, claro).. Não abrange os que combateram na Guerra de Espanha. Por que motivo há esta discriminação objectiva em relação aos constancienses da vila?  Todos lutaram por aquilo em que acreditavam ou que lhes era exigido. No tempo das guerras Portugal ainda era um Império. O monumento deve respeitar a história de Portugal. fazendo justiça à memória de todos, enquanto  expressão  da nossa identidade. Eu tenho muito orgulho da nossa história.

Tomaz Vieira da Cruz , ilustre poeta constanciense foi voluntário na Guerra de Espanha, mas a legenda que os partidos aprovaram para o monumento exclui os portugueses que foram para a Guerra de Espanha. Dito de outra forma: é como se daqui a cem anos se fizesse um monumento em que se excluísse do mesmo os que combateram  por outros países por força de decisões  internacionais ou bilaterais. Não há combatentes mais importantes do que outros. 

Se é um monumento selectivo por causa de duas pessoas de Santa Margarida e uma de Montalvo, então é uma questão de talhão. Os monumentos ao “soldado desconhecido” não devem seleccionar as guerras…

Estas decisões que mexem com a memória não podem ser ditadas de cima para baixo como se fosse uma ordem. Devem ser partilhadas porque a esmagadora maioria dos autarcas nem conhece sequer a história local.  Fazerem um monumento só para ter um monumento porque outros concelhos também têm,  não é argumento.

Se é para embelezar o Largo Cabral Moncada  podem sempre pôr à discussão pública um monumento que seja inclusivo. Todas as leituras ideológicas da história são perigosas.  Quer o PS quer a CDU  andaram mal em todo este processo. Eu li a legenda que vão colocar no monumento e acho que está errada.

A câmara anda com muita pressa em inaugurar mais uma estátua. Mas continua sem dar seguimento à classificação  das ruínas do castelo e antigo palácio onde estiveram vários reis e onde uma tradição coloca Camões. Ignorando assim o pedido expresso da população que o presidente tem na gaveta. Nunca nos autorizaram a fazer o monumento ao pintor Joaquim Santos desmobilizando a ideia… Nem apoiaram o monumento aos marítimos uma iniciativa dos populares que teve origem há vários anos na vila.  Só vinga o que eles ditam. São eles que mandam na história. A nossa opinião não conta para nada. Até alteram estatutos de associações ilegalmente. Quem não se dá ao respeito não merece respeito!

Cagadouro da câmara construído na zona de protecção do Monumento de Camões, monumento de autoria do Mestre Lagoa Henriques. 

Nem respeito tiveram sequer pelo monumento a Camões. Se querem monumentos destruam o cagadouro público que é a vergonha da vila. E devolvam a dignidade ao espaço envolvente a Camões. Tanta conversa no facebook sobre a cidadania e depois é o que se vê.
Embora a ideia deste monumento aos combatentes remonte a 2016: aos factos não será alheio o Núcleo da Liga dos Combatentes de Santa Margarida (terra do novel edil do município)  que recentemente se instalou  num edifício da câmara mas na Vila. A ideia do monumento para ser inclusiva, deve ser o mais possível abrangente.
O valor do projecto (dois mil e oitocentos euros)  parece-me irrisório,  O aço corten, material escolhido,  é terrível. Que o digam os abrantinos. Dá à cidade um mau aspecto  Não há nada como uma estátua em bronze assente num pedestal de granito para dar o mínimo de dignidade ao monumento.

A vila de Constância ofereceu os seus filhos para a guerra peninsular e aí está a memória dos veteranos. Sabemos que em 1810 houve um rol de alistados. Temos os nomes. E há veteranos como José Lobato que combateu no Bussaco, em Fontes  D’Onoro e em Nivelle.

De Constância (então Punhete) partiram 40 cavaleiros com o rei Dom Sebastião para Alcácer-Quibir segundo uma Provisão que existia na Câmara o que está registado pelos historiadores.

Estes monumentos ao soldado desconhecido têm geralmente o propósito de honrar os combatentes  que ajudaram a construir a nação. Recordar a guerra para fazer a paz e nunca mais voltar ao derramamento de sangue.

A obra memorável «Vitória de Espanha», do poeta constanciense Tomaz Vieira da Cruz ficará para sempre cravada como um espinho nos desígnios da deriva marxista. O autor dedicou um livro de poemas à guerra civil de Espanha, tendo escrito: que “na Espanha triunfou o comunismo da morte – distribuindo a paz eterna a todos os espanhóis que morreram na luta”. Um poeta que se considerava em missão lusíada em África, a qual, esclarece, ” foi alterada por um motivo imprevisto “.

Da sua espada de boticário fez alfange e também andou na guerra: “Os que pretendem construir um mundo de cimento armado, monótono e igual, destruindo monumentos seculares e tradições milenares, hão-de encontrar na luta, sempre, a naufragar-lhes o caminho cómodo, sem pensamento, o sangue generoso dos artistas e dos heróis”. Desta forma resumia o pensamento que perpassa a vistas largas na primeira e segunda parte do livro.

Um monumento aos combatentes que venha a ser erguido na vila de Constância não pode ser revisionista da história. Terá de incluir  na sua legenda o Império e a Guerra de Espanha. E deve ser objecto de consulta pública. Sem actas escondidas.

José Luz

(Constância),

P.S. Filho de um militar mobilizado para o Estado português da Índia e depois para a Guerra do Ultramar .

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