Biografias fictícias de lendas da literatura de crime e mistério (4) Jane Marple

Em Leituras

TENTATIVA DE JUSTIFICAÇÃO

Não aspiro a ser arquivador de figuras que marcaram o penoso percurso da Humanidade ao longo dos tempos.

Diz a denominada sabedoria popular que a história das guerras, fizeram-na apenas os vencedores. E que as biografias de pessoas que se diz terem merecido menção, em estudos e memórias de laboriosos académicos, são ainda mais falsas que as que alguém conjetura sobre heróis de histórias infantis ou de ficção de crime & mistério.

Parafraseando Jorge Luís Borges (em “El Informe“) direi que estes relatos de vidas, “querem distrair ou comover, não persuadir“….

Não me atrevo a afirmar que são exatas (de novo Borges: pois não há na terra uma página, uma única palavra que o seja – “El Informe de Brodie“).

Posso garantir, sim, que me deu grande alegria escrevê-las.

IV Jane Marple

“Inertia does not suit me…”

Jane Marple

“You have a theory? asked Inspector Neele, “as to who put the taxine into Mr Fortescue’s marmalade?”.

“It isn’t a theory”, said Miss Marple. “I know”.

Uma provinciana celibatária, ultra-sedentária, titular de uma educação burguesa para jovens como deve ser na época vitoriana…

Um pouco ridícula, comovedoramente ridícula, na sua maneira de lidar com o incompreensível mundo dos anos trinta-sessenta do século XX…

Jane Marple, de quem me proponho agora falar, resolveu, ao longo da sua vida, (e apenas refiro os casos mencionados pela sua fiel biógrafa, Agatha Christie) dezenas e dezenas de homicídios, roubos, casos graves de chantagem, falsificação, burla e estou a resumir para não parecer um gascão biógrafo…

Apresenta-se-nos, manhã cedo, já banhada, irrepreensivelmente arranjada e logo muito ativa.

Uma anciã encantadora, de faces rosadas e olhos azuis, marcada pela artrite e outros ultrajes da velhice, de ar frágil e comovedoramente terno. Habitualmente.

Mas, outras vezes, qual Mr. Hyde, transfigura-se numa virago puritana, num Jean Calvino gélido de saias, perseguindo de forma impiedosa as aranhas humanas que, no meio das folhas mortas da sociedade, espalhavam o seu horror, a sua lama, a sua cupidez, a sua crueldade.

Que não podiam ser deixadas à solta, entendia, pois com elas vinham o sofrimento e a morte de outros.

Uma Nemesis, como lhe chamou o seu amigo Mr. Jason Rafiel, a que deve um chorudo capital (que lhe deixou em testamento), com o qual se lhe arredondam os fins do mês e lhe permite comer perdiz (que adora) com uma frequência decente.

Dotada de uma inteligência viva, que a não abandona até ao fim, de um espírito lógico e inquisitivo, vai onde a polícia oficial não chega. E também beneficia, a título gracioso, de uma rede informal de informadores, na aldeia onde vive, ao serviço da sua curiosidade devoradora, num voyeurismo compulsivo, que a força a querer saber tudo sobre todos.

Os criminosos, profissionais ou amadores, tendem a subestimar aquela velhota distraída, de raciocínios aparentemente senis e embrulhados, que os iludem por completo.

A própria polícia, sobretudo o grosseiro Inspetor Slack, também não a leva muito a sério…

Margaret Rutherford foi a primeira a interpretar Miss Marple no cinema

Os seus sóbrios vestidos formais de brocado negro, nos jantares em que se senta, muito direita, como impõe a etiqueta, alegrados por um lenço de renda de Malines, tombando sobre o busto, os “saia e casaco” de verdadeiro tweed, os seus práticos (e tão em conta…) chapeuzinhos de veludo, o discreto camafeu de grande valor, herdado de uma tia “early victorian” ou o discreto (mas caro) colar de pérolas verdadeiras, as encantadoras blusas em tons suaves de rosa ou pastel, os mitenes de renda negra que nunca a abandonam, o xaile de Shetland sobre os ombros, são a sua “marca” distintiva.

Tudo isto, realçando um cabelo branco como a neve, sem quaisquer artifícios, uns olhos azuis pálidos e uma postura algo rígida, mais pelo toque de artrite que a aflige do que por boa educação vitoriana.

