Leituras inextinguíveis (24): À noite, todas as nossas bibliotecas cospem vulcões

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Alberto Manguel é um nome que ultrapassa fronteiras, tem escrito epítome atrás de epítome sobre o livro e a biblioteca, a magia da escrita e a fantasia da leitura. Mantenho-me indeciso sobre o que de melhor escreveu, mas rendi-me imediatamente a uma obra aparecida há poucos anos atrás quanto ao fascínio como dispomos, tratamos e estendemos uma mão para ir buscar um livro a uma prateleira. É obra de inspiração, de entusiasmo, de bibliófilo que convoca todo e qualquer tipo de amante de leituras e que se gosta de ver rodeado das obras que o fazem crescer… ou viver.

A Biblioteca à Noite, por Alberto Manguel, Tinta-da-china, 2016, é um ensaio de leitura compulsiva, tal a propulsão a que impele qualquer proprietário de uma certa carrada de livros amontados, organizados, dispostos em estantes ou em caixas ou sofás, e vai ser confrontado por atrativos irrecusáveis em que a organização da biblioteca é um mero pretexto para exacerbar a febre da leitura. Em vez de uma história pomposa e edificante quanto ao modo como os livros têm sido arrumados ao longo de milénios, Manguel, ensaísta, romancista e eminente devoto dos livros, fala mais destes, dos seus autores, do modo de ler e como as palavras transformam a nossa vida. É magia, é auto sacramental que conforta o leitor mais empedernido.

Alberto Manguel na biblioteca que irá oferecer a Lisboa

Dá-nos o seu próprio exemplo: “Durante o dia, escrevo, pesquiso, reordeno livros, guardo as minhas novas aquisições, reorganizo secções para ganhar espaço. Os recém-chegados recebem as boas vindas depois de um período de inspeção. Se se trata de um livro em segunda mão, deixo todas as suas marcas intactas, o rasto de anteriores leitores. Velhos ou novos, o único sinal que procuro retirar dos meus livros é o autocolante com o preço que os malvados livreiros colam nas contracapas. Estas diabólicas cicatrizes brancas saem com dificuldade e deixam chagas leprosas e vestígios de cola a que aderem o pó e a lanugem do tempo, fazendo-me desejar um Inferno especial, pegajoso, ao qual condenar o inventor destes autocolantes”.

Ler à noite requer intimidade, o nosso espaço entrecortado por luzes e sombras, lombadas silenciosas onde se dispõem as vozes da nossa razão, desde contos de fadas, volumes de ciência e viagens, poesia e biografias, filosofia e até desenvolvimento pessoal.

Manguel disserta sobre a classificação dos livros e do muito e divertido que diz podemos facilmente concluir que não há classificações definitivas, é eloquente nos exemplos de que uma obra arrumada segundo uma certa regra pode ganhar uma falsa identidade ou obrigar a decifragens labirínticas. Porque o mundo mudou, somos hoje confrontados com a biblioteca virtual e os prodígios do digital. Ele não deixa de tomar partido: “Quando comparamos a biblioteca virtual com a tradicional de papel e tinta, temos de ter presente várias coisas: que a leitura exige frequentemente lentidão, profundidade e contexto; que a nossa tecnologia eletrónica ainda é frágil e que nos impede frequentemente de recuperar o que foi outrora guardado em suporte atualmente ultrapassados; que folhear um livro ou percorrer estantes faz intimamente parte do ofício da leitura e não pode ser inteiramente substituído pela deslocação de texto num ecrã, tal como uma viagem não pode ser substituída por relatos de viagens e aparelhos de três dimensões”.                    

Ler tem um modo próprio de abordagem, é impossível qualquer tipo de comparação: “Ler um livro não é exatamente equivalente a ler um ecrã, seja qual for o texto. Assistir a uma peça de teatro não equivale a ir ao cinema, como ir ao cinema não equivale a ver um DVD ou uma cassete de vídeo, e observar uma pintura não equivale a analisar uma fotografia”. Como o poder do leitor é pessoal e intransmissível: “O poder dos leitores não reside na sua capacidade reunir informação, na sua aptidão para ordenar e catalogar, mas no seu dom de interpretar, associar e transformar o que lê”.

Porque os livros são temidos, não há força totalitária que não queira silenciar os livros que se lhes opõem, sobre mil pretextos, daí a queima de livros, a perseguição de autores e editores, os mecanismos de censura, a multiplicidade de fanatismos religiosos e as suas inquisições. É uma intolerância que se paga bem caro, como observa Manguel: “Mesmo de um ponto de vista político e religioso, a destruição de uma cultura contrária é sempre um ato de estupidez, dado que nega a possibilidade de aliança, conversão ou assimilação”.

Há quem procure nos livros estatuto, diligência vã: “Os livros dotam uma divisão de uma identidade particular que pode, em alguns casos, usurpar a do proprietário – uma peculiaridade bem conhecida de personalidades estúpidas que exigem ser retratadas com uma parede coberta de livros em fundo, na esperança de que eles se concedam um lustre de erudição”. Racistas procuram manter na ignorância aqueles que escravizam ou povos que classificam de inferiores: “Nos Estados Unidos, as tentativas de restringir as leituras da população negra datam dos primeiros tempos da escravatura. Para impedir que os escravos se revoltassem, era essencial mantê-los analfabetos. Se aprendessem a ler, explicava-se, os escravos informar-se-iam de argumentos políticos, filosóficos e religiosos favoráveis à abolição da escravatura e erguer-se-iam contra os seus senhores”.

Ninguém pode ficar insensível ao poderoso imaginário que envolve o repositório de esperanças que pomos no nosso ajuntamento de amigos: “Dotamos as bibliotecas das qualidades das nossas esperanças e pesadelos; julgamos compreender as bibliotecas conjuradas das sombras; congeminamos livros que achamos que deviam existir para nosso deleite e empreendemos a tarefa de os inventar sem nos preocuparmos minimamente com traços de inexatidão ou insensatez, sem medo de cãibras ou do bloqueio de escritor, sem restrições de tempo e espaço”.

Então, que desenvolvimento espiritual nos dá a biblioteca? Um mundo que excede o nosso quotidiano de sofrimento e felicidade, pois ler é negociar esse mundo real e deixar intocável o sonho de compreender melhor os outros, de sabermos amar melhor; ler é superar, é continuar a trepar a montanha interminável, em busca de consolação.

E ler este primoroso e generoso livro de Alberto Manguel é acreditar piamente que o incêndio dos livros jamais será aplacado, haja o digital que houver.

Mário Beja Santos

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