fbpx

Quando um filósofo nos incentiva, em tempos de pandemia, a viver plenamente

Em Leituras

Viver num mundo imprevisível, por Frédéric Lenoir, Quetzal Editores, 2021, não é uma obra que se encaixe no chamado de desenvolvimento pessoal, não é uma caixa de ferramentas de aprendizagem do otimismo e da serenidade e muito menos se parte de um muro de lamentações para encontrar um olhar seguro e pragmático para tempos de pandemia e os outros que se seguirão. O autor diz cabalmente o propósito do seu trabalho: “Concebi este livro como um manual de sobrevivência e crescimento interior, ou seja, um manual de resiliência, fornecendo aos leitores conselhos para viver melhor neste momento doloroso e desestabilizador. Inspirei-me muito nos filósofos do passado – como os Estoicos, Montaigne ou Espinosa –, que viveram e pensaram em períodos de crise profunda e nos trazem reflexões essenciais para superar da melhor forma possível as adversidades. Mas também em estudos mais contemporâneos, nomeadamente oriundos da Neurociência e da Psicologia, que nos oferecem chaves inestimáveis para enfrentar o distúrbio das nossas necessidades biológicas, psíquicas e afetivas fundamentais”.

Mundo imprevisível, pois claro, ninguém teria imaginado no início de 2020 os aeroportos quase fechados, a indústria hoteleira em hibernação, a ascensão meteórica do teletrabalho, os cuidados hospitalares a funcionar a níveis máximos, os estranhíssimos tempos de confinamento, as recidivas, o pânico mediático, o silêncio das indústrias culturais. E Frédéric Lenoir lembra-nos o papel que a segurança desempenha na nossa vida, cita António Damásio como cita Espinosa, como cita igualmente Abraham Maslow e a sua hierarquização das necessidades. E observa: “Face a uma crise grave, as necessidades fisiológicas passam para primeiro plano e as necessidades de segurança surgem logo de seguida. Uma vez em segurança poderemos expressar a nossa necessidade de pertença, telefonando a familiares e amigos, reforçando os nossos laços afetivos e sociais. As três primeiras necessidades e motivações (fisiológica, de segurança e de pertença) podem aliás ser agrupadas na mesma categoria: a de segurança”. Não deixa igualmente de recordar que há uma interação entre a base e o topo desta hierarquia, a segurança e a nossa dimensão espiritual, com a força do nosso espírito podemos viver melhor em tempos de insegurança. Falando de resiliência, esta não é só o processo de enfrentar a realidade e de nos adaptarmos dentro do possível à situação, há que aproveitar o traumatismo para crescer e ir mais além. Há duas condições para desenvolver resiliência: ter tido uma experiência de amor estruturante e dar-lhe nova oportunidade, fazer dele uma nova experiência no caminho da vida. Aí está a sábia adaptação, pode ser o humor, a comunicação solidária, o que importa é adaptar os nossos estilos de vida a esta enxurrada de imprevistos. “Uma vez superada a pandemia, de nada servirá desejar que tudo volte exatamente a ser como dantes. As nossas vidas foram abaladas, é preciso levar em conta todas estas evoluções para arrancar na boa direção”. As emoções positivas são seguramente o melhor remédio nestes tempos de turvação e turbilhão, e o filósofo cita Espinosa: “Um afeto só pode ser suprimido ou contrariado por um afeto mais forte do que o afeto a contrariar”. Emoções positivas que nos impelem a saborear o instante, a transformar o quotidiano numa aventura, mantermo-nos serenos enquanto o caos e o imprevisível têm um poder quase asfixiante à nossa volta. O Covid-19 gerou mais do que distâncias físicas de segurança, as tecnologias de comunicação e informação deram um apoio inolvidável a muitos de nós, crianças, adultos e velhos, sem detrimento do profundo abalo causado. Um dos dados fundamentais das lições do Covid-19 é que doravante iremos encarar toda a problemática da saúde, da educação e da comunicação com outros olhos, retomar-se-á a questão do sentido, do modo de superar as crises, da própria orgânica dos cuidados de saúde para todos, iremos rever a nossa escala de valores. É certo e seguro que as problemáticas ambientais, da escolha do local onde vivemos, do estilo de vida, irão pesar no desenvolvimento humano. O confinamento tem-se processado com limitações das liberdades, mas deu oportunidade a experimentar uma nova forma de liberdade interior. Escreve o autor: “Estou profundamente convencido de que não nascemos livres: tornamo-nos. Começamos por ser condicionados pelos nossos genes, pela educação, pelos afetos inconscientes. Depois, à medida que aprendemos a conhecermo-nos, podemos conquistar progressivamente uma maior liberdade. Primeiro, aprendendo a orientar os nossos desejos para aquilo que é melhor para nós, aquilo que nos ajuda a crescer e nos faz felizes. Depois, aprendendo a observar e a orientar as nossas emoções de forma a conservar a serenidade interior”.

Frédéric Lenoir

Fomos confrontados, continuamos a ser confrontados com a morte diária à escala universal devido ao Covid-19. Partiram nossos entes queridos que morreram sozinhos, mudaram severamente as regras dos funerais. O que suscitou uma aprendizagem da aceitação da morte e o filósofo retoma o seu discurso: “A vida é preciosa porque tem uma duração determinada. É a nossa finitude que pode motivar-nos a viver plenamente cada instante como uma oportunidade de alegria, tomada de consciência, amor partilhado. Toda a aproximação da morte deveria antes de mais incentivar-nos a vier melhor e plenamente”. E todo este guião onde se procura ajudar o leitor a ser melhor sucedido no mundo imprevisível nos vai falar, em jeito de despedida, como devemos agir e consentir. Atenda-se à leitura que o filósofo faz da aceitação, “é tudo menos fatalismo e resignação. Trata-se de uma decisão consciente, responsável, e sobretudo amorosa. É por amar a vida que a aceito com todas as suas cores e todas as suas dimensões: as alegrias e os desgostos, os altos e os baixos, os bons e os maus momentos”. É neste cenário que se podem pôr em prática as duas dimensões da ética estoica: agir sobre aquilo que depende de mim, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para não propagar a epidemia, não delegar a nossa própria responsabilidade nos nossos governantes; este processo de cura interior só poderá ter êxito se aprendermos a amar a vida de forma incondicional, pois a felicidade e a alegria estão dentro de nós e não nas circunstâncias externas. E cita-se um monge budista do século IX: “Não são as coisas que te prendem, mas o teu apego às coisas”. É talvez esta a grande diretriz para viver num mundo imprevisível: a felicidade, a serenidade e a satisfação não dependem dos conhecimentos aleatórios do mundo exterior, mas da harmonia do nosso mundo interior.

Se o leitor acredita que esta crise é uma oportunidade para mudarmos a visão de nós mesmos e de melhor nos relacionarmos com os outros e com o mundo em redor, talvez este ensaio de Frédéric Lenoir seja uma leitura apropriada para um tempo apropriado.

Mário Beja Santos

Publique o seu comentário

Recentes de Leituras

Ir para Início
%d bloggers like this: