Biografias fictícias de lendas da literatura de crime e mistério II – Jules Maigret

Em Ribatejo Cool

Teve como pai um caseiro (“régisseur”) de um castelo de latifundiários rurais no Allier, município de Moulins (em Saint-Fiacre, mais precisamente), trabalhou, amou e viveu em Paris (Boulevard Richard Lenoir, mais precisamente) e terminou (há pouco) a sua vida em Meung-sur-Loir.

Vejamos como.

Ajudava à missa desde muito miúdo, o que o forçava a levantar-se, inverno e verão, às seis menos um quarto e o desabituou de grandes “toilettes” e higiene pessoal (por esse tempo, nem sequer os mais elementares rudimentos…).

Os patrões de Maigret, depois de gerações de República, diziam-se condes (de Saint Fiacre) e ostentavam, num meio rural, minúsculo e essencialmente conservador, ares de grandes senhores feudais. O que se refletia um pouco nas ambições de seu pai.

Queria o filho doutor, ou, se impossível, pelo menos seu sucessor como caseiro dos De Tracy de Saint Fiacre.

Embora tenha estudado um ou dois anos medicina, não será uma coisa nem outra, mas polícia. Em Paris, a maior parte do tempo, cidade que se habitou a amar e conhecer, melhor que a maioria dos parisienses de há várias gerações.

Adora vasculhar, por vezes sem necessidade, sempre com pachorra, as cervejarias ou tascas de bairro (onde bebe demasiado), pequenas lojas tradicionais ou jardinzitos de bairro.

Mas também percorre, incessantemente, o Sena, junto ao Pont Saint-Michel, o Quai des Orfèvres, o mercado de flores, junto ao seu local de trabalho: a polícia Judiciária.

Os grandes “Boulevards”, as galerias, como a Lafayette, os cais e armazéns de vinhos de Bercy, na procura de odores, cores, sabores, que lhe permitam melhor conhecer os locais onde terá que vir a ter que perceber porque alguém matou; porque alguém foi morto…

Essa pesquisa (para que utiliza, muitas vezes, as deslocações que outros crimes de menor monta o fazem deslocar por Paris), efetua-a discretamente, mal parecendo observar (com o olhar manhosamente bovino que o caracteriza), os transeuntes, os mostruários das lojas, as fachadas dos prédios, onde vigiam porteiras…

Essas perambulações por Paris, alarga-as aos locais da grande burguesia: Neuilly, onde ocupava um bonito apartamento, no Boulevard Richard-Wallace, o seu lúbrico amigo belga, ex-jornalista e escritor, um tal George Simenon; ao Parc Monceau, aos salões dos grandes hotéis (como o “Majestic”…), aos bares elegantes, como o “La Coupole”…

Quando o deixam, alarga a sua “pesquisa” humana até Porquerolles, onde resolve um esquema homicida intrincado; até ao Loire (Nevers, Moulins), chegando por causa de um feio homicídio da condessa para quem trabalhou seu pai, a voltar a Paray-le Frésil, no Bourbonnais, propriedade dos De Tracy, onde nascera.

Até a ida (muito contra vontade) a um Congresso Internacional de Polícias, em Bordéus, o faz conhecer o asfixiante ambiente de uma cidadezita de província, onde é juiz um seu amigo de juventude, um tal Chabot e onde acaba por desvendar (baseado na sua fama mediática e sem quaisquer poderes legais) uma aparente série de crimes em série, que aterrorizam a terra, para não permitir a desgraça profissional do seu amigo, incompetente e cobarde.

Depois de 1945, sem que nunca fizesse partilhar desta amarga congeminação a sua mulher (que sofreria muito mais do que ele, mas sem abrir a boca), verifica, com amargura, que muitas das cidades estrangeiras que amaria visitar, poderão ser (são-no provavelmente) meros amontoados de ruínas…

Os E.U.A., só os visitará em 15 de outubro de 1945.

É que a tragédia das duas Guerras Mundiais marcara-o profundamente.

Constata (e di-lo) que as hierarquias sociais e os níveis de relações e desigualdades entre castas, após uma ligeira alteração (“affairistas”, colaboracionistas, mercado negro) não só se não modificam, como aumentam o fosso entre ricos e pobres e os aspetos maus do viver humano.

Para (sobre)viver, até os mais honestos mentem, traem, adulam, violam princípios que, até aí, tinham como sagrados, com mais ou menos resignação ou até, com um toque pueril de provocação e cinismo. Entre o silêncio e uma certa manha provinciana, consegue manter-se à tona, durante a ocupação, sem colaborar (ou, diga-se a verdade, opor-se) com Pétain.

A Libertação, do ocupante nazi, em 1944, não é, ao que entende, muito melhor.

