Biografias fictícias de lendas da literatura de crime e mistério – I Sherlock Holmes

Em Ribatejo Cool

TENTATIVA DE JUSTIFICAÇÃO

Não aspiro a ser arquivador de figuras que marcaram o penoso percurso da Humanidade ao longo dos tempos.

Diz a denominada sabedoria popular que a história das guerras, fizeram-na apenas os vencedores. E que as biografias de pessoas que se diz terem merecido menção, em estudos e memórias de laboriosos académicos, são ainda mais falsas que as que alguém conjetura sobre heróis de histórias infantis ou de ficção de crime & mistério.

Parafraseando Jorge Luís Borges (em “El Informe“) direi que estes relatos de vidas, “querem distrair ou comover, não persuadir“….

Não me atrevo a afirmar que são exatas (de novo Borges: pois não há na terra uma página, uma única palavra que o seja – “El Informe de Brodie“).

Posso garantir, sim, que me deu grande alegria escrevê-las.

I

SHERLOCK HOLMES

A PESSOA

Jorge Luiz Borges (n. Buenos-Aires, 1899 – m. Genebra, 1986), com o escalpelo que a cegueira ajudou (concentrava-se no essencial) descreveu-o[1] (Los Conjurados – Alianz Editorial –1985) como:

O que não nasceu de mulher nem conheceu antepassados. O mesmo se passava com Adão”, acrescenta.

Depois disso passa a dissecá-lo, com o pormenor incómodo do entomologista. “Desconhece a arte de esquecer”.

“Vive de um modo cómodo: na terceira pessoa”.

“Nunca vai à casa de banho, resolve ninharias e repete epigramas”.

“Tem a sorte curiosa de ser o eco ou forma de uma Londres de gás e neblina, um Londres de mistérios tranquilos, que não quer sentir que já declina”.

“É casto. Do amor nada sabe. Não quis. Este homem tão viril renunciou à arte d amar”.

“Nunca se esboroa a devoção do outro, que foi o seu evangelista e que lhe enumero os milagres”.

“Desconhece a arte de esquecer. É o que se diz”.

“Este alto cavalheiro não sabe que é eterno e prossegue, solitário, lupa na mão, a su estranha sorte de coisa truncada”.

Sonhou-o um escocês que tentou, diz-se, matá-lo”.

No fim, Borges, sempre gentil, redige um epitáfio: “Pensar, tarde a tarde, em Sherloc Holmes, é uma das boas coisas que nos restam”.

No polo oposto, temos a opinião de George Woodcock, que o considera um “right down sober earnest gentleman”. Mas com “a reasoning as simple as my friend Watson here!”

Pode falar-se de crime sob perspetivas abissalmente diferentes.

A mais saudável, penso, é a do amador de literatura policial, para quem o crime é um tema literário, uma charada a resolver, à compita com o Autor, um bom filme de inverno para ver na televisão.

Ainda assim, torna-se difícil atingir, em toda a sua plenitude, a dimensão do êxito mundial que ainda hoje atinge a figura ficcional de Sherlock Holmes.

Incarnação da Inglaterra Vitoriana, dotado de todos os maneirismos do “gentleman de classe média britânica do fim do século XIX, austero, vaidoso e arrogantemente convencido da sua superioridade pessoal e da do seu “British Way of Life”, tudo concorreria, aparentemente, para o fazer uma figura de ficção circunstancial, efémera e, a curto prazo, totalmente esquecida, residindo numa numerada Rua Baker, junto ao perpétuo Tamisa2.

Nada mais longe da verdade.

Sherlock atingiu, apesar disso ou talvez por isso mesmo, o estatuto de universal. No Bunker de Hitler, em Berlim, em 1945, os russos encontraram dois filmes de Sherlock Holmes…

Omnipresente nas bibliotecas públicas e privadas do mundo inteiro, em cinemas televisão, banda desenhada ou jogos de computador, tem estátuas na Escócia (Edimburgo, 1991) Suíça (Meiringen-Reichenbach; Lucens- cantão de Vaud) no Japão (Oiwake, Karuizawa, 1988) e agora, com o novo século, também no centro de Londres selos que abrangem desde a República da Nicarágua à República Islâmica da Comores…

Mas o que é mais espantoso é que um imenso público, ano após ano, continua a cre que ele existiu realmente!!!!

Mais.

O Oxford English Dictionary, “autoridade definitiva na evolução da língua inglesa, ao longo dos tempos”, nos seus “Supplement”, que apareceram regularmente entre 1972 e 1986 (inicialmente foi criado entre 1884 e 1928) tem, por política editorial que tem mantido              ao    longo      dos     tempos,      “the     opposing       concepts                            of     permanence     and ephemerality, retaining vocabulary that seemed likely to be of interest now and fo future generations”.

E assim é que o O.E.D. inclui, atualmente, uma lista de quatrocentas palavras que devemos (criando-as ou dando-lhes um novo ou diferente uso ou novo significado) a vinte e um dos livros do “pai de Sherlock Holmes”, como, por exemplo, “bullet-pocks” “snackled”; “snap”; “grimpen”; e – maravilhem-se! – “wonder-woman”.

Ou melhor ainda, “Sherlockian”; “Sherlockiana”; “Holmesian”; “Watsonian”; novo significado de “Canon”; “Sherlockismus” (ou “Sherlockism”), que foram, todos estes usados (sendo reproduzidos como exemplo, em muitos casos) por nomes da literatura policial e não policial como T. S. Eliot, Jack Kerouac, John Galsworthy, Rudyard Kipling; George Bernard Shaw, G. P. Deeping, James Joyce (em “Ulysses”!), P. G Wodehouse e também, como é natural, por Agatha Christie, Anthony Boucher, Howard Haycraft, Dorothy Sayers. Chegam até a criar-se, em 1930, com a Fundação da Sociedade americana “The Baker Street Irregulars”, dois “clãs”, a que o primeiro presidente da sociedade, Christopher Morley, chama “The Holmesians” e “The Doyleites”, consoante veneravam o autor acima de tudo, ou a sua Criatura (o semideus de Baker Street….)…

Pensemos, pois, em Sherlock Holmes, neste belo dia de maio.

Segundo os melhores biógrafos, Sherlock nasceu em 6 de janeiro de 1854 e morrerá num coerente domingo de sol gelado, a 6 de janeiro de 1957, na aparente inconsciência da sua total senilidade, com a idade de 103 anos: onde?

Em Londres, claro.

Mais precisamente, no número 221-B de Baker Street, onde, entre 1881 e 1904 exercerá a fascinante profissão de “Consulting Detective”.

A sua vida não sacrifica aos ordenados protocolos das biografias póstumas. Pelo menos, não vai além das que mitificaram Napoleão, Mozart, Dante ou Hitler.

Destaca o que convém e apaga o que, a cada momento, parece inconveniente, não popular ou repulsivo.

E assim, temos um Holmes toxicodependente, neurótico, porventura homossexual dum reacionarismo e misoginia roçando o épico e de um egoísmo de Hugolino.

Ou temos um Holmes humanista, democrata, bom cristão, de um patriotismo inquestionável, generoso, humilde e de uma coragem de Galahad.

Qual o verdadeiro Holmes?

A solução do “meio caminho entre os dois” tem o mérito banal do político medíocre parece tornar justo o oportunismo inverídico.

Comecemos pelo princípio que, como o Verbo, é nebuloso antes de se fazer a luz. Holmes, tudo leva a crer (e assim o decreta o seu prestigiado Guizot, William S Baring-Gould) nasceu em 1854, ano em que a Igreja Católica projetou em protagonismo até aí inédito, a doutrina da Imaculada Conceção da Virgem.

