Temos medo de perder aquilo que já não temos…

Em Opinião

Tendemos muito a ir agindo em função do que nos parecem ser os nossos interesses e as nossas vantagens pessoais. Aprendemos isso desde pequenos como uma forma quase inconsciente de nos protegermos, de fazermos pela nossa vidinha. Não percebemos que o provérbio “a união faz a força” tem tanto de simples como de verdadeiro. Por isso mesmo, temos uma grande atração por agradarmos e fazemos tudo para isso. A troco de quê?! Talvez não o saibamos bem sequer. Mas achamos que se concordarmos e dissermos amém a patrões, governantes, ou outros decisores, seremos considerados e bem vistos por estes e logo assim privilegiados. Temos bem vincado no nosso registo interno, e quiçá verdadeiro, que “quem se mexe muito não fica na fotografia”.  

É assim nos empregos, como na política… Podemos até, no café (agora não se pode…), ao telemóvel ou em conversas pessoais com amigos (agora obrigatoriamente poucas), dizer o contrário: “só querem é ganhar dinheiro à nossa custa”, “querem é tacho”, “são todos iguais”, “só querem é o nosso voto e só nos ligam na altura das eleições”, mas, na altura crucial, optamos por mais do mesmo.

Temos muito medo de enfrentar a mudança. Lá diz o ditado: “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, mas a grande questão é que quase sempre está na cara que todos os pássaros andam a voar, não temos nem nunca viremos a ter nenhum na mão. Mesmo assim, continuamos a querer acreditar que não, que eles pousarão para nós, só para nós…

Esse medo de mudança e esse achar que nos vão reconhecer e privilegiar, traduz-se também nas eleições, na altura do voto. Queremos tanto que a nossa vontade se concretize e o desejo de sermos especiais é tão grande que,  mesmo sabendo que o voto é secreto e que não está lá ninguém para o censurar, não o exercemos de forma diferente daquela que sempre nos acostumámos a praticar. E votamos, mais uma vez e mais outra vez, no “mais do mesmo”.

Tudo também porque temos um doentio e psicótico medo de perder aquilo que há muito já não temos! O medo está lá, vivinho, e não paramos sequer para perceber a sua falta de real sentido.

Apoiamos partidos, gente e ideias com que, refletindo, não podemos no fundo concordar, para estarmos entre os ganhadores, cientes de que com isso também vamos ganhar. Ganhar o quê?Prestígio, lugares, o simples facilitar de um ou outro processozinho numa maior ou menor autarquia… Também para podermos puxar dos galões junto dos nossos conhecidos, para lhes podermos dizer que somos muito amigos desta e daquela pessoa influente. Talvez sejamos até só simples e vagos conhecidos, mas o que interessa? Pelo menos vamos ficando muito ufanos porque ela nos conhece, pergunta pela família e pela nossa saúde e  vai aos baptizados, casamentos e funerais dos nossos familiares…

Mas qual a real importância destes conhecimentos, de beberem uns bons copos e comerem umas febras connosco, se o primordial objetivo for conseguir ou manter um cargo e aos poucos ir destruindo aquilo de que os eleitores os encarregaram de cuidar?!

Talvez nos pareçam questões secundárias com que não nos queremos deter a preocupar…

Francisco Mendes

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