Grandes nomes da literatura de crime e mistério (6): Colin Dexter

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Colin Dexter (1930-2017) e o Inspetor Morse

Nasceu e estudou em Stamford, no Reino Unido (Stamford School), prestando o seu serviço militar no Royal Corps of Signals.

Licenciou-se aos vinte e três anos, no Christ’s College (Cambridge) e obteve um M. A. Honorary em 1958.

Faleceu coerentemente em Oxford, em março de 2017.

Ensinou o grego e o latim nos East Midlands até 1966 (Assistant Classics Master), nas Wyggeston School, no Leicester, na Loughborough Grammar School e na Corby Grammar School, no Northamptonshire (já como Senior Classics Teacher, em 1959), até que, por volta de 1966, problemas crescentes de surdez acabaram por afastá-lo do ensino, terminando a sua carreira em 1988, como Senior Assistant Secretary na Universidade de Oxford (Local Examinations).

Fervente (quantos dos grandes nomes do policial o não foram, até o belga Jean Ray…) admirador de Charles Dickens e Thomas Hardy, entrega-se progressivamente ao romance de crime e mistério.

Que partilhava com a paixão por palavras cruzadas, onde se tornou uma referência nacional, via BBC (programa How to Solve a Cryptic Password) … e que transmite ao seu filho literário, o Inspetor Morse.

Estava, pois, definitivamente agarrado ao novo passatempo, quando, ao ler um policial de fraco nível (mas publicado por uma editora conhecida), se apercebe que nada lhe custará escrever obras de muito melhor categoria …. Vejamos a sua descrição do episódio: “We were in a little guest house, halfway between Caernarfon and Pwllheli. It was Saturday and it was raining

– it’s not unknown for it to rain in North Wales. The children were moaning. []. I was sitting at the kitchen table with nothing else to do, and I wrote the first few paragraphs of a potential detective novel”.

Assim aparece, em 1975, “The Last Bus to Woodstock” e nasce um novo e perverso Chief-Inspector do Criminal Investigation Department (C.I.D.) em Oxford: o inspetor Endeavour Morse. De que nunca saberemos senão o apelido, até próximo da sua morte (literária…).

Sim, só um pouco antes do seu assassinato pelo cruel Autor (como o tinham já feito Conan Doyle, Agatha Christie e Nicolas Freeling), tomaremos conhecimento do absurdo nome de baptismo, imposto certamente por pais vingativos ou meramente quaker odiosos…

Morse é um “herói” amargurado, saturnino, com visões da humanidade de insuperável melancolia (com excepção, talvez, dos momentos em que ouve Wagner ou faz palavras cruzadas) que sente que tudo que na vida para ele tem valor (alegria, democracia, cultura sem fronteiras) está em vias de desaparição.

Neste primeiro inquérito de Morse, duas jovens adolescentes, à saída de Oxford, a caminho do festival de Woodstock, recorrem ao autosstop. Uma é encontrada violada, com o crânio esmigalhado. Da outra, como do carro vermelho que lhes deu boleia, nada se sabe. Morse, “amarrado” á cama, o que o torna um renitente “rocking-chair detective”, resolve o seu primeiro enigma.

Acolitado, com uma paciência de santo, pelo prestável Sargento-Detective Lewis.

Morse, um monstruoso egoísta, alcoólico compulsivo, um pouco surdo, em vias de ficar careca, com enorme receio de engordar (já é um celibatário quarentão muito avançado), do risco de enfarto, da cirrose, numa palavra, da morte.

Culto, grande amador de música clássica (que Oxford lhe proporciona em grandes quantidades, de concertos a óperas), apaixonado por Wagner, vive para as palavras cruzadas e gosta de poesia (como Dexter, na vida real, só que este teve ainda uma enorme paixão pelo “bridge”).

Com um sadismo perverso, que se compreende quando vimos como vive, o que espera da vida e o que pensa da morte, torna o quotidiano de Lewis num perfeito inferno, como aliás, aos seus subordinados em geral, (a quem, ainda por cima, crava permanentemente, sem qualquer pudor ou vergonha, bebidas e almoços), apimentados com piadas ácidas e exigências de “Gauleiter” (adora insultar quem sabe que não lhe pode responder).

Lewis, uma alma simples, sem enormes dotes de inteligência, que o admira e respeita profundamente, acha injusta e incompreensível a perseguição, mas perdoa sempre.

Compreende-se a “compreensão” deste.

O nosso sargento Lewis, talvez não genial, é um homem lúcido sensato e, como nós, leitores, apercebeu-se que Morse, embora genial na deteção de um crime, é um eterno falhado social, irascível e odioso, até na sua busca incessante e algo desajeitada de companheira. Há imensas mulheres que, curiosamente, se apaixonam por ele, novas e menos novas…, mas o largam, na primeira volta da esquina, porque há nele algo que repele qualquer empatia. Nunca se realiza amorosamente, estraga promoções, porque não resiste a uma provocação hierárquica, sentindo, no fundo, que nada de muito importante será (ou fará) na vida.

