A Lebre de Março – final

Em Opinião

Queridos meninos: A vossa amiga Lebre desenfiou-se da toca e está de partida desta fabulosa e enfabulada Capital do Ribatejo, uma cidade importante que aqui existiu uma vez há muito tempo, cheia de gente sábia e divertida; pássaros nas árvores e flores a sério nos jardins da fantasia; poetas em oitava rima, ou sem rima alguma, animados de paixão e ânsia de liberdade; aventureiros das sete partidas; cisnes em lagos onde nadavam peixes e rãs que eram príncipes encantados que rodeavam um Coreto em que as pessoas, nas tardes amenas, vinham ouvir bater o próprio coração na música verdadeira que escutavam; ruas estreitas pelas quais vagueava a alma errante, misteriosa, de judeus e mouros que as habitaram ou a sombra de trovadores arrebatados cujas canções, por detrás das janelas altas, causavam desmaios de amor.

Uma cidade altiva de cavaleiros da triste figura, animados porém daquela coragem, graça e donaire, capaz de levar diante de si, sem temor, a fome, a escravidão e a miséria; redondéis em que aguardava, soturno, o  minotauro das lendas contra o qual se jogava a vida, a honra e a coragem; marialvas estrenoitados de álcool e solidão na vã glória da conquista de uma idade perdida; tágides de água-doce, faunos, sibilas, unicórnios insuspeitos, belas adormecidas e por adormecer, reis alucinados de dor, corsários dos mares sem fim; capitães de navios fantasma ou de chaimites libertadoras que o vento varreu para sempre; estátuas agora mortas nos pedestais; cravos nas varandas em ruína; desertos nas ruas da história e nas almas brandas, cada vez mais alheias de si, sumidas,  apagadas no nevoeiro de um novo, perigoso e incerto tempo, que não cessa insano de passar.

A Lebre, está visto, pensarão os meninos, passou-se ainda mais dos carretos, julga que o País das Maravilhas existiu algum dia, ou não sabe que Alice já não mora aqui. Não crianças, a causa de tanta emoção é que a Lebre vai partir em lua de mel. Sim, o Chapeleiro pediu-lhe a mão, ou antes, a pata em casamento, e vão ambos, após a boda, para longe cá de tanta esquizofrenia social; notícias falsas; capitalismo desumano e poluidor que põe o lucro cego dos mercados (mesmo municipais), acima das pessoas, do Ambiente e  vida sustentável. Vamos, a Lebre e o Chapeleiro, para as ilhas Selvagens que mesmo assim o não são tanto com esta civilização de algoritmos que nos vigiam cada passo e conectados nos pescam ao candeio na Rede, como peixes digitais, viciados em smartphones, solidão partilhada, tik toks, tok teks, sobremodo tiquetaques de relógios stressantes  muito mais que este confinamento infindo sem remédio, menos funesto afinal, ainda assim, que as notícias patológicas do Correio da Manhã ou a beatice ortodoxa de Marcelo, crente em deuses criadores a que tem todo o direito, mas que gostaria de recusar, mesmo aos não crentes, o direito ao seu corpo e à morte digna e assistida para males contra os quais a ciência, por enquanto, nada pode, nem milagres há que lhes valham. Desejo secreto do Presidente dos infectos, acolitado pelo fundamentalismo de partidos obscurantistas, aliados a um outro moribundo da antiga ditadura do proletariado que por aí anda a fazer de vivo, por isso que não quer a eutanásia que alivie da sua presença a História e o materialismo dialético. Deve ser isto.

Alice, que os meninos conhecem, será a madrinha de casamento e partirá também em breve para a Quinta Dimensão deste Multiverso mágico e oculto, com o quântico e algo louco Gato de Cheshire, o qual, com aquela mania das versejaduras luminosas e veia de Tolentino (o verdadeiro), me deixou estes versos alusivos à parvónia e cá a certas parvoíces idiotas, que embora pouco próprios para os meninos cujos vêem coisas ainda piores nos programas para adultos, são deste modo:

« Dois anos de confinamento / Cinco de redes sociais / Dez de cultura da treta / Arre p… que é de mais! ».