Tudo isto se enquadrou maravilhosamente com a expressão gentilmente compreensiva, a fascinante timidez inquisitiva (“birdlike”) que Joan Hickson tão fielmente corporizou, na série da ITV – TV, dos anos oitenta.

Imagina-se logo que o seu enorme saco de mão (que nunca a larga) tem dentro o Universo: tesouras de unhas, aspirinas, um guia de caminhos de ferro e selos de correio, um livro de salmos (low Church), lenços de reserva e um cachecol de cachemira, saca-rolhas e um tricot a meio, com as respectivas agulhas.

E, se necessário, uma Divisão de infantaria. Equipada.

Geraldine McEwan interpretou a Miss Marple na série televisiva entre 2004 e 2008

Tricota interminavelmente, uns amores de coisinhas, azuis-céu ou rosa-pálido, para vagos bebés de sobrinhas-netas (de que tem um número incomensurável, que daria para repovoar a Índia de ingleses). Enquanto medita.

Incansavelmente.

No entanto frágil, inspirando imediata simpatia misturada de compaixão, magra e diminuta, dotada de maravilhosos olhos de um azul cerúleo, uma expressão faceta, virando a cabeça ao falar, como uma cacatua amigável. Até ao momento em que os olhos se gelam como o Polo Ártico, o tom perde a gentileza e surge a impiedosa analista de todo o mal de que o ser humano é capaz, incapaz de recuar, a Nemesis como lhe chamava o falecido multimilionário Jason Rafiel.

A atriz Julia McKenzie foi Miss Marple de 2009 a 2013

Imaginamo-la como uma tia terna, mas sem ilusões sobre a incomensurável maldade humana; uma velhota compreensiva ouvindo compreensivamente confidências num banco de jardim em St. Mary Mead, mas mais cínica que Voltaire.

Tem sentimentos, defeitos muito humanos, relações complexas com parentes, conhecidos e amigas de paróquia e suscita, por sua vez, ódios e admirações (paixões?) que duram uma vida.

Quanto ao seu método de investigação resume-se em duas palavras: analogia e experimentação.

Com base no empirismo, na observação e na classificação dos factos que lhe é dado conhecer na sua aldeia, com ocasionais visitas a outras coscuvilheiras de boas famílias burguesas, em Wyschwood-under-Ashe, em Lymstock, ou em Chipping Cleghorn. Onde tem afilhadas, velhas amigas ou criadas que treinou para servir em boas casas. Quem vive nessas aldeias?

Angela Lansbury interpretou Miss Marple no filme The Mirror Crack’d 

Em “Murder it’s Easy” dá-se a resposta “Relíquias. Só se encontram filhas, irmãs, ou esposas de clérigos, médicos ou militares na reserva. Chega a haver seis mulheres para um homem”.

Odeia o instinto como base da investigação e ainda mais como algo associado à mulher

Diz-nos ela mesma: “A intuição! A famosa intuição com que massacram os ouvidos! É como ler uma palavra sem ter necessidade de a soletrar; uma criança ainda não tem suficiente experiência para o fazer; um adulto reconhece-a de imediato por a ter visto inúmeras vezes no passado”.

E não é uma velha gagá, com constantes digressões senis que o diz.

Jane Marple, com os seus paralelos com velhas histórias da sua aldeia e os seus aforismos e digressões aparentemente desconchavados, bate os jovens porque tem de os bater.

Como refere, como seu impiedoso cinismo: “Os jovens creem, por princípio, que os velhos são uns imbecis; os velhos sabem, por experiência, que os imbecis são os jovens”.  

Mas quem foi Jane Marple?

Certamente um alegre bebé, nascido num lar feliz, tendo como pai um Diácono da High Church de Inglaterra, responsável pelas almas de uma cidadezinha de província. Ealing, provavelmente. Isto por volta de 1892 ou 1893.

Rodeava-a uma família mais prolífica (ela, solteirona irrepreensível, foi a excepção) que uma coelheira. São inúmeras as referências a todo o tipo de parentes que a marcaram na infância: a Avó, que a acompanha a uma excursão a Paris, em criança, os tios-avós Fanny, Helen, Thomas (Almirante  na reserva), morando numa encantadora mansão, perto de Richmond; Henry, o solteirão bulímico e avarento; os tios, que eram cónegos nas Catedrais de Chichester e Ely, os seus primos Anthony e Gordon, as primas Fanny, Godfrey, Ethel (Lady Merridew, de Lowndes Square, em Londres), o seu sobrinho-neto, Raymond David West, novelista de sucesso, a quem confecciona excelentes pulôveres de cachemira, que a adora e lhe oferece frequentes vezes, férias em sítios que pensa lhe agradarão ou farão bem à saúde (das Bermudas a Londres, no invariável Hotel Bertram).

