Grandes nomes da literatura de crime e mistério (3): Lady Phyllis Dorothy James

Em Leituras
P.D. James

“Escrevo, logo sou…”

A baronesa de Holland Park nasceu em Oxford, em 1920, e faleceu em Londres, em novembro de 2014.

Era a mais velha das três crianças de um cobrador de impostos, puritano rigoroso, que as educou mais pelo medo que pelo respeito. Mudando a família para Ludlow, no Shropshire, viveu numa comunidade pobre, num clima inóspito, mas onde as palavras “solidariedade” e o “calor da bondade humana” não eram palavras vãs…

A família passa curtas férias miseráveis, numa tenda, em Pakefield, ao sul de Lowestoff (porto de pesca marítimo) e ela adora-as.

Com enormes dificuldades financeiras, os pais mandam-na para a escola Superior de Cambridge. Mas não há dinheiro, a crise familiar agrega-se às sequelas da Grande Depressão de 1929 e ela vê-se forçada a abandoná-la, em 1936.

Três anos decorridos, contra tudo e todos é enfermeira, na Cruz Vermelha, e, em 1941, casa-se com o médico Connor Bantry White, do Royal Medic Corps O casal tem duas filhas mas, pouco tempo decorrido, a incurável esquizofrenia do marido torna-o hóspede quase permanente de hospitais psiquiátricos, até à sua morte, em 1964.

Quando o célebre Julian Symonds a entrevista, em 1968, na pacífica periferia rural de Londres (Holland Park, Notting Hill), vive com dois gatos siameses, muito chá e scones, um pátio florido, ofícios a que assiste (ocasionalmente) na igreja anglicana.

Notting Hill, onde vive, foi reabilitado do seu passado de zona degradada, colonizado por yuppies que transformam lofts em casas de sonho, no meio de vegetação e pequeno comércio requintado. E, como ela diz, muito perto do centro de Londres: basta descer tranquilamente Bayswater Road e adepta (como confessadamente o é) de longos passeios a pé, depressa está em Marble Arch (ou em Baker Street…).

BARONESS JAMES OF HOLLAND PARK

Tem ainda, no meio dos campos, uma segunda residência (um “cottage” em Southwold, East Anglia).

Professa de bom grado ter um enorme medo dos assaltos…

Confessa, ainda, que situa muitos dos seus romances na East-Anglia e em Suffolk, porque lhes ama “os seus céus infindáveis, a grande sensação de espaço, e, sobretudo, os estuários, cobertos de aves marinhas, as extensões de seixos isolados face ao mar, frio e perigoso (Suffolk) e de igrejas…”.

Nem mais.

Partilha comigo uma enorme admiração pela interpretação do Reverendo Chasuble, devida ao falecido ator Miles Maleson, na versão cinematográfica de “The Importance of Being Earnest”, baseado na peça de Oscar Wilde… Ainda com a bonita idade de oitenta e sete anos, continuava, como Goethe, a maravilhar o mundo com a sua juvenil criatividade.

P. D. James

Embora tenha um “Edgar Award”, da Mystery Writers of America (1987), pela sua novela “A Taste for Death”, uma “Silver Dagger”, do British Crime Writers Association, seja O.B.E. e membro honoris causa do Downing College de Cambridge; membro da Câmara dos Lordes, ela foi, sobretudo, durante toda a sua vida, uma funcionária pública, a nível tão superior quanto possível. E, (deprimente para mim) a isso deve, aliás, o título de nobreza que lhe foi atribuído.

Desde a saúde e organização hospitalares à “Police and Criminal Law Divisions” do Home Office, foi sempre uma “public servant” exemplar.

Como nos diz em “Time to be Earnest – A Fragment of a Autobiography” (1999): “Depois de uma conferência, as questões que me são colocadas raramente têm a ver com o meu trabalho. Todos parecem esperar que eu seja uma especialista em literatura policial (que não sou…)”.

Mas analisa com mérito a literatura em geral. Diz-nos P. D. James: …Dickens retratava diretamente as pessoas que conhecia, inspirando-se nelas, e identificando-as diretamente (cartas a Haines, de 1837). Outros romancistas fizeram esforços insanos para nos convencer que não retratavam ninguém em especial, considerando até tal acusação degradante. Como dizia, por exemplo, Charlotte Brönte : não permito à realidade senão que sugira, nunca que me imponha…”.

