Só as ideias sustentadas ganham o futuro de Santarém!

Em Opinião

Saí cedo do parque de campismo de Viena, segui o dique e os caminhos perto do rio, pedalava e olhava um rio lindo que me acompanhava há mais de duas semanas; ao meu lado esquerdo as plantas ostentavam flores pujantes de vida… Sentia-me parte daquele lugar, qual osmose fraterna em que eu era apenas um ínfimo átomo colaborativo de toda a natureza.

Sou obrigado a tomar a estrada para Orth na der Donau, depois desta volto a procurar e estrada para o rio, reentro no Danube-Auen Nacional Park, as aves saúdam-me, a natureza construía um filme inesquecível. Sinto-me privilegiado!

Recordo o nosso amado e abandonado Tejo. Recordo as águas e as margens do nosso rio, vilipendiadas por governos e poderes autárquicos de ideias pequenas e inconsequentes e por poluidores sem punição!

Chego a um cais, precisava de atravessar o rio, as águas corriam indiferentes à minha presença, parei a bicicleta. Dirijo-me a um café e pergunto por barco, passado um pouco chega um rapaz que me leva a uma embarcação, colocamos a bicicleta dentro e “rasgamos” o Danúbio.

Imagem da reconstrução virtual do acampamento militar de Roma em Carnuntum, na margem do Danúbio, na Áustria. Foto: Vítor Franco

Do lado de lá não havia cais, nada que atrapalhasse o barqueiro, descarregada a minha companheira ficamos ali, sozinhos, recolho-me a uma sombra. Como bananas com pão e uma barrita. Os pássaros “fizeram questão de saudar-me efusivamente”, talvez esperassem umas migalhas… Recordei uma história de um livro [talvez este] que lia à minha filha, então pequenina, que era acompanhava por Primavera, das Quatro Estações de Vivaldi. É extraordinário como a paz de belos momentos nos traz à memória belas recordações guardadas no baú do tempo!

Bebo água, respiro fundo, revejo mentalmente os meus planos, a prioridade era chegar às ruínas romanas de Römerstadt Carnuntum. Na primeira localidade procuro indicações de caminho, é sempre bom ouvir os conselhos das pessoas, sigo-os… O calor aperta…

Mercearia à era romana, na Áustria. Foto: Vítor Franco

A minha chegada foi um revigorar de ânimo. Que extraordinária ideia foi a de recuperar as ruínas, com tal qualidade e rigor que somos literalmente transportados à era romana. Tudo foi restaurado seguindo os materiais, as cores, as formas, a vivência de então; a tal ponto que a mercearia tem mesmo produtos frescos, batatas, couves, salsa, alhos, cebolas, carne fumada (…) tudo como se fosse para vender naquele momento, tudo em constante renovação. Melhor do que as minhas fotos este filme pequenino ilustra a veracidade e a beleza.

Ruínas da antiga povoação romana na Áustria. Foto: Vítor Franco

Qual fénix, naquele pequeno lugar longínquo da Baixa Áustria a história renasceu! A cultura e o património fomentaram a economia local e até havia folhetos em português! Que excelente ideia!

Permaneço até à hora de encerramento, desfruto cada momento, tiro apontamentos e fotos…

Retomo a minha companheira e pedalo até à arena romana onde dois jovens “brincavam” de gladiadores… Fico a observá-los…

Maqueta de projeção da antiga cidade romana na Áustria. Foto: Vítor Franco

Volto à bicicleta, ainda queria chegar a Bratislava antes de noite… Talvez um dia vos conte como foi a minha interessante chegada e estadia nesta cidade…

Agora as frases retornam ao lugar onde vivo, revejo o momento em que fui ao posto de turismo de Santarém pedir uns folhetos para um grupo de peregrinos de Santiago e me deram umas fotocópias em castelhano…

Reconstituição de um salão nobre de um palácio romano. Foto: Vítor Franco

A voragem do show-off substituiu o envolvimento comunitário, o planeamento e a sustentabilidade! A publicidade, excludente da cultura, é o meio para que a perceção seja bem distinta da realidade – e que seja na perceção que a população acredite.

Recordo que em 19 de outubro de 2010, a Câmara Municipal de Santarém decidiu por unanimidade integrar a Rede de Cidades Romanas do Atlântico tendo, até, pago 1 500€. Da ata transcrevo: “Esta pretende dar a conhecer o mundo romano a partir de uma perspectiva inovadora, os lugares onde os romanos se fixaram ao longo do Atlântico. Também pretende contribuir para um melhor posicionamento turístico das cidades integrantes. Esta rede tem como objectivo dinamizar as actividades culturais e os recursos existentes em cada território, bem como criar produtos e acções turísticas diferenciadas.

Moita Flores era o presidente e Ricardo Gonçalves a figura em ascensão! Santarém já não consta da rede, foi a voragem do show-off!

Entretanto, a nossa história e o nosso património romano foram esquecidos.

Na Áustria como em Santarém: só as ideias sustentadas ganham o futuro!

 

Vítor Franco

(deputado municipal do Bloco de Esquerda)

PS. Viagem em maio e junho de 2019. Alguns artigos em santaremnomundo.blogspot.com.

1 Comment

Leave a Reply