Esta abundância bíblica de proles continuará e, no fim da vida (pelos anos oitenta e tal…), estará rodeada de um sem número de sobrinhas e sobrinhos de que se destaca, pelo evidente carinho que os liga, o seu sobrinho Raymond, o conhecido romancista, e inúmeros afilhados, como a inefável, tonta e encantadora mulher do Reverendo Julian Harmon, clérigo de Chipping’s Cleghorn, Diana (“Bunch”). 

Terá uma educação estritamente vitoriana, com sua irmã, que presumo chamar-se Helen, por tradição familiar, sob a férula de uma Fraülein, uma nanny alemã, boa disciplinadora mas simples, no fundo, que lhes ensinou rudimentos de duas ou três línguas, uma das quais a descodificação social da linguagem das flores (cor e tipo de flor a oferecer em cada evento social), algo de cultura geral, o comportamento em boa sociedade e os nomes dos reis de Inglaterra…

Como ela diz ao Inspetor Craddock (seu velho amigo) em certa ocasião, “In my time, young ladies were not encouraged to be intellectuals…”.

Para completar a sua educação, Jane é enviada, com dezasseis anos, para Florença, onde num colégio adequado, lhe ensinam as regras de household for a lady, arte (ou não fosse a escola em Florença…) e, presume-se, um pouco de música, italiano e alemão (através de uma horrenda professora militarista Fraülein Schweich…)

Lá conhece duas jovens e encantadoras americanas, as irmãs Carrie Louise e Ruth Martin, que se serão suas amigas ao longo de toda a vida e a uma das quais salvará a vida (defendendo-a de um homicida implacável), cinquenta anos depois…

Seu pai e demais família representam, na sua visão do mundo, um dos mais do que numerosos ilhéus rurais de resistência á mudança Eduardiana da sociedade britânica.

Mantêm intacta a herança austera de Victoria e Albert. Portanto, abominam inapelavelmente as teorias de Darwin, as peças de Bernard Shaw, as teorias das novas correntes socialistas e de um modo geral, os costumes da “Belle Époque”, que tanto acarinhou aquelo travesso e dissoluto Eduardo VII que, em sinal de provação divina, Deus lhes impôs como rei…

No entanto Jane, se é impregnada desta educação, analisa-a, desde miúda, com um acutilante espírito crítico.

E, no fim da adolescência, transgride todas as regras (segundo um dos seus biógrafos, Anthony Boucher, creio…), ao amar a wrong unsuitable person um jovem boémio encantador, bem acolhido pelo cónego, mas ferozmente hostilizado por sua mãe (conheceu-o num jogo de cricket).

Este galã desportivo revela-se, afinal, um assassino pior que o Dr. Crippen, das garras do qual se salva, in extremis, graças à intervenção providencial do já idoso Sherlock Holmes, que com um inesperado carinho, a consola e acalma. Sem êxito, porém.

Tornada cínica e já sem ilusões sobre a maldade humana, jura, perante um consternado Holmes (igualmente celibatário): “Nunca me casarei”.

Juramento que manterá.

Para desgraça de milhões de virtuosos ingleses, celibatários e seus contemporâneos, que poderiam ter tido a sorte de a ter por companheira e dos criminosos em geral e para alegria (por vezes bem hipócrita…) de todas as forças policiais de Sua Majestade.

Forçada pelas circunstâncias (única totalmente disponível) a ser enfermeira dos pais (e alguns tios-avós) até á morte (“…long experience of nursing… I have a great deal to do with them in my time” …), Jane Marple acaba por ficar sozinha, na calma aldeiazinha de St. Mary’s Mead, pelos quarenta anos, proprietária de uma pequena mas encantadora vivenda de estilo vitoriano, e de um mais do que modesto rendimento (em 1948, monta a vinte e sete libras por mês…).

Ensina raparigas do campo a tornarem-se modelares criadas de fora ou cozinheiras de mansões da gentry da região, tricota incessantemente para os bebés familiares e para obras de caridade, e vive no meio deslumbrante de flores do seu jardim (de que trata pessoalmente), num conforto pacato e aprazível.

