Leituras inextinguíveis (22): Debaixo de algum céu, por Nuno Camarneiro

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

“Debaixo de Algum Céu”, por Nuno Camarneiro, Leya, 2015, é uma metáfora de um prédio onde cresce um mundo, aquele em que vivemos. O narrador tem o cuidado em nos ambientar, simulando que aquele local nos é distante, é quase cenográfico, é bom para se condimentar num livro:

“Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De Inverno vivem ali pouco mais de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.

Um prédio chegado à praia e um Inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, fogo, corpos e alimento”.

Tudo se passará em oito dias, mas talvez não haja problema algum com a datação cronológica, faz parte das regras do jogo da escrita, como o autor observa: “Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos que se vão escolhendo”.

A metáfora tem muito que se lhe diga, todas as janelas estão viradas para dentro, aquela gente tem currículos que assombram ou intrigam: há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, um bebé que chora desalmadamente e que é uma sineta de alarme para uma relação conjugal que caminha para o colapso, há um reformado que constrói loucuras na cave, uma família que aparenta uma quase normalidade e que tem o condão da transfiguração, um padre com uma doença de fé que revivificará depois de uma queda e de trazer para a Igreja um condenado público, e há também um apartamento vazio cheio dos que o deixaram. Metáfora carregada de sonoridades, naquele fim de ano a vida daquela gente vai aproximar-se do leitor e o autor dá-nos uma dica: “Neste Inverno há homens que enlouquecem e outros que se salvam. Todos caem, alguns saberão levantar-se. Pelo meio nasce Cristo e um Ano Novo”.

Metáfora de gente com nome, há gente que trilha mistérios como aquele Marco Moço, um moço de muitos anos que cada dia chega à praia com o sol e a percorre como se fizesse uma vistoria, recolhe elementos, aparentemente resíduos e dá-lhes função. Há encontros e desencontros naquele elevador que sobe e desce. Há solilóquios, cada um celebra um Natal à sua maneira. As histórias de cada um tem o seu lastro de mistério, há incógnitas que enfeitiçam, é o caso do apartamento de dona Margarida, a viúva com um gato, naquela casa “A biblioteca é vasta e antiga, os livros mortos nas estantes sem esperança de voltarem a viver. São fantasmas com milhares de palavras que jazem em repouso. O gato tem lugares que são seus e que dona Margarida não frequenta. O topo dos móveis, o lado de lá da cortina, o volume entre o tampo da secretária e a esteira móvel que a cobre e que ele aprendeu a fechar. Esconde-se ali até se cansar e depois bate com as unhas até que a dona o resgate”. Há uma adolescente que se vai apaixonar por um jovem que a ajuda nos estudos. Os dias vão correndo, há gente a ganhar ânimo para tomar decisões tremendas. Padre Daniel vai celebrar missa, acontece o insólito, entra um homem a gritar e a insultar, a violência da profanação seguirá para a casa de cada um. Mal sabe o padre Daniel que tem ali um pretexto para sua redenção.

O que torna este romance uma pequena joia diamantina é o fulgor de um português moderno carregado de antigo, frases estreitas, aparentemente simples, entrelaçadas, fingidamente sem comunicação, como aquelas gentes do prédio, uma escrita em movimento, uns leem e outros sonham, a chaleira silva, uma tempestade traz um apagão a todo o prédio, os solilóquios transformam-se em meditações que vão do prédio até ao leitor, têm uma espessa meditação, entre a terra e o céu: “Medimos tudo, menos o que mais interessa. Em que ponto da montanha estarei? Em que nível, em que círculo? Abdicámos de Deus, mas precisamos de um árbitro. Não sabemos sequer se a vida é queda ou ascensão, são mais as perdas pelos pecados ou os ganhos pelo que construímos?”.

O fim de ano aproxima-se, a arquitetura do romance ganha aceleração, há uma atmosfera de tragédia, com morte, separação, crescimento e amores religados. Assim se vive num prédio. Uma tal vivência a que estamos condenados. Porque vivemos debaixo de algum céu.

Nuno Camarneiro é uma grata surpresa, um indiscutível valor da sua geração. Damos-lhe o benefício da dúvida, o seu belo livro encerra ingredientes fortes que tornam a leitura inextinguível, isto é, apraz em qualquer circunstância retomar as histórias e reaprender a leitura tal como reaprendemos a crescer e a ganhar experiência com as histórias das vidas dos outros, tão afins e tão oceaneamente distantes das nossas.

Mário Beja Santos

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