Ex-presidente da ACT Pimenta Braz critica a hipocrisia perante o grave problema dos trabalhadores migrantes

Em Sociedade

O ex-inspetor geral da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), Pedro Pimenta Braz, critica as “as lágrimas de crocodilo e a monstruosa hipocrisia de governantes e de alguns jornalistas – sim, jornalistas -, perante a – pasme-se! – súbita constatação de que existem trabalhadores migrantes em Portugal em situações de negritude, quer devido a tipificação de tráfico de seres humanos, quer devido a situações de profunda indignidade laboral e humana“.

O antigo inspetor-geral da ACT Pedro Pimenta Braz adverte que a realidade de Odemira é comum a todo o Alqueva e ao Ribatejo e Oeste.

Numa publicação no Facebook, o antigo dirigente da ACT, de Santarém, diz sentir “os mais detestáveis sentimentos, quando escuto e assisto a entrevistas, comentários, reportagens e discursos políticos sobre uma realidade que existe em Portugal há bem mais de 10 anos e que assumiu proporções incontroláveis desde os anos 2014 e 2015“.

O motivo é muito simples. Todos esses senhores sabem perfeitamente do que se passa e digo-o com toda a frontalidade. Sabiam e sabem-no muito bem! No entanto, se distintos governantes tudo fizeram – e fazem – para esconder o problema e assim apresentarem um país fictício, outros até em reportagens participaram com instituições do Estado“, comenta Pimenta Braz, antigo diretor da delegação de Santarém da ACT.

A desfaçatez é tamanha, que insistem apenas em focar a realidade de Odemira. Pois tenho péssimas notícias para dar. A realidade alastra a todo o Alentejo – todo o Alqueva em particular -, Ribatejo, Oeste e outras regiões do país“, adverte.

A ação de Pedro Braz como inspetor-geral da ACT entre 2013 e 2018 esteve rodeada de polémica. O dirigente destacou-se pelo combate que dirigiu contra o problema do trabalho ilegal, chegando ao ponto de adquirir drones – uma novidade na época – para fiscalizar as enormes propriedades no Alentejo e Ribatejo, medida que foi atacada na altura.

Quem não se recorda do anedótico que foi quando excelsos governantes criticaram alguns por terem adquirido um drone para melhor localizarem trabalhadores escondidos sob as copas das oliveiras nos milhares de hectares dos campos que rodeiam o Alqueva. Asseguravam que eram meios desproporcionados para problemas simples. Pois, mas a ofensa à dignidade humana carece de todos os meios possíveis para a garantir“, afirma Pedro Braz.

Existiram e existem em Portugal governantes que adoçaram displicentemente o trabalho de migrantes em Portugal e que agora se fazem passar por putativas virgens ofendidas. O pó debaixo da alcatifa ficou demasiado saliente. Tramaram-se devido ao Sars-CoV-2“, continua o scalabitano Pedro Braz, atualmente inspetor da ACT.

Claro que existe um problema agudo de falta de mão de obra nos campos em Portugal. Mas também é verdade que existem muitos – autarquias e entidades empregadoras – que, em conjunto e sem a ajuda do estado central, já conseguiram resolver o problema e integrar quem nos procura para melhorar a sua vida“, adianta.

Existe maior incompetência do que aquela que se traduziu, por um lado, em extinguir o SEF – instituição axiomática no combate ao tráfico de trabalhadores estrangeiros – e, por outro, verter obscenas lamentações sobre o que já todos sabiam que existia?“, questiona Pedro Braz.

Os agora esforços desesperados de saciar a opinião pública, disfarçando-se problemas através do despejo “à outrance” de órgãos de fiscalização no terreno em meia dúzia de metros quadrados, simboliza a nossa douta incompetência na resolução de problemas estruturais, que necessitam de planificação séria e coragem no combate a interesses instalados“, critica Pedro Braz, concluindo que “temos governantes que estão muito mais preocupados com a composição de uma falsa imagem de Portugal, do que em construir os alicerces de um País com futuro“.

Leave a Reply