Neto, por parte da Mãe, de Sir Edward Sherringford, terá nascido numa abastada mansão rural, herdada de seu irmão pelo Pai, Siger Holmes, em North Riding Yorkshire. Era o terceiro de três irmãos (Sherrinford, Mycroft e Sherlock) mas não o mais inteligente.

Seria porventura o mais obstinado. Ou fanático, se preferirem.

June Thompson prefere dizer, numa toada mais modernista, que era uma criança com sintomas claros de psicose maníaco-depressiva, com alternâncias extremas de humor traduzidas no roer nervoso das unhas, marchar sem repouso dum lado para o outro quando excitado intelectualmente, tamborilar freneticamente com os dedos. Quando em fase de depressão, injetando-se, três vezes ao dia, com umas solução de 7% de cocaína    e recorrendo regularmente à morfina, narcótica e analgésica.                           Deve acrescentar-se que, na época, tal atitude, comum nas “classes altas inativas vitorianas, não infringia a lei[2] e que a estadia no Tibete e a amigável persuasão de Watson, acabaram por afastá-lo, por completo, dessa prática.

Cedo conhecerá os professores James Moriarty que tentará, sem êxito, ensinar-lhe matemática e objecto do seu ódio, desde o primeiro momento; Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll) a quem censurará amigavelmente as travessuras infindáveis de Alice in Wonderland e Behind the Mirror e a sua evidente (embora platónica pedofilia fotográfica. Entre os seus companheiros de jogo e brincadeiras estarão, em lugar de destaque, os seus primos franceses da família Vernet.

Odiará (e será odiado por) George Bernard Shaw que, sob o obnóxio pseudónimo de Cornetto di Basso, enquanto crítico musical do World tenta destruir Pablo de Sarasate (1804-1908), então em digressão por Londres (St. James Hall). Sherlock, que em matéria de violinos esquecera mais coisas do que as que G. B. Shaw viria a aprender (nos seus combativos noventa e quatro anos de vida – 1856-1950) nunca lhe perdoará a desonestidade intelectual nem a perfídia do ataque. Shaw, recidivando na má fé, faz lhe, após a sua defesa esmagadora de Sarasate, nas páginas do mesmo World um ataque igualmente venenoso. Bernard Shaw chega a dizer dele que era “um toxicodependente sem um único traço de afabilidade”.

No seu segundo ano em Oxford (Christchurch College) cultiva pouco e mal a amizade. Vêm ainda longe os dias de Orestes e Pílades com Watson.

Apenas a Victor Trevor[3] e Reginald Musgrave[4] permite que o considerem como amigo…

E por fim, em 1876, como ele próprio diz, recém-chegado de Oxford (St. Luke’ College?), encontra Londres e a imensa sala de leitura do Museu Britânico e instala-se na Montague Street.

Seu pai, furibundo com o seu abandono dos estudos matemáticos, para se dedicar a ser o primeiro detetive-consultor do mundo, deserda-o (mas, muito à moda vitoriana com uma modesta pensão).

Com a ajuda de Mycroft (que estará sempre a seu lado nestes mesquinhos diferendos de Gouvarinhos com fibra) inscreve-se, como profano (sem intenção de prossegui estudos de medicina) no Hospital de Saint-Bartholomew, em West Smithfield.

Aí, sob a orientação de pedagogos ilustres como Sir James Paget (anatomia); Doutores Gee (anatomia patológica) e Russell e nos cursos de química orgânica prática, segunda etapa da sua formação como detetive.

Aí seguirá, com o seu inquieto perfil de águia impaciente, as pisadas de William Harvey e Percival Pott, entre tantos. E de John Watson, “of course”, com quem se terá cruzado, certamente (sem se conhecerem ainda), nos imensos corredores do Bart’s… Aí            absorverá, mata-borrão insaciável                     do imperialismo               vitoriano, o que seriam muitíssimo mais do que rudimentos da cultura fisiológica de um “forensic doctor”…

Aí terá vibrado, com a neurótica alegria hipercontida que lhe caracterizou sempre o entusiasmo, com as obras de Friedrich Karl Louis Büchner de “Medicina Legal”, “Força e Matéria, estudos empíricos sobre Filosofia Natural” e diversos artigos dos Arquivo de Wirchow (entre 1855 e 1871).

Apesar da sua “practical joke” à custa do ingénuo Watson, deixando-o caracterizá-lo como um gigante mental semianalfabeto[5], aprofunda a sua cultura geral de forma muito mais do que mediana, o que lhe permite não apenas discorrer sobre Botânica Geologia, Química ou Anatomia Legal, mas estudar os motetes de Orlande de Lassu (1530-1594), apreciar como erudito, as interpretações de Sarasate ou Joachim discorrer sobre Wagner e isto apenas no campo da música.

Falava correntemente francês, alemão (cita Goethe no original, de forma irrepreensível), que considerava, aliás, a “mais expressiva de todas as línguas”. O latim, aprendido através de um conhecimento profundo de Horácio e Tácito, era-lhe familiar. O italiano também estava entre as suas prendas (certa vez, numa viagem de comboio, lê Petrarca no original).

Lia e citava, com propriedade, a Bíblia (na Universidade, ainda assistia aos serviços religiosos, o que, depois, abandona), Shakespeare, George Meredith, Carlyle, Edgar Poe, Boileau, Flaubert e as obras de Charles Darwin, do americano Thoreau e do filósofo alemão Richter.

Era um melómano assumido. Gostava de ouvir música e de interpretá-la, no seu Stradivarius, indo de Mendelssohn e Paganini a trechos de Sullivan ou Léhar. Quando em Londres, não falhava as soberanas interpretações de Sarasate, dos irmãos Jean e Edouard de Rezske, de Madame Norman-Neruda, da sua única paixão, a norte americana Irene Adler.

Fala um francês impecável (herança da sua passagem por Pau e da longa estadia “chez les Vernet”, em Montpellier, de 1858 a 1860) e conhece a fundo os grandes autores da literatura francófona, clássicos ou seus contemporâneos.

Evidencia também conhecimentos de química que ultrapassam, em muito, tudo o que a modesta polícia Metropolitana do “British Empire” sabia ou mesmo o que mais tarde justificaria as gabarolices monótonas do Dr. John Evelyn Thorndyke e do seu servi Polton. Chega a dizer a Watson: “For someone whose professional success depend upon a scientific approach to criminology and in particular the application of analytica chemistry … I must take advantage of the innovations – particularly those from th Continent. Chemistry does not stand still”.[6]

Apesar da imagem lúgubre de puritano que lhe tentam afivelar, é frequentador assíduo do Music Hall, aplaudindo Bessie Bellwood e Jenny Hill, Vesta Tilley ou Nelly Powers, assistindo às opus magna de Sir Arthur Sullivan e trauteando Strauss, ao percorrer as Mews de Marylebone. Ele próprio, na juventude, terá tentado a carreira teatral, muito provavelmente em comédias musicais do género das do trio Gilbert Sullivan and D’Oyly Carte[7] e, durante dez meses (23 de novembro de 1879 – Verão de 1880) fará uma digressão teatral pelos Estados Unidos, integrado na Companhia Shakespeariana de Langdale Pike (na realidade, um genial e encantador inútil, filho mais novo de um Duque).

Fará parte do elenco de Medeia, Hamlet, Romeu e Julieta e será Malvoglio e Shylock (no Mercador de Veneza). Nesse enorme país, ao ritmo nervoso dos comboios aprenderá ao mesmo alto grau a arte da caracterização e do disfarce, os segredos do banditismo de Chicago e dos épicos gangs do porto de Nova York. Conhecerá também em Baltimore, o supremo prazer da degustação de ostras com limão e um grão de pimenta…

Não lhe eram alheias as enredadas filigranas do direito britânico, invocando a “Natura Law of the Statute” e a jurisprudência, com relativo à-vontade, não hesitando, no entanto (e muitas vezes o fez) em recorrer aos princípios da Transcendent Higher Law (“derived of God and conscience”) tornando-se, com a monumental arrogância que o caracterizava, no intérprete oficial de Deus e da Justiça (por vezes, com a ajuda de um júri composto de devotos babosos, como Watson ou mesmo Lestrade).

