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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (5): Jorge Luís Borges

Em Leituras
Jorge Luís Borges

“…sentiu que os atos dos Homens são necessários e que por isso é necessária a eternidade, de bem-aventurança ou perdição, que eles acarretam.”

 (Nueve Ensayos Dantescos – O verdugo piedoso – Espasa-Calpe, 1982).

 “Es usted Borges? Por veces”

(Entrevista a Volodia Teitelboim).

Jorge Francisco Isidoro Luís Borges Acevedo, nasce em Buenos Aires, em 1899, no Nº 840 da Rua Tucumán, casa de seus avós, que participaram ativamente na vida pública da Argentina e na Guerra do Rio da Prata, pertencendo a um estrato desafogado da alta burguesia.

Frequenta o liceu (que termina) no Liceu Calvino da cidade de Genebra, na Suíça.

Em 1914 ainda consegue viajar (pouco antes do conflito) por Munique e, no ano seguinte, por Florença, Génova e Milão.

Começa a dominar bem o alemão e lê Heine e “O Golem” de Gustav Meyrinck, nessa língua.

Em 1927 é submetido à primeira das oito operações aos olhos que suportará, até meados dos anos cinquenta, mas que nunca impedirão o avanço irreversível da cegueira. Em 1932 estabelece uma amizade nunca quebrada com Adolfo Bioy Casares e estabelece-se, entre eles e as irmãs Virgínia e Silvina Ocampo, uma profunda amizade e colaboração literárias, que se revelarão muito fecundas no campo do policial e do fantástico.

O ano de 1935 é o da “História Universal de la Infamia“, uma das maiores obras-primas das tantas feitas por Borges.

Em 1936, é a vez da “Historia de la Eternidad“. Funda a revista “Destiempo”.

E na noite de Natal, com apenas trinta e nove anos, dada a sua escassa visão, cai sobre uma janela, sofrendo traumatismo craniano e uma septicemia que o mantêm quinze dias entre a vida e a morte.

Em 1940 publica “Tlön, Uqbar, Orbius Tertius” e uma “Antologia de la Literatura Fantástica Sudamericana”.

Os anos de 1941 a 1945 são anos de grande produção literária. Começa os seus exercícios (que pretende jocosos) na ficção de crime e mistério, com Bioy Casares, que, entretanto, se casou com Silvina Ocampo (“Seis Problemas para D. Isidro Parodi”). Usam o pseudónimo H. Bustos Domecq.

Igualmente publica uma das suas numerosas obras-primas, entre o policial e o fantástico, em 1941 (oito contos): “El Jardin de Senderos que se Bifurcan”.

Em 1942, longa polémica sobre a literatura policial com Roger Caillois, que será poucos anos depois (“Fictions” – 1951 – Croix du Sud Éditions) o seu grande divulgador em França e na Europa (com Nestor Ibarra).

Em 1944 publica a sua Opus Magna: “Ficciones”. Em 1945 “El Compadrito“. A Sociedade Argentina de Escritores atribui-lhe o Gran Premio de Honor da Sociedad Argentina de Escritores, para “Ficciones”.

No ano de 1946, já sob a ditadura peronista, Jorge Luis continua, com Bioy Casares, no policial (“Un modelo para la Muerte”; “Dos fantasias memorables”).

Tendo assinado diversas declarações antinazis e antiperonistas, liberal assumido como a maioria dos outros intelectuais de classe média do seu país, Borges, além de numerosas humilhações policiais, vê o seu posto de assistente de biblioteca, transformado no de inspetor de galináceos e coelhos, nos mercados municipais.

Como reação, vencendo a sua timidez atávica, começa a falar em público, na Argentina e Uruguai. Cada conferência conta com diversos polícias de uniforme a assistir.

Em 1949 publica-se o “Aleph”, outra obra-prima.

O ano de 1955 é um ano fértil em todos os campos, de argumentos de filmes a antologias, contos e ensaios (“Leopoldo Lugones”).

1956, ano nefasto. Professor de literatura inglesa na Faculdade de Letras e Filosofia de Buenos Aires. Professor Honoris Causa da Universidade de Cuyo. Prémio Nacional de Literatura. Mas os oftalmologistas interditam-lhe, em absoluto, leitura e escrita.

A sua mãe passará a ser a sua secretária.

