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Literacia para uma boa automedicação, pilar para uma vida com mais qualidade

Em Saúde

A partir dos anos 1970, as instâncias da saúde à escala mundial entenderam que chegara a hora de o médico transformar a sua comunicação majestática em diálogo com o doente; e este foi incentivado a capacitar-se de tirar partido em saber comunicar bem com os diferentes profissionais de saúde, farmacêutico e enfermeiros incluídos. Com o alargamento da esperança de vida e com a descoberta de que o sistema de saúde tem recursos finitos e requer uma gestão prudente, desde os cuidados hospitalares aos cuidados continuados integrados, ao cidadão foi proposto que desenvolvesse uma competência nova – a literacia em saúde – o que na prática quer dizer muita coisa: saber praticar no quotidiano os estilos de vida saudáveis, fazer bom uso do medicamento, potenciar os aconselhamentos do farmacêutico e do enfermeiro sobretudo para aliviar os males menores onde cabem inúmeras situações: constipação, dor de ouvidos moderada, tratamento da acne ligeira a moderada, dores musculares e articulares ligeiras, a vacinação contra a gripe, os problemas gástricos ligeiros, picadas de insetos, a prisão de ventre ou a diarreia, a lista é muitíssimo grande.

Esta literacia em saúde é também altamente benéfica para os doentes crónicos, pois quando têm que aliviar males menores precisam de saber comunicar bem com o médico e com o farmacêutico, quem tem terapêuticas fixas não pode escolher ao acaso medicamentos não sujeitos a receita médica.

Estes males menores são tratados num prazo limitado de tempo, em caso algum se podem exceder os sete dias, se os sintomas não desaparecem há que ir imediatamente ao médico. Nada como procurar exemplificar com diferentes males menores e o conhecimento elementar que deles devemos ter.

Falemos de um problema gástrico muito comum, a azia. As queixas estão muitas vezes associadas a excessos alimentares, o recurso à indicação farmacêutica é admitido, mas se o quadro de indisposição é persistente não há que hesitar em ir a uma consulta médica. A azia resulta de um excesso de acidez, podendo ocorrer saída de conteúdo gástrico para o esófago. Se tal refluxo for frequente, é obrigatória a consulta médica. As situações mais ligeiras podem ser aliviadas com a toma de antiácidos. Mas há outras medidas a tomar. Fazer refeições menos volumosas, com redução do número de gorduras no conjunto das refeições não ingerindo bebidas gaseificadas, álcool, café e bebidas com cafeína. A consulta ao médico impõe-se quando se está grávida, quando as crianças têm menos de seis anos, se a pessoa tem problemas renais, por exemplo. Não se pode brincar com os antiácidos, têm composições diferentes, efeitos secundários e contraindicações específicas. Por exemplo, os antiácidos à base de alumínio ou cálcio podem provocar prisão de ventre, enquanto os que têm magnésio dão origem a diarreias. Os antiácidos podem diminuir o efeito das terapêuticas que o doente está a fazer – esta interação é particularmente importante no caso dos antibióticos, que são neutralizados no estômago pela ação dos antiácidos. Em suma, saber que não há medicamentos inócuos e que em toda as situações de doenças ligeiras só se tem a ganhar com o aconselhamento farmacêutico.

Pois bem, o bom uso da automedicação requer literacia. Insista-se que o recurso a medicamentos não prescritos pelo médico só serve para prevenir e tratar sintomas de doenças ligeiras, a automedicação está associada a sintomas e não a um diagnóstico médico, não deve exceder um período que ultrapasse os sete dias, não é apropriada quando há persistência de sintomas, agravamento do estado de saúde, dores intensas ou quando se registam problemas psíquicos, tais como a ansiedade ou a depressão. Assim como quando se está grávida não se pode tomar antiácidos sem ouvir o médico, para tratar uma acne com produtos da farmácia, só no caso de uma acne ligeira a moderada.

Na nossa sociedade, há um constante discurso de que temos carências vitamínicas, de que os suplementos alimentares também são indispensáveis para suprir tais carências. É verdade que o corpo humano precisa de pequenas quantidades de vitaminas e minerais que ativem diversos processos indispensáveis para o funcionamento normal do organismo. O que a publicidade não diz é que só em casos excecionais o indivíduo normal, que tem um regime alimentar equilibrado, apresente deficiências vitamínicas. Não obstante, há situações em que existe o risco de sofrer estas deficiências: gravidez, certas doenças, a toma de certos medicamentos, etc. Mas isto são casos em que a palavra cabe ao médico que deve prescrever a necessidade de um suplemento, feito o diagnóstico. Todos os excessos fazem mal. Quando se tomam quantidades excessivas de vitaminas solúveis na gordura, armazenam-se no corpo podendo tornar-se tóxicas sobretudo pela alta dosagem das vitaminas A e D. O excesso de vitaminas solúveis em água, pelo contrário, é eliminado na urina, e, por conseguinte, menos perigoso. Em suma, o regime alimentar equilibrado dispensa suplementos vitamínicos, as situações excecionais passam pela prescrição médica.

Literacia em saúde tem claramente por objetivo uma capacitação que permita a qualquer um de nós obter, processar e compreender informação básica em saúde e saber usar serviços, tomando as decisões mais apropriadas ao nível da sua própria saúde. Esta literacia pode recorrer a materiais educativos, da responsabilidade dos ministérios da saúde e da educação, fazer-se pelos envolvimentos dos doentes na preparação e avaliação desses materiais educativos e deve contar com verificações por pate dos profissionais de saúde sobre a compreensão das recomendações dadas aos doentes. Por exemplo um médico deve perguntar a um doente: “Pode dizer-me pelas suas próprias palavras de que é que estivemos a conversar e quais foram as indicações que eu lhe dei para o seu tratamento?”. Mas há muitas outras manifestações de literacia, destaco os folhetos informativos, as palestras nos centros de saúde, ateliês junto de associações de doentes, etc.

É da maior conveniência conhecer o Plano de Ação para a Literacia em Saúde da DGS, disponível em https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-de-acao-para-a-literacia-em-saude-2019-2021-pdf.aspx, e procurar na Biblioteca de Literacia em Saúde do SNS (https://biblioteca.sns.gov.pt/) os materiais que mais lhe interessam.

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