A Lebre de Março IV

Em Opinião

A Lebre apanhou esta manhã um susto que convém contar para memória, nos anais bordalengos, ao vasto e perspicaz pessoal do Mais Ribatejo e partes correlatas. Não, a Lebre não contraiu aquela cena do viróvirus na futura chamada «variante da Venda-da-Gaita» (Tomar), que os especialistas ainda vão descobrir lá p´ra diante. É o seguinte.

Estava ela a morfar uma dúzia de hirsutos «Arrepiados» ali da mui nobre, doce e confinada pastelaria Bijou, ao mesmo tempo que passava os olharapos p´las fábulas do Esopo, um bacano cá da bicharada, quando lhe entrou inopinado p´la toca abaixo, salvo seja, o mesmo vizinho Gato de Cheshire da semana passada que nem a fugir do Lobo Mau, exegetas dos contos de terror, e discursos de posse do Marcelo, pois lua cheia em março trovejada, trinta dias é molhada.

Vinha de rabo alçado e pelagem hirta por, do poiso onde mora, perto do Coreto onde agora são os políticos a dar música ao pessoal, ter ouvido anunciar o programa das Festas digitais que a cidade vai fazer a São José no dia do Pai, a 19 do corrente quando a conquista fundadora da urbe aconteceu a 15, e o Espírito Santo não foi visto nem achado na santificação do Padroeiro dos carpinteiros. Pois o curioso Bichano, mais imprevisto que a equação de Schrodinger que fala num primo dele, passado o arrepio no espinhaço, contou à Lebre que ouvira apregoar que a festança abria com uma missinha por alma eterna da Simone d´Oliveira e Seca e Meca e Olivais de Santarém, a que depois se iria suceder umas coisas com nomes ingleses, muito ao gosto já provado antes daquela gente da coltura local citação do felino luminoso a arreganhar a pinhoada – e depois que havia de vir alguém contar estórias aos meninos bem comportados que não dissessem mal da Câmara, zona histórica às moscas, buracos nas ruas e cultura desenraizada mais que ervagem nos passeios, e mais não sei quê, e vai se não quando alguém o descobre a rir-se daquilo e grita que «Aqui há Gato».

Foi também aqui, segundo disse à Lebre, que julgou que falavam dele e o queriam fazer passar por lebre de cabidela, por aquela mania que tem de torcer a moral às fábulas, e recitar uma muito conhecida que começa assim « Era uma vez Três Porquinhos cuja pocilga suja a Câmara ainda não conseguiu licenciar ao pé de um lindo rio, junto a umas casinhas onde…», já que, como os meninos sabem, em março queima a velha o maço para aguentar o pernaço.

Depois, o Gatarrão imaginoso, ainda a arfar, declarou à Lebre espantada aquilo da mania antiga de contratarem cá para os festejos espectáculos rascas ou nomes foleiros em inglês, apesar dele ser de Cheshire, o que não era muito digno para uma cidade portuguesa de tanta prosápia e pergaminhos neste reino, e Capital da Poesia nele, consoante lhe chamou uma grande Senhora que, essa sim, era culta, de quem a Lebre não diz o nome para não parecer coruja entre pardais, sem ligarem à história, literatura, pintura e outras artes que lhe estão associadas e à alma mais profunda desta urbe. Isto – comentava cheio de riso cósmico -, em troca de algumas coisas rascas arrancadas às manhãs de horrores da TVI e anexas, das quais esta gente deve ser atenta e respeitadora e quer partilhar com quem lho não pediu, com nomenclatura estrangeirada de idiotas actuais que se julgam menos idiotas a coberto disso, gente a quem entregaram a vara da cultura alguns que deviam antes levar com ela, em desrespeito, por ausência contumaz, a tanta figura célebre que por cá passou, de Herculanos, Garettes, Gil Vicentes, Ibn Bassames, Camões, Bocages, Belos, Azevedos, Herbertos, Santarenos, Veríssimos, Saramagos, Mários Viegas, a diversos outros da história à música, da poesia à pintura, do teatro aos gaiteiros de tiroliro, e demais artes verdadeiras, cujos não contam para a ideia de festa, e alegria, desta gente inculta, que acha que cultura são só almôndegas au meunier, ou infelizes doentes psicossomáticos que não podem frui-la – os quais, talvez queiram fazer render, para maior castigo na sua infelicidade, a alguns famosos da pimbalhada, indignos de se exibirem para esta cidade e gente de bom gosto e bom senso que há nela, como já se viu. E aqui a Lebre assarapantada com a enumeração caótica do Schrodinger de bigodes pensou que aquilo devia ser por que, se em março o cuco não se ouvir, ou é morto ou não quer vir.

Por isso é que – continuou o Bichano petisqueiro de marca, meio indignado – , não podendo agora anunciar o street food, e tantos outros foods sem mais, por causa do andaço, contrataram um Stand – Up Kitchen ou come em pé, que já cá existia em português castiço há cinquenta anos na Tasca do Chico, naquela da Estação e tantas outras, um Sound Kitchen e vários outros Kitsch´s saloios, que não valem em sabor uma pirueta do Alvarinho na Serpa Pinto tocado de malvasia, nem um manguito do Clementino em jejum.

Foi mesmo assim uma sorte, rematou em tércios o Gatófio, a Assembleia ter chumbado a concessão do Mercado Municipal aos privados senão lá íamos ter à venda por um montão de carcanhol Strawberry on ice, Mashed potatoes sem casca, e montras de hirtos Cucumber – up das Caldas de Monchique.     
E, já recomposto, depois de ter aliviado os bofes, desapareceu deixando só a pairar como os milhafres o sorriso de gato que vai às filhoses, não sem antes ter dito à Lebre que, para espairecer da brotoeja, ia dali à Tasca do Sebastião limpar em contrapeso e vernáculo um pratinho de pipis picantes, uns pastelinhos de bacalhau, e um malhão de tinto d´Alcanhões que nem gaitas, e rematou com temple em latim-latão « In Taberna quando sumus/ Non curamos quid sit humus/ Sed ad ludum properamus».

Desculpem qualquer coisinha ao Bichano hirsuto que isto andámos todos entroviscados com esta moléstia, temos que nos dar à paródia, e a Lebre para desentorpecer as gâmbias vai agora ali fazer um CrossCountry no Rossio d´Alvisquer com olho nos gringos para não servir de Patê com gravanços, pois água de março, no princípio ou no cabo, só a que molhe ao gato o rabo. Tchau pessoal!

LM

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