Nada o enfastiava: em jovem aprendeu zoologia e as penosas manhas da taxidermia com o velho Sherman, na loja deste em Lambeth, Pinchin Lane; poucos anos depois em 1877, devorava até à pura exaustão física, centenas de livros na Sala de Leitura do Museu Britânico. Apenas terá desprezado as sugestões de um velho alemão, austero, mas simpático, que lhe sugeria o estudo da economia e o tentava iniciar nos mistérios da “mais-valia”.

Karl Marx teve pouca influência neste incurável conservador, que, no entanto, lhe salva a vida[8], beneficiando, em retorno, da apresentação a uma personalidade fascinante Friedrich Engels.

Escrevia muito:

– “Sobre classificação e datação de documentospublicado em The Britis Antiquarian, setembro de 1877);

– Como identificar pegadas, com uma adenda sobre o uso do gesso n conservação destas, editado e reeditado até 1888, assim como traduzido para o francês por François Le Villard, comissário na Sûreté;

– Da maneira de distinguir os tipos diversos de cinzas de charutos, cigarros tabacos de cachimbo (mais de 140), com lâminas ilustrativas a cores, sem data;

– Um panfleto de poucas dezenas de páginas (The Poison Garden) onde aponta exaustivamente as virtudes letais dos jasmins amarelos, da micro atropina, da beladona, da nicotina, do acónito, da cicuta, do açafrão outonal (colchicum), da fava de calabar e de mil outras maneiras de liquidar uma pobre alma (destinado obviamente a médicos forenses e membros da Scotland Yard…)

– “O Livro da Vida”, com base em temas budistas, recolhidos “in loco”, durante o “grande Hiato” no qual afirma “que a história inteira de um Homem, aí integrando   sua profissão ou ofício, podiam deduzir-se de um exame à sua aparência

– “Da variabilidade do Ouvido Humano”, na “revista de Antropologia”

– “Estudo a propósito da influência da profissão sobre a forma das mãos, com litótopos das mãos de canteiros, marinheiros, cortadores de cortiça, tipógrafos tecelões e polidores de diamantes”

– “Monografia sobre Criptologia”

– “A Idade dos Documentos”

– “Monografia sobre os motetes polifónicos de Orlandus Lassus”

– “Manual prático sobre a cultura de abelhas, com algumas observações sobre a segregação da Abelha-Mestra”

– “Acerca da utilização de cães na investigação policial”

– “Breve tratado acerca de doenças fingidas”

– “As Primitivas Cartas Régias Inglesas” (após aturadas pesquisas em Cambridge e Oxford)

– “Acerca das Marcas de Tatuagem”

– e, ainda “A propósito da Raízes Caldaicas na Linguagem da Região da Cornualha”, sem falar de diversos artigos sobre paleografia, de iluminuras medievais do Reino Unido, etc.

Era muito culto, apesar da brincadeira inicial com Watson, convencendo-o que era uma espécie de autista com memória de elefante para assuntos criminais…

Quando bem-disposto, falava fluentemente e com enorme segurança, de assuntos tão díspares como o budismo em Ceilão, o futuro das religiões, violinos Stradivarius cerâmica medieval, os navios de guerra do futuro, ou a qualidade interpretativa do célebre violinista Joachim.

E citava, na língua original dos citados.

Era pródigo. Oferecia facilmente os livros que fazia, os quais, aliás, raramente (senão nunca) deveriam encontrar comprador.

Era um fumador compulsivo, saltitando, desde muito jovem, obediente aos rígidos ritualismos da classe média vitoriana, entre o cachimbo, o charuto e os cigarros já feitos, consoante a hora do dia ou o contexto social onde o fazia.

A sua sociabilidade (escolhe os cachimbos, por exemplo, consoante se sente mais ou menos combativo e disposto ao conflito) obriga-o ao uso de cachimbos de boquilha encurvada, que permitem articular melhor as palavras, ao falar, sem cessar de o fumar…

Era um “gourmet” discreto (quando se permitia o luxo de uma refeição calma, a hora decentes).

Bebia pouco e bem e, sem ser um enólogo de estirpe, conhecia os bons vinhos da sua época e, como Winston Churchill, não desdenhava de um bom Champanhe, para começar bem uma jornada que se adivinhasse fatigante.

Os imundos antros de ópio tão vitorianamente in”, não o atraem (são mais para pessoas de “extração modesta…) e só os frequenta por necessidades de uma investigação em curso, no Verão de 1887 (The Man with the Twisted Lip). Toma “estimulantes artificiais” quando se aborrece da “monótona rotina da existência (traduza-se, quando não pode exercitar o seu monumental ego numa investigação difícil…).

Tudo isso acaba depois da sua morte simulada, nas cataratas de Reichenbach, ao precipitar nas águas o Professor Moriarty.

Essa morte, em que a maior vítima parece ser a reputação de um pobre professor de matemática, cúmplice na mistificação, abre, a pedido-ordem do irmão, a grande missão diplomática (ou de espionagem…) de Sherlock ao Montenegro, Nepa (Darjeeling), Tibet (Lhasa, Ta-Shi Lhün-Po, residência oficial do Ta-chi Lama), Irão, a um país que se tornará independente poucos anos depois (Noruega, com o nome de Sigersohn, bem pouco criativo…) e, finalmente, Montpellier.

Na sua estadia no Nepal e Tibete leva os seus estudos de budismo,[9] a ponto de se tornar um Ahranta (um iluminado).

Isso explica a sua renúncia absoluta à cocaína (que nunca mais é mencionada como hábito seu, em posteriores aventuras), a quase abstenção de bebidas alcoólicas sobretudo pela repugnância, a partir daí, em matar (ou enviar para a forca, via tribunais…) os criminosos que captura.

Por fim, em The Adventure of the Veiled Lodger, diz mesmo: “Os caminhos do Destin são difíceis de compreender. Se não houver uma compensação no Além, o Univers nada mais seria que uma fraude cruel…” o que reproduz a teoria da plenitude dos De Pontos do Espaço, do budismo tibetano.

Apesar de tão nobres propósitos era um misógino incurável e soberanamente indiferente às crianças. Com uma exceção. Um rapazinho de oito anos, aterrado com a misteriosa desaparição do seu gato de estimação (“Séneca” de seu nome) atreve-se a atacar a temerosa fortaleza de Baker Street, 221-B e consultar, na qualidade de “ilustre cliente”, o gélido detetive. Pouco fiado na sua qualidade de filho mais novo do Duque de Denver, Par do Reino, o jovem Lord Peter Wimsey, vê-se atendido, segundo Dorothy Sayers, com encantadora cortesia pelo par Holmes-Watson[10]. E o pobre Séneca é encontrado, in extremis, no local perigoso onde Sherlock previra que o encontrariam.

Mas Lord Peter Wimsey não foi o único detetive célebre (ainda que amador) marcado pelo encontro com Holmes.

Os seus caminhos cruzaram-se com Hercule Poirot, Miss Jane Marple e Sir Denis Nayland Smith.

Segundo consta das memórias pessoais (nunca dadas à estampa) do Capitão Arthu Hastings, o melhor amigo de H. Poirot,[11] o duelo de duas personagens fascinantes (ou de dois monumentais vaidosos) dá-se no Outono de 1902.

As causas são a morte suspeita (possível assassínio) de Sir Charles Mulready, assesso do primeiro-ministro britânico.