E em 1967, durante uma viagem pela América do Sul (Colômbia, Peru e Chile), reaparece o “detective-presidiário” D. Isidro Parodi (Bustos-Domecq), em novas novelas policiais. Sempre com Bioy Casares.

Compõe letras de tangos e milongas, alguns para Astor Piazzolla. Casa, a 21 de setembro, com Elsa Astete Millan. Organiza cursos e dá conferências em diversas Universidades norte-americanas, nomeadamente em Harvard.

Em 1970 surge o inclassificável (e esplendoroso) romance “El Informe de Brodie”, entre a science-fiction, a parábola e o horror.

Em 1971 é feito Doutor Honoris Causa por Columbia (E.U.A.), Oxford (UK). Recebe o Prémio Jerusalém, em Israel. Conferências em Yale.

No ano seguinte, Doutor Honoris Causa pela Universidade de East Lansing (Michigan). E inaugura a cadeira de literatura latino-americana na Universidade de New-Hampshire.

Em 1974, elabora o argumento de um filme de Hugo Santiago, “Los Otros”, depois do êxito de “La strategia del Ragno” (1970), de Bernardo Bertolucci, baseado no seu conto “Tema del Traidor y del Héroe”.

 Em 1977, “Nuevas Crónicas de Bustos Domecq”. Doutoramento Honoris Causa pela Sorbonne. Visita a Itália, Espanha, Grécia e percorre Creta e, sobretudo, o labirinto de Knossos…uma das suas obsessões literárias.

Em 1983 é-lhe atribuído o grau de Chevalier da La Légion d’Honneur por François Mitterrand, em cerimónia especial no Eliseu. Membro do Institut de France, a 4 de fevereiro de 1983. Conferências e lições no Collège de France.

Umberto Eco, publica o romance policial-histórico “O Nome da Rosa”, onde o assassino, perversamente retratado (erudito, amigo de bibliotecas, labirintos e cego), Jorge del Burgo, é Borges…

Em 1986, Jorge Luis Borges, a 13 de junho, com a idade de 86 anos, passa para o outro lado do espelho, com ajuda de um cancro hepático e de enfisema pulmonar agudo.

Da influência e magistério de Borges se reclamaram escritores tão distintos dele em escola, ideologia e estilo como Júlio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda, Carlos Fuentes, Ernesto Sábato, Adolfo Bioy Casares ou Guillermo Cabrera Infante.

Lembrou-o, sem esconder a sua emoção, Octavio Paz, no dia da sua passagem, “… su obra es dadora de vida. Su tema único. El tiempo y esas invenciones del tiempo que llamamos eternidad. Paraísos y condenas, quimeras que son más reales que la realidad. Los cuentos, poemas y ensayos de Borges exploran sin cesar y a través de variaciones prodigiosas este tema único: el hombre perdido en el laberinto del tiempo, el hombre que se desvanece, al contemplarse en el espejo de la eternidad, sin facciones, el paraíso atroz de los inmortales que han vencido la muerte, pero no al tiempo ni a la vejez. Un tema que se resuelve en paradojas, pero también en realidades incontrovertibles: la realidad de Borges, el poeta metafísico y la realidad de su obra. En un continente violento, movido por pasiones oscuras, Borges es un milagro y un reproche. No venció al tiempo, pero nos dio transparencia y nos hizo ver qué no somos sino configuraciones del tiempo. Por eso su obra nos da vida”.

A Argentina (apesar de, em testamento, exigir “morrer na Europa” e ser enterrado na Suíça, como foi) chorou-o, ao morrer, quase tanto como a Carlos Gardel, quase tanto como a Eva Perón.

Chorou-o o mundo das letras (que pouco valorava), com o remorso de o ter deixado partir, sem o Nobel que tão merecidamente lhe cabia.

Chorou-o o anónimo “porteño” dos “barrios” típicos de Buenos Aires para quem inventava milongas, com enorme alegria.

Sobretudo, orgulhou-se e reviu-se nele toda a intelectualidade argentina (tão europeia, sem na realidade o ser) dos anos trinta a oitenta.

Chorou-o enfim, todo o que, amando o género policial, lhe dá o lugar devido (na primeira fila) dos escritores policiais.

Enquanto vivo, o seu universo foi uma imensa biblioteca.

