Escravatura: Tapar os olhos com os dedos abertos (com áudio)

Em Opinião

Abriu-se a caixa de pandora da nova escravatura! O que já se sabia há muitos anos, o que tem sido denunciado por ativistas da Associação Solidariedade Imigrante e do Bloco de Esquerda, o que vemos perto de nós e fingimos que não vemos foi destapado pela pandemia.

As reportagens televisivas começam a pôr a nu muitos anos de inoperância de governo, polícia e autarquias. Em nome de “portugueses de bem” destilam-se ódios e falsidades contra imigrantes para proteger agrários e empresários corruptos; as instituições aquietaram-se. Restou uma Polícia Judiciária com um trabalho insuficiente; sr. Diretor da PJ: trata-se de crime como aconteceu aqui em Almeirim.

Vejamos algumas informações:

1 – Muitos imigrantes são recrutados na Índia com promessas de grandes salários em fábricas, há anúncios em jornais indianos que prometem 2 000 € a conduzir táxis. Muitos imigrantes pagam, ainda na Índia, milhares de euros para conseguirem o visto de entrada em Portugal.

2 – Quando aterram no aeroporto, o “agente” que pertence a uma das muitas empresas indianas, exige-lhes logo ali importâncias de cerca de 1 500 €. São conduzidos a um “hostel” ou casa de “receção” onde lhes fazem o registo.

3 – Há informações de alojamentos miseráveis ou híper lotados em Santarém: Av. dos Combatentes, Rua Frei Luís de Sousa, Calçada do Monte, entre muitos outros lugares que mereciam a visita da polícia e dos serviços sociais da Câmara. Os imigrantes são metidos em quartos com beliches, casas com cerca de 20 pessoas e uma casa de banho…

4 – No dia seguinte começa o pesadelo e não o sonho europeu: são confrontados com árduos e mal pagos trabalhos agrícolas. Mas só trabalham alguns dias por mês porque as empresas mandam vir 100 pessoas quando só têm trabalho para 20. Então, 2 pessoas trabalham dois ou três dias e depois ficam em casa para que outros trabalhem também dois ou três dias. Muitos homens adultos choram como crianças quando percebem o logro em que caíram.

Este esquema serve para ter os imigrantes oprimidos, se refilam ficam mesmo sem trabalho! 

5 – Toda a documentação de que necessitam para apresentarem no SEF a Manifestação de Interesse para a obtenção de Cartão de Residência Temporário, é feita através do recrutador.

Exemplo: a certidão de residência, obtida na Junta de Freguesia, que custa cerca de 7,60 €, é-lhes exigido pelo recrutador 140 €. Será que nas juntas de freguesia, deste país, nunca ninguém estranhou haver casas com 30 certidões emitidas? A certidão exige 2 assinaturas de cidadãos nacionais, também, é negócio: contam-se casos de recurso a pessoas em dificuldades financeiras, sociais ou outras, a quem pagam para assinar o documento.

6 – As pessoas são mantidas nessas casas num verdadeiro ambiente de intimidação.

– Não queres viver aqui? Então também não vais ter trabalho e amanhã estás na rua!

– Não podes andar na rua nem falar com pessoas estranhas porque a polícia apanha-vos! Os exemplos podiam continuar. É um verdadeiro ambiente de terror, aproveitando da fragilidade das pessoas, num lugar estranho, sem conhecerem a língua, a cultura, etc.

7 – Há alguns meses a Polícia Judiciária atuou em Almeirim. Quem dialoga com imigrantes percebe haver muito mais casos e empresas dirigidas por pessoas indianas, portuguesas e paquistanesas.

8 – O escândalo do atendimento no SEF:

Este é um dos maiores obstáculos colocados aos imigrantes. Como já foi referido, quando os imigrantes chegam, entregam no SEF a Manifestação de Interesse, mas o processo é normalmente controlado pelas empresas recrutadoras: contrato de trabalho à hora, Seg. Social e AT.
Depois, quando são detentores de contrato e já têm alguns meses de contribuições, começa o “calvário” de tentarem marcar atendimento no SEF para fornecerem os dados biométricos e formalizarem o Cartão de Residência. As redes de tráfico, com várias nacionalidades incluindo a portuguesa, fazem centenas de inscrições GRATUITAS online [que ficam em seu poder] e depois vendem-nas a 500 e 600 € cada uma.

Ao não corrigir este sistema de agendamento, o SEF “promove este mercado”, como foi denunciado por um comunicado da Embaixada da Índia em Lisboa.

O desafio que deixamos a todas as pessoas: não deixemos ninguém para trás, escolhamos a solidariedade e não o ódio, as virtudes do 25 de abril nas governações e na cidadania!

Carlos Beja e Vítor Franco

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