Em longa missiva (em que é tão avaro) ao seu colega belga Aymée Malaise, já reformado, recorda, entre três “crimes de amigos seus”, ele, que nunca foi colaboracionista (nem resistente é certo, como Malaise, que esse, fugiu para Londres e lutou ativamente na Resistência), com soturno desencanto, a repressão, por vezes sádica de fascistas, imaginários ou reais, perseguidos pela Resistência triunfante.

Simbolizada, na memória de Maigret, por uma mulher nua e de cabeça rapada, que um grupo de pessoas vociferantes persegue por uma rua, impedindo-a sistematicamente de procurar refúgio numa casa…

O estudo de costumes de potenciais vítimas e criminosos, deprime-o e os longos passeios a pé, para um homem da sua corpulência, dão-lhe sede.

E bebe. Muito, mesmo.

Cerveja (havia uns demi, os formidables, de um litro, de que sorvia habitualmente vários…), tinto, “um pequeno branquinho”, servido no balcão de zinco de um bistrot popular, whisky (sem nenhum entusiasmo), licores diversos, sobretudo o de ameixa, com uma preferência especial por um, de fabrico caseiro, oferta da sua cunhada alsaciana, de que tem sempre um amplo fornecimento em casa.

É-lhe quase impossível arrancar, a meio da noite, para dar início a um novo inquérito, sem beber um ou dois cálices, de pé, junto ao armário da casa de jantar.

Não escrevia com facilidade os relatórios a que a sua função e o odioso Juiz de Instrução e inimigo íntimo, Coméliau, o obrigavam.

Eram partos dolorosos, escritos morosamente, com um só objetivo: acabar o diabo da investigação, passar a outra!

Como era o nosso amigo, no auge da sua carreira policial? Corpulento, espesso, senão mesmo gordo (sem ser flácido), de sobrancelhas farfalhudas, cara e mãos rudes, traindo a sua origem camponesa, fumando sempre um dos seus numerosos cachimbos, com pequenas baforadas lentas e saboreadas. Depois de (antes de um interrogatório), os alinhar em filas de cinco ou seis, fumava-os sucessivamente, para que nenhum aquecesse demasiado…

Tensão arterial excessiva, um ou outro problema de colesterol, pesadão, olhos deliberadamente inexpressivos, bebedor e comedor compulsivo (nos inquéritos, sobretudo…) de todo e qualquer petisco ou cozinhado regional que lhe venha à mão.

Fatos espessos, de sarjas escuras, de mau corte e muito convencionais, mas confortáveis.

Já adulto, na Judiciária, inspetor-chefe, preste a ser promovido, ele é também um homem que se envolve em inverosímeis e grossos sobretudos, com gola de veludo preto (muito para além dos anos trinta), que o fazem mais corpulento do que é.

Começamos a visionar Jules Maigret.

Jules Maigret foi um homem que, ao longo de toda a sua vida de adulto (até de adolescente…) sempre disse, com o seu pastoso acento de Auvergnat: “Je ne juge pas; parfois, même, je ne conclue pas…”.

Sempre recusou estabelecer uma fronteira estanque entre “bons” e “maus”, talvez por não ser um genial neurótico como Sherlock ou Ellery Queen, mas apenas um homem comum, mas sensível, procurando saber as razões dos outros seres humanos, para melhor os compreender, apreender o que os motivava e adivinhar o que iriam fazer.

Diz-nos, no decurso da investigação que envolve a patética Cécile, quando um polícia americano lhe pergunta o que pensa da psicologia dos criminosos: “Avant ou après?”, concluindo, “parce que, évidemment, avant, ce ne sont pas encore des criminels, […] pendant trente, quarante, cinquante années, parfois davantage, ce sont des gens comme les autres, n’est-ce pas?”.

A explicação detalhada que se segue é das mais curiosas da ficção dita policial…

“Pourquoi un homme commet-il un crime, Mr. Spencer?

Par jalousie, par cupidité, par haine, par envie, plus rarement par besoin…

Bref, poussé par une quelquonque des passions humaines…Or ces passions, nous les avons tous en nous, à un degré plus ou moins fort.

Je hais mon voisin qui, les soirs d’été, ne manque pas d’ouvrir sa fenêtre pour jouer du chor de chasse…Il est probable que je ne le tuerai pas…

Cependant, pas plus tard qu’il y a un mois, un ancien colonial, que les fièvres rendent moins patient que moi, a tiré un coup de revolver sur son voisin de dessus, parce qu’il avait une jambe de bois et que, toute la nuit, il se promenait dans son logement, martelant le plancher de son pilon…

  • Je comprends votre pensée…mais la criminalité du criminel.

Après?

