Leituras inextinguíveis (23): Quando a figura principal prima pela ausência – Rebeca, a obra-prima de Daphne du Maurier

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Daphne du Maurier

Comecei por ler Receba na adolescência, fez-me companhia na guerra da Guiné e com certa regularidade volto a este romance gótico, sufocante, um tudo-nada fora de moda, mas dispondo de uma catapulta narrativa inigualável, dada a singularidade que lhe conferiu um êxito espetacular, desde 1938. Beneficiou de um grande filme de Hitchcock, ainda hoje obra de culto.

E há que reconhecer que a organização do mistério, o facto de sabermos só que Rebeca era muito bela, muito social, que desapareceu (versão oficial) num naufrágio, e que todo aquele belo lugar exala a sua presença, é um bom detonador, espicaça-nos até ao desfecho estarrecedor.

E há o início do romance, com laivos românticos, aflorando uma atmosfera intrigante:

“Sonhei, a noite passada, que voltara a Manderley. Pareceu-me ter ficado algum tempo diante do portão de ferro, fechado a cadeado. No meu sonho chamei o porteiro: não obtive resposta; espreitei com atenção por entre os varões ferrugentos, e vi que a casa dele estava deserta.

Pela chaminé não saía fumo algum. As janelas estavam abertas, numa atitude de infinda tristeza. Então, como acontece nos sonhos, senti-me de súbito possuidora de poderes sobrenaturais e transpus, como se fora um espírito, aquela barreira. O caminho serpenteava na minha frente, com as mesmas curvas de outrora; contudo, à medida que nele me internava, notei alterações; mais estreito e descuidado, o caminho já não era aquele que tínhamos conhecido. A princípio, fiquei perplexa sem nada compreender, e só quando tive de baixar a cabeça para não roçar num galho de árvore percebi o que acontecera. A Natureza reconquistara os seus direitos, e pouco e pouco, na sua maneira insidiosa, invadira o caminho. A vegetação liberta triunfara”.

Joan Fontaine e Judith Anderson em Rebecca de Alfred Hitchcock, Óscar para Melhor Filme, 1940

É uma organização literária firme, a narradora é dama de companhia de uma excêntrica multimilionária norte-americana, estamos em Monte Carlo, e numa dessas conversas em que desfilam nomes grados da alta sociedade surge o de Mr. de Winter, o proprietário de Manderley. A multimilionária, achacada por uma gripe, fica retida no leito, a narradora começa a encontrar-se com Max de Winter, não demorará muito o clímax amoroso. E quando Mrs. Van Hopper anuncia o regresso aos Estados Unidos, o Sr. de Manderley propõe casamento àquela menina uns bons anos mais nova que é dama de companhia de ofício, esta, igualmente enamorada, diz rapidamente que sim. Rebeca entra em cena na dedicatória de um livro, mas jamais dela se falará, parece ser assunto tabu. Finda a lua de mel o casal viaja para Manderley. Na receção está a governanta, Mrs. Danvers, a nova Mrs. de Winter ficara extasiada com tão belo arvoredo, os imponentes rododendros. Impressiona-se com o interior da casa, a biblioteca, os quadros de pintores célebres, a faustosa sala de jantar, e dá-se um encontro de Mrs. de Winter com essa mulher que tem um sorriso de escárnio, um silenciado desprezo pela recém-chegada, uma abusadora que bem tomar conta do lugar que pertencia por direito a Rebeca. Passo a passo, a nova ocupante conhece a faustosa mansão e os seus belos jardins. As conversas com Mrs. Danvers são penosas, há para ali um discurso equívoco, a recém-chegada apercebe-se que se avizinha uma tumultuosa relação, como a arquitetura do romance irá demonstrar. Aparecem pessoas, logo a irmã e o cunhado de Maximilian, há visitas de cortesia, Mrs. de Winter passeia até à beira-mar, na enseada onde há uma cabana que pertenceu a Rebeca, é intrigante como tudo está abandonado e desleixado. Mais personagens entram em cena, é o caso do administrador de Manderley, Frank Crawley, sempre gentil e solícito com a nova dona da mansão. Afloram os pormenores do desaparecimento de Rebeca, Mrs. Danvers, já não escondendo um elevado grau de perversidade, mostra os aposentos de Rebeca, o seu extraordinário guarda-roupa, não se coíbe de exaltar a finura, a alegria e a sociabilidade dessa mulher encantadora e deslumbrante. Max ausenta-se para Londres, aparece um estranho primo de Rebeca, Mrs. de Winter não tem dificuldade em perceber a cumplicidade entre ele e Mrs. Danvers.

Mesmo quando a irmã de Max leva a nova cunhada a conhecer a avó o nome de Rebeca é referenciado, é esta permanente grande ausente que conta. Intriga e mistério, agora só falta um crime para esporear o leitor. Primeiro o desastre de um baile de máscaras, uma armadilha de Mrs. Danvers, a recém-casada vê o seu marido colérico com o fato que ela vai usar. Depois Mrs. Danvers tem com a segunda mulher de Max um discurso tresloucado. Parece que aquele casamento se finara, Rebeca era mais forte. “Maxim não me pertencia. Pertencia a Rebeca. Pensava ainda em Rebeca. Nunca poderia amar-me por causa dela. Ainda vivia na casa, como dissera Mrs. Danvers, naquele quarto da ala oeste, na biblioteca, na saleta, na galeria. Até mesmo no pequeno jardim de inverno, onde a sua capa de dependurara. E nos jardins, nos bosques, e, lá em baixo, na cabana de pedra. Os seus passos suavam nos corredores, o seu perfume pairava ainda no ar. Os criados obedeciam ainda às suas ordens; a comida que nos serviam era aquela de que ela gostava. As suas flores prediletas enchiam as salas, as suas roupas estavam nos armários do seu quarto, as escovas sobre a mesa. Receba era ainda a senhora de Manderley. Rebeca era ainda Mrs. de Winter. Onde quer que eu andasse em Manderley, onde quer que me sentasse, mesmo nos meus pensamentos e nos meus sonhos, encontrava sempre Rebeca. Conhecia-a agora, as pernas longas e bem feitas, os pequenos e delicados pés. Ombros mais largos do que os meus, mãos inteligentes e hábeis. Mãos que sabiam governar um barco, que tinham força para sofrear um cavalo”. E quando se supõe que o casal entrou em rutura, naufraga um barco nos rochedos, descobre-se o iate de Rebeca, há um corpo em decomposição na câmara.

Imagem da edição Livros do Brasil, que sempre me tem acompanhado, com um desenho terno e discreto de um grande artista que foi Bernardo Marques

E o leitor agora que se prepare para ler Rebeca, e para descobrir que nem tudo o que parece é, e às vezes o silêncio encobre o ódio, e neste tumulto literário, tão talentosamente doseado iremos ser confrontados com segredos tenebrosos e a revivescência de um grande amor. Mostra-se a imagem da edição Livros do Brasil, que sempre me tem acompanhado, com um desenho terno e discreto de um grande artista que foi Bernardo Marques.

Mário Beja Santos

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