Em “Vinculación de la Kabbala”, escrito em 1931, Borges, por interpostas religiões, compara “o livro” a um dos atributos de Deus, anterior ao idioma e à própria Criação, criado e definido como uma encarnação do Espírito Divino.

O que, não sendo inédito, nos é revelado com inexcedíveis elegância e sobriedade.

O fantástico, tão seu, de “Ficciones” a “El Aleph”, de “El Informe de Brodie” a “El Libro de Arena”, elevando a o esotérico e o horror indefinível ao nível dos grandes clássicos, (tarefa em que, tanto Lovecraft como Poe, Jean Ray como Nerval falharam…), singularizam-no.

E, talvez por isso, eu nunca tenha aceite a atitude de Umberto Eco, que disfarçando uma inédita pequenez moral, sob o manto fugaz da “practical joke“, cria, com perversa alacridade, a figura de Fray Jorge no seu “Il nome della rosa”.

Criador do melhor do policial argentino, deu-se, com Adolfo Bioy Casares, à elaboração profusa de obras no campo do fantástico, da ficção científica, do crime & mistério (“Seis problemas para D. Isidro Parodi, Crónicas de Bustos Domecq, Nuevas Crónicas de Bustos Domecq, El Jardin de los Senderos que se Bifurcan, El Informe de Morel, Tlön Uqbar Orbis Tertius” e tantos mais),  ao prazer de passear pelos estranhos caminhos das ucronias, de se fazer demiurgo de mundos paralelos, “consolidados” por eruditas notas de rodapé (“Historia Universal de La Infamia, El Aleph, Fictions, El Congresso”), ao exotismo bizarro  do seu “Manual de Zoologia Fantastica” e do “Essai sur les Anciennes Littératures Germaniques” obtendo fontes de prazer sempre renovado nestes pequenos universos que eram indubitavelmente seus.

No policial (que é o agora nos interessa) publica, com Adolfo Bioy Casares, seu amigo de sempre, uma saga notável, sob o pseudónimo de H. Bustos Domecq, a de problemas resolvidos por D. Isidro Parodi, preso vinte e um anos por um crime que não cometeu, que, da sua cela (273 para ser exacto), resolve com facilidade, intrincados enigmas de índole policial, que se são submetidos por pomposos idiotas, que usando sem vergonha da sua genial lucidez e generosidade, vão ufanar-se no exterior e na imprensa do que ele (lhes) resolveu…

O humor é nestas obras corrosivo. Nos três livros de contos a que se dedicaram, surgem-nos intrigas obscuras e nevoentas, encerram uma crítica glacial à sociedade argentina, caricaturada de forma implacável.

Noutro tom, “El sendero de los jardines que se bifurcan” é uma extraordinária jóia da ficção policial. Para ele, que viveu numa busca constante de novos pilares de templos da hipocrisia, da banalidade e do mal, para os destruir, a figura do assassino, Yu Tsun, dificilmente é esquecida.

Também com Casares escreve “Las doce figuras del Mundo” pequeno tesouro de barroco policial (se me é permitida a ousadia).

Mas é imperativo reconhecer também, como Borges refere transparentemente no “Relatório de Brodie”, que sofreu muito (e não apenas desconsiderações sociais) neste planeta de Yahoo, bárbaros como hienas.

Dele sabemos ainda que o apavoravam os espelhos e os tigres e que amava as ampulhetas, os mapas, o sabor do café e a prosa de Stevenson.

Disse de si próprio que apreciava as ideias religiosas e filosóficas apenas pelo seu valor estético (mas também pelo que encerram de singular e maravilhoso), o que talvez fosse indício de um fundamental ceticismo; mas que, por outro lado, ao verificar que o número de fábulas ou de metáforas de que é capaz a imaginação dos Homens é limitada, sabia também que essas contadas invenções podem ser tudo para todos, como o apóstolo.

Confessou que, quando era diretor da Biblioteca de Buenos Aires, sempre que havia quem roubasse livros, se sentia muito satisfeito: isso era a prova (pensava ingenuamente) de que queriam lê-los.

Para este intelectual abastado do Bairro de Palermo, em Buenos Aires, para este “europeu nascido em exílio“, como a si próprio se definia, nem ocorria (nem poderia ocorrer) que se pudesse roubar livros para comprar pão.

Ou aguardente.

Ou droga.