Falando por si, diz-nos “…tenho a maior dificuldade em acreditar que uma personagem de um romance de valor, tenha sido concebida sem ter recebido a sua primeira centelha de vida dos carvões cintilantes de uma personagem realmente existente. A qual pode perfeitamente ser o próprio autor, o que, aliás, é comum. Nem sempre podemos ter acesso aos sofrimentos, alegrias, embaraços, repulsas ou remorsos dos outros, mas as nossas emoções, temo-las sempre à nossa disposição”.

São elas, relembradas, revividas, por vezes com desconforto, filtradas pela imaginação, que se tornam a matéria-prima da ficção”.

Sabe o que diz.

“Death of an Expert Witness”, um dos seus primeiros romances, de 1977, reflete a sua profunda experiência profissional no Public Health Service.

Com efeito, Phyllis ingressa, em novembro de 1949, no National Health Service, mais particularmente no London Skin Hospital, em Fitzroy Square. A obra acima referida, como “Shroud for a Nightingale”, ainda em muito maior grau, tem um profundo cunho de realismo, no retrato do quotidiano que foi vivido (emocionalmente) pela autora.

Foi ainda magistrada (“A Certain Justice”) e Governor da BBC. No discurso que proferiu, em 17 de junho de 1993, quando da sua reforma do Conselho de Administração da BBC diz algo de muito interessante: “…nós não temos nenhuma obrigação de promover a democracia nem de tornar as pessoas melhores cidadãos: isso compete aos pais, às escolas, aos governos e às igrejas, se tiverem vontade e capacidade para tal. Suponha-se que considerávamos que certos valores éticos geralmente aceites deviam ser promovidos, que deveríamos fazer? Promovendo formas de censura interna? Promovendo conscienciosamente programas estratégicos nesse sentido e adaptando-os periodicamente? Usando o “magistério da influência”? O valor dos “exemplos”?

Em última análise, ao fim e ao cabo, todos os valores morais são individuais e não dependem de diretivas de uma cadeia de comunicação social, nem de ser impostos por familiares, escolas, igrejas, sinagogas, mesquitas, partidos ou grandes humanistas ou filósofos morais.

Ora estas influências são menos fortes hoje do que eram no passado e são inúmeros os jovens que crescem sem nunca se terem encontrado com nenhuma delas.

Não existe nenhuma instituição que que não sofra alguma influência dos valores dominantes na sociedade na qual se move e à qual serve. A nossa primordial responsabilidade é a de melhorar a sociedade ou de simplesmente de a refletir? Não corremos nós, o país e a BBC, o risco de estar a viver à custa do capital moral acumulado? No momento atual não vivemos num mundo doce, atencioso e policiado. Certos sectores da nossa comunicação social, em especial são cada vez mais malevolentes, irascíveis, mórbidos e cruéis. Corremos o risco de nos deixar contaminar?

A nossa responsabilidade moral…para com as instituições do Estado (poder que se manifesta pelas instituições da monarquia, do Parlamento, da lei e das forças armadas, mas que pode também ser tirânico, opressivo e vexatório, mas não benéfico em si), o papel da BBC é o de desafiar sem cessar estas potências mediadoras.

É um dilema filosófico e ético muito concreto, que se fundamenta nos valores de “serviço público” do audiovisual e na independência da BBC. Hoje os pilares do Estado, que na minha infância me pareciam tão fortes, tão impermeáveis à erosão do tempo, às mudanças de clima, tão resistentes à tirania e os furacões da agitação social e internacional, abrem fendas por todo o lado. Perigosamente. Monarquia, democracia parlamentar, igrejas. A nossa atitude para com os sindicatos modificou-se. Na minha infância eram muito menos organizações criadas para estabelecer negociações com o patronato, do que Cruzados da moral, em luta por uma sociedade diferente e mais equitativa.

É à BBC que cabe remendar todos estes pilares que se racham? Se sim, com que autoridade?…

A BBC deve ser corajosa. Ao longo de decénios demonstrou que pode resistir sem medo aos sucessivos governos. A sua independência, face a estes, é vital. Se a perdermos, o melhor é fechar as portas…não é preciso grande coragem para fazer face a um governo… é preciso bastante mais para fazer face a um Robert Maxwell e já o fizemos. E libertarmo-nos de certas teorias “na moda”; como o pernicioso fascismo linguístico, a linguagem politicamente correta, a que a BBC se deverá opor”.

