Confronto de gerações – O futuro da Europa

Em Opinião

Artigo desenvolvido no âmbito do 64.º aniversário do Tratado de Roma que se celebra a 25 de março.

Inicialmente, a Europa foi pensada e construída por pessoas que temiam a guerra e a destruição, e nos dias de hoje crescemos a estudar essa história, mas percebo que a observamos com um enorme distanciamento. Os jovens de hoje, crescem na bolha da internet, num mundo conectado. Nós, jovens, crescemos rodeados de facilidades que para os nossos antepassados próximos seriam impensáveis. Sabemos também, que o futuro do mundo está nas mãos dos jovens, que seremos nós, os adultos que farão, amanhã, o mundo girar. Ou melhor, a economia, a política, a educação (girarem)…  E por isso, a sociedade em que viveremos está nas mãos de todos nós, mas essencialmente, nas mãos das gerações mais jovens. E é preciso ter isso em mente.

No entanto, antes de divagar pela filosofia por detrás da questão, vamos antes entender as diferentes formas de ver o mundo de cada uma das gerações, para que depois se possa pensar em como essas visões afetaram e irão, no futuro, moldar a Europa.  Isto porque é interessante pensar, primeiro:  em como os jovens de hoje em dia – que nasceram na era da globalização e, mais em concreto neste tema, numa Europa sem fronteiras – vêem o mundo. Por outro lado, como é que as gerações anteriores às nossas olham para o mundo, nomeadamente a geração que vivenciou a edificação da Europa – que acreditava numa união entre os Estados e necessitava de seguir esse caminho –; e por último: pensar como é que as crianças, a geração Alpha, irá ver o mundo e qual será então o nosso futuro.

Antes de tudo, partimos do princípio de que os conflitos de gerações são também necessários para evoluir – no sentido em que a sociedade evolui paralelamente com as novas perspetivas e pontos de vista. Por outro lado, são igualmente indispensáveis para a transmissão de conhecimento entre gerações. Em suma, são conflitos, em regra geral saudáveis, provocados pelas diferentes visões de pessoas de idades distintas.

Ora, de uma forma breve e a título de curiosidade:

  1. A Geração dos Baby Boomers corresponde às pessoas nascidas durante o período após-Segunda Guerra Mundial. É uma geração caracterizada por ser idealista, disciplinada e por ter espírito coletivo. Foi responsável por iniciar as lutas por direitos civis e políticos.  Todavia, é uma geração que não cresceu num mundo acelerado e, portanto, costuma ser mais resistente a mudanças. Priorizam, essencialmente, a estabilidade e segurança;  
  2. Já a Geração X – Cresceu no período da Guerra Fria e ainda guardam muitas das características dos Baby Boomers, como a busca pela estabilidade. Em contrapartida, é mais cética e perdeu um pouco do senso coletivo, tornando-se mais individualista;
  3.  A Geração Y – Foram os últimos conhecer um mundo sem internet, mas cresceram num tempo de transformações mais rápidas e intensas do que acontecia nas décadas anteriores. Mais tarde, assistiram à explosão da internet, à expansão da tecnologia e à globalização. Viram o mundo acelerar. Os millennials caracterizam-se por serem mais flexíveis às mudanças e priorizarão a realização pessoal e as causas socias e ambientais. Note-se que são uma geração intermediária, uma vez que, agem como uma ponte entre as gerações mais jovens e as mais antigas;
  4. No que diz respeito à Geração Z – Estes nasceram (ou já eram adolescentes) na viragem do século (por volta do ano 2000). Já nasceram num mundo conectado e são chamados os ‘nativos digitais’, sendo que estão constantemente conectáveis e não diferenciam o online do offline;
  5.  E, por fim, a Geração Alpha – Atualmente até com 10 anos, as crianças da geração Alpha relacionam-se naturalmente com a internet e com qualquer tipo de tecnologia. Acredita-se que estará associada ao avanço da inteligência artificial, vivendo assim num mundo onde a tecnologia está cada vez mais integrada no dia a dia.

Por fim, note-se que as separações geracionais são apenas tendências que identificam grande parte do grupo e não podem, de todo, ser generalizadas.

