Nos trinta anos da morte do “Diabo”

Em Opinião

O meu amigo José Miguel Noras, ex-Presidente da Câmara de Santarém, historiador, numismata, divulgador incansável de tudo quanto à cidade de Bernardo Santareno e afins diga respeito, costumava nas seus brilhantes e amistosos discursos ( nunca o ouvi neles dizer mal de ninguém), em cerimónias públicas, homenagens, lançamentos de livros etc., referir-se a mim como «o braço direito do Diabo», ante a perplexidade daquela parte do auditório que julgava que o ilustre orador aludia ao mítico Senhor dos Infernos, de quem eu seria o tenebroso secretário geral. Não sou. Apesar disso, ainda há pouco, a propósito dum romance menos ortodoxo que escrevi, o ter ouvido, noutro contexto, a meu respeito.

De quem eu era na altura o braço direito na CLAPA, Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela, era de Joaquim Jorge Duarte, por alcunha O DIABO, Presidente dessa organização a que eu também pertencia, sendo ele o seu mais alto e lendário rosto.

Devido a esta ambígua designação do José Miguel Noras, tive, algumas vezes, que enfrentar os olhares desconfiados de gente que seguia atenta, e encantada, as palavras não menos encantadas e encantatórias, do antigo autarca scalabitano. Aconteceu isto por exemplo no lançamento de alguns dos meus livros editados com  chancela da Câmara de Santarém, um dos quais, um romance intitulado «Para a Morte Não Ter Razão», sobre um crime passional sucedido aquando das eleições de 1958, a que concorreu o General Humberto Delgado e é dedicado, e conta, algumas das aventuras do Diabo, o Joaquim Jorge Duarte, admirador que era do General Sem Medo.

A propósito do Alviela, o rio da poluição inesgotável, ele sim um rio infernal, foi agora publicitado na comunicação social, que o actual Presidente da Câmara de Santarém, o também meu amigo, Ricardo Gonçalves, acaba de conseguir trazer da A.P.A, a Agência Portuguesa de Ambiente, meio milhão de euros para investir precisamente no Alviela, e embora todos saibamos que o verdadeiro entrave à despoluição deste rio vai muito para além do dinheiro investido ( vários milhões de que alguns se aproveitaram em parte, diga-se), não se pode deixar de saudar esta conquista.

Notícias desta importância, no que ao Alviela e à Câmara de Santarém diz respeito ( acusada que tem sido desde há décadas, em prol da Câmara de Alcanena, anjinho implume a quem em verdade se deve o licenciamento abusivo de grande parte da mono indústria de curtumes que polui o saturado Alviela, de ser ela e não a congénere, a culpada maior deste drama ambiental), só me lembra da visita à bacia deste rio, em 1994, no âmbito de uma Presidência Aberta, do então Presidente da República Mário Soares, ligado por laços familiares ( mãe e avô materno) ao concelho de Santarém, e a este rio mártir.

O que menos se sabe é que tal acontecimento da visita presidencial, que trouxe o Alviela para a ribalta dos crimes ambientais do país, se ficou a dever, em grande parte, ao José Miguel Noras. Lembro-me também que foi então que ofereci em cerimónia pública ao saudoso ex-Presidente mais votado de sempre pelos portugueses, um livro de contos «Alviela, do Rio à Margem» dedicado a Mário Soares e às suas raízes familiares, ele que costumava gabar-se, pela coragem que tinha, de «ser um Ribatejano» verdadeiro.

A luta pela despoluição do Alviela que dura há meio século está longe dum final feliz. As causas são muitas, contraditórias, e há poucos inocentes neste longo processo, dos partidos políticos aos governantes, dos autarcas a parte das populações ribeirinhas atingidas, medrosas ou atentas e respeitadoras dos poluidores ( a poderosa indústria dos curtumes sempre empregou muita desta gente que sofre da poluição ao mesmo tempo que a produz). Mas não cabe aqui falar nisso. Fi-lo no tempo próprio, contra a cumplicidade propositada ou inocente de muitos, em livros, jornais, acções no terreno ( com o Diabo precisamente, e ameaças de morte a ambos), e no jornal «O Pica-Peixe», órgão da CLAPA na década de noventa do século vinte.