Antes de partir, a Lebre ainda vai ali, perto do Liceu e àquela rua deserta que conduz às Portas do Sol, despedir-se de tanta olaia florida de um saudoso e vivo roxo pascal, cheias de recordações antigas de quando a Páscoa, além daquela cor de mágoa suave, tinha a da esperança na vida que renasce das cinzas, ante as quais os cidadãos agora passam cabisbaixos, alheios, indiferentes, manietados que andam quase todos sem o sentirem, a quem apenas mostram e apontam a cor da ganância e do dinheiro com desprezo por tudo quanto é belo e gratuito, dádiva quase final de uma natureza cada dia mais ameaçada, em risco de soçobrar connosco e toda a vida que gerou.

Sim meninos, a verdadeira Festa é a que dentro de cada ser começa e nos olhos despertos, maravilhados para o belo que nos rodeia, a natureza sã, as pessoas e seres vivos que connosco partilham este planeta doente, a ciência e o saber que nos podem manter nele a salvo, como agora. O resto é «uma economia que mata, destrói o planeta e cria sobras humanas» como disse um tal Jorge Mario Bergoglio que só por acaso é o bom, e odiado de muitos dos seus, Papa Francisco.

Por tudo isto, em nome dessa Festa que em nós começa, a Lebre recorda que no próximo dia 21 de Março se comemora o Dia Mundial da Poesia e em homenagem a todos os poetas que um dia viveram nesta Capital da Poesia, mesmo àqueles que nunca escreveram um único verso, apresenta aqui uns, de esperança e crença na vida e no futuro, de Ibn Bassam, o grande poeta e antologista Hispano-árabe nascido nesta urbe há quase mil anos, o qual, estudado em todo o mundo, nunca mereceu nela, em recordação, sequer uma simples lápide numa rua humilde e triste da mouraria desprezada:

« Vem daí, deixa lá esse torpor / Que agora o que conta e tem valor / É a amada, linda como a lua / E teres sempre cheia a taça tua! / Não t´embarace tanto nevoeiro / Que sobre tudo vem pairando / Estares presente é o dever primeiro / E logo o jardim se irá mostrando!» 

Só estas palavras finais dirigidas aos meninos:

« UMA SAUDAÇÃO PASCAL  A TODAS AS CRIANÇAS QUE GOSTAM DE ALICE : Conhecem aquela sensação deliciosa quando, ao acordarem numa manhã de Verão, com o gorjeio dos pássaros e a brisa fresca entrando pela janela aberta, quando, ainda deitados, sonolentos e preguiçosos, vêem, como que em sonhos, os ramos verdes das árvores acenando ou as águas ondulando sob a luz doirada? É um prazer muito próximo da melancolia, que nos faz assomar as lágrimas aos olhos como um belo quadro ou um poema. Este sol de Páscoa nascerá sobre vós, queridos meninos, fazendo-vos sentir a vida em todos os poros e desejar ir ao encontro do ar fresco da manhã… E muitos dias de Páscoa passarão antes que o vosso cabelo embranqueça e o vosso corpo fatigado procure a luz do sol para se aquecer… Mas, mesmo assim, é reconfortante pensar nessa grande manhã em que o Sol da Justiça nos trará a consolação nas suas asas. O vosso bom amigo Lewis Carroll – Páscoa de 1876».

Tenham muito cuidado ao fintar este rebolóvirus mantendo a bolinha baixa que o guarda-redes é anão mas cheio de manhas, e recebam, em gratidão final por a terem seguido nesta campanha alegre, inocente e breve em cinco larachas, um fraterno abraço desta vossa amiga Lebre de Março, que março amoroso, abril chuvoso, maio ventoso e S. João calmoso, fazem o ano formoso.

Até sempre, cambada!

LM

Leave a Reply