Desta longa citação muito ficámos a conhecer de James, da integridade da sua posição cívica (concorde-se ou não com ela), da sua capacidade de pensar prospectivamente o mundo do século XXI. E de apresentar essa visão sem rodeios.

Mortalha Para Uma Enfermeira - P. D. James | Mortalha, Enfermeira, Livros

Grande admiradora de Graham Greene e Evelyn Waugh, alimentada desde a infância, pelas (re)leituras sucessivas de Jane Austen, George Elliot e Anthony Trollope, como nos admirarmos que reflita: dos primeiros, um fatalismo muito seu, de que o crime será o avatar final; e dos segundos, a profundidade, a sensibilidade, a vivacidade, a ironia fina, a descrição vívida da terra, dum odor, duma catedral gótica, numa miraculosa simbiose com objetos que lhes dá quase que uma alma?

Perguntaram-lhe certa vez, numa assembleia da Royal Society, se se sentia contente com a adaptação que tinha sido feita pela televisão de uma sua obra (“A Certain Justice”). Respondeu, de imediato que “…o produtor nada tinha feito do seu livro, porque não tinha o poder, nem a possibilidade, de lhe alterar uma vírgula que fosse”.

O seu detetive, Inspetor-Chefe, depois, Superintendant e por fim, Commander, Adam Dalgliesh, (como Cordelia Gray, outra heroína sua, concebida para ser uma investigadora radicalmente diferente do outro) são detetives falíveis, nos antípodas de super-homens sem nervos, como Sherlock Holmes, Poirot ou Gideon Fell.

Talvez, no fim de tudo, Dalgliesh seja um homem cuja capacidade de sofrimento foi esfolada a sangue-frio (morreram-lhe, em condições penosas, a mulher e um filho), com a morte dos entes queridos e escolhe a frieza e hipocrisia sociais para se defender.

Essa vontade não é inquebrável e, por vezes, deixa entrever uma profunda humanidade. Perseguido por recordações dolorosas, que o contato constante com o crime mais exacerbam, atreito a antipatias pessoais que ele próprio não consegue explicar, não gosta nada de se ver ao espelho.

Queria-se menos obcecado pelo dever e mais tolerante e compreensivo. Certa vez refere ao seu adjunto Masterson: “Creio que um detetive não pode mostrar-se sempre bom e indulgente; mas se um polícia começa a ter prazer sistemático na crueldade, o melhor é mudar de profissão”.

Dalgliesh, queira-o ou não, é um poeta, publicado por uma editora célebre, vivendo a vida (dadas as perdas que sofreu) numa subtil penumbra psicológica, inclinado a antipatias pessoais implacáveis para com o que de vil, feio e mau, reside em certas pessoas.

Graças ao fascínio da escrita de P. D. James lemos romances de trama por vezes um pouco elaborada (na perspetiva dedutiva, “enigma a resolver”). O seu cuidado na descrição do ambiente, a naturalidade das situações que nos oferece são notáveis.

A forma como caracteriza, em poucas palavras, o quotidiano de assassinos, polícias e meros comparsas é de uma profundidade sociológica de primeira água.

Por outro lado, Phyllis focaliza a descrição das personagens na faceta psicológica do seu comportamento. Através do expediente ideal de as fazer falar, revelando-as nas sombras e luzes dos seus passados, nas suas taras, virtudes, idiossincrasias e gostos.

Como disse P.D. James a Amanda Craig numa longa entrevista: “Você não pode abolir a maldade humana por um decreto. É tão absurdo como decidir abolir o pecado original, por Lei governamental”.

Há que descrevê-la, pois, como faz, sem grandes estados de alma.

Para ela, o romance policial é um género popular e os leitores (pelo menos nos anos míticos 30-50) preferiam que os heróis fossem superiores ou, pelo menos, iguais a eles no plano social.

Nobres como Wimsey, Lynley, Alleyn, Merrivale ou Campion, ou abastados snobs, mas da “cant”, como Templar, ou o “seu” Adam Dalgliesh, com uma personalidade tecida de elipses e de reservas, educado pelo pai, Pastor rural muito erudito.