É deste pequeno jornal que apresento aos leitores actuais que se interessam por este planeta e o Ambiente em risco dele, uma «EPÍGRAFE AO DIABO», dedicada à memória de Joaquim Jorge Duarte, do qual passam agora trinta anos que morreu, pioneiro intimorato de lutadores ambientais neste país, de quem fui amigo, companheiro de aventuras, e activista contra a poluição, física e moral, que infelizmente vai afectando cada vez mais terras, rios, mares, mesmo muitas almas alheias ao Ambiente, egoístas ou ingénuas, que não se dão conta de que estamos a ficar sem planeta. Aqui está o que escrevi então no nº 13 do jornal «O Pica-Peixe» órgão da CLAPA, dedicado à memória do Diabo, de quem me honro de ter sido, como dizia outro amigo comum, «o braço direito», e é assim:
«As únicas letras que soletraste foram frias madrugadas com caminhos de cardos e piteiras. Do teu pai, além da ironia, humor, algum cepticismo que um homem não é de pau, herdaste a alcunha. Muitos nunca receberam tanto. Sabias que as palavras, como as folhas do arvoredo e alguns homens, são de duas caras, mas acreditavas. Chamavam-te o Diabo e nunca tiveste de aturar senão os filhos dos outros. Grande trabalho ainda assim. De tanto ideal que amassaste com o pão caseiro que cozias no forno tosco da tua taberna, e com o qual garantias «dez anos de vida a mais» a quem o comesse, restou-te até ao fim o sonho.
Morreste fez no dia 22 de fevereiro deste ano de 1993, dois anos. Nunca soube como se diz um amigo morto e vou-te poupar as palavras que não faltará que te digam. Os mortos sempre hão-de servir a alguns vivos que os não conheceram ou apoiaram, a eles e a nós todos, mortos adiados. De ti direi apenas que nunca perdeste a esperança. É pouco? Sim, e tresanda a convencional, admito. Muitas pessoas têm esperança. A esperança é mesmo o que muitas pessoas têm mais em si próprias. O que também é humano. Tudo é humano já se deixa ver. Então digo que tu nunca perdeste a esperança na harmonia da vida colectiva, que extravasava as quatro paredes do egoísmo e contagiava o coração de muita gente. O meu lá devia ter apanhado por tabela e, se calhar, é por isso que estou aqui a escrever isto sem saber bem o que dizer, hesitante, por que nunca se sabe quando as palavras que dedicamos aos amigos  não começam a ser dó por nós próprios. Somos pó, dizem-no, e nunca isso é tão verdade como quando os amigos nos morrem. 
Podia falar, por exemplo, do amor que dedicaste ao Alviela, como ao filho que nunca tiveste, mas quero guardar essas palavras que só mereceremos no dia em que o rio volte a ser o que era, e tanto desejaste. Prefiro falar doutra coragem que também foi tua. Há muitos anos, ardentes de fogo e noites alucinadas, quando o medo rondava a tua taberna e este país, pediste-me uns versos. Fi-los e soube depois que foste colocá-los a Vila Nueva Del Fresno na campa do teu herói e modelo de esperança: o general Humberto Delgado, assassinado nessa terra espanhola, onde ias, apesar do perigo óbvio, todos os anos em peregrinação. Quando chegaste, com os olhos a brilhar e um sorriso de criança, disseste-me : «Lá ficaram». Agora imagina, és tu meu amigo quem estás com as flores e outros versos que fizeram a teu respeito. Talvez as flores, e o seu perfume, sejam uma inútil compensação pelos maus cheiros que a ganância do lucro a todo o custo te obrigou a suportar tantos dias, tantas noites, tantos anos, do rio à tua porta carregado de veneno e espuma ácida branca e fétida mais que a morte, e disso morreste à quarta trombose. Eras teimoso! E aposto que tal o general Sem Medo, morto no dia 15 de fevereiro de 1965, por amor ao teu ídolo, quiseste morrer na mesma data. Erraste por pouco. E queres saber, como aconteceu aquando da morte do General Sem Medo também há quem diga do Alviela, depois que morreste, que «isto nunca mais muda». Que havemos de lhes dizer Joaquim, se eles nunca perceberão que as coisas só mudam se formos nós a mudar as coisas?

Por isso é que ficarão como sempre estiveram, em paz e às moscas consigo mesmo e quando nem mesmo os netos os recordarem, os filhos que nunca tiveste hão-de  falar e escrever de ti, que nunca ensinaram a ler, com respeito e emoção. Como eu, e estas palavras com lágrimas. Agora. M.R.S.»
                                                                                                                                                                                              Mário Rui Silvestre

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