Este invisual, que saboreia com delícias os “croissants” de um pequeno café, junto ao Collège de France; que aos oitenta e muitos anos, totalmente cego, faz uma viagem de balão com a sua companheira Maria Kodama, muito champanhe e vários amigos e recorda, bebendo com alegria, “os ruídos amplificados da terra a acordar, o calor dos gases, os ventos gelados que nos levavam à deriva …” merece ser recordado.

Um ironista ímpar, que compara a guerra das Malvinas, ao conflito entre dois carecas, a disputar um pente, tem lugar a um pedacinho do meu coração.

“Dormi bem esta noite. O sono até me presenteou com um pesadelo. Agora já não acordo com os pesadelos; já os conheço. Há o espelho, há os livros com as linhas a oscilar, a ondular, a vacilar e a misturar-se. Nos meus sonhos, estou sempre na Biblioteca Nacional de Buenos Aires…“.

Haveria muito a dizer sobre o Borges-homem, explicando (porque nunca existiu, como diria Sherlock Holmes…) o Prémio Nobel que nunca lhe atribuíram, as suas indefensáveis posições sobre Pinochet e a vaga fascista da Argentina dos anos oitenta, as estranhas relações com a mãe ou com um marialvismo gaúchoe orillero, que tinge tanto da sua obra.

Falando de catolicismo, a três anos da morte, com 83 anos disse-nos:

       – “Max Jacob fez-se católico, acho que na altura já estava um pouco doido… que vem a ser a Trindade? Esse monstro teológico ultrapassa em monstruosidade o Dragão e o Licorne! No meu país, pergunta-se a alguém se é católico e responde que sim; pergunta-se-lhe se acredita na Trindade, diz: não sei o que é, mas sou católico; acredita na consubstanciação? na Imaculada Conceição? na absolvição? Não, mas sou católico. A minha mãe era católica, mas não acreditava no Inferno. Aceita-se a infalibilidade do Papa e é um político como outro qualquer. Vai ao México, deixa-se fotografar de sombrero na cabeça. Mas que estranha religião a dele, com a sua polícia, os seus embaixadores, os seus funcionários, a sua autoridade e finanças…”

Curiosamente, quando, na sua obra “Psychologie du Transfert” (Albin Michel, 1980, Paris) Carl Gustav Jung nos explica que o papel do analista (face ao paciente), é o de um parceiro e o de um espelho, diz-nos muito sobre Borges.

Os espelhos, sonhos ou fantasmas do inconsciente de Borges, ou forma expressiva das diversas (in)eficácias do corpo, dos olhos ou da sociedade em que ele se “revê” (“L’homme et ses symboles”, Gonthier, 1965, Paris), fazem com que Borges ou qualquer um, se formem reciprocamente com os mundos objetivos (externo e interno). Os dois espelhos do consciente, a imaginação proveniente do interior e o mundo concreto, cada um com os seus sistemas, leis e dinâmica própria, impedem-nos, se deles tomamos consciência, de nos identificarmos unilateralmente.

ALGUMAS DATAS MARCANTES NA VIDA DE BORGES

1899 – Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, nasce em Buenos Aires, no Nº 840 da Rua Tucumán, casa de seus avós. É filho de Jorge Guillermo Borges Haslam, advogado e professor de psicologia e línguas vivas (fala correntemente várias) nascido em 1874 e de Leonor Acevedo Suárez (n. em 1876), oriundos de um meio de políticos, diplomatas e militares que participaram ativamente na vida pública da Argentina e na Guerra do Rio da Prata. Buenos Aires anda pelos oitocentos mil habitantes. A República Argentina, pelos quatro milhões.

Como refere, na Revista Megafono (abril de 1934) os Acevedos, como também os Borges, seus antepassados, seriam, quase de certeza, de origem judaico-portuguesa.

1901 – A família Borges instala-se numa enorme mansão de dois pisos, ajardinada, no ponderado bairro de Palermo, na Calle Serrano – 2135/47. Nesse ano, chega a Buenos Aires o primeiro automóvel.

1903 – Sua Avó, Fanny Haslam (1842-1935), ensina-o a ler em inglês, ainda antes de o saber fazer em castelhano. Primeiros desenhos e palavras de Borges: “Tigre, Papá, Leopardo, Espada”.

1907 – Publica, com oito anos, o seu primeiro conto, “La Visera Fatal”, inspirado em Cervantes e uma peçazinha em três atos, “Bernardo di Carpio”.