O jovem belga Hercule Poirot, trabalhando então para os serviços secretos franceses disfarçado de “Chef” do embaixador francês Calamy, obtém (subtraindo-os de um cofre inacessível) planos relativos à defesa francesa, na posse dos britânicos derrotando (derrota essa aceite com um “fair play” risonho) o impassível Holmes.

O caso de Miss Jane Marple é mais trágico. Salva-a de um noivo assassino, mas a pobre Jane Marple (preferindo dedicar a sua vida a fazer milionária a sua biógrafa Agatha Christie) faz perante Holmes o solene voto, que infelizmente cumpre, de nunca se casar.

Sir Denis Nayland Smith, o inimigo impiedoso do terrível Dr. Fu-Manchu, que conhecemos através da biografia (muito romanceada, é certo) do seu criador Sax Rohmer, cruza-se com Holmes[12], no combate ao “perigo amarelo”. Ajudam-se mutuamente, em intermináveis raptos, ameaças e ataques, ao que parece muito ao gosto dos criminosos chineses.

Convém acrescentar ao ativo da luta de Sherlock contra a hidra do crime, que nunca acaba, o facto de ter posto (clandestinamente, é certo) neste mundo, o célebre Nero Wolfe de Nova York, como resultado de uma ligação efémera, no Montenegro, em 1892, com Irene Adler (A Scandal in Bohemia, 1891).

Fora do mundo do combate ao crime, os seus caminhos cruzaram-se com os de Charle Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll) no seu primeiro ano em Oxford, no Christchurch College, onde este leccionava, descobrindo-se (apesar da diferença de quase vinte anos em idades entre ambos), mútuas afinidades em charadas que se tornaram imortais nos livros Alice in Wonderland e Behind the Mirror. Conheceu também o Dr Sigmund Freud (por duas vezes: em The 7% Solution e em The Case of Emily V.  ambos relatados por Nicholas Meyer); Oscar Wilde, Albert Einstein (Alexis Lecaye Einstein et Sherlock Holmes, Paris, Payot, 1989), Kraft-Ebbing, Herbert George Wells e até Bertrand Russell, John Maynard Keynes, Aleister Crowley e Ludwig Wittgenstein.

A sua conversação, facto paradoxal num homem com uma vida social tão sofisticada abundava em “clichés” e aforismos de pastor de vicariato rural:

“Elementar, my dear Watson!” (que, curiosamente, nunca aparece em nenhuma das obras do “Canon”…)

“These are deep waters”.

“A long shot, Watson, a very long shot” “You see, but you don’t observe, my friend” “This is a three-pipe problem, Watson…”

“Pray sit down and tell me what is the matter!”

“Come, Watson, come! The game is afoot! Not a word! Into your clothes and come!”

Enfim, aquilo a que o Padre Ronald Knox (autor policial dos anos trinta) chamaria mais tarde “Sherlockismus”.

Mas, quando estava de maré, não hesitava em fazer citações a roçar o pedante, na língua original:

“Il n’y a point de sots si incommodes qui ceux qui ont de l’esprit!” (François, Duc de La Rochefoucauld – 1613-1680);

“Wir sind Gewohnt, dass die Menschen verhöhnen was sie nicht verstehen” (W. Von Goethe, Faust).

Ostenta, desde adolescente, um físico de cegonha ágil, magra e musculada, parecendo por isso mais alto do que os 1,83m com que a natureza o dotou. Essa magreza aparente oculta um físico resistente e infatigável, um exímio “boxeur”, esgrimista (estudou no Salon de Maître Alphonse Bencin, em jovem) e lutador de “buritsu (inédita arte defensiva nipónica que domina perfeitamente, sem que se saiba onde a aprendeu…).

Segundo parece era magro, esguio, moreno, com nariz proeminente (que os amigos descreviam como “aquilino”), rosto impenetrável de índio americano, olhos cinzento penetrantes, voz aguda e uma forma brusca e enérgica de andar.

Apreciava os bonés de caçador (“deerstalkers”) ou desportivos (“travel caps”), as calças de “golf” e os “macfarlanes” compridos, em “tweed” genuíno, quando em viagem pelos meios rurais. Tinha diferentes roupões, quando em casa (conhecem-se lhe pelo menos três: púrpura, em seda, azul e cinzento rato) e, para jantares ou acontecimentos noturnos, casaca, chapéu alto de cerimónia, assim como capa e sobretudo preto adequado.

No dia-a-dia em Londres, sobrecasaca, calças a condizer, camisas de plastrão ou os sobretudos estritos e escuros (com chapéu de coco ou feltro duro) do gentleman que se respeita.

E não dispensava a bengala de castão de prata, nas suas idas à ópera, concertos ou até a uma exibição alegre de uma opereta de Gilbert & Sullivan ou Strauss.

Orgulhoso e narciso até ao impossível, desprezou sempre distinções honoríficas, ainda que as tenha aceite, relutantemente, do Governo francês (Grand Chevalier de l Légion d’Honneur), Suécia-Noruega e Vaticano, onde a sua intervenção no caso da morte do Cardeal Tosca e no caso dos camafeus do tesouro Papal, lhe valem a concessão, por sua Santidade, o Papa Leão XIII, (1810-1903), em cerimónia privada dado ser anglicano, de uma “distinção Vaticana, raramente concedida”.

A sua profunda antipatia (ou seria desprezo puritano?) pelo libertino herdeiro do trono britânico (Bertie, o príncipe de Gales, futuro Eduardo VII) fá-lo, no entanto, recusa sem apelo, qualquer distinção (nomeadamente ser feito cavaleiro), como retribuição pelos seus inestimáveis serviços à coroa britânica (The Illustrious Client, The Bruce Partington Plans, A Scandal in Bohemia, The Adventure of the Second Stain). Apesar das pressões amigáveis e constantes do Primeiro-Ministro, Robert Arthur Gascoyne Cecil, terceiro Marquês de Salisbury (1830-1903). O que desgosta profundamente a Mycroft, seu irmão do meio.

Mycroft era um corpulento (para não dizer gordíssimo) cavalheiro, mais alto que Sherlock, com mãos como barbatanas de foca.

Apesar disso, impunha respeito pela fisionomia majestosa, pelos olhos cinzentos e argutos, por vezes impiedosos, sob um festão de sobrancelhas de Gargântua.

Parecia ser ele, pelo físico, o amante secreto de Irene Adler (e pai ilegítimo do acima citado detetive montenegrino, naturalizado americano, o elefântico Nero Wolfe) e não o seu irmão mais novo….

Oficialmente, trabalhava como funcionário num qualquer cargo subalterno, num departamento do Home Office, em Pall Mall.

Na realidade, era uma prodigiosa máquina de conhecimentos de geoestratégia e geopolítica, um “think-tank” num só homem[13], indispensável em crises do Foreign Office de Gladstone, Grey ou Salisbury.

Watson só testemunhará a sua participação (sempre preciosa) em quatro ou cinco casos resolvidos por Sherlock: The Adventure of the Greek Interpreter, The Adventur of the Second Stain, The Adventure of the Bruce-Partington Plans e poucos mais.

Mas sempre que o irmão dele precisou, nunca faltou à chamada: embaixador do estudante rebelde de Oxford e Cambridge, junto do pai de ambos, conseguindo conciliar o inconciliável; embaixador junto de Eduardo VII, para fazer desculpar as sucessivas insolências gélidas, dirigidas pelo irmão ao incorrigível boémio coroado (The Case of the Illustrious Client); banqueiro, administrador e protetor de Sherlock no decurso das provações de 1891-1893, após a morte do Professor Moriarty, em Reichenbach.

