O sindicalista Miguel Russel, “secretário-geral” do PCP nascido em Santarém

Em Opinião

            I.

            Miguel Wager Russel nasceu em 1908 na cidade de Santarém (em pleno centro histórico, no nº 10 da Travessa do Fróis).

            Seu pai, natural de Lisboa, provinha de uma família abastada e conservadora, com ascendência inglesa: era até afilhado de “sua alteza” o exilado “príncipe” D. Miguel II de Bragança (filho do último rei absolutista, D. Miguel I, e avô do atual pretendente ao trono, Duarte Pio de Bragança).

            Engenheiro de obras públicas, o pai do futuro dirigente comunista rebelou-se contra estas origens tornando-se militante republicano e maçon, ainda no tempo da monarquia. Já a mãe era natural de Abrantes, filha de um alfaiate e irmã de um padre.

            II.

            Miguel Russel cresceu entre o Ribatejo, a China (Macau) e o Porto, por onde a família foi vivendo em função do trabalho do pai, que veio a falecer quando ele apenas tinha 17 anos de idade. E foi já como jovem trabalhador, em Lisboa e em plena ditadura militar, que Miguel Russel se tornou um resistente antifascista.

            Começou por aderir em 1930, à secção portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, uma organização de solidariedade dedicada a apoiar presos políticos e as respectivas famílias – e a denunciar a repressão.

            Tornou-se também ativista de um sindicato, a Associação de Classe dos Empregados de Escritório – em cuja sede tinha sido fundado o Partido Comunista Português, em 1921. Neste sindicato, Miguel Russel foi um dos responsáveis pela defesa da lei que limitava o horário de trabalho, uma lei conquistada em 1919, depois de muitas lutas de trabalhadores, mas que na prática era muito torpedeada. Estava-se já nos últimos tempos em que a ditadura ainda permitia o funcionamento de sindicatos livres, antes de decretar a sua dissolução forçada, em 1933.

            Miguel Russel ainda chegou a ser 1.º secretário da assembleia geral deste sindicato, sob a presidência de Manuel Vieira Tomé, histórico empregado ferroviário que veio a ser assassinado, torturado até à morte, pela PIDE, em Abril de 1934.[1]

            III.

            O Socorro Vermelho era uma estrutura ligada ao PCP. E Miguel Russel aderiu a este partido em 1931. Logo nesse ano teve uma primeira experiência como preso político, durante um mês. Assumiu responsabilidades na direção da secção portuguesa do Socorro Vermelho e não tardou muito a ter que passar à clandestinidade, para escapar à perseguição policial. Em 1932 foi à Rússia, como delegado a um congresso mundial do Socorro Vermelho Internacional. Em 1934 foi a França procurar apoios à resistência em Portugal. E nesse ano voltou a ser preso político, desta vez em Espanha, onde estava de passagem.

            Sob a liderança de Salazar, o que tinha começado por ser (em 1926) uma ditadura militar transformou-se numa ditadura de tipo fascista, com um nível de repressão muito agravado, sobretudo contra lutas e organizações de trabalhadores. Em Novembro de 1935, a PIDE conseguiu capturar todos os três membros do secretariado do comité central do PCP: Bento Gonçalves, José de Sousa e Júlio Fogaça.

            Um ano depois, todos eles eram prisioneiros no campo de concentração do Tarrafal, criado pela ditadura de Salazar em Cabo Verde. E Bento Gonçalves já não saiu de lá com vida. Ali morreu aos 40 anos de idade, assassinado como outros, com maus tratos e torturas, com subnutrição, com exposição deliberada a doenças tropicais e com negação de cuidados médicos adequados.

            IV.

            Nesse período particularmente difícil, depois da prisão de Bento Gonçalves e apanhando ainda o início da guerra civil espanhola, foi Miguel Russel quem assumiu interinamente as funções de secretário-geral do PCP. Durante cerca de seis meses, ele deu esse destacado contributo para a continuidade da resistência à ditadura – e do partido que neste ano de 2021 celebra o seu centenário.     

Segundo o “acto de acusação” com data de 12 de Março de 1940, do “Tribunal Militar Especial de Lisboa”, Miguel Russel “em novembro de 1935 passou para o cargo de secretário-geral do PCP, substituindo Bento António Gonçalves, dirigindo então toda a política subversiva do partido comunista, superintendendo na publicação do Avante, escrevendo para ele artigos de agitação e propaganda, etc. e aí esteve até Maio de 1936, data em que foi afastado pelos restantes membros por discordâncias entre eles”. [sic]

            IV.

            Já depois de deixar a liderança do PCP, em Setembro de 1936, Miguel Russel esteve envolvido na revolta de marinheiros da base do Alfeite, em Almada. Era aliás cunhado de um dos principais dirigentes dessa revolta antifascista, Oliver Bártolo.