1909 – Traduz do inglês “O Príncipe Feliz”, de Oscar Wilde, atribuído a seu Pai pela crítica (pois assinou Jorge Borges, h.), para o jornal porteño “El País”.

A Argentina é o maior exportador mundial de cereais e o segundo de carne congelada.

1914/1918 – Borges, com seus pais, irmã Norah e avó materna Leonor Suárez de Acevedo 81873-1918), tentando travar a imparável cegueira de seu pai, viajam pelos médicos de Londres, Paris, Milão, Veneza e finalmente Genebra, onde se instalam. Trava conhecimento com a obra de A. Schopenhauer, Gustav Meyrinck, Chesterton, W. Whitman, Victor Hugo, Baudelaire, Marcel Schwob, Voltaire, L. Daudet, Carlyle, Barbusse. Enquanto escreve versos em francês, hoje perdidos.

Frequenta o curso liceal (que termina) no Liceu Calvino da cidade.

Em 1914, ainda consegue viajar (pouco antes do conflito) por Munique e, no ano seguinte, por Florença, Génova e Milão.

Começa a dominar bem o alemão e lê Heine e “O Golem” do checo Gustav Meyrinck, nessa língua.

Em 1916, inicia-se na literatura pátria e lê incessantemente Hernandes, Gutiérrez, Leopoldo Lugones, Eduardo Wilde e Evaristo Carriego. Lê também Jean-Paul e Fritz Mauthner.

Em abril de 1918, a família Borges muda-se para Lugano.

1919 – Antes de regressar a Buenos Aires, os Borges passam uma enorme temporada em Espanha.

Barcelona, Palma de Maiorca, Madrid, Sevilha. Borges começa a colaborar, em várias línguas, com revistas de Madrid, Genebra, Maiorca e, sobretudo, na revista fundadora do movimento Ultraísta, “Grecia” (1918-1920) como o faziam Ramón Goméz de la Serna, Isaac del Vando e Adriano del Valle. Sofre a influência do poeta Rafael Cansinos Assens, criador da palavra “ultraísmo”, de quem se considerará sempre discípulo.

1920 – Nas tertúlias madrilenas dos cafés “Colonial” e “Pombo” conhece e convive com Valle-Inclán, Juan Ramón Jiménez, Ortega y Gasset, Tristán Tzara. 

1921- Período espanhol e ultraísta.

Barcelona, Palma de Maiorca, Sevilha, Madrid fazem-no conhecer o melhor da intelligentzia espanhola. “Los Ritmos Rojos”, poemas exaltando a revolução soviética, em diversas revistas, assim como “Los naipes del Tahur“, sob a auto-confessada influência de Pio Baroja. Em fins de março de 1921, embarca para a Argentina, destruindo pelo fogo “Los Ritmos Rojos”, assim como “Los naipes del Tahur“.

1922 – 1939 – Período de intensa atividade intelectual. Biografia de Evaristo Carriego. Colabora na fundação das Revistas “Prisma”, “Proa” (com o amigo de seu pai, Macedonio Fernandéz) “Sur” (com Virgínia Ocampo), esta última uma das mais importantes revistas literárias da Argentina.

Ligação com Norah Lange.

Publica em 1925 “Inquisiciones” e em 1928 “El idioma de los Argentinos”. Conhece Valéry Larbaud e o futurista Marinetti.

Em 1927, é submetido à primeira, das oito operações aos olhos que suportará até meados dos anos cinquenta que nunca impedirão, aliás, o avanço irreversível da cegueira. Em 1932, estabelece uma amizade nunca quebrada com Adolfo Bioy Casares e estabelece-se, entre eles e as irmãs Virgínia e Silvina Ocampo, uma profunda amizade. O ano de 1935 é o da “História Universal de la Infamia“, uma das maiores obras-primas, das tantas feitas por Borges.

Em 1936, é a vez da “Historia de la Eternidad“. Funda a revista “Destiempo”. Na sua “cidade”, já com cerca de três milhões de habitantes, nasce o primeiro “arranha-céus”, o Edifício Kavanagh e é inaugurado o famoso Obelisco. Começa a publicar crónicas regulares em hebdomadários. Traduz “A Room of One’s Own“, de Virginia Woolf, para castelhano.

