Memórias e registos soltos dos Correios de Constância

Em Ribatejo Cool

A inauguração do actual edifício dos correios da vila de Constância  ocorreu em 24 de Janeiro de 1959 (1). Contudo, os correios em si, remontam a tempos mais recuados e terão sido inaugurados em 9 de Agosto de 1882. Esta informação é do cronista Joaquim dos Mártires Neto Coimbra, o qual seguimos de perto na construção deste artigo. (2).

Anterior edifício dos correios, Imagem de Mário Mendes Lopes de 1924.

Os serviços ficaram instalados, à época, no rés-de-chão de uma casa na rua Luís de Camões (actual nº 36 – 36 A), antiga rua José dos Santos Gouveia, então propriedade de António Meira o qual morava no 1.º andar (façamos aqui um parêntesis para dar conta que a notícia da implantação da República chegou a Constância através deste telégrafo, novidade que terá sido «escutada» no 1.º andar pelo velho Meira…) (3).

Joaquim Coimbra, historiador local cujo estabelecimento na antiga rua detrás da igreja frequentei anos a fio, e onde ganhei o gosto pela nossa história da vila, relata-nos que o correio realizava os serviços telegráfico e postal, dispondo de um funcionário para a respectiva manipulação.

Primitivo edifício onde funcionavam os correios no século XIX,  na actual Rua Luís de Camões.

Os idosos de Constância (4) que se recordavam de alguns factos ou de ouvirem falar dos mesmos (ouvi  alguns quando era jornalista), referenciaram-me um sr. Casimiro (que não era constanciense, diziam), como sendo o funcionário dos correios. Há, efectivamente, um anuário comercial de 1914  em que  o chefe dos correios e telégrafo citado se chama  Casimiro Carlos da Silva Freire.

Alguns anos depois (segunda década do século XX) como a casa da rua Luís de Camões já não oferecesse as condições necessárias para o bom funcionamento dos serviços, foram os mesmos serviços transferidos para uma casa de três pisos na rua Machado Santos (actual nº 10) mais conhecida por rua de São Pedro. Recentemente estive neste edifício onde vi um armário que se crê ter pertencido aos correios.

À direita, uma das antigas caixas de correio que existiam na vila. Pormenor de foto/postal da CMC, do início dos anos 80.

Segundo testemunhos orais que ouvi pessoalmente em diferentes alturas (5) foi possível apurar que: a chefe dos serviços, após a transferência atrás citada, era conhecida por Dona Amália (o marido era fator dos Caminhos de Ferro). Este testemunho é confirmado por outro anuário comercial cuja data não consigo precisar em que é mencionada como chefe dos correios Violeta Amália Cacella, sendo administrador interino do concelho Joao Lopes Godinho. O distribuidor dessa altura chamava-se José Leitão (e era morador numa casa na rua dos Ferreiros). Também aqui surge no último anuário que citei o nome do distribuidor José Luiz Jorge Leitão. Outros distribuidores se lhes seguiram nesse época concreta: João Alves Costa, Alberto Alves Costa, Virgílio Alves Costa, António da Luz Bretes. Havia o Chefe Santana e mais tarde a Chefe Fernanda (ex-mulher de José Meira Burguete). O nome de Alberto Alves Costa também é citado num outro anuário em que o chefe interino é Bounlio Albuquerque. No primeiro andar deste último edifício estavam situadas as máquinas. Anote-se que ao domingo os serviços abriam das 09h00 às 10h00 para se poder comprar selos e levantar correspondência. No Olival, os CTT tinham uma garagem arrendada, do Ganâncio, para guardar as encomendas.
Mas regressemos ao cronista de Constância: «Tendo em vista a necessária reinstalação dos seus serviços em Constância, a administração geral dos correios, telégrafos e telefone, a exemplo que já tinha feito noutras localidades, solicitou junto das autoridades locais, mormente, que fosse construído um edifício próprio, onde junto ao mesmo, seria construído um pavilhão para os automáticos. A esta solicitação em 1952, a Junta de Freguesia e um grupo de amigos de Constância, tentou levar a efeito a construção do edifício, tendo-se chegado a comprar os terrenos para a dita construção, sitos na rua Eng.º Vicente Themudo de Castro (onde presentemente se encontra a casa nº 3 pertença de herdeiros de Manuel Nunes Mateus, anotamos e reproduzimos).

Como porém a administração geral dos CTT veio a desistir da construção do pavilhão de automáticos nesta vila, após terem sido efectuadas todas as diligências, mandou construir esse pavilhão na Freguesia de Praia do Ribatejo. A Junta de Freguesia e o grupo de amigos de Constância desistiram de levar a efeito esse edificação.