Quanto ao seu Orestes, John Hamish Watson (M. D.) de seu nome, “his friend and colleague”, como o apresenta Sherlock aos clientes, narrador patenteado das suas aventuras (com exceção de cinco) muito haveria a dizer. Limitemo-nos a referir que se licenciou em medicina na Universidade de Londres, em 1878, frequentando depois em Netley, o curso preparatório de cirurgiões do exército. Foi cirurgião militar mobilizado no decurso da segunda Guerra do Afeganistão, entre 1878 e 1881 (5º Regimento de Fuzileiros de Northumberland, estacionado em Kandahar, Índia), foi ferido em combate (já nesse tempo o Afeganistão era uma fonte de problemas para o Ocidente…), na batalha de Maiwand, licenciado por invalidez e levado a partilhar – por razões económicas – o apartamento de Baker Street com Holmes, onde tinha alojamentos no segundo andar.

Era um homem (“The Adventure of Charles August Milverton”) de estatura mediana bem constituído, senão mesmo corpulento, com um queixo quadrado e voluntarioso pescoço largo e bigode farto.

Ele e Holmes tornam-se amigos e, o que é mais importante para a posteridade, Watson torna-se o Boswell (ou se preferirem o apóstolo-cronista) do detective. Entre as peripécias de três (ou dois?) casamentos e inúmeras aventuras (o bom do doutor tinha o suspeito hábito de perder esposas com frequência…), relatos das aventuras de Holmes para o Strand.

E uma clínica de cujo funcionamento, sob a orientação médica de Watson, só não resultou um genocídio da população do Reino Unido, pela excelente saúde de que tradicionalmente goza o povo inglês.

O nosso médico, com o seu espesso bom senso e a sua infinita capacidade de se maravilhar com a esperteza de Holmes, dá contraponto e o sabor à esmagadora maioria das obras do Canon.

Para além de figurar no quadro como o cavalheiresco e romântico inglês de classe média que completa, qual Sancho Pança, com as suas virtudes burguesas, o intelectual arrogante que acolita, é também o amigo fiel que lhe salva a vida várias vezes.

Duas palavras ainda sobre Lestrade, os “Baker Street Irregulars” e Mrs. Hudson. Lestrade, Gregson, Hopkins, Athelney Jones, MacDonald, são, com mais ou menos qualidades, os polícias da Scotland Yard que Holmes despreza profundamente, mas a quem deixa exibir invariavelmente os méritos da descoberta do criminoso (pensando eu, que não alargando tão altruístico liberalismo aos honorários que, na qualidade de consultor privado, certamente arrecadava…).

Os “Baker Street Irregulars” eram um bando de geometria variável de miúdos vadios da Londres vitoriana, normalmente dirigidos por um, mais inteligente, Wiggins, que a troco de alguns xelins, espiavam por conta de Holmes, de uma ponta a outra, a metrópole de quase cinco milhões de habitantes.

Mrs. Martha Hudson, a hospedeira paciente de Baker Street, de carácter evangélico (ou principescamente paga) suportava as refeições a desoras, o pó dos “dossiers” e o fumo sufocante dos “thousand-pipe problems”, os tiros patrióticos de desfastio na parede para desenhar, à bala, VR (Vitoria Regina), o tabaco na chinela persa, enfim o caos em que o lunático genial deixava o 221-B…

Aí viveu vinte e três anos, no primeiro andar da casa de Mrs. Hudson. Para atingir a sala (que partilhava com Watson) e o seu quarto, tinha de subir dezassete degraus.

A sala, onde passava a maior parte do tempo quando estava em casa era iluminada po duas enormes janelas e não muito grande. Ainda assim, em cada bibelot, objecto prático, dossier ou livro (para não falar na banca de experimentador químico que lá instalara) tinha a marca quase que           exclusiva da       sua forte (megalómana… personalidade).

Finalmente em 1904, Holmes opta pela reforma, a ida para a quinta comprada em Sussex, a apicultura…

Aí, a acreditarmos no que nos diz (“The Adventure of the Lion’s Mane”) compra uma pequena propriedade rural, encantadora, aliás, na vertente sul dos Downs, com um maravilhoso panorama com vista para o Canal da Mancha. “A costa desce a pique, n seu branco esplendor calcário”, diz Holmes,” …e um pequeno e sinuoso atalho conduz uma praia de cascalho, lavada, fresca e cheia de enormes poças de água salgada rebrilhando ao sol”. No alto da colina, a pequena e confortável casinha rústica onde viveu os seus últimos anos, rodeada de aroma de flores silvestres, arbustos da orla marítima e muitas, muitas abelhas…

Segundo o seu melhor biógrafo, W. S. Baring-Gould, morre a 6 de janeiro de 1957 com a provecta idade de 103 anos, no meio das suas colmeias, o que nada constitui de notório, se pensarmos em pessoas como os portugueses Fernando Pessa ou Emídio Guerreiro…

AS CONTRADIÇÕES

Devemos considerar o “Canon” canónico? Aceitar as histórias oriundas da pena de Conan Doyle como salafitas fanáticos?

Ou, sem preconceitos metafísicos, analisar os erros, contradições e incoerências que nele abundam, de nomes a datas, de factos históricos à consistência do estilo narrativo e das descrições das personagens?

Confesso que me inclino mais para a primeira posição, até porque é dela que surgem os numerosos entrelaçados de explicações, conexões surrealistas e interligações com outras obras de literatura policial, que mantêm vivo hoje, como há noventa anos, o interesse pela personagem.

Dizemos (forçando a racionalidade do enfastiante Descartes) que só aparentemente pode haver contradições na obra de Watson (começamos aqui: não há Conan Doyle mero agente literário do Strand – o Autor é John Watson!!!).

Apontá-las, sem ser para lhes “descobrir” uma causa, é sintoma grave de “irreligiosidade Sherlockiana”, sintoma de cinismo envinagrado, próprio da sociedade céptica, consumista e banal em que vegetamos.

Vejamos um exemplo.

Na obra “Study in Scarlet” (Beeton’s Christmas Magazine Annual, London, Ward Lock & Cº.,1887) Doyle informa-nos que o pobre Dr. John (James, noutra  aventura  Watson, médico militar ao tempo, foi ferido na batalha de Maiwand (Afeganistão), po uma bala de mosquete “jezail”, que o atingira no OMBRO ESQUERDO.

Em “Sign of Four” (Lippincott’s Magazine, London, Spencer & Blackett, fevereiro de 1890), Watson queixa-se amargamente da habitual dor na PERNA, causada por um (ferimento) de fuzil “jezail” (ou “Ghazi).

Que diria disto um sarcástico empedernido, um filisteu sistemático e niilista?

Que Conan era um tonto, que se enganava a cada passo e não ligava nenhuma aos livros policiais que escrevia, convencido que o seu futuro estava nos romances históricos (onde foi definitivamente medíocre).

Que diria um “verdadeiro crente”, de Nova York a Paris, de Londres a Copenhague, de Quebec a Edimburgo (em centenas de artigos fundamentados, ocupando milhares de páginas de revistas prestigiadas, entre 1908 e 2003 (como de facto aconteceu)?

Que parece evidente que:

– Um dos ferimentos é psicossomático e merece psicanálise;

– Que o infeliz doutor foi ferido duas vezes, ambas por um mosquete jezail quando, em comissão ao serviço de Sua Majestade (agora no 66th. de Infantaria de Berkshire) na segunda campanha do Afeganistão, em 1880;

– Que a bala atravessou, impiedosa e em diagonal, o ombro esquerdo, atingindo no percurso, igualmente a perna direita;

– Que o mísero facultativo foi literalmente fuzilado por dois guerrilheiros “pachtun”, ambos com fuzil “jezail” e ambos com (relativamente) boa pontaria;

E poderia continuar “ad infinitum

Thomas L. Stix, por exemplo, aponta, num exercício raro de argúcia, nada menos do que sete erros / inconsistências numa das mais justamente célebres novelas de Doyle (The Red-Headed League).

E há muitos, muitos mais.