 Em 1938, morre o pai de J. Luis. É nomeado conselheiro e preside à organização do Primeiro Congresso contra o Racismo e o Antissemitismo, em Buenos Aires, a 6 de agosto. Com 39 anos, em plena recessão argentina, vai à procura de emprego. Assistente de uma das Bibliotecas municipais de Buenos Aires (Miguel Cané, em Almagro). No Natal, tem um grave acidente, que o torna praticamente cego. Depende cada vez mais, para o seu trabalho literário, da mãe e dos amigos.

1940 – Publica em “El Hogar”, a 13 de dezembro, (Buenos Aires, 1940) “uma definição de germanofilia“, que lapidarmente o situa no lado aliado, na Argentina em pleno conflito mundial (para ela, aliás, muito proveitoso). Publica “Tlön, Uqbar, Orbius Tertius” e uma “Antologia de la Literatura Fantástica Sudamericana”.

1941 – 1945 – Anos de grande produção literária. Começa os seus exercícios meio jocosos no policial, com Bioy Casares, que, entretanto, se casou com Silvina Ocampo (“Seis Problemas para D. Isidro Parodi” sob o pseudónimo H. Bustos Domecq). Assim como, em 1941, oito contos fantásticos e o “El Jardin de Senderos que se Bifurcan”. Em 1944, publica a sua Opus Magna: “Ficciones”. Em 1945 “El Compadrito“. A Sociedade Argentina de Escritores atribui-lhe o Gran Premio de Honor de la S.A.D.E., para “Ficciones”.

Guerra mundial e os seus avatares. Custará cerca de sessenta milhões de vidas humanas, não contando as retaliações pós-conflito, as mortes por carências alimentares ou de assistência médica mínima, os mutilados e uma geração europeia enfermiça e diminuída pelos “ersatz” e racionamentos. E, intelectualmente, pelo “facto de estarmos em guerra”.

1946 – A 24 de Fevereiro, Juán Péron é eleito Presidente da Argentina. A 11 de Novembro de 1951, será reeleito…

Jorge Luis continua, com Bioy Casares, no policial (“Un modelo para la Muerte”; “Dos fantasias memorables”). Tendo assinado diversas declarações antinazis e anti-peronistas, liberal assumido como a maioria dos outros intelectuais de classe média do seu país, Borges, sofre numerosas humilhações do poder ditatorial de Péron. Começa a falar em público, na Argentina e Uruguai.

É nomeado diretor da recém-criada revista “Anales de Buenos Aires”.

1948 – Sua irmã e mãe são presas em Buenos Aires, por terem participado numa manifestação antiperonista.

1949 – Publica-se o “Aleph”.

1950 – Borges é eleito presidente da S.A.D.E., cargo que ocupará até 1953. Publica “Aspectos de la Literatura Gauchesca”.

1951 – A Gallimard publica em Paris, a versão francesa de “Ficciones”, ordenada por P. Verdevoye e prefaciada por Néstor Ibarra.

É o primeiro passo para a descoberta de Borges pela Europa.

1953 – Começo da sua paixão pela literatura anglo-saxónica primitiva. Publica, com Margarita Guerrero, “El Martin Fierro”.      

1955 – A 16 de Setembro a insurreição de Córdova, encabeçada pelo General Eduardo Lonardi e por Aramburu, espalha-se por toda a Argentina. Morta Eva Péron, a 26 de julho de 1952, Péron, descerebrado, malquerido dos amigos do Norte, demite-se e parte para o exílio.

O novo governo nomeia JLB, Diretor da Biblioteca Nacional da República da Argentina. Ano fértil em todos os campos, de argumentos de filmes a antologias, contos e ensaios (“Leopoldo Lugones”).

1956 – Professor de literatura inglesa na Faculdade de Letras e Filosofia de Buenos Aires. Professor Honoris Causa da Universidade de Cuyo. Prémio Nacional de Literatura. Os oftalmologistas interditam-lhe, em absoluto, leitura e escrita. A sua mãe passará a ser a sua secretária. A Argentina conta quase vinte milhões de habitantes, mais de metade dos quais na “grande Buenos Aires”.

1961 – Prémio Formentor, que partilha com Samuel Beckett. Faz conferências e dá aulas em Universidades norte-americanas. Commendatore, por decisão do Governo italiano.

Adolfo Eichmann, refugiado na terra de Borges, é considerado culpado de crimes contar o povo judeu por um tribunal de Israel e executado. Nova posição de Borges contra o antissemitismo, que grassa no seu país.