Cordelia Gray cultiva (como Adam) nos livros onde se encontram (apesar de os separarem vinte anos) uma amizade algo ambígua (porque tudo leva a crer que um dia poderá ir mais além) e como Adam, sempre torturada pela dúvida de não ser infalível, geradora de injustiças e não Nemésia sobre-humana.

Os seus “combatentes do crime” podem ser de exceção, ímpares, na coragem, honestidade, persistência e inteligência. Possível? Desejável? Ela não aceita estes simplismos tolos.

Morte em Pemberley

Nos seus livros, todos os que lá figuram (detetives, criminosos, meros comparsas) são submetidos a uma autópsia psicológica, não há “figurantes inertes” nem passantes efémeros.

Embora refira que, no policial dos anos trinta, não consegue encontrar um único livro onde um serviçal ou um operário seja o criminoso, ou mesmo uma personagem de primeiro plano no enredo (“Time To Be Earnest“, 1999).

Mas os “feios, porcos e maus” de Himes, Spillane, Vian, Ellroy não merecem também o seu amor e, menos ainda, um lugar de relevo (e mesmo encomiástico) na sua obra.

Quando surgem, constituem patéticas paródias (com as quais não pactua) do que de maravilhoso podia ser a Humanidade.

Quanto aos assassinos, inspiram-lhe uma pérfida forma de compreensão, de piedade.

Faz-nos perceber que (com fatalidade ou calculismo sórdido) quem mata mobiliza sempre todos os recursos do espírito (por vezes do corpo), para ter a capacidade de quebrar as convenções. Que lhes dão um relevo, que não encontramos (nem de longe…) em Christie, Sayers, Gladys Mitchell ou Patricia Wentworth.

Eles são, também, em contraste curioso, personalidades torturadas por dúvidas e deduções afetivas, com muitos estados de alma, mas de modo algum super-homens sem nervos, de raciocínio infalível, como encontramos nas autoras atrás referidas…

Termina a sua autobiografia incompleta duma forma deliciosa: “as células do meu corpo devem-se ter renovado por um número interminável de vezes desde que aquela criança de onze anos (…que era ela…) passeava pelas alamedas do castelo de Ludlow, transportando religiosamente a carta que lhe iria proporcionar as vantagens e delícias de educação superior.

Habito um corpo diferente, mas posso recuar quase setenta anos no passado e reconhecê-la: sou eu. Andava para a frente com esperança e continuo a fazê-lo”.

Carlos Macedo

Adam Dalgliesh Books in Order: How to read P.D. James' series? - How To  Read Me

Obras Publicadas

SÉRIE ADAM DALGLIESH

  • COVER HER FACE – 1962
  • A MIND TO MURDER – 1963
  • UNNATURAL CAUSES – 1967
  • SHROUD FOR A NIGHTINGALE – 1971
  • THE BLACK TOWER – 1975
  • DEATH OF AN EXPERT WITNESS – 1977
  • A TASTE FOR DEATH – 1986
  • DEVICES AND DESIRES – 1989
  •  ORIGINAL SIN – 1994
  • A CERTAIN JUSTICE – 1997
  • DEATH IN HOLY ORDERS – 2001
  •  THE MURDER ROOM – 2003
  • THE LIGHTHOUSE – 2005

SÉRIE CORDELIA GRAY

  • UNSUITABLE JOB FOR A WOMAN – 1972
  •  THE SKULL BENEATH THE SKIN – 1982

NOVELAS INDEPENDENTES

  • INNOCENT BLOOD – 1980
  • THE CHILDREN OF MEN – 1992

CONTOS CURTOS

  • MURDER – 1986
  • THE MISTLETOE MURDER – 1992

OMNIBUS

  • MURDER IN TRIPLICATE – 1980

AUTOBIOGRAFIA

  • TIME TO BE EARNEST – 1999

INQUÉRITO HISTÓRICO-POLICIAL

– THE MAUL AND THE PEAR TREE – 1971

(Análise exaustiva ao assassinato selvático de sete pessoas – duas famílias, Marr e Williamson – em dezembro de 1811, em Ratcliff Highway, na paróquia de St. George’s-in-the-East, entre Shadwell e Wapping, que inspiraram, entre outros, Thomas De Quincey, John Fairburn, etc.).

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