É-nos aqui possível fazer um ponto de ligação às diferenças de ponto de vista entre a geração que ergueu a Europa, para com as gerações que a usufruem. No período pós-guerra, a Europa ficou devastada e as pessoas procuravam a segurança. Existia a necessidade de união, e apenas assim seria possível a Europa se reconstruir e se levantar firmemente, como se sucedeu. Não nos é permitido então, esquecer os valores que estiveram na génese da atual União Europeia, que entregaram às gerações seguintes, uma comunidade livre e segura. Importa também mencionar que a Europa, como a conhecemos hoje, não surgiu e se posicionou da noite para o dia. Na verdade, foi-se construindo ao longo do tempo, ‘’fez-se com realizações concretas’’ – a ideia de partilha da produção e do aço entre a Alemanha e França (CECA) em 1951; a criação da Comunidade Económica Europeia (CEE) e a criação da comunidade europeia da energia atómica (CEEA) em 1957; o Ato Único Europeu de 1986; o Tratado da União Europeia de 1992 – e muitos outros pequenos grandes passos que nos permitem viver e usufruir da Europa dos dias de hoje.

Justamente, regressando aos dias de hoje, a Europa (e o mundo) continua a defrontar uma ‘guerra’ contra a pandemia COVID-19, e a situação atual obriga a alguma reflexão. A solidariedade que se observou na União Europeia foi inigualável. Houve interajuda entre os países membros, mobilizaram-se recursos, encontraram se respostas em conjunto…! No entanto, também é verdade que esta situação chegou com grandes desafios e trouxe à tona outros problemas já existentes. Estará a União Europeia adaptada aos desafios de hoje? Está a União Europeia a salvo de lutas internas e posições nacionalistas por parte de Estados Membros? Existem muitas questões a levantar e debater, certamente… Contudo, passarei ao tópico das soluções. De facto, a Comissão Europeia apresentou propostas de opções para o futuro da União, e o tema tem vindo a ser objeto de debate. No entanto, pretendo abordar o tema de outro prisma. Isto é, todos sabemos que os objetivos passam pela liberdade, segurança, igualdade de oportunidades e por uma economia sustentável, mas para alcançarmos tudo isto, teremos grandes desafios pelo caminho, num futuro bem próximo. As gerações mais jovens procuram tudo isto precisamente! Sonham viver numa Europa marcada pela igualdade entre os Estados… que lhes ofereça a igualdade nos acessos à educação, ao emprego…, e uma economia eficaz, longe do que temos visto.   

De um modo geral, e relacionando com o tema proposto, creio que existam aqui dois caminhos.

O primeiro cenário é a Europa onde não queremos viver. A falta de empatia que tem caracterizado o mundo, pode vir a caracterizar a Europa e destruir tudo o que foi construído? Pode o individualismo, presente no mundo de hoje e, consequentemente, presente nas gerações mais jovens, falar mais alto? Poderá dar-se de novo lugar a movimentos nacionalistas? Poderá isto conduzir para o afastamento por completo das gerações mais jovens da política? É todo um cenário a evitar.  Acrescenta-se ainda a esta exemplo, a falta de cooperação entre as gerações, e suponha-se que os conflitos geracionais conduzam a mais separação e divisória. Assim, creio que exista aqui uma responsabilidade inerente à geração Y. Isto é, acredito que a geração Y tenha a responsabilidade de fazer, necessariamente, a ponte entre as gerações mais jovens e as anteriores, de modo a continuar a prezar os valores de solidariedade e união, mas também, de modo a integrar, cada vez mais, as gerações mais jovens. Sendo que, estas trazem consigo ideias inovadoras, causas sociais e soluções e práticas capazes de combater os desafios com que já hoje nos deparamos.  

Por outro lado, acredito que mesmo com todos os desafios políticos, económicos, estruturais, a União Europeia tem também em si, e nos seus valores, a capacidade para se readaptar aos problemas e às novas gerações. Sigamos assim pelo segundo caminho! Neste, onde optamos por recordar as lições do passado… O que nos trouxe até aqui – cidadãos livres dentro de uma União Europeia sólida e inovadora. Neste cenário, usaríamos a digitalização e a tecnologia a nosso favor e também a determinação pelas causas ambientais e sociais das gerações mais jovens. Estas, capazes de mobilizar multidões, cada vez mais divida e com polos mais distintos. Tudo isto, juntamente com o espírito de equipa, de solidariedade e união, das gerações que comandaram a UE e continuam hoje no comando. É estritamente necessário fazer-se esta ponte, esta ligação. Desta forma, moldaríamos uma Europa às necessidades que se avizinham e a manteríamos forte, eficiente, mas, ainda mais importante, unida.

Por último, confesso: que assim seja! Que as próximas gerações também possam viver numa Europa unida, numa Europa que honra os seus valores. E que seja este, o maior motivo de orgulho de todas as gerações, e de todos nós – cidadãos europeus.

Daniela Barros  
Estudante de Direito da Universidade Europeia de Lisboa    
Daniela Barros, Estudante de Direito da Universidade Europeia de Lisboa    

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