         Miguel Russel, foto do Arquivo PIDE/DGS, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

            Miguel Russel continuou ativo na resistência clandestina até que, em Abril de 1937, foi por sua vez capturado pela PIDE. Passou alguns dias na prisão do Aljube, em Lisboa, e foi rapidamente deportado para o campo de concentração do Tarrafal. Lá ficou quase nove anos da sua vida. Lá viu morrer trinta dos seus companheiros de cativeiro, incluindo o já referido Bento Gonçalves e também Mário Castelhano, anarquista e antigo secretário-geral da CGT(Confederação Geral do Trabalho).[2]

            Saiu em 1946. E emigrou depois para Moçambique, onde refez a sua vida. Ali permaneceu uma referência da oposição antifascista.

            Logo a seguir ao derrube da ditadura, a 25 de Abril de 1974, Miguel Russel surgiu como dirigente do Movimento dos Democratas de Moçambique, que defendeu a independência e a transição de poder para a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique).

            Somando o cativeiro no Tarrafal à sua migração para Moçambique, Miguel Russel viveu quase metade da sua vida em África.

            Já depois da descolonização, regressou a Portugal e veio a radicar-se no Seixal. O seu ativismo prosseguiu, passando a consagrar-se à defesa da memória da resistência à ditadura. Em Fevereiro de 1978 esteve envolvido na transladação de Cabo Verde para Lisboa dos restos mortais dos seus companheiros mortos no Tarrafal. Em 1979 participou em celebrações do 25 de Abril junto de emigrantes portugueses na Alemanha Ocidental, na Bélgica e no Luxemburgo. Ainda nesse ano de 1979, foi um dos 57 delegados de 22 países que participaram nas comemorações do “Dia internacional de homenagem às vítimas do fascismo”, que se realizaram na Alemanha de Leste. A partir de 1985, figurou como diretor do boletim da associação URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses). Permaneceu militante do PCP até falecer, em 1992.

            VI.

            A nível literário, Miguel Russel deixou um livro de memórias sobre o Tarrafal, Recordações dos anos difíceis (Edições Avante, 1976), e foi um dos colaboradores da obra coletiva Tarrafal: testemunhos (Editorial Caminho, 1980). Depois da sua morte, foi publicado um segundo livro de memórias, As minhas actividades no Socorro Vermelho Internacional e no Partido (Edições Avante, 2008).

            Segundo revelou neste último livro, ele foi também o tradutor da obra Conspiração contra a Paz (publicada em 1947 com o apoio da revista Seara Nova). De autoria dos jornalistas anti-fascistas norte-americanos Michael Sayers e Albert Kahn, trata-se de uma análise sobre a política externa da Alemanha Nazi no período que antecedeu a 2ª Guerra Mundial.

            VII.

            No passado mês de fevereiro, numa iniciativa de celebração dos 90 anos do jornal Avante, o atual secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, recordou o nome de Miguel Russel como um dos camaradas que, durante a resistência à ditadura, “tiveram as suas vidas profundamente ligadas à grande batalha da imprensa clandestina”, ao lado dos nomes de figuras como Bento Gonçalves, Alberto Araújo, Pável (Francisco de Paula Oliveira), Júlio Fogaça, Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues, Joaquim Pires Jorge, António Dias Lourenço, Fernando Blanqui Teixeira, Jaime Serra, Joaquim Gomes e Octávio Pato.[3]

            Pela acção que desenvolveu, nomeadamente na direção do Socorro Vermelho e como secretário-geral interino do PCP, Miguel Wager Russel pode bem ser apontado como um dos mais destacados resistentes antifascistas portugueses nos meados da difícil década de 1930.

            Numa altura em que o fascismo aqui intensificava a repressão e lá fora invadia a Etiópia e lançava Espanha numa sanguinária guerra civil, alastrando à conquista do mundo – como uma “peste”, na alegoria do escritor Albert Camus.

Luís Carvalho

            * Com um agradecimento a Jorge Wager Russel, filho de Miguel Wager Russel.


[1]    Em 1934, o que depois se celebrizou como PIDE (“Polícia Internacional de Defesa do Estado”) tinha uma designação diferente: PVDE (“Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). Mas já era a mesma estrutura com a mesma função.

[2]    Sobre Mário Castelhano, ver o testemunho deixado por Miguel Russel, já anteriormente evocado no Mais Ribatejo, aqui: https://maisribatejo.pt/2020/10/13/mario-castelhano-foi-assassinado-ha-80-anos-o-testemunho-de-miguel-wager-russel/

[3]    “Intervenção de Jerónimo de Sousa, secretário-geral [do PCP], Lisboa, sessão «90.º ANIVERSÁRIO DO AVANTE!» – 15 Fevereiro 2021”, aqui: https://pcp.pt/90o-aniversario-do-avante-jornal-que-da-voz-luta-organizada-dos-trabalhadores-das-massas-populares

1 Comment

Leave a Reply