1963 – 1964 – Novos prémios literários. Dá conferências em Universidades na Inglaterra, Escócia, França, Espanha, Suíça, Alemanha e países escandinavos.

1967 – Viagem pela América do Sul: Colômbia, Peru e Chile. Reaparece o “detective-presidiário” D. Isidro Parodi (Bustos-Domecq), em novelas policiais, sempre com Bioy Casares.

Organiza cursos e dá conferências em diversas Universidades norte-americanas, nomeadamente em Harvard.

1969 – “Elogio de la Sombra”, com textos em versos e prosa, que por si só, justificam conhecer Borges. Cursos na Universidade de Oklahoma. Prémio Interamericano de 25.000 dólares, recebido em S. Paulo, Brasil.

1970 – “El Informe de Brodie”. Divorcia-se de Elsa Astete Millan.

1971 – Doutor Honoris Causa por Columbia (E.U.A.), Oxford (U.K.). Recebe o Prémio Jerusalém, em Israel. Conferências em Yale.

O General Alejandro Lanusse é Presidente da Argentina. Vai começar “la guerra sucia”.

1972 – Doutor Honoris Causa pela Universidade de East Lansing (Michigan). Inaugura a cadeira de literatura latino-americana na Universidade de New-Hampshire.  Após 17 anos de exílio, regressa, a 3 de novembro, à Argentina e retoma a atividade política. O “reino dos descamisados” está de volta.

1973 – No México, recebe o Prémio Alfonso Reyes.

1974 – Argumento de um filme de Hugo Santiago, “Los Otros”, depois do êxito de “La strategia del Ragno” (1970), de Bernardo Bertolucci, baseado no seu conto “Tema del Traidor y del Héroe”.

1975 – Morre a mãe de Borges. Publica “El Libro de Arena” e “La Rosa Profunda”.

A 11 de Julho, uma greve geral convocada pela CGT argentina, provoca a queda do Governo, sendo as reivindicações salariais atendidas pela Presidenta Maria Estela Martinéz Péron.

A situação política envenena-se.

1976 – Algumas das obras de Borges são traduzidas em Yiddish, uma mais das dezenas de línguas em que a sua obra foi divulgada.

Em 24 de Março, a chegada ao poder da Junta presidida pelo General Videla (e que, num momento de desvario ou primeiro sintoma de senilidade, apoiou) traduz-se numa onda de prisões, “desaparições”, torturas e assassinatos onde perecem mais de trinta mil argentinos. “Refugia-se” em Madrid (Premio Nueva Crítica); Universidade do Maine (ciclos de Conferências); Universidade de Cincinatti (nomeado Doctor Honoris Causa); Washington, D. C. (Conferência sobre Shakespeare).

Nova atitude injustificável e inqualificável (a não ser pela senilidade, alienação do que se passa no mundo real, “fora dos livros”, ou obediência à casta em que se integra): recebe a Grã-Cruz da Ordem Bernardo O’Higgins, das mãos do ditador Pinochet, o que, no dizer do célebre académico sueco Arthur Lundkvist, lhe fará perder para todo o sempre o prémio Nobel, que inúmeras vozes em todo o mundo da Literatura reclamavam para ele.

1977 –Adrogué”, poemas, com ilustrações de sua irmã Norah.

Nuevas Crónicas de Bustos Domecq”. Doutoramento Honoris Causa pela Sorbonne. Visita a Itália, Espanha, Grécia e percorre Creta.

1978-1982 – Primeiro livro com Maria Kodama, sua secretária e companheira há alguns anos. Continua incessantemente as viagens pelo Equador, Espanha, E.U.A., Colômbia, Suíça. Passa por Portugal (Hotel Estoril-Sol).

1983 – É-lhe atribuído o grau de Chevalier da La Légion d’Honneur por François Mitterrand, em cerimónia especial no Eliseu. Membro do Institut de France, a 4 de fevereiro de 1983. Conferências e lições no Collège de France.

1986 – Prólogo a “El Candelabro de los Siete Brazos”, de Rafael Canssinos-Asséns.

Jorge Luis Borges, a 13 de junho, com a idade de 86 anos, morre.

Antes casou-se com Maria Kodama, em cerimónia civil, em 22 de abril.