Esta uneventful life, como lhe chama, resolvendo pequenos problemas humanos na paróquia da sua aldeia, aliada à a sua extraordinária perspicácia e a uma lucidez sem ilusões, vão apetrechá-la para se tornar uma criminologista prática sem paralelo. E, na polícia oficial, esta qualidade não se será negada, criando-lhe ferozes inimizades (os invejosos e medíocres) e amigos fiéis (além de admiradores).

Por exemplo, a inamistosa antipatia do mesquinho Inspetor Slack, que manifesta permanente desprezo e hostilidade em relação à pobre Jane; do educadíssimo Coronel Melchett, Chief-Constable do condado de Downshire (que, no entanto, tem a sua rota de Damasco prevista e se tornará, posteriormente, um enorme admirador e amigo da nossa investigadora…).

E tem Amigos seguros, para toda a vida, como Sir Henry Clithering, o culto e brilhante ex-Comissário-Chefe da Scotland Yard, que com ela partilhará as belas noites de uma tertúlia (“Tuesday Night Club”), organizada para o sobrinho, Raymond West, para divertimento da tia; o Coronel Arthur Bantry e a bondosa sua mulher Dolly, honestos representantes do melhor da gentry rural britânica, sempre embrenhados, entre exposições de rosas e porcos premiados em concursos rurais, nos mais trágicos crimes; a sensual atriz da moda mas de bom coração, Jane Helier (nome artístico, Joyce Lemprière); o esculápio Dr. Lloyd, que a vê ainda jovem e gostaria de ser o seu médico assistente; o solicitador Dr. Petherik, pomposo mas infinitamente simpático, como que o Mr. Pickwick da sua tertúlia das terças-feiras.

Amigos sinceros e respeitadores, como os inspetores Primer, Neele e Dermot Craddock (um dos seus maiores admiradores, a quem enfurece que a considerem uma mera bisbilhoteira).

Até a Igreja a defende (talvez em memória do pai…), através da admiração (e carinho sem reservas) dos Reverendos Leonard Clement e sua mulher Griselda (paróquia de St. Mary’s Mead), Dr. Pender (seu antecessor), Julian Harmon e sua mulher (afilhada de Jane) Diana (paróquia de Chipping’s Cleghorn), Caleb Dane Calthrop e o dragão freudiano com quem casou (paróquia de Lymstock).

Amigas como as americanas Carrie e Ruth Norton (Mrs. Van Rydock, de momento), Mrs. Price-Ridley, rica e maçadora como um discurso ministerial, a bondosa Elspeth McGillicuddy e o seu filho Roderick e tantos mais… Jane Marple faz amigos facilmente.

Centra a sua vida num pequeno mundo – o de St. Mary’s Mead – diretamente à sua volta, microcosmos de despeitos, intrigas, boatos e bisbilhotices que dão base e fornecem dados à constante luta de Jane contra os preconceitos, as superstições, os lugares-comuns que povoam o nosso pobre mundo.

Discutem-se aí, ano após ano, os descarados fatos de banho das raparigas (estamos nos anos trinta…), as dificuldades em encontrar serviçais competentes, as mudas adequadas de rosas, o erro de mulheres grávidas jogarem golfe, os impostos, as quedas vertiginosas das suas modestas carteiras de ações e obrigações do Tesouro.

Pessoas como os Dr. Haydock, paciente médico assistente e amigo há anos sem conto; a eficiente Lucy Eylesbarrow, a quem arranja marido adequado; Mr. Petherick, o seu solicitador, honesto e monótono; as odiosas solteironas e mexeriqueiras Misses Wetherby e Hartnell, repositórios inesgotáveis (e úteis) do que se passa em redor, da encantadoramente atiradiça, jovem e carinhosa Mrs. Clement, mulher de Leonard Clement, o Reverendo mais distraído, alheado e pacífico do Reino-Unido; o Coronel Easterbrook e a sua narcísica e ainda jovem esposa (estes da vila próxima de Chipping Cleggshorn), a atriz Jane Hélier, de que já falei, as criadas Gladys, Edna, Cherry Baker (que com seu marido, Jim, espécie de topa-a-tudo, assiste a Miss Marple nos seus últimos anos de vida), Amy, Janet, Gwen, Alice, Ethel, Emily, Evelyn, Edith, Clara, Annie, Kitty, Faithful, Florence e tantos, tantos outros… povoam o quotidiano da velhota desarmante, de sorriso discreto e eficácia mortífera.

