Não entres mansamente na noite funda

Em Ribatejo Cool

O centenário Lawrence Ferlinghetti, a figura de proa da Geração Beat, resolveu passar a escrito o testemunho da sua vida articulada ao seu testamento literário, uma estranha e bizarra arquitetura onde se entrechocam autobiografia, recordações avulsas ditadas pela escrita automática, tudo numa torrente incontrolável sempre a encandear o leitor – é assim Rapazinho, por Lawrence Ferlinghetti, Quetzal Editores, 2019, um passeio mágico pela infância, pela adolescência, pela II Guerra Mundial, pela estadia em Paris e depois o mundo de S. Francisco. Um dilúvio cultural, que nada tem de pretensioso, só para nos recordar que muito leu e meditou e que dentro do dilúvio de palavras do seu abraço forte convida-nos ao maravilhamento do que guardou para nos dizer.

Ficamos a saber que tem costela portuguesa, a mãe, de nome Clemence Albertine Mendes-Monsanto, nascida em Providence, descendia de pais sefarditas foragidos à Inquisição, a palavra Monsanto e o apelido Mendes quer-nos dizer qualquer coisa.

Discreteia sobre a sua árvore genealógica, como uma tia o salvou das piores privações, como viajou e estudou, frequentou a Universidade da Carolina do Norte onde se formou em Jornalismo, comandou o navio antissubmarino nos desembarques da Normandia e seguiu para o Pacífico como navegador de um navio de assalto anfíbio e viu Nagasaki sete semanas depois de ser lançada a segunda bomba, teve empregos, estudou na Universidade de Columbia, e seguiu para Paris.

A torrente verbal é por vezes avassaladora, obriga-nos a suster a respiração, até porque este expoente da Geração Beat não nos esconde ilusões quando nos fala do desembarque da Normandia, “nós íamos camuflados, fazíamos parte do comboio-escolta de navios antissubmarino que avançava em formação pelo Canal da Mancha rumo lés-nordeste em direção às praias da Normandia 33 marinheiros e 3 oficiais num navio antissubmarino a diesel de 34 metros com casco de madeira às cinco da manhã na ponte camuflada do nosso pequeno navio e a leste a primeira luz do dia começava a romper as trevas e nos convés toda a tripulação estava nos seus postos de combate. E à primeira luz da alvorada começámos a entrever uma floresta de mastros que se erguia do mar primeiro no topo dos mastros depois os cascos – uma armada imensa com milhares de navios de alto-mar e navios de transporte de tropas e navios de escolta que navegavam juntos vindos de muitos portos diferentes e convergiam à primeira alvorada frente às praias da Normandia”.

Lawrence Ferlinghetti

Lembra com imensa nostalgia os seus tempos de estudante em Paris, e lança uma interrogação sobre o seu passado: “Vim então ao mundo, pergunto-me com os olhos de espanto de uma coruja estremunhada para dizer o que penso? Se o destino que levou os portugueses e os italianos às Américas já de si é invulgar, o que leva alguém de Portugal às Ilhas Virgens e daí ao Westchester County no estado de Nova Iorque e finalmente a São Francisco tem laivos de obscuro milagre do acaso. A vida  faz-se de acasos e assim à semente da minha vida materna levou-a o vento, num século já longínquo, das montanhas rochosas de Monsanto em Portugal para longe da Inquisição indo aportar a Saint Thomas e por aí ficou e floresceu até ao século XX”.

Fala-nos das suas leituras, dos filmes, da família, tece comentários cáusticos à sociedade de consumo, fala de sexo e de sensualidade, de autores que privilegiaram o erotismo, domina claramente os grandes clássicos da literatura universal, sentimos que esta apoplexia de palavras exige muito do leitor, pelas digressões rápidas, pelos saltos que a memória motiva em diferentes paragens, pelas confissões íntimas em que ele nos interroga sobre o que há de fazer com a vida que lhe resta.

Sabe que é um homem centenário, que é por vezes traído pela memória, que há sonhos que nós lembramos de fragmentos de sonhos, fragmentos de vidas reais ou imaginárias, e daí o poder desta epifania de poder discorrer sobre o passado e voltar ao presente, lembra cafés, os rios da sua vida e assevera-nos que “A vida continua, e nós com ela, e não se acaba, a criação é eterna, nascer e morrer são cinzas deitadas às cinzas, e a minha fantasia morre, esta fantasia de hoje esbate-se no momento eterno, promete escrever a toda a gente a dizer que ficamos aqui para sempre”.

E assim se despede: “Sim, para sempre, e o Rapazinho, que se fez homem e um romântico dissidente ou um dissidente romântico, tem a ilusão juvenil de que há de viver para sempre, de que é imortal como é a juventude, e acredita que a sua particular identidade não há de nunca, não pode nunca morrer, sim, acredita nisto porque é mansa a marcha do destino do género humano, para o qual a ciência prevê a extinção total e muito próxima”.

Um crítico literário falando desta torrente esplendorosa e lembrando um outro antepassado de um grande escritor norte-americano, Walt Whitman, diria que Rapazinho é um grito bárbaro sobre os telhados do mundo. Talvez não seja só sobre os telhados do mundo, é uma alucinante viagem sobre a identidade e os labirintos que a memória guarda, pregando-nos esta saborosa partida e que quando julgamos caminhar para o fim todo o nosso princípio e todo o nosso transcurso é um ensinamento de que o que se viveu primeiro está presente no que se vai ver até ao fim.

Não é por acaso que este testemunho e testamento, uma soberba invulgaridade literária que se intitula Rapazinho. Abençoado Ferlinghetti!

Mário Beja Santos

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