É enterrado, por sua vontade, no cemitério de Pleinpalais, em Genebra, na presença, entre diversos escritores, de Marguerite Yourcenar, da viúva do seu amigo Júlio Cortázar e de inúmeros amigos.

Jorge Luis Borges: universo particular – Aguiar Buenos Aires

NARRATIVAS

  • EL HACEDOR. EMECÉ-BUENOS AIRES, 1960
  • HISTORIA UNIVERSAL DE LA INFAMIA. TOR-BUENOS AIRES, 1935 /1954.
  • EL JARDIN DE SENDEROS QUI BIFURCAN. SUR-BUENOS AIRES, 1941 (OITO CONTOS)
  • FICCIONES. SUR-BUENOS AIRES, 1944 (OS MESMOS CONTOS DO ANTERIOR MAIS SEIS INÉDITOS)
  • FICCIONES. EMECÉ-BUENOS AIRES, 1956 (OS CATORZE ANTERIORES E MAIS TRÊS INÉDITOS), 1956
  • EL ALEPH (TRECE CONTOS). LOSADA-BUENOS AIRES, 1949
  • EL ALEPH (DIEZ Y SIETE NARRACIONES). LOSADA- BUENOS AIRES, 1952
  • LA MUERTE Y LA BRÚJULA. EMECÉ-BUENOS AIRES, 1951
  • EL INFORME DE BRODIE. EMECÉ-BUENOS AIRES, 1970
  • EL CONGRESO. EL ARCHIBRAZO. BUENOS AIRES,1971
  • EL LIBRO DE ARENA. EMECÉ-BUENOS AIRES, 1975
  • ROSA Y AZUL. SEDMAY-MADRID, 1977
  • 25 DE AGOSTO DE 1983. SIRUELA-MADRID, 1983

EM COLABORAÇÃO COM ADOLFO BIOY CASARES

  • LOS ORILLEROS. EL PARAÍSO DE LOS CREYENTES. LOSADA-BUENOS AIRES, 1955
  • CRÓNICAS DE BUSTOS DOMECQ. LOSADA-BUENOS AIRES, 1967
  • SEIS PROBLEMAS PARA D. ISIDRO PARODI. SUR-BUENOS AIRES, 1942, que inclui “Las Doce Figuras del Mundo”, “Las Noches de Goliadkin”, “El Dios de los Toros”, “Las Previsiones de Sangiácomo”, “La Victíma de Tadeo Limardo”, “La Prolongada Busca de Tai An”.
  • MANUAL DE ZOOLOGÍA FANTÁSTICA. FONDO DE CULTURA ECONÓMICA-MÉXICO, 1955
  • EL LIBRO DE LOS SERES IMAGINARIOS. KIER- BUENOS AIRES, 1967.
  • ANTOLOGIA “LOS MEJORES CUENTOS POLICIALES”, EMECÉ, 1965, BUENOS AIRES (engloba de Agatha Christie a Graham Greene; de Wilkie Collins a Michael Innes; incluem-se a si próprios, com “Las Doce Figuras del Mundo”).

A LUIS DE CAMÕES

Sem lástima e sem ira o tempo vela

As heroicas espadas. Pobre e triste

Em tua pátria nostálgica te viste,

Oh capitão, para enterrar-te nela

E com ela. No mágico deserto

A flor de Portugal tinha perdido

E o áspero espanhol, antes vencido,

Ameaçava o seu costado aberto.

Quero saber se aquém dessa ribeira

Última compreendeste humildemente

Que tudo o que se foi, o Ocidente

E o Oriente, a espada e a bandeira,

Perduraria (alheio a toda a humana

Mudança) na tua Eneida Lusitana.

.

A LUIS DE CAMOENS

Sin lástima y sin ira el tiempo mella

Las heroicas espadas. Pobre y triste

A tu patria nostálgica volviste,

Oh capitán, para morir en ella

Y con ella. En el mágico desierto

La flor de Portugal se había perdido

Y el áspero español, antes vencido,

Amenazaba su costado abierto.

Quiero saber si aquende la ribera

Última comprendiste humildemente

Que todo lo perdido, el Occidente

Y el Oriente, el acero y la bandera,

Perduraría (ajeno a toda humana

Mutación) en tu Eneida lusitana.

– Jorge Luis Borges, em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. [traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Terracota, 2013.

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

Carlos Macedo

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