Em 1957 os CTT entraram em negociações com um proprietário particular desta terra – o médico Dr José Eugénio de Campos Godinho – o qual mostrou interesse na construção de um edifício para arrendamento aos CTT. O edifício foi construído num local magnífico, junto ao jardim público, na rua Eng.º Vicente Themudo de Castro. O edifício compõe-se de um só piso (apesar de ter um piso inferior com cave, anotamos), onde se situam as instalações dos serviços e, ainda, uma residência que serviu durante muitos anos para alojar o chefe de estação. Foi inaugurado em 24 de Janeiro de 1959.

Actual edifício dos Correios, postal antigo editado por Aurélio Dias Nogueira.

Segundo documentos de planeamento oficiais (6) , o tráfego, sempre crescente, justificou em 1959, a sua elevação à categoria de estação de correios, telégrafos e telefones de 3.ª classe; assim, desde então e até há poucos anos, realizava-se ali todo o serviço de correios. Curiosamente num anuário na época em que era chefe da secretaria da câmara municipal, Joaquim A . Dias Ferreira, é referido que a estação dos correios e telégrafo era de 2.ª classe. Falamos portanto do 1.º quartel do século XX. Parece um vaticínio a perda de importância dos nossos correios… Adiante…

É de sublinhar ainda que na altura da inauguração as condições de horário foram melhoradas: o tráfego, telégrafo postal passou a ser servido por horário completo, das 08h00 às 20h00; e o tráfego telefónico passou a ter aceitação das 08h00 às 24h00. Os serviços dispunham também de três funcionários. Esta iniciativa dos CTT, só possível dada a colaboração generosa e assinalável bairrismo do proprietário do então moderno edifício (de linhas simples), foi mais uma realização do Plano de Instalação e reinstalação de pequenas estações de província, o qual a administração geral estabeleceu e veio a efectivar com regularidade.

A figura  típica do carteiro, de bicicleta, com a mala de sola, faz parte do imaginário  colectivo,  Na vila de Constância recordamos com saudade José Lopes Mendes conhecido por “Zé Carteiro”, Zé Barreiro e Luís Correia, por exemplo.  Eram pessoas muito zelosas que levavam a profissão a sério. 


O carimbo nominal de Punhete (designação da vila até 7 de Dezembro de 1836)

Segundo M. Andrade Sousa (7), Punhete, na tabela de 1818, aparece como correio delegado de Abrantes. Numa carta de 16 de Abril de 1830 surge-nos um carimbo com cercadura oval, impresso a sépia. Registam-se ainda duas cartas com o carimbo nominal «Punhete», igual ao anteriormente descrito, mas impresso a vermelho. Este autor, prosseguindo, dá-nos notícia duma primeira carta, de 22 de Novembro de 1826, o qual apresenta ainda o carimbo nominal de trânsito GOLEGAN impresso a preto, sem cercadura; a taxa manuscrita é de 25. A segunda, de 26 de Novembro de 1827, tem a taxa, também manuscrita, de 40.

Ainda que a localidade tenha mudado de designação mediante o decreto de 7 de Dezembro de 1836, M. Andrade Sousa declara que «a última carta que conhece com o carimbo nominal Punhete tem a data de 18 de Abril de 1830 e a primeira com o carimbo nominal CONSTÂNCIA, a data de 15 de Março de 1841.»


Por José Luz

(Constância)


PS- não uso o dito AOLP

(1) Texto escrito e compilado em Outubro de 1990, com actualização em 27/12/2018)

(2) Subsídios para a história de Constância e seu Concelho, Joaquim dos Mártires Neto Coimbra, 1971, editados ineditamente nos jornais «Nova Aliança» e «Jornal de Abrantes».

(3) Testemunho de José Meira Burguete (nascido em 1931)

(4), (5) Maria José Dias Filipe Soares (nascida em 08-11-1924)

(4), (5) Augusto Alves Soares (nascido em 03/08/1911)

(4), (5) Maria Manuela Roberto Vieira (nascida em 19??)

(4), (5) Florinda Ferreira da Silva (nascida em 1899)(5) Margarida Horta Silvares de Carvalho da Luz (nascida em 16/09/ 1930)

(6) Plano de Instalação e reinstalação de pequenas estações de província

(7) Mudanças de topónimo, seus reflexos nos carimbos do correio de Portugal, Manuel M. de Andrade e Sousa, Serviços de Edição de publicações dos CTT, TLP.

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