O que não tira nem um átomo do encanto da obra e vida de Sherlock Holmes e tem o mérito indubitável de nos forçar a estar sempre lúcidos, na nossa poltrona (por muito confortável que possa ser) quando lemos o seu cronista.

Por aqui se compreenderá que:

Ou se é crente incondicional em Sherlock ou, se se penetra no templo Holmesiano com o espírito iconoclasta de um livre-pensador, o melhor é nem entrar.

Mas, por outro lado (e os manes de Voltaire obrigam-nos a dizê-lo) foi Sherlock Holmes que, citando com oportunidade Boileau (1636-1680) lembrou: “Un sot a toujours un plus sot qui l’admire!”

No fundo é um problema de fé. Sem ela, dificilmente o poderemos apreciar, no momento adequado (chuva, poltrona, bebida quente e reconfortante). Ou a Beethoven. Ou a Pessoa. Ou à pequena maravilha de estarmos vivos.

NOTA FINAL

Para terminar, convém não esquecer que a influência da criação da figura de Sherlock Holmes é decisiva no amadurecimento de um género literário a que depois se chamaria “Literatura policial”. Verdadeiramente essencial.

Não pelo estilo narrativo, relativamente vulgar. Mas pelo enredo “never too obvious never too anticlimactic; never too many loose ends…”, pelo recorte vivo e humano de uma época e das personagens que a povoam, pelo modelo ético e valores que perpassam a cada momento e com que tão facilmente nos identificamos.

A publicação, em 1887, de A Study in Scarlet explode como uma bomba no meio literário vitoriano. O seu efeito (com as histórias que se vão seguindo) é eletrizante.

Arthur Conan Doyle, “agarra” a fórmula inovadora das “histórias policiais” de Edgar Allan Poe e dá-lhes o que não tinham: um toque mágico de vida, realismo naturalidade, ligada ao dia a dia da sociedade vitoriana da Grã-Bretanha da época em que as escreve, o que o aristocratismo mórbido de Poe nunca conseguira.

Abandona as elaboradas intrigas de The Murders in the Rue Morgue, The Purloine Letter, The Gold Bug e The Death of Marie Roget e as psicologias inextrincáveis bem como o recurso ao horror inverosímil com que Poe povoa os seus livros detectivescos. As aventuras de Holmes assentam na dedução, no trabalho infatigável do cavalheiro vitoriano, devoto de Deus e da sua Rainha-Imperatriz, por graça de Disraeli.

A partir de indícios banais, triviais ou mesmo risíveis, constrói, com o seu engenho catedrais góticas de elaboração mental, lógicas e límpidas, num estilo que deve mais a Dumas-Gaboriau e Verne que ao norte-americano.

Era surpreendente, brilhante, lacónico.

Com ele nasce o melhor da literatura policial, pelo menos até ao aparecimento de um Dashiell Hammett, de um Georges Simenon ou de uma Agatha Christie.

Conhecem-se-lhe, por escritos seus (ou do seu melhor amigo John Watson), os pormenores de sessenta aventuras, ou melhor do “CANON”. Os “Baker Stree Irregulars de Nova York”, sociedade de fans criada em 1934 pelo prestigiado americano Christopher Morley, chegam a fixar nos estatutos da Sociedade que o seu objecto é o estudo dos “SACRED WRITINGS”. Note-se que entre os membros deste clube contavam-se Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman, Anthony Boucher, Rex Stout, Isaac Asimov, … A lista dos títulos que integram o Canon pode ler-se no fim deste texto. Para além deles, existem ainda algumas obras menores, esparsas, da autoria de Conan Doyle (The Final Adventures of Sherlock Holmes, Coll. & Edicted po Peter Haining, London, Warner Books, 1981) como, por exemplo: The Mystery of Uncle Jeremy’s Household (1887); nesta “proto-história” do Canon, Sherlock aparece sob o nome de Hugh Lawrence; Watson, sob o de John H. Thurston); The Field Bazaa (1896); The Story of The Man With Watches (1889) e The Story of the Lost Specia (1889 – estas duas aparecem no Strand, em julho e agosto de 1889); The Adventure   of the Tall Man (1900); The Case of the Man who was Wanted (1914).

THE UNTOLD STORIES

Mas, depois do Canon, vêm as inúmeras recriações, “pastiches” e continuações, quase sempre baseadas em menções ocasionais nas obras do Canon. Começam com obra como a genial continuação de Sir Adrian Conan Doyle (filho de Sir Arthur) em colaboração com o já consagrado John Dickson Carr (12 novas aventuras, os Exploit  of Sherlock Holmes, de 1954) e mobilizam centenas de encantados cronistas (ou cruzados?) duma vida onde o tempo parece expandir-se até ao infinito, tal a quantidade de “novos casos” que resolveu (ou não … há obras dedicadas aos insucessos de Sherlock Holmes).

A estas infinitas apostilas chamam-se os “HIDDEN CASES… Como surgem? Simples. Numa “battered dispatch-box” com o nome John H. Watson gravado num dos cantos guardada num dos cofres privados do Banco Cox & Co., em Charing Cross, em Londres este teria guardados centenas e centenas de relatos que não pôde  publicar,  na sempre receptivas páginas do Strand Magazine, ou porque Holmes achava que “ opinião pública ainda não estava preparada para aquilo” (como caso do “Rato Gigante de Samatra”…) ou porque “poderia ser prejudicial para intervenientes ainda vivos (como nos casos envolvendo o “Vaticano ou famílias reais estrangeiras”).

Mas…

Inúmeros autores de romances policiais subornando, subtraindo, recorrendo a obscuros parentes do pobre Watson, conseguem dar à luz todas estas aventuras obtendo, certamente por meios ínvios (não acredito em telepatia, nem em mesas de pé-de-galo) os textos encafuados no baú. E, de John Dickson Carr a Ellery Queen, de June Thompson a Mark Twain, de Maurice Leblanc a O. Henry, de Julian Symons a Michael Didbin, de Anne Perry a Stuart Kaminsky, de Howard Engel a Stephen King, de Peter Lovesey a Dorothy Hughes, todos bisbilhotaram, todos vasculharam, todos revelaram os adormecidos segredos…

Foram, portanto, inúmeras as intervenções não publicitadas no Strand deste “private consultant” em crime, que disso viveu e disso retirou ainda a reforma dourada que lhe permitiria passar os últimos anos de uma longa e saudável vida, criando abelhas produzindo mel e escrevendo monografias sobre apicultura (em concorrência com Maurice Maeterlinck, creio…), numa quinta em Sussex Downs, que adquirira. Uma lista seletiva destes numerosos pastiches encontra-se também incluída no final deste texto.

Há casos no campo da Ficção Científica (sempre envolvendo “escritores-cronistas” de primeira água) como, sem ser exaustivo, The Supreme Crime, de Isaac Asimov, com o sinistro Moriarty a tentar acabar com o planeta, o excelente Exit Sherlock Holmes (Robert Lee Hall, 1977), onde Sherlock se revela como um Cyborg de um distante futuro, enviado ao século XIX para capturar o sociopata Moriarty; os vinte seis casos de Sherlock Holmes in Orbit (Antologia de Mike Resnick e Martin Greenberg, Sirius 1995), The Imperial Crown Jewels of Mars, do americano Poul Anderson, onde um detective               marciano, de perfil de cegonha, Syalach,            intoxicado pelos “clichés sherlockianos” que os terrestres lhe transmitiram, resolve racionalmente, um mistério que apavora três planetas (Ellery Queen Mistery Magazine, 1957).