Mas também tem amigos cosmopolitas e até multimilionários. Além da americana Carrie Louise Martin, Lady Selina Hazy, de Leicestershire, o riquíssimo Jason Rafiel, de Belford Park, a Honourable Dame Elizabeth Quantrill, o pedante manancial de informações, escândalos e boatos da cant londrina, o velho émulo de Noel Coward, o corcovado Mr. Satterthwaite, Esquire.

E, sobretudo, o seu sobrinho favorito (a sua mulher, a pintora Joan West, é amiga íntima doutra pintora célebre, Troy, a mulher do Superintendente da Yard, Roderick Alleyn), o romancista e poeta Raymond West.

Que, adorando-a, lhe proporciona férias nas Caraíbas (St. Honoré) e até em Londres, no luxuoso Bertram’s Hotel.

Com o correr dos anos, a sua saúde agrava-se. Vê cada vez pior (no caso do assassínio de Gossington Hall já é forçada a recorrer a uma lupa para conseguir ler…) e está um pouco surda (“4.50 from Paddington”). E as indignidades da idade não param aqui…

Irritantes perdas de memória, ataques frequentes da sua bronquite crónica, a coluna (ai, a coluna, que a impede de trabalhar no jardim, com as rosas que adora, por ordem expressa do Dr. Haydock), o joelho direito, a escoliose, a frequência crescente de perturbações arteriais, pneumonias…

Enfim, como ela mesma diz, “…a calma assunção que uma pessoa de idade avançada deve ter, de que pode morrer de um momento para o outro…”.

Como ser humano, o seu amor frustrado, a sua educação vitoriana, tornaram-na puritana em matéria moral, pensando sempre o pior dos seres humanos em geral, mas ajudando-os ao limite das suas forças, no particular. “Sempre tive um espírito suspeitoso. O meu sobrinho Raymond, pobre querido, diz que o meu espírito cheira a canos podres…”.

E permanentemente cusca, inquisitiva e curiosa como um entomologista.

Que seria da moral e da ordem, numa pequena aldeia inglesa, se idosas anciãs não prevenissem, enquanto tricotavam ou tomavam chá, as atitudes imorais, perversas ou mesmo criminosas?

Prevenir é “estar informado”.

E para saber mais, para chegar à verdade, não hesita em mentir, usar de subterfúgios ou disfarces…quem poderá desconfiar duma pobre velhota inofensiva, um pouco tonta, entremeando um acutilante interrogatório com expressões como: “duas de liga, duas de meia… então era a segunda mulher de Mr. Alton? …mate e laçada…esta lã saiu-me óptima! Portanto viu-a sair às 13.14, minha querida?” não pode vê-la como o esteio da corda que vai enforcar infalivelmente um criminoso…

Se a compararmos com outras velhotas-detectives da sua época (Miss Emily Seeton, biografada por Hampton Charles; Miss Hildegarde Whiters, cujo cronista foi Stuart Palmer; Miss Maud Silver, idealizada por Patricia Wentworth; Mrs. Beatrice Bradley, vista pelos olhos de Gladys Mitchell; até Caroline Sheppard, irmã do médico-assassino Roger Ackroyd; tantas outras…) apercebemo-nos, de imediato, da sua tridimensionalidade.

Mas, ainda assim, é incapaz de usar certas expressões (como sexo) e é impensável que diga o mais inocente dos palavrões!

E religiosa, está claro. Sem grandes exibições, como anglicana temente ao seu Deus, indo à Igreja com a devida regularidade, ajudando nas atividades da paróquia, na justa medida.

Dura, determinada, defendendo a pena de morte e a ausência de relações fora do casamento, um perfeito exemplar do cidadão britânico que espera sempre que “cada um cumpra o seu dever”.

O que quer que seja esse dever e o que quer que resulte de tal lugar-comum.

Em “Murder in the Vicarage[1] é-nos dado saber onde se situa a vivenda da velha senhora, e como se nos apresenta, se a visitarmos.

É uma encantadora casinha, um cottage Queen Anne, num encantador amontoado de casas similares, em estilo semelhante, em King George Road, fronteiras às lojas da High Street de St. Mary’s Mead. Defende-lhe a privacidade um jardim, magistralmente conservado, que separa a vivenda da High Street. À esquerda, a vivenda do Dr. Haydock, à direita, a da bisbilhoteira-mor, Miss Hartnell. Nas traseiras, termina o jardim do vicariato. As suas poltronas são cada uma um encanto, a sua modesta, mas digna biblioteca, um case study, digno de um doutoramento.

