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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (2): Maria Adelaide Belloc Lowndes

Em Leituras

N. 1868, em Marylebone, London, no Reino Unido

M. em 14 de Novembro de 1947

No seu famoso livro “A Moveable Feast” (“Paris é uma festa!”) relatando os seus felizes anos de tertúlias literárias americanas, no Paris dos anos vinte, Ernest Hemingway recorda uma conversa com a líder incontestada do grupo, Gertrude Stein, sobre a novela contemporânea e como descobrir pepitas de ouro que os beócios nem a um milímetro farejavam. Disse-lhe ela:

If you don’t want to read what is bad, and want to read something that will hold your interest and is marvellous in its own way, you should read Marie Belloc Lowndes”.

I never heard of her”, diz-nos Hemingway em seguida, “and Miss Stein loaned me “The Lodger”, that marvellous story of Jack the Ripper, and another book about murder at a place outside Paris that could only be Enghien-les-Bains [“The Chink in the Armour”]. They were splendid after-work books, the people credible and the action and the terror never false.

They were perfect for reading after you had worked and I read all the Mrs Belloc Lowndes there was. But there was only so much and none as good as the first two and I never found anything as good for that empty time of the day or night until the first fine Simenon books came out”.

A predileção de Gertrude Stein pela ficção policial era bem conhecida e era uma conhecedora experiente do género. (“I never try to guess who has done the crime and if I did I would be sure to guess wrong but I like somebody being dead and how it moves along.”).

O que torna estas apreciações mais inesperadas é a abismal diferença entre a ideologia dos dois (progressistas, modernistas; Ernest mesmo de esquerda militante) e o seu elogio, sem reservas, de uma escritora que, pelo menos formalmente, é um transparente exemplo de uma novelista visceralmente Eduardiana, elitista, formalista e educada. Espartilhada, desde pequena, na leitura de novelas de amor perfumado para jovens senhoras, tratados sobre o comportamento social adequado em cada circunstância, as flores a oferecer, velhos livros góticos de Walter Scott ou Mrs Radcliffe…

Seu avô materno foi o físico e pastor Joseph Priestley; seu irmão o poeta Hilaire Belloc.

Ser genial era natural na sua família.

De origem franco-inglesa (pai francês; mãe inglesa) escolheu decididamente a matriz cultural paterna.

Foi jornalista (cobriu a Exposição de Paris de 1889 para a Pall Mall Gazette, entrevistas a personalidades literárias francesas da época, hoje de valor inapreciável, para a editora W.T. Stead) e escritora, tendo escrito ao longo da vida, sessenta romances e quarenta novelas (falo apenas das suas obras de ficção).

Mas o mais curioso é a sua persistente ligação com Portugal (onde por exemplo teve uma prolongada estadia, no ano da sua morte) como miudamente refere a sua neta, a também figura ímpar durante a vida, Dr.ª Ana Vicente[1].

Casa com Frederick Lowndes, jornalista (entre outras atividades) do jornal “The Times“.

O casal Belloc Lowndes (Marie Adelaide Elizabeth Julia Renée, em especial) era moderno e sem medo das mudanças, fossem tecnológicas ou históricas e, por exemplo, no final da década de noventa do século XIX, foi um dos primeiros a mandar instalar um telefone particular em sua casa.

Marie Belloc sabia como era importante comer bem: “O corpo humano é um motor, se não tiver bom combustível, não pode funcionar como deve ser”.

Madrugadora, escrevia as suas obras de manhã, muito cedo, sentada na cama, apoiando as costas nas almofadas e com um caderno assente nos joelhos.

Tinha cultura, bebida diretamente das fontes. Seu pai e mãe eram amigos de figuras célebres da época, como Anthony Trollope e John Stuart Mill, e de uma forma geral, de todos os políticos liberais da época.

Marie Belloc, ela mesma, conheceu pessoalmente Tourgeniev, aos dez anos (“Recordo bem um homem com um aspeto imponente, que a mim me parecia imensamente velho, embora ele tivesse apenas cerca de sessenta anos”).

Desde os vinte anos e até à sua morte, viveu sempre com os proventos económicos obtidos com a sua brilhante carreira literária. Como jornalista, conheceu e correspondeu-se com Edmond de Goncourt, Anatole France, Pierre Loti, Jules Verne, Guy de Maupassant, Émile Zola, Alphonse Daudet, Paul Verlaine, Oscar Wilde e sua mulher Constance (estes em Londres), Katherine Mansfield e Henry James.

Bertrand Russell, na sua autobiografia, recorda um jantar com Marie Belloc em Paris, em 1894. O pintor Gaynor Maddox disse mesmo: “O coração de Marie Belloc Lowndes será sempre, para mim, o local mais acolhedor de Londres”.