Também no fantástico, Sherlock não fica imune aos mistérios de vampiros, “ghouls” lobisomens, íncubas e “zombies”. Das centenas de obras publicadas com esta temática, escolho como os melhores The Holmes-Dracula-Files e Séance for a Vampire do célebre Fred Saberhagen (New York Thor Ed., 1991-1994), perfeita no toque de macabro que a iguala ao célebre Dracula, de Bram Stoker; ainda Sherlock Holmes versus Dracula (Loren D. Estleman, 1978) e os clássicos A Study in Terror (Ellery Queen, New York, 1965) e The Last Sherlock Holmes Story (Michael Didbin, New York 1994) onde em causa está, em ambas, o aterrador Jack, The Ripper.

Há Holmes no teatro, desde os tempos imemoriais do genial William Gilette, criador e ator dramático norte-americano que lança no palco a figura do detetive, em Nova Iorque em 1899, em Londres no Lyceum Theatre, em 1901, com a presença e patrocínio do então Eduardo VII.

A partir daí, êxito perene nos tablados, até aos dias de hoje, com o pico em 1988, no Wyndham’s Teathre, com representações de Charlton Heston como Holmes e Jeremy Brett como Watson.

No cinema, todos os grandes atores de Hollywood exigiram dar corpo à figura de Sherlock. Segundo o Guinness Book of Movies de 1990 (os números dispensam comentários…), nessa data existiam duzentos e quatro filmes (e setenta e dois atores personificando Holmes, o que torna a personagem de Conan Doyle aquela que, sem rival, mais foi apresentada no grande écran.

Segue-se-lhe uma figura histórica – Napoleão – que só foi tema em cento e noventa e quatro filmes…

O mais antigo em data (Sherlock Holmes Baffled) data de 1900. Sucessivamente atores como Clive Brook, Raymond Massey, Hans Albers, Basil Rathbone (um dos maiores de sempre), Sir Peter Cushing (outro), Christopher Lee, Michael Caine, Roge Moore, Christopher Plummer, entre tantos outros, vão-lhe dando vida.

Watson e o infame prof. Moriarty não ficam pior tratados, pois têm a representá-lo James Mason, John Huston (o realizador), Robert Duvall, Ben Kingsley, Patrick McNee Sir John Mills, Ralph Richardson.

Na televisão, que arranca com os chamados “trinta e nove episódios de 1954-55   surge um novo Holmes, filho do célebre Leslie Howard (Ronald Howard), a que se segue (1963-65) outro grande intérprete, Douglas Wilmer, Larry Hagman (da série televisiva Dallas…), Ian Richardson, Stewart Granger, Roger Moore (incorrígivel este) John Cleese (dos Monthy Python) e, por fim, o que todos persistem em considerar, até hoje (morreu em 1994) o melhor Sherlock Holmes de sempre: Jeremy Brett, em trinta episódios, filmados entre 1984 e 1994 (TV Granada, Reino Unido). Imperdoável seria esquecer Watson e Moriarty nestes episódios (David Burke; depois Edward Hardwicke como Watson; Eric Porter como Moriarty).

Poderíamos ir até à especificação de inúmeros jogos de computador (com charadas fascinantes, como The Case of the Rose Tatoo), mangas, banda desenhada clássica que se inicia com Jack B. Yeats, em 1893 e passa pelos mais ilustres nomes da BD clássica, de Pogo, ao MAD, de Harvey Kurtzman, pela pena de Bill Elder. Entre 1954 e 1956 aparece, em tiras diárias, no New York Herald Tribune, pela mão de Frank Giacoia talvez um dos melhores Holmes da BD. E Peanuts, Snoopy (Charles M. Schulz até Walt Disney com Mickey-Holmes, em 1952. Puzzles, charadas, coleções numeradas de cachimbos, dedicados pela prestigiosa Peterson’s, de Dublin, à memória de Holmes. Há ainda desenhos que começaram em 1891 (até 1904), graças ao génio de Sidney Paget, inspirando-se na face emaciada do irmão (Walter) que acaba por cristalizar a imagem que hoje todos temos de Holmes, nos nossos dias.

Uma nota curiosa sobre o aspeto (atual) de Sherlock. Cachimbo curvo (permite articular melhor as palavras, fumando-o) e “robe-de-chambre” de brocado “belle époque”, são uma inovação do ator William Gilette, nas primeiras representações teatrais da personagem.

“Deercap” e “Macfarlane”, de Sidney Paget. Por vezes, põe-lhe um “Travelcap”, mais adequado.

E tantas, tantas criações mais, se devem ao mago de Baker Street…

Não há, ainda hoje, escritor policial que se preze, inglês, americano, francês ou mesmo japonês ou brasileiro (Jô Soares, O Xangô de Baker Street, Lisboa, Editorial Presença, 1996) que não tenha tentado, ao menos uma vez na vida, fazer o seu “pastiche” de Sherlock.

A propósito do livro de Jô Soares, cabe referir que teve adaptação cinematográfica do próprio, com o português Joaquim de Almeida (talvez por falar inglês…) como Sherlock Holmes…

De certo modo, Holmes, contra vontade do seu criador (Sir Arthur Conan Doyle) está de algum modo, condenado á imortalidade…

“Pray, continue! The Game is afoot!”

Lista das obras do CANON

Romances

A Study in Scarlet (Inicialmente “A Tangled Skein”), no Beeton’s Christma Annual, no Natal de 1887;

The Sign of the Four, or the Problem of the Sholtos, no Lippincott’s Magazine de Filadelphia, E.U.A., em fevereiro de 1890;

The Hound Of The Baskerville, publicado no Strand, em folhetim, entre agosto de 1901 e abril de 1902;

The Valley Of Fear, publicado em folhetim, no Strand, entre setembro de 1914 maio de 1915.

Contos

A Scandal In Bohemia,no Strand Magazine, em Julho de 1891; The Red-Headed League, no mesmo, em Agosto de 1891;

A Case of Identity, no mesmo, em setembro de 1891;

The Boscombe Valley Mystery, no mesmo, em outubro de 1891; The Five Orange Pips, no mesmo, em novembro de 1891;

The Man With the Twisted Lip, no mesmo, em dezembro de 1891; The Adventure of the Blue Carbuncle, no mesmo, em janeiro de 1892; The Adventure of the Speckled Band, no mesmo, em Fevereiro de 1892; The Adventure of the Engineer’s Thumb, no mesmo, em Março de 1892; The Adventure of the Noble Bachelor, no mesmo, em Abril de 1892;

The Adventure of the Beryl Coronet, no mesmo, em maio de 1892; The Adventure of the Copper-Beeches, no mesmo, em junho de 1892.

Estes doze contos foram publicados em livro, pelo editor George Newnes, em 1892 sob o título “ADVENTURES OF SHERLOCK HOLMES”

Silver Blaze,publicado igualmente no Strand, em Dezembro de 1892; The Cardboard Box,igualmente no Strand, em Janeiro de 1893; The Yellow Face,no mesmo, em Fevereiro do mesmo ano;

The Stockbroker’s Clerk, no mesmo, em março; The “Gloria Scott”, no mesmo, em abril;

The Musgrave Ritual, no mesmo magazine, mas em maio; The Reigate Squires, no mesmo, em junho;

The Crooked Man, no mesmo, em julho;

The Resident Patient, no mesmo,em agosto;

The Greek Interpreter, no mesmo, em setembro;

The Naval Treaty, no mesmo, em outubro e novembro;

The Final Problem, no Strand, ainda, em dezembro de 1893.

The Adventure of the Empty House na Collier’s, em setembro de 1903;

The Adventure of the Norwood Builder,também na Collier’s, em Outubro de 1903; The Adventure of the Dancing Men, agora na Strand, em dezembro de 1903;

The Adventure of the Solitary Cyclist, na Collier’s, também em Dezembro de 1903; The Adventure of the Priory School, Collier’s, janeiro de 1904;

The Adventure of Black Peter,na mesma, em fevereiro;

The Adventure of Charles August Milverton, agora em março; The Adventure of the Six Napoleons, Collier’s, Abril de 1904;

The Adventure of the Three Students, no Strand, em junho de 1904; The Adventure of the Golden Pince-Nez, no mesmo, em julho;

The Adventure of the Missing Three-Quarters, no mesmo, em agosto; The Adventure of the Abbey Grange, na Strand, em setembro; The Adventure of the Second Stain, na mesma, em dezembro.