  • Cela ne me regarde pas…c’est l’affaire des jurés et des directeurs des prisons… »

Tem uma mania, quase um automatismo: sobreaquecer (com a ajuda de uma velha salamandra de ferro fundido, que adora e deplorará quando os modernismos a substituírem por aquecimento central) o gabinete onde faz os interrogatórios, que obedecem a um ritual quase paranoico: como referi atrás, os cachimbos, alinhados nos suportes, cervejas e sanduíches enviadas pela “Brasserie Dauphine”, vizinha da Polícia Judiciária, o retirar lento (como o boxeur, antes do combate), do casaco e, por vezes, do colete, o alinhar dos lápis (afiados) sobre a secretária.

Aí, Maigret sente-se verdadeiramente no seu elemento.

O relógio de mármore negro sobre a chaminé, o lavatório de esmalte com uma toalha a cheirar sempre a “cão molhado”, por trás da porta de entrada.

O odor, não desagradável, ao fumo do tabaco de cachimbo (que escolhe de boa qualidade).

É, sobretudo isso, um monstro de placidez bovina, de paciência infinita (escreveu-o o seu biógrafo, Simenon, num capítulo que intitulou “La Patience de Maigret”, Presses de La Cité), que adora o seu apartamento (alugado).

No Boulevard Richard Lenoir, ruazita que liga La Bastille ao Boulevard Voltaire, onde reina, fiel companheira de um marido- criança-grande que adora, a figura tutelar de Madame Maigret, Louise, um tudo nada gorducha, sorridente e de olhos (ainda) bonitos, excelente dona de casa, ainda melhor cozinheira e, acima de tudo, discreta e compreensiva.

Adivinha-lhe os passos na escada e espera-o na entrada, o que o comove.

Parca em grandes gestos apaixonados, adora dar-lhe o braço, quando fazem uma sortida a um restaurante, ao cinema ou ao teatro (muito raramente).

Neste oásis de serenidade, quando um crime mais urgente o chama ao Quai des Orfèvres, a mulher prepara-lhe um café fervente, que ele bebe de pé, já com um começo indefinido de impaciência, às três da manhã. Nesses casos, fecha os olhos (repito-me…) aos múltiplos copitos de licor de ameixa com que o acompanha.

Obriga-o a levar cachecol (o que não o impede de passar a vida constipado, ou mesmo com gripe…), respeita-lhe os amuos e os resmungos, quando um inquérito não está a correr a seu gosto.

Madame Maigret, a santa criatura que suporta, num episódio triste da vida do casal Lognon (Inspetor e mesquinho rival, sempre com insucesso, de Maigret, que, por seu lado, o estima e lamenta) a odiosa mulher de Lognon, um saco de bílis e inveja, que apetece estrangular.

O que, sinceramente, me espanta ainda não tenha acontecido, quer às mãos da sua porteira do merceeiro do quarteirão ou do seu médico assistente …

Quanto a amigos, um, que se sobrepõe a todos: o Doutor Pardon, médico generalista de bairro, dedicado e competente, com quem o casal Maigret janta periodicamente.

E os seus colaboradores, que lhe servem de filhos (o casal Maigret não os tem) o fiel Janvier, o incansável Lucas, o jovem Lapointe, e Torrence (cuja morte brutal nunca esquecerá) …

Neto de um caseiro de uma propriedade senhorial de indivíduos que insistem na “condição” e “título” de “Messieurs les Comtes”, talvez de Tracy De Saint-Fiacre (Orleanistas? Absolutistas?…), filho de um caseiro, já promovido a “administrador dessas propriedades” (“régisseur”), em Paray-le-Frésil, no Bourbonnais, a vinte quilómetros de Moulins, genro de um padeiro em Nantes, estudante sem licenciatura completada, funcionário público (ainda por cima da P.J.) que poderia ser politicamente? Conservador.

A sua carreira, sem ser fulgurante, é de sucesso, muito mediática (como diríamos hoje, pois resolve quase sempre os chamados crimes crapulosos dos de “cima”, que nenhum colega ousa abordar) e termina-a no cargo de Diretor-adjunto da Polícia Judiciária.

É claramente partidário da Lei e da Ordem, apartidário (o que não é muito lisonjeiro, sobretudo durante a ocupação nazi, mas reflete o que aprendeu da podridão e hipocrisia generalizadas, na classe política francesa) e manteve-se incólume e distante, nas intrigas e golpes baixos pela promoção na sua carreira na Judiciária.

Mas, curiosamente, é de uma abertura humanista e compreensiva para com os espoliados, pobres, pequenos operários ou empregados de bairro. No exercício de funções o que lhe reforça muito a simpatia e o respeito da comunicação social e do público (por consequência) pelo seu encanto resmungão.

É com Maigret que nos apercebemos, nós, os leigos, como é difícil a vida dum polícia honesto.

No inverno.

“Aqui, sentia-se ainda mais fortemente a tempestade. A chuva caia furiosamente. Para ir de um ao outro caminho era necessário mergulhar no lamaçal até aos joelhos”.