Até à morte interessa-se por tudo: política, história, literatura (em 1942, conhece e conversa frequentemente com T. S. Eliot [1888-1965], de quem aprecia muito a atividade literária, com algum fundamento: ele será um futuro Nobel da Literatura, em 1948) acompanha com paixão as diversas fases da II Guerra Mundial, do cinema (numa carta a sua filha Susan, queixa-se de uma nova versão cinematográfica de mais um filme baseado em “The Lodger”: tenho a certeza de que vai ser um sucesso, mas deve ser uma patetice completa, porque até vai incluir um can-can, dançado pela Marlene Dietrich!).

Dava um lugar muito especial na sua vida aos romances de enigma e mistério. Talvez porque, como J. W. Goethe (“Maximen und Reflexionen”, 1809) acreditava que, embora fascinantes, “os enigmas estão longe de serem milagres”. E queria propô-los (e eventualmente resolvê-los) aos seus leitores… No campo da ficção policial são muitas as dívidas que temos para com ela:

  1. Para começar, uma série de contos curtos humorísticos, apresentando-nos o famoso detetive francês, Hercules Popeau, dum ridículo sem mácula. E inspirador evidente da figura de Hercule Poirot, de Agatha Christie.
  2. Segundo, a concepção de novelas policiais de acção e aventura, como “When no Man Pursueth”, 1912; “The Chink in the Armour”, 1912; “From the Vasty Deep”; “What Timmy Did” e outros.
  3. Terceiro, a publicação de uma obra prima em 1911, intitulada “The Lodger”, que continua a ser quase unanimemente considerada, ainda hoje, a melhor obra de ficção publicada, inspirando-se na personalidade e crimes de Jack The Ripper. Vendeu mais de um milhão de exemplares (só numa edição popular, a “Reader’s Library”, venderam-se cerca de 500.000, ao preço de seis pennies) e viu-se traduzido na Espanha, África do Sul (afrikander), China, Egito, França, Bélgica, Suíça, Argentina, Alemanha, Países Baixos, até em português.
  4. Quarto, a série interminável de filmes que se inspiraram no seu livro (até Alfred Hitchcock, em 1927), séries televisivas, peças de teatro e até uma ópera da compositora inglesa Phyllis Tate (de qualidade medíocre), representada em Londres em 1964.

As suas novelas, aliás, procuravam sempre ter como ponto de partida crimes reais, adorando encenar cenas de tribunal e discutir procedimentos penais com amigos e magistrados.

Durante toda a sua longa atividade como escritora, procurou sempre encontrar uma base de crimes realmente cometidos em todas as novelas que escreveu. Assim sucedeu com “Chink in the Armour”, baseado no caso Gould em Monte-Carlo; “What Really Happened”, baseado no homicídio de Florence Bravo, em 1876; “Letty Lynton”, ficcionalização do assassinato de Madeleine Smith, em 1857; “Lizzie Borden” na qual assume, sem qualquer hesitação, o assassinato por esta, do pai e madrasta e procura apresentar um motivo credível para o parrícidio.

Em todos estes casos apresenta as criminosas como “pessoas sem carácter, ou melhor, de carácter vil, mau”.

E chegamos finalmente à sua obra-prima, baseada na série de assassinatos de prostitutas durante o outono e inverno de 1888, no Whitechapel District, de Londres, por um homicida perverso, conhecido como Jack the Ripper e cuja identidade ainda hoje é desconhecida. Falo do livro “The Lodger”, a sua melhor criação literária.

O seu serial killer surge-nos aqui, focado num ambiente familiar de um casal que o hospeda, sobretudo no comportamento psicológico da dona da casa para com ele.

O seu desespero pequeno-burguês pela respeitabilidade, junto de vizinhos e comerciantes, prisioneira de circunstâncias aterradoras e muito para além da sua capacidade de as controlar, são magistralmente descritos.

No seu Diário (entrada de 9 de março de 1923), Marie Belloc Lowndes diz-nos: “The Story of The Lodger is curious and may be worthing putting down, if only because it may encourage some fellow author long after I am dead. I wrote the Lodger as a short story, after I heard a man telling a woman at a dinner party that his mother had had a butler and a cook who married and kept lodgers. They were convinced that Jack the Ripper had spent a night under their roof. When W. L. Courtney, the then literary editor of the Daily Telegraph, in order to please a close friend of mine commissioned a novel from me (I then never having written a novel for serial publication) I remembered The Lodger. I sent him the story and he agreed that it should be expanded. This was a piece of great good fortune for me, and would certainly not have been the case among any subsequent editors of my work”.