Estes contos foram igualmente publicados, em volume, por George Newnes, em 1905 sob o título “THE RETURN OF SHERLOCK HOLMES”.

The Adventure of Wisteria Lodge (também no Strand, em outubro 1908, com o título The Singular Adventure of Mr. John Scott Eccles) publicado na Collier’s, com o título “A Reminiscence of Sherlock Holmes”;

The Adventure of the Bruce-Partington Plans, Strand, dezembro de 1908; The Adventure of the Devil’s Foot, Strand, dezembro de 1910;

The Adventure of the Red Circle, Strand, março/abril de 1911;

The Disappearance of Lady Frances Carfax, Strand, dezembro de 1911; The Adventure of the Dying Detective, Collier’s, novembro de 1913;

His Last Bow: The War Service of Sherlock Holmes, Strand, setembro de 1917; The Adventure of the Mazarin Stone, Strand, outubro de 1921;

The Problem of the Thor Bridge, Strand, fevereiro e março de 1922; The Adventure of the Creeping Man, Strand, março de 1923;

The Adventure of the Sussex Vampire, Strand, janeiro de 1924; The Adventure of the Three Garridebs, Collier’s, outubro de 1924;

The Adventure of the Illustrious Client, Collier’s, novembro de 1924;

The Adventure of the Three Gables, Liberty Magazine, em setembro de 1926; The Adventure of the Blanched Soldier, no mesmo, outubro de 1926;

The Adventure of the Lyon’s Mane, no Liberty, em novembro;

The Adventure of the Retired Colourman, no mesmo, em dezembro desse ano; The Adventure of The Veiled Lodger, no Liberty, em janeiro de 1927;

The Adventure of the Shoscombe Old Place, no Liberty, em março de 1927.

N.B. Sir Arthur morre em julho de 1930, na sua mansão de Windlesham, no Sussex terra onde generosamente destinara que morreria também, entre flores e abelhas Sherlock Holmes.

Lista de alguns títulos de sequelas, que menciona de passagem, no “CANON”:

The Paradol Chamber Case;

The Amateur Mendicant Society; Sophy Anderson Barque Case; The Island Of Uffa;

The Camberwell Poisoning Case;

The Dead Man’s Watch Case; Colonel Warburton’s Madness; The Narbonne And Nîmes Case; The Tibet’s Cases

The Persian’s Cases; The Visit to Mecca; The Khartoum Case;

The Montpellier Research;

The Sudden Death Of Cardinal Tosca; The Canary-Trainer;

The Conk-Singleton Forgery Case; The Red Leech;

The Death of Mr. Crosby;

The Smith-Mortimer Succession Case; Huret, L’Assassin du Boulevard;

Old Abraham’s Mortal Terror; Dr. Moore Agar’s Predicament; The “Mathilda Briggs” Affair; The Knightood Affair;

The James Phillimore Case;

The Isadora Persano’s Worm Case; The Cutter Alicia;

The Non-Pareil Club Scandal; Madame Montpensier’s Defense;

The Trepoff Murder Case (Odessa);

The Strange Adventure of the Atkinson’s Brothers of Trincomalee; The Private Affair of the Royal Dutch Family;

The Adventure of Bert Stevens, the Assassin; The Tankerville Club Scandal;

The Disappearance of Mr. Etherage; The Adventure of the Dundas Couple; The Marseille Affair;

The Small Domestic Problem of Mrs. Cecil Forrester; The Charming Murderess;

The Bishops Gate Affair; Wilson’s Petty Problem;

“Le Testament Français” Affair; The Abbas Parva’s Tragedy;

The Adventure of the Tired Captain; The Laundry Shop Affair;

Colonel Carruthers’s Arrest;

The Capture of Archie Stamford, The Forger; The Morgan Affair;

The Case of the Abominable Merridew; Mr. Matthewes affair;

The Private Affair of the Royal Sandinavian Family (Sweden-Norway-Danmark ???); The Smith-Mortimer’s Heritage;

Victor Lynch, The Forger;

The Remarkable Affair of the Venimous Lizard; Vigor, The Hammersmith Wonder Affair;

The Vittoria Case;

The Case of Henry Staunton, the Promising Forger; The Case of the Hanged Henry Staunton;

Ricoletti and his Terrible Wife’s Case; The Man with the Watches;

The Lost Special;

The Case of the Two Copt Patriarchs; The Borgia’s Pearls Affair;

The Adventure of The Ferrers Document-Case; The Abergavenny Murder;

Mr. Fairdale Dobbs Dullish Affair;

The Case of The Dermatologist (Sir James Saunders Affair); The Hammerford Will;

The Istambul Mission; Young Perkin’s Murder; Old Baron Dowson’s Affair; The Cutter Alicia;

Colonel Lawrence’s Arab Mission; The Miracle of Highgate;

The Seven Watches;

The Wax Museum Players; The Red Widow Affair;

The Adventure of the Two Women; The Abbas Ruby;

Foulkes-Rath Adventure; The Deptford’s Horror; The Black Angels;

The Adventure of the Highgate Miracle; The Friesland Dutch Vessel;

John Vincent Harden’s Case; The Giant Rat of Sumatra; The Case of Emily V.;

The Vatican Cameos Case

The Singular Tragedy of the Atkinson Brothers…

Fico-me por aqui. Um homem propõe-se edificar um mundo. Ao longo do tempo povoa-o de citações, dados, estatísticas, experiências, crimes, batalhas, peripécias, carruagens, astros e até pessoas. Chegado ao fim desse modesto alinhavo de linhas descobre que desenhou a sua própria face…

Carlos Macedo

Carlos Macedo

[1] Sem contar com os erros abundantes de que todo o “Canon” está recheado. Thomas L. Stix, por exemplo, no EQMM de dezembro de 1962, aponta sete erros, contradições, deduções “tolas e erradas” apenas no conto “The Red-Headed League”. Isto em 1955 e vindo de um ilustre membro (Como Franklin Roosevelt, entre tantos) da sociedade norte-americana “Baker Street Irregulars”. A Redação do Ellery Queen’s Mystery Magazine, cruel, acrescenta-lhe, em sessenta e dois, mais um de (suprema humilhação) de aritmética elementar!

[2] A “Dangerous Drugs Acts” é de 1967

[3] 1872 – Gloria Scott

[4] 1873 – The Musgrave Ritual

[5] Vide A Study in Scarlet, I parte, pg. 17, ed. John Murray, 1929

[6] David Rowlands, “The Chemical Solution”, in Back to Baker Street, pg. 34, Ed. Sherlock Holmes Society of London, London, 1994.

[7] Bernard Davies, “Holmes and the Halls”, in The Sherlock Holmes Journal, Vol. 7, Nº 3

[8] Alexis Lecaye, Marx & Sherlock Holmes, Paris, A. Fayard, 1981

[9] A. Carson Simpson, Sherlockian studies, Philadelphia, IPC, 1953

[10] “Well, my little man, what can I do for you?” – Dorothy Sayers, “Tribute to Sherlock Holmes on the Occasion of his 100th. Birthday”, in Sherlock Holmes Societies Meeting, University of Cambridge – Sidney, Sussex College – 20/22 September 1996

[11] Julian Symons, Sherlockian Duet, Ashcroft – British Columbia, Calabash Press, 1994.

[12] Cay Van Ash, Ten Years Beyond Baker Street, New-York, 1984.

[13] Ainda que paquidérmico…

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