Enquanto que o Sargento é casado, com uma mulher jovem e bela que o ama profundamente, lhe dá filhos encantadores (dois) e lhe tem a casa num brinco…. Comem às vezes no “Horse and Trumpet”, muito banal, mas sem nouvelle cuisine…que abominam.

Morse, por outro lado, bebe por tudo o que é sítio, e os inquéritos dão pretexto a descrições excelentes da vida no condado de Oxford, que devem mais a Tackeray que a Dickens…

Meio psicológico, meio procedural”, meio dedutivo clássico, cada livro de Dexter é um curioso estudo projetivo do próprio, repleto de citações (quase bate Michael Innes…), digressões, viagens guiadas.

Mas com um encanto (que Innes não tem) e que perdura, depois de lido. Aliás, Dexter ao “assassinar” Morse, em 2000 (“The Remorseful Day”), matando-o, já com “cinquentas” bem adiantados, de um ataque cardíaco, consequência da diabetes, fá-lo com uma naturalidade e grandeza, que o identifica como um escritor inglês de primeira água.

Numa entrevista ao “Times”, em 14 de julho de 2000, Dexter explica este feio homicídio: “Nenhum de nós melhora, ao envelhecer […] É preciso um espírito pleno de criatividade para escrever romances policiais, é preciso pensar constantemente nas mínimas implicações e eu sentia que o meu engenho se embaciava…começava a perder a frescura inicial. Tinha feito o suficiente…”. Dizia eu há pouco que a série das aventuras de Morse se iniciou em 1975.

E o êxito foi tal que Dexter a continuou, ao ritmo de um livro por ano, proporcionando ao seu Autor, duas Gold Dagger Award, em 1989 e 1992, e duas Silver Daggers em 1979 e 1981.

Assim como diversos outros prémios[1].

Em 2000, foi feito cavaleiro (O.B.E. – Officer of the Order of the British Empire) pelos serviços prestados á literatura. Poderia acrescentar, à televisão entretenimento…

De facto, transposta para a Televisão (Carlton UK TV), a figura do Inspector Morse, deu origem a uma série extremamente popular, com trinta e um episódios, filmados entre 1987 e 2001, dirigida por John Madden, com John Thaw no papel de Morse, Kevin Whately, no papel de Lewis e obrigatórias aparições meteóricas (à Hitchcock…) do próprio Colin Dexter, patética revelação da sua verdadeira personalidade, baixinho e feioso, tentando eternizar-se, como Hitchcock, pela forma mais errada, no meio das jovens figurantes, fingir um charme, uma nova dimensão do que não era.

O êxito foi tal que, morto Morse, o “seu” sargento (promovido, mais do justamente, a Inspetor) protagoniza, com enorme sucesso comercial, uma nova série, onde viúvo, mais sábio, refletindo, por vezes, na brusquidão e ingratidão, o falecido Morse, na relação o muito culto e religioso sargento Fox (Oxfordiano em cultura e visão do mundo) continua a gesta, já adiantada a primeira década do século XXI[2].

Já nos idos de 2014 (mas ainda com aparições meteóricas de Colin Dexter, muito velhinho…) segue-se a história da juventude de Morse, ainda Constable Detective (“Endeavour“, quatro séries, até agora).

Jean Bourdier, na sua “Histoire du Roman Policier” considera as suas intrigas “subtis, a ponto de se tornarem quase viciosas, um mecanismo de reviravoltas múltiplas, diante do qual o leitor não tem outra solução, senão entregar-se inteiramente nas mãos do autor. Que lhe não estende a mão com algumas migalhas da solução senão para, no momento seguinte, lhas tirar, com a mesma rapidez”.

Esperemos que Morse ressuscite ou tenha um primo, igualmente polícia, em Cambridge, que nos encante com novas aventuras… Lewis não pensaria assim, pobre homem. E Dexter, o demiurgo, infelizmente morreu.