Na sordidez das pequenas pensões onde pernoita.

“Um aparador mal alumiado, paredes sujas e um balcão onde apodreciam alguns bolos secos, e onde três bananas e cinco laranjas tentavam sem êxito, formar uma pirâmide”.

Nas cidades e vilas aonde o chama alguma investigação complexa. “Fécamp? Um odor compacto de bacalhau e arenque. Restos de barris. Mastros, visíveis por detrás das locomotivas. Uma sereia, apitando, sem se saber donde. Casas mal desenhadas no dia nascente, apagadas pelo cair raivoso da chuva. Andava-se em poças viscosas, onde cintilavam escamas de peixe e onde apodreciam as suas vísceras…”

No deprimente quotidiano da sua tarefa (que é rotina, a maior parte do tempo) onde nem sequer se pode estar doente, em muitas ocasiões…

“Passavam autocarros a abarrotar. Nos passeios, as pessoas andavam a toda pressa, inclinadas para a frente, agarradas ao guarda-chuva que o vento lhes tentava arrancar”.

“Seria o calor, o entorpecimento após a refeição, o efeito dos comprimidos? Continuava a sentir a dor na bochecha esquerda, mas já nem merecia o nome de dor, transformada em prazer, uma espécie de volúpia. Dum ponto determinado, talvez o nervo do dente cariado, irradiavam vagas, como que sinos ressoando no ar, que acabavam por chegar à face, olho, têmpora, para morrer na zona da nuca. Essas vagas sentia-as crescer e dirigia-as como uma orquestra. A folhagem da tília, sobre ele, com os seus contrastes de luz e sombra, o leve balanceamento das ramagens, o voo das moscas, participavam na sinfonia, da mesma forma que a vida secreta do canal, a sua “respiração”, os reflexos na água que se espraiavam lentamente, o flutuador vermelho, a ponta de uma cana de pescador e a sombra de um chapéu de palha…”

Jules Maigret é um rural, bem assente nos pilares de duas pernas elefânticas, sólido e de ossatura forte e com uma paciência de quem mede o tempo por estações do ano, não por minutos.

Mas que inspira confiança ás pessoas. Observa, mas não julga.

Ouve muito e bem, mas fala pouco.

Cético, sem ilusões sobre os que mexem os cordelinhos da vida social, sem classificações pré-estabelecidas sobre a psicologia de criminosos e vítimas.

Mais do que investigar, “impregna-se” do ambiente dos crimes… Porque ama profundamente a vida. Com uma felicidade animal, quase.

O raio de sol que brinca na secretária do seu gabinete, o vinho branco, quase esverdeado que bebe, numa manhã quente, no balcão de zinco de uma taberna do Quai de Bercy, o arrumar com antecipação dos cachimbos que irá utilizar nesse dia…

E não é neutro nem hipócrita. Simpatiza com os médicos, odeia os magistrados.

Sabe-se filho de um caseiro, mas não admite (quase partira quase os dentes a um amigo de infância do liceu Banville, em Moulins, que disse, sem pensar, que o seu pai “era assim a modos que um criado” …) que degradem a dignidade social do estatuto com que revestiu a memória de seu pai…

Maigret é isso: reivindica a sua ascendência de plebeu, mas recusa a sujeição de “empregado” …

Numa palavra, Maigret, ao contrário do que muitos poderão pensar, na sua rua, por exemplo, resignou-se e é mesmo muito feliz na sua condição de “francês de classe média”.

Certa vez, disse-lhe Simenon: «Racontez n’importe quelle histoire à quelqu’un. Si vous ne l’arrangez pas, on la trouvera incroyable, artificielle. Arrangez-là, et elle fera plus vrai que nature».

É, pois, com um sobretudo de gola de veludo preto (que começou a usar, por pouco tempo, pensava, em 1927) e um chapéu de coco que, mesmo na sua distante juventude, só enfiava na cabeça em enterros e cerimónias oficiais, que Maigret ficará retratado para a posteridade.

Paciência. Teve que se resignar aos caprichos criativos do belga.

É que a ele, nunca lhe passaria pela cabeça escrever autobiografias, “Memórias auto-justificativas” ou estudos da sua própria infância.

Reformado, na sua quintarola de Meung-sur-Loire, esperando a morte sem amargura, enquanto planta as suas alfaces e rabanetes, sente-se bem consigo próprio…

No entanto, lastima um pouco que, pensando nele, o vejam apenas, deformado pelos olhos (pérfidos) de Georges Simenon…

                  Jean Gabin
Jean Richard
Bruno Cremer

          É vasta a galeria de monstros sagrados que personificaram Maigret no cinema… E é de acreditar que muitos mais se seguirão.

Carlos Macedo

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