Páginas douradas do teatro amador da vila de Constância

Em Ribatejo Cool

Neste dia mundial do teatro, façamos uma breve súmula das memórias do teatro amador da vila de Constância, um período recheado de algumas décadas de oiro, com os cortes da censura pelo meio. Que marcou para sempre várias gerações de constancienses.

Do velhinho teatro, demolido pelo poder autárquico, resta a memória e um mamarracho inútil que só serve para convenções partidárias… mas adiante…

A inauguração do cine-teatro de Constância é referida num programa de 31 de Julho de 1932,  com a Comédia “A roca de Hércules” e “Está cá o Augusto”,  entre actos de variedades. Este programa foi publicado num Boletim Informativo da Santa Casa da Misericórdia, nos anos 90. Existe ainda a cópia do discurso de inauguração. Pela leitura do texto manuscrito consegui deduzir que foi escrito pelo então presidente da Comissão Administrativa Municipal, o cineasta amador, Mário Mendes Lopes

Porém, já nos anos 20 do século XX se produziam espectáculos sob a égide do antigo “Sport Club Estrela Verde‘, fundado nessa mesma década. Ouvi vários testemunhos nesse sentido. E tenho um desses programas, onde é anunciada a peça “Constância por dentro“, do velho professor Pinho. Cheguei a conhecer uma sua aluna, no caso, a antiga artesã das “Monas de Constância“, Ana Botas.

Podemos recuar ainda mais, ao século XIX. Uma prima minha nascida na última década dessa centúria falou-me dos teatros em que se representavam números sobre os “tresmalhos” e as “bonecas” de que ouviu falar. Chamava-se, Florinda, a minha prima.

À praça da vila também vinham saltimbancos pois tenho uma foto antiquíssima com um grupo a actuar no largo, defronte da antiga capela do Passo demolida pelos republicanos fanáticos. A vila era pródiga em clubes e associações. Havia, por exemplo, o “Clube Tejo” e o “Primeiro de Maio“. Em 1910 houve um espectáculo de transformismo do “Teatro Instrução e Recreio‘.  Os preços eram os seguintes: cadeiras, 120 réis; geral, 80 réis.

Há, por conseguinte, uma tradição do teatro amador, anterior aos anos 30. É curioso o facto da rua contígua ao cine-teatro, na parte baixa, se ter designado “Rua do Arlequim‘, essa personagem da “Commedia dell’arte”, cuja função no início se restringia a divertir o público. A toponímia é parte da memória colectiva e deveria ser mais valorizada.

– Maestro e produtor de operetas e teatro amador Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho.

Os anos 30, 40, 50 e 60 foram especialmente  ricos em produções seja de operetas, dramas, revistas (anos 50), comédias, e números de variedades. Recordo aqui nomes como Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, Mário Guilherme de Sousa (“Mário Serrão”), Zulmira de Sousa, o professor Basso, Meira Burguete, em particular. Nos anos 70 e 80, surgiram vários grupos sob a batuta de Joaquim Santos, um discípulo de Carlos Silvares de Carvalho já referido. Foram os casos do grupo cénico Estrela Verde e de “Os Diabólicos“.

Grupo de teatro de Constância dos anos 30. À direita está Mário Guilherme de Sousa (Mário Serrão) e ao lado agachado está o meu avô Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho. Recordo com saudade as conversas com a D. Zulmira Sousa sobre este grupo fantástico que tanto trabalhou para o Concelho, voluntariamente, angariando fundos para a Misericórdia, Hospital, Caixa Escolar, Bombeiros, etc. Tenho algumas cartas trocadas entre Mário Serrão e o meu Avô que são um exemplo mútuo de cortesia, educação e altivez.

Tive o privilégio de participar em dezenas de produções nesta última época e, finalmente, na homenagem  póstuma que promovemos a Joaquim Santos, nos anos 90. Após o 25 de Abril, o próprio Joaquim Santos havia promovido, com o seu grupo cénico,  mormente, uma homenagem ao seu mestre de teatro amador.

Revista em dois actos “Constância é assim”, aprovada pela comissão da Censura “com um corte”

Deste autor, Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, existem na Torre do Tombo, por exemplo:
Constância vista por dentro” – Revista em um acto e quatro quadros da autoria de Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, aprovada com um corte para ser representada em Constância. Inclui uma fotografia panorâmica de Constância. Data de produção: 1952. Secretariado Nacional de Informação, Direcção Geral dos Serviços de Espectáculos proc. 4373.
Amores de aldeia” -Opereta em um acto da autoria de Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho para ser representada em Constância. Data de produção: 1952. Secretariado Nacional de Informação, Direcção Geral dos Serviços de Espectáculos proc. 4374.
Amores de um fidalgo” – Opereta em um acto com letra e música de Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, a representar em Constância. Data de produção: 1960. 
Outras obras do mesmo autor :
A filha do Barqueiro” – Opereta  musicada por Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, com texto de José Paulo Fernandes Júnior. A acção passa-se nos arrabaldes de Coimbra. Produção: 1945.
Comédia “Do antigo ao moderno“. De Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho. Censurada pela Comissão de Censura. Tenho o original com o carimbo e censura. Após o eclodir da Revolução foi levada à cena pelo grupo cénico do C.E.V.
Drama “A marquesa do Vale Escuro‘.  De Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho. Inédito na posse da viúva do meu saudoso padrinho do crisma.
“Comédia “Viver não custa“- um êxito nos anos 50. Curiosamente, nos anos 80 voltou a cena dezenas de vezes, sob o patrocínio do INATEL. 


José Luz

(Constância)

PS- não uso o dito AOLP


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