O casal Bunting, que aluga quartos, sobretudo a mulher, Ellen Bunting, antiga criada de servir de uma aristocrata, são o centro da obra. O cavalheiro tremente e de procedimento esquisito, que se lhes dirige para alugar um quarto, é, no entanto, um gentleman, dirigindo-se a Ellen com uma cortesia e educação que lhe recordam os dias felizes, de juventude, alegria e segurança da sua vida, como serviçal de gentlemen

E, como diria Karl Marx, o espírito de casta prevalece e o hóspede (cavalheiro) poderia esquartejar as infelizes à sua frente, que ela não acreditaria nos seus próprios olhos…

Aquilo a que este chamou, creio, alienação de classe

A autora presta a mais escrupulosa atenção aos detalhes (a sua história foi escrita um quarto de século depois dos assassinatos de Jack). Ainda assim, com algumas inexatidões, como, por exemplo, ao referir os crimes datando-os, como “os de Whitechapel”, e referir o local da Metropolitan Police em New Scotland Yard, o que de facto só aconteceu em 1890, dois anos depois dos crimes de Jack The Ripper. É vívida e impiedosa a sua descrição do papel (sórdido) da imprensa, orquestrando e aumentando o pânico dos londrinos, as teorias infantis, patéticas e sensacionalistas, a sua descoberta do carácter e motivações do assassino em série.

Os seus conhecimentos e pertença à cant britânica permitem-lhe obter, em primeira mão, preciosos elementos (nas inevitáveis e quase diárias dinner-party conversations) do célebre alienista Dr. Lyttleton Forbes Winslow e a sua teoria da “religious monomania” de um membro demente da “upper class of society”; das suas violentas diatribes contra o Chefe da Metropolitan Police, Sir Charles Warren; de Lord Moulton; sobretudo, do então primeiro Ministro Mr. Asquith.

O livro constrói uma imagem do Vingador (a que, com ironia fácil, a autora faz apresentar-se na casa de hóspedes como Mr Sleuth – sabujo, detetive, polícia) com detalhes muito próximos dos relatórios e cartas a jornais e polícia, do psiquiatra Dr. Winslow.

Mas é na cumplicidade da hospedeira e do serial killer, no aparentemente absurdo silêncio de Mrs. Bunting sobre o que vai vendo e percebendo, que reside o mais genial da obra.

Sobretudo na explicação que Mrs. Belloc Lowndes imagina para explicar a inqualificável atitude daquela, ao não denunciar o seu hóspede à polícia…a enfâse, ao longo de toda a novela, de nos fazer descortinar o desejo doentio de Mrs. Bunting de proteger e construir um ninho do seu lar, onde o monstro tem naturalmente lugar, até porque ele “has [never] been actuated by the love of gain” ou “by a longing of revenge” …

Assim as investigações privadas desta mulher são superiores (na procura de pistas, provas, dados) do que as do polícia Joe, não para descobrir e revelar o criminoso, mas para melhor compreender porque comete tais crimes, percebê-lo (desculpá-lo, sejamos francos, chegando a queimar um sobretudo deste, cheio de sangue, sem que ele pronuncie uma palavra…).

Mas, de tudo isto, nasceu um livro sóbrio e atormentado, que vale a pena ler.

Ainda hoje.

Sem ser uma ativista frenética na luta pelos direitos das mulheres “sempre se interessou muitíssimo por todo o tipo de relações entre homens e mulheres e pelos direitos destas”[2]

Morreu em 1947, depois de uma vida extraordinariamente rica, no contributo que deu para enriquecer a humanidade.

ALGUMAS OBRAS PUBLICADAS

FICÇÃO POLICIAL

The Chink in The Armour, 1912

The Lodger, 1911(short story)

The Lodger, 1913

Novela Studies in Love and Terror, 1913

Noted Murder Mysteries, 1914

 The Lonely House, 1915

The Terriford Mystery, 1924

What Really Happened, 1926

Thou Shall Not Kill, 1927

Letty Lynton, 1931

The Chianti Flask, 1935

ENSAIOS

Lizzie Borden: A Study in Conjecture (Hutchinson, 1940)

Diaries and Letters of Marie Belloc Lowndes 1911-1947 (Susan Lowndes, London, 1971)

The Lodger, filme de 1932

Maria Adelaide Belloc Lowndes

Carlos Macedo


[1] Esta Senhora, foi uma figura ímpar, na História da luta pelos Direitos da Mulher, participante em diversos movimentos de defesa dos Direitos da Humanidade, participante no Movimento Internacional “Nós somos Igreja”, com Maria de Lourdes Pintassilgo, Manuela Silva, etc., presa pela PIDE (caso “PRAGMA”). casou, em 1970 com o Professor Dr. António Pedro Vicente, que como seu Pai, Dr. Arlindo Vicente lutou incessantemente pela restauração da democracia em Portugal. Seu irmão, Paulo Lowndes Marques, teve atividade política de relevo, fundador de CDS e Secretário De Estado dos Negócios Estrangeiros (governo Pinto Balsemão).

[2] Ana Vicente, “Memórias e outras Histórias”, Temas & Debates, C. de Leitores, Lisboa, 2011

1 Comment

  1. Obrigada ao Carlos Macedo pelo texto tão interessante sobre a minha bisavó! abraço, Filipa Lowndes Vicente (Lisboa)

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