Diogo Cavalheiro, oftalmologista no Hospital CUF Santarém – Cataratas e a pandemia: o que mudou?

Em Saúde

Milhares de consultas de oftalmologia, e cirurgias de catarata, foram adiadas desde março de 2020. Por um lado, no início da pandemia houve necessidade de gerir criteriosamente os recursos disponíveis em função de situações clínicas urgentes e, por outro lado, quando a atividade já estava retomada, muitas pessoas adiaram os seus cuidados de saúde por receio da transmissão da COVID-19.

Decorrido mais de um ano desde a declaração de início da pandemia é importante fazer-se um ponto de situação: é seguro retomar o tratamento desta frequente doença ocular? É essencial fazê-lo?

Para responder a estas legítimas dúvidas é crucial saber o que são cataratas e as suas implicações para a saúde.

A catarata não é mais do que a opacificação de uma “lente natural” que todos possuímos no interior dos nossos olhos – o cristalino. Da mesma forma que é difícil ver através de um vidro embaciado, também a opacificação do cristalino reduz a nossa  visão. A causa mais frequente de cataratas é a idade. O envelhecimento torna o cristalino menos transparente. À medida que a opacificação progride, começa a ter impacto nas atividades diárias: surge a dificuldade em ler, em ver televisão, em reconhecer pessoas, em conduzir veículos. É reconhecido o risco de quedas e acidentes domésticos associado a cataratas: a fratura do colo do fémur (por queda) é 16% menos frequente em pessoas já operadas às cataratas. Percebe-se, pelo exposto, que as cataratas reduzem a qualidade de vida das pessoas, por um lado, e aumentam o risco de outros problemas de saúde, por outro.

Relativamente ao risco de transmissão do coronavírus durante consultas e cirurgias, muito mudou desde março de 2020. As unidades de saúde, públicas e privadas, adaptaram-se à pandemia COVID-19 e aos conhecimentos entretanto adquiridos. Foram criados circuitos específicos para doentes suspeitos, a utilização de máscaras e álcool-gel generalizou-se, as salas de espera viram a sua capacidade reduzida e a presença de acompanhantes foi limitada. A vacinação em massa dos profissionais de saúde e a testagem obrigatória de todos os doentes antes de cirurgias ou procedimentos fez com que o risco de transmissão do coronavírus fosse substancialmente reduzido.

Em conclusão: continua a não fazer sentido adiar a saúde visual. A observação periódica em consulta de oftalmologia deve manter-se e é segura. Permite detetar problemas oculares graves e tratá-los atempadamente.

Atualmente, já constatamos um aumento progressivo da procura por parte de quem deseja retomar as suas consultas de oftalmologia ou programar a sua cirurgia de catarata, em segurança. Outro sinal dessa procura é o crescente número de doentes que nos são referenciados a partir do Sistema Nacional de Saúde para cirurgia, através de vales-cirurgia, numa parceria criada para combater as listas de espera cirúrgicas.

Desta forma, se as cataratas estiverem a provocar uma redução da qualidade de visão ou uma limitação nas atividades diárias podem, e devem, ser tratadas cirurgicamente, na certeza de que o poderá fazer com toda a segurança.

Diogo Cavalheiro

Oftalmologista no Hospital CUF Santarém

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