Fresco enigmático descoberto na igreja onde Malhoa trabalhou

Em Ribatejo Cool

A  descoberta  não noticiada de uma pintura com a estrela de vergina, na igreja de Constância,  terá acontecido durante um restauro de um altar, no final dos anos 90.  Este restauro, do altar de Nossa Senhora da Piedade,  inseriu-se num conjunto de  várias intervenções (restauros da pintura do altar de Nossa Senhora da Conceição, de Domingos Sequeira, da Última Ceia, de Pedro Alexandrino, limpeza da cantaria da Torre, entre outras obras).
As fotos deste artigo que mão amiga me facultou, testemunham a existência à data de um fresco que a nossa fonte admite ser uma espécie de estilização da estrela de Belém. O fresco, da natividade (?)  parece apresentar os contornos de uma estalagem?  A estrela de vergina como inspiração? Talvez. É esta a opinião de um pintor/ restaurador com quem falei.

Altar de Nossa Senhora da Piedade onde é visível um fresco pintado na parede interior e descoberto nos anos 90. Actualmente, já não existirá (?). O altar tem uma teia a imitar um retábulo. 

A descoberta ocorreu por ocasião da substituição de uma tela do citado altar de Nossa Senhora da Piedade.  Após ter sido fotografado, o fresco terá sido objecto de intervenção apressada por trabalhos de trolha.   Será que ainda vamos a tempo de alguma recuperação? Diz quem viu que a parede foi picada e que já nada resta. 

Os contornos deste assunto não chegaram então à imprensa e só vêem agora a luz do dia…. Tenho memória de mandar lá um jornalista mas a peça que publiquei apenas versava sobre a substituição da tela que imita a madeira.

Após a implantação da República as verbas que existiriam para o retábulo para este altar e também para concluir o Torreão norte do sumptuoso templo, terão sido desviadas para a construção do edifício da Escola Primária. Dizia-se isto na vila antigamente. Este fresco “mal descoberto ” estava escondido por detrás da tela fingida e dizem-me que  há ali uma datação algures coincidente com a passagem de José Malhoa pela igreja, de um antigo restauro.

Sabemos que Malhoa pintou um quadro para além da tela do tecto. Essa notícia chegou-nos  através duma informação de um assento  por causa da apólice do seguro da obra “O prior de Constância”  naufragada com o espólio da exposição  Universal de Paris no desastre nacional do Santo André. Em 1901 o vapor que trazia de volta as obras  expostas em Paris não terá resistido às intempéries do mar e pela sua fraca solidez afundou-se com  pesar geral defronte da lendária Sagres.  Em abono da verdade  devo dizer que foi um primo meu, o Provedor da Santa Casa, que me deu a dica do quadro do “Prior de Constância” pois ouvia a avó contar a história do naufrágio.

Segundo os críticos há uma misteriosa trilogia por desvendar. “O pintor, a criada do Casal dos Pintainhos, o prior.” O prior, sabe-se era o João Alves de Meira, o padre que se esquecia de registar os sacramentos que ministrava. Quando iam para casar havia noivos que logo davam conta de não estarem baptizados. 

A suposta estrela de vergina.

É deveras singular a circunstância de ter existido em Constância uma estrela de vergina. Sabe-se que a sua utilização até aos anos 70 do século XX se resumia a elementos decorativos. Ora, este ícone religioso em Constância, aparenta ser mais do que isso. Um símbolo religioso?  Da Virgem Maria? O Sol (Jesus)? O fresco será da Natividade? Há que estudar o assunto. E inserir este tema na história da nossa igreja. A cristianização de um símbolo da realeza macedónica?

Sabe-se que até ao início do século XX existia na vila uma tradição directamente ligada à Natividade: a do Menino Jesus. Todos os anos o Menino era entregue a uma família onde eram confeccionadas vestes bordadas a ouro. E a imagem ia passando de casa em casa. A última festa foi em grande. Dela tive conhecimento pela filha do anfitrião, no caso a minha prima Maria do Céu Pirão.  O seu pai, António Pirão, curiosamente, era ateu. 

A estrela andará associada, no cristianismo, à Virgem. Após aturada pesquisa, encontrei essa associação surpreendente. 

A nossa fonte informou-nos existir reporte no Instituto José Figueiredo, nomeadamente, da descoberta e intervenção posterior que aqui menciono.

Quanto à misteriosa trilogia… Malhoa terá pintado o retrato do padre, à borla. Para levar ao Salon de 1899. A criada do Casal dos Pintainhos… terá ido com ele logo que terminada a empreitada do quadro do tecto da matriz de Constância. 

Quem quiser e souber, que investigue.   

José Luz

(Constância) 


PS- não uso o dito AOLP

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