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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (8): Anthony Berkeley Cox

Em Leituras
Anthony Berkeley Cox (1893-1971, Reino Unido)

Muitos homens transformaram um desencanto total (ódio?) face à humanidade em Arte. Exercida até com algum mérito e nobreza. Um deles foi, sem margem a dúvidas, Anthony Berkeley Cox (1893-1971), o verdadeiro ABC da Literatura Policial. Britânica e imperial.

O “cowboy” e o “gangster” inspiraram o imaginário popular dos EUA, ao longo de todo o século XX. Nestes dois estereótipos se encarnou toda a maneira de ser e criar mitos próprios, num país que nasceu e vive na e da violência[1]. E nela persiste, com crescente falta de escrúpulos. Contrastes simples, bem e mal, preto e branco. O mobster inspirará, no género policial, o melhor da ficção americana: o black mask, o hardboiled, Chandler e Hammett, Spillane e McCoy.

No Império de sua Majestade, pelo contrário, o herói raras, raríssimas vezes, é o “gangster”. Ou, por igual, é aceite que o detective seja um “privado” pelintra, violento, desonesto e beberrão[2].

O mundo policial da “época de ouro” gira, em Inglaterra, em torno de valores mais subtis. Vive ainda bem, num Império que se extingue, melhor, que acabou, com a guerra de 1914-1918.

A classe média inglesa, no fim dos anos vinte (greves de 1926; depressão de 1929) treme por quase tudo: a revolução bolchevique; os trabalhistas no poder; o desemprego; a inflação crescendo; a luta com os impostos; a perda galopante dos standards de vida das épocas vitoriana e da “Belle Époque”.

Que melhor refúgio poderia criar-se que uma forma de literatura que fixasse intemporalmente, regras, paisagens, rituais, valores morais e religiosos, que estereotipasse regras e convenções sociais?

Que repetisse, com “tics” superficialmente renovados, o sempiterno ritual: crime, investigação, dedução, solução.

Misses Marple, Beatrice Bradley ou Maud Silver; Lordes Peter Wimsey ou Thomas Lynley; bastardos reais, como Albert Campion; gentry, estilo Sirs John Appleby, Roderick Alleyn, Henry Merrivale; pequenos funcionários conscienciosos, como Mr. Reeder, Humphrey Masters ou Harding; gente respeitadora, como Poirot, Jane Marple ou Tuppence, representavam, em multifacetado caleidoscópio, um universo vitoriano que se esvaía e não voltaria mais.

Era um mundo de velhas aristocratas odiosas, pequenos funcionários bancários de Clapham, vetustos ex-militares condecorados, solteironas que ajudavam o pastor da paróquia, vivendo “decentemente”, de hedonistas rurais, caçadores, bebedores e fumadores, de “pubs” e “Tudor cottages”.

A criação de Berkeley, Roger Sheringham, o ocioso gentleman-detective rico (como o Mr. Satterwhaite de Agatha Christie), não é mais que um Noel Coward, obcecado pelo crime.

Anthony Berkeley é bem representativo da visão mais Dickensiana do policial dos anos 20/40[3].

ABC revelou-se, do ponto de vista ideológico (a obra O England! [4]; a sua decisão, puramente política, de deixar de escrever ficção, a partir de 1939; o seu ódio desmesurado aos impostos e ao sistema de jurados, em processos-crime; a sua irracional luta e raiva pela abdicação do pró-nazi Eduardo VIII; capaz de “to take arms against the Government and for the King”, etc.) um ultrarreacionário ou mesmo um nazi.

As suas ideias políticas (sem sequer falarmos da misoginia quase doentia, possível retaliação de humilhações pessoais; do antissemitismo, aliás relativamente disseminado nessa época, na “British middle-class”) são, no entanto, temperadas por uma sardónica e certeira crítica aos costumes sociais opressivos da sociedade inglesa, dos meios suburbanos aos rurais, das cidades de férias na costa sul, aos salões intelectuais de Londres ou Oxford.

Por exemplo: “The essential vulgarity of English town life – …semi-detached in a genteel road that was the middle class equivalent of a back street, with retired grocers leaning over your fence and forcing their inept conversation on you at the wrong moments”.

Detestava o sistema de partidos (presumivelmente o trabalhista mais que os outros…) e defendia a “ditadura” do plain man, ou seja, a maioria silenciosa (“the voiceless section of the population”) que Pierre Poujade e J.-M. Le Pen, mais tarde, tornarão bandeira e padrão de “verdadeiro civismo”, em terras francesas.

