Leituras inextinguíveis (26): Nunca se escreveu tão belo sobre a Serra d’Aires e Candeeiros

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Fernando António Almeida

Bons escritores andarilhos, caminhando em todas as direções, propondo percursos às vezes de joias que escapam aos grandes roteiros turísticos, é coisa que felizmente não falta, seja em Portugal seja na estranja. Há suplementos de jornais e lembro publicações que deixaram saudade, caso de A Grande Reportagem. Há escritores de renome como Paul Theroux, Bruce Chatwin ou Alain de Botton, em Portugal temos tradição de escritores como Raúl Brandão e não se pode esquecer o Guia de Portugal coordenado por Raúl Proença, mais proximamente temos nomes sonantes como Miguel Sousa Tavares, Gonçalo Cadilho e Fernando António Almeida, todos eles calcorreiam e deixam-nos textos magníficos. Vou tomando nota de diferentes viagens e diferentes exultações. Mas nunca encontrei um texto que em mim funcionasse como inextinguível como aquele que Fernando António Almeida escreveu sobre o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros:

“É um reino de pedra. O reino da pedra. O reino da secura e da água oculta. O reino do calcário, branco, cinzento – rijo ou brando – seco. Terra de sal, também. Branco. Uma terra que ninguém quis, que ninguém tentou disputar – uma terra ingrata, escassa.

Duas serras principais, Aire e Candeeiros, um planalto, escudado entre as duas, o planalto de Santo António. À serra dos Candeeiros, não há ninguém que lhe não reconheça o dorso de pedra, cinza, redondo e alongado, a longa massa de pedra desnudada que corre a nascente da Estrada Nacional 1, entre Rio Maior e a Batalha.

A toponímia sublinha-lhe o relevo inóspito, denuncia-lhe as passagens e os percursos, o desabrigar da serrania, as terras mais protegidas, os locais aonde se estabeleceu a população. As lombas, os cabeços, as portelas, os algares. O Vale dos Ventos, o Serro Ventoso, o Covão do Sapo, os Casais Monizes.

A água: o Vale da Pia, a Pia de Água, o Olho-d’Água, a Fonte Longa. A vegetação espontânea – o Sargaçal, mas já as plantas cultivadas, alimentares: o Covão do Milho, a Milharada. Ou ainda o Cabeço do Pão de Milho. No planalto, na serra d’Aire, também a flora: Alecrineiros, Murteira; a fauna selvagem: a Moita do Açor; ainda a água represada: Chão das Pias.

Didaticamente, comparam-no a um queijo suíço, a uma esponja viva quando chove, escassa é a água à superfície do solo. As brechas, os rasgos, as fendas do maciço calcário chupam as chuvas do Outono e Inverno. As dolinas, afuniladas, quando o seu chão não foi impermeabilizado pelas terras, canalizam as águas para os algares, grutas, galerias.

Ou retêm-nas à superfície, formando lagoas. Ao longo de todo o ano, como nas duas lagoas do Arrimal. Ou durante os meses chuvosos, ou ainda algum mês além, como na grande depressão alcantilada, no polje de Minde.

Antes de tudo, o mar, os depósitos, os sedimentos acumulados no fundo ao longo das eras. Os restos, ainda às vezes visíveis, da fauna marinha. Depois, as pressões brutais, os grandes movimentos, choques, embates, contorções da mãe-terra; as grandes massas que se levantam, gigantescas. Poeiras minúsculas, porém, no espaço do cosmos.

Levantam-se, entrechocam-se montanhas. Maciço de Albardos, Maciço de Porto de Mós, maciço estremenho. Movem-se as águas e os ventos. Uns e outros corroem. As águas que comem a pedra; paulatinas, dissolvem, constroem outras formas, cavam, almejando o centro da terra. Ocultas, outras, as mesmas águas caídas dos altos céus, escavam, perfuram, esculpem, bordejam, boleiam, adossam os gumes, as arestas das falhas.

À superfície, lentos de séculos, diluem-se crostas de pedra. São rastos vermelhos, óxidos, ocres, torrões desfeitos, carícias de mãos rudes, de camponeses. São terras que escorrem, terras retidas por muros de pedra seca, terras acumuladas nas conchas de pedra. A “a terra rossa”.

Antes, algumas matas de cerquinhos, carvalhos abrigados em recessos. Ou essoutro carvalho, o negral. Mais nos altos, os tufes de carrasco. O sobreiro. A azinheira também, a sobreviver neste mundo rude e seco. Mais tarde, o ulmeiro, nas zonas húmidas, a aflorar o manto das águas. Talvez até, decerto escassíssimo, o próprio castanheiro.

Feéricos de cor, o tojo, o alecrim; o rosmaninho; a flor branca, pintalgada de vinho, amarelo-viva, da esteva; a flor rosa-vermelha da roselha; o olor do tomilho; o funcho; a flor clara e miúda do mirto.

Para criar pastos, para arrotear, para usar a lenha, para fazer renascer o fogo de cada dia, o fogo do frio, o fogo do pão e da carne. Para sobreviver, o homem foi consumindo a floresta, débil, magra. A serra, o planalto, foram ficando ainda mais nus, a pedra escavada a ressaltar ao vento frio, ao sol.

Na terra, a raposa, o gineto, o texugo; o coelho, herbívoro, vítima e garantia de sobrevivência de outros bichos, da terra e do ar. A águia de asa redonda, a águia-cobreira, o gavião, o açor, ágeis predadores; noturnas, as corujas, o mocho-galego.

Gaios, tordos, perdizes, corvos; e, prima-dona do maciço, a gralha-de-bico-vermelho. Remetido para o mais negro da noite, para os recessos dos algares, o morcego. E, a zumbir-se de sol e pólen e cor, a abelha gulosa.

Predador maior, o homem. Desde o Paleolítico Superior, repete-se, se encontram vestígios humanos no maciço. Ali, na periferia, por onde escorrem as águas drenadas pelas galerias da serra, ali junto a rios e a ribeiros. Ali para onde escorreram as terras levadas por águas e ventos, ali se estabeleceram desde sempre os homens. Visível, testemunha orgulhosa, o dólmen-capela de Alcobertas”.

Este fulgor prossegue a descrever a terra rossa, iremos por caminhos de água, passaremos pelos campos de Mira e Minde, até Porto de Mós. E depois temos o roteiro de como chegar a este suprassumo da Natureza… Mas páginas como estas, seguramente escritas com o estampido do entusiasmo e do deslumbramento, são bem raras, e por isso não hesito em dizer que um texto como este é uma das mais belas odes à Natureza, à obra do homem, um autêntico hino telúrico que extravasa a proposta de um percurso de fim de semana.

Mário Beja Santos

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