Na sala, podemos confiar no decanter de sherry, de excelente qualidade, nos cherry-brandy e cowslips wine, ambos receitas preciosas da avó, no gin, whisky e um Porto decente, para os cavalheiros (com o respectivo sifão de soda).

Os convites para jantar eram frequentes e de todo o coração. Um trem de vida decente, suportando uma vida feliz. Sem ilusões nem grandes desgostos.

Jane era uma pessoa sem ilusões.

Como ela mesma nos diz: “vivi sempre numa aldeia e isso ajudou-me imenso a conhecer a natureza humana”.

Quando morreu, pelos anos setenta e cinco do século XX, tinha plantado um inumerável jardim de ilusões de beleza, bondade, carinho pelos outros, em todos os que com ela conviveram. Mas nunca se preocupou nada com isso…

Simplesmente aconteceu[2].

A escritora Agatha Christie

[1] Edições inglesas e na da Editorial Minerva, Coleção XIS

[2] INQUÉRITOS SEGUNDO A SUA BIÓGRAFA AGATHA CHRISTIE

LIVROS

A MURDER IS ANNOUNCED

SLEEPING MURDER

THEY DO IT WITH MIRRORS

THE MURDER AT THE VICARAGE

AT BERTRAM’S HOTEL

THE BODY IN THE LIBRARY

A CARIBBEAN MYSTERY

NEMESIS

4.50 FROM PADDINGTON

THE MIRROR CRACKED FROM SIDE TO SIDE

THE MOVING FINGER

A POCKETFUL OF RYE

PEQUENOS INQUÉRITOS

THE IDOL HOUSE OF ASTARTE

INGOTS OF GOLD

THE BLOODSTAINED PAVEMENT

MOTIVE VERSUS OPPORTUNITY

THE THUMBMARK OF SAINT PETER

THE BLUE GERANIUM

THE COMPANION

THE FOUR SUSPECTS

THE CASE OF THE PERFECT MAID

THE CASE OF THE BURIED TREASURE

THE CASE OF THE CARETAKER

THE CASE OF THE RETIRED JEWELLER

A CHRISTMAS TRAGEDY

DEATH BY DROWNING

THE FOUR SUSPECTS

GREENSHAW’S FOLLY

THE HERB OF DEATH

MISS MARPLE TELLS A STORY

SANCTUARY

THE TUESDAY NIGHT CLUB

THE REGATTA MYSTERY

KINGSDEAN MANOR

FILMES

CINEMA

1962 – “Murder, She Said!”, adaptado de 4.50 from Paddington, com Margareth Rutherford (MGM). 

1963 – “Murder at the Gallop”, adaptado do inquérito de Poirot, After the Funeral, com Margaret Rutherford (MGM).

Assassinato no Gallop FilmPoster.jpeg

1964 – “Murder Ahoy!”, com “argumento original da MGM”, com Margaret Rutherford.1964 – “Murder must Foul”, adaptado do inquérito de Hercule Poirot, Mrs. McGinty’s Dead, também MGM, com Margaret Rutherford.

1981 – “The Mirror Crack’d”, baseado em The Mirror Crack’d from Side to Side, da E.M.I., com Angela Lansbury, como Miss Marple, Rock Hudson,etc…

Joan Hickson interpretou Miss Marple na série de televisão nos anos 80

TELEVISÃO

1956 – “A Murder is Announced”, com Grace Fields como Miss Marple (NBC).

1984 – “A Caribbean Mystery”, com Helen Hayes, como Miss Marple (CBS – TV).

1985 – “Murder with Mirrors”, também da CBS – TV, com Helen Hayes, no papel de Miss Marple, Bette Davies, John Mills,etc…

1985 – Início da série da BBC – TV, com Joan Hickson, no portentoso (e ímpar, até hoje) papel de Miss Marple, para a Série. Começa com “The Body inThe Library”.

1985 – Idem, “A Murder is Announced”.

1985 – Idem, “The Moving Finger”.

1985 – Idem, “A Pocketful of Rye”.

1986 – Idem, “The Murder at the Vicarage”.

1987 – Idem, “A Sleeping Murder”.

1987 – Idem, “At Bertram’s Hotel”.

1987 – Idem, “Nemesis”.

1989 – Idem, “A Caribbean Mystery”.

Carlos Macedo

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