Colin Dexter em Oxford

O “CASO” DIOGENES SMALL

É raro (relevando apenas os precedentes, já em zonas de fronteira, de Jorge Luís Borges, Max Aub ou Carlos Ruíz Zafón), ao que me parece, um escritor de mistério criar uma personagem ficcional do nada e dar-lhe dimensão histórica, obra após obra…

Diogenes Small (com obra publicada entre 1797 e 1805)[3] aparece em numerosas ocasiões, nas novelas do Inspetor Morse. Esta figura (com uma vida literária de seis anos…) teria escrito numerosos estudos históricos e ensaios e serve a Dexter para o citar (como a outros autores de sua invenção…) em numerosos inícios de capítulos da sua obra (headings)[4], criar- lhe uma extensa bibliografia, como “pensamentos do dia”, em artigos que escrevia para numerosos jornais, em notas humorísticas na sua obra, impregnando ou parasitando, se assim se pode dizer, a obra de Dexter… Dexter, ao matar Morse, sente de alguma forma, a proximidade do seu própria fim (pelo menos, literário), ao confessar a Catherine O’Brien[5] falando de Morse: “Nenhum de nós melhora, com o avançar da idade…

Torna-se difícil retratar a faceta “homicida” de Oxford e dos seus mandarins académicos tão bem como o fez. Imaginar um crime (ou vários) com tal impregnação Oxoniana. Desenhar a trama de um homicídio, com mais refrescante originalidade. Na entrevista ao “Times“, foi profundamente injusto para consigo mesmo.

Reginald Charles Hill (1936-2012), com a prolífica geração das suas novelas da série Dalziel e Pascoe, que (imagine-se!) não pertenciam à Scotland Yard, mas à polícia do Yorkshire, populariza a descentralização geográfica dos polícias na ficção britânica, que passam a situar-se das Shetland à Nova Zelândia, da Austrália a Aberdeen, de Manchester a Cambridge, de Edinburgh a Hastings.

Dexter situa o seu trágico herói na Thames Valley Police, operando em Oxford.

Não conhecer os percursos de uma cidade como Oxford não tem muito que se lhe diga. Mas fazê-la real, torná-la tão concreta como aquela onde vivemos é uma proeza que ele consegue como poucos conseguiram.

Começa com enigmas tão subtis, que se tornam quase viciosos e barrocos, mas, desde o início, as suas personagens têm sempre substância, ligação ao mundo real e são, muitas vezes mesmo, fascinantes. O que não sei se se poderá dizer de William McIlvanney, Ian Rankin, W.J. Burley, Caroline Graham, Alanna Knight ou outros….

Nesse ramo (o policial UK regional) Dexter foi indiscutivelmente o melhor.

OBRAS PUBLICADAS

  • LAST BUS TO WOODSTOCK, 1975
  • LAST SEEN WEARING, 1976
  • THE SILENT WORLD OF NICHOLAS QUINN, 1977
  • SERVICE OF ALL THE DEAD, 1979
  • THE DEAD OF JERICHO, 1981
  • THE RIDDLE OF THE THIRD MILE, 1983
  •  THE SECRET OF ANNEXE 3, 1986
  • THE WENCH IS DEAD, 1989
  • THE JEWEL THAT WAS OURS, 1991
  • THE WAY THROUGH THE WOODS, 1992
  • THE DAUGHTERS OF CAIN, 1994
  • DEATH IS NOW MY NEIGHBOUR, 1996
  • THE REMORSEFUL DAY, 2000
  • MORSE’S GREATEST MYSTERY AND OTHER STORIES (CONTOS), 1993, também publicado com o título “AS GOOD AS GOLD”, com as seguintes novelas[6]:
  • AS GOOD AS GOLD
  • MORSE’S GREATEST MYSTERY
  • DEAD AS A DODO
  • NEIGHBOURHOOD WATCH
  • THE INSIDE STORY
  • LAST CALL
  • EVAN TRIES AN O-LEVEL
  • AT THE LULU-BAR MOTEL
  •  A CASE OF MIS-IDENTITY
  • MONTY’S REVOLVER
  • THE CARPETBAGGER
  •  

Publicou ainda:

  • THE BURGLAR, 1994
  • THE DOUBLE CROSSING, 2003
  •  BETWEEN THE LINES, 2005
  • THE CASE OF THE CURIOUS QUORUM, 2006
  • THE OTHER HALF, 2007
  • MORSE AND THE MYSTERY OF THE DRUNKEN DRIVER, 200
Inspetor Morse, uma série televisiva que foi um êxito sem precedentes


[1] Cartier Diamond Dagger, pela sua obra em conjunto, em 1997; a Macavity Award, em 1996, pela sua novela “Evans tries an O-Level”; eleito membro (só possível por convite do Detection Club), em 1980.

[2] Kevin Whately continua a ser o agora Inspetor Lewis já na Season Eight (outubro 2014) …

[3] “The Remorseful Day”, 1999, London, BCA (Book Club Associates).

[4] “The Way Through the Woods”, “The Daughters of Cain”; “Death is Now my Neighbour”; “The Remorseful Day”, entre os anos de 1992 e 1999.

[5] “The Times”, 14 de julho de 2000.

[6] As seis primeiras são protagonizadas pelo Inspetor Morse.

Carlos Macedo

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