Isto tudo numa perspectiva quase “esquizofrénica”, pois na sua obra, onde perpassam sempre, de forma gentil, a ironia, a compreensão, o humor, existe também uma crítica social impiedosa ao pior da “cant” britânica, à aristocracia parasitária, à “idle class”, aos que abusam das desigualdades de riqueza, tornando-as vector de privilégios e desigualdade de direitos.

No campo da ficção criminal, o “Detection Club”, fundado em 1928, foi, numa parcela importante, obra sua.

Dele falarei mais adiante.

Morreu, com setenta e oito anos, de uma combinação de pneumonia, bronquite crónica (sempre sofrera de asma) e complicações cardíacas, sendo sepultado em Watford, no Vicarage Cemetery da terra.

Será o principal inspirador de um núcleo de escritores, que se aglutina em grande parte no Detection Club, formando, sem o saber, uma “corrente literária” definida, criando “um subgénero policial” – o “whodunit” – e assegurando, mais legitimamente que qualquer outro núcleo de escritores de ficção de crime & mistério, o legado de Sir Arthur Conan Doyle, Arthur Morrisson, Baronesa Orczy, R. Austin Freeman e A. W. Mason.

Mesmo autores menores, de talento menor e estilo mais popular (David Hume, Edgar Wallace, Sax Rohmer, Sidney Horler, Mary Plum, Charles Barry) reconhecem a sua dívida para com as “regras de ouro” da gente do Detection Club.

Berkeley pertenceu à Golden Age of the Detective Novels, para quem nada havia de mais estimulante que um “good, juicy murder” …

Mas não era por isso que os livros destes autores tinham que ser obrigatoriamente acinzentados, mergulhados numa atmosfera tétrica e sombria…

A série “Tommy & Tuppence” de A. Christie, o ácido humor de Berkeley ou de Georgette Heyer, os intermédios grotescos de “Sir Henry Merrivale”, na versão Carter Dickson de J. D. Carr, provam-no cabalmente.

O certo é que Cox começa a sua atividade literária neste mesmo campo, precisamente. O da sátira.

Com preciosos e breves ensaios ou contos humorísticos no Punch (1924-1927), reeditados mais tarde no “Jugged Journalism”.

São desta época o episódio “Holmes in the Dasher” e a peçazinha “Bitter Almonds”, onde um jovem galã faz a corte, num compartimento de comboio, a uma jovem (morta), assassinada com cianeto…

Curiosamente, numa carta-prefácio à sua obra “The Second Shot”, escrita em 1930, Cox diz-nos como se podem escrever, a seu ver, romances policiais:

“…parece haver duas direções nas quais o romancista inteligente tentará desenvolver-se: …pode fazer experiências com a narração da sua história, contá-la de trás para diante, ou de lado, ou aos bocados; ou pode procurar desenvolver carácter e atmosfera. …Em minha opinião, é no sentido desta última que se dirigem as melhores energias da literatura policial. Estou pessoalmente convencido que o velho problema policial puro e simples, inteiramente dependente da intriga e não rodeado de outros atrativos de caracteres, estilo e até humor tem os dias senão contados, pelo menos nas mãos do carrasco. A história policial está em vias de se transformar num romance capaz de prender o leitor por laços menos matemáticos e mais psicológicos.

O elemento “problema” manter-se-á, indubitavelmente, mas tornar-se-á mais um problema de carácter do que um problema de hora, local, motivo e oportunidade. A pergunta já não será “Quem diabo matou o velho na casa de banho?” mas “Que diabo levou X a matar o velho na casa de banho?”.

Passaremos a desejar saber exatamente qual a notável combinação de circunstâncias que levou X a decidir que só o homicídio poderia resolver o caso.

Numa palavra: a história policial deve tornar-se menos simplista. Por trás do mais vulgar crime da vida real há um complexo de emoção, drama, psicologia e aventura, cujas possibilidades para os efeitos da ficção são completamente desprezadas pela história detectivesca convencional.

É o que Berkeley passará a explorar, magistralmente, através do seu pseudónimo Francis Iles…

A. B. C. cultiva também, nos seus primeiros passos na ficção, um estilo burlesco, surreal e Ubuesco em detecção detectivesca, onde despontam os primeiros sinais da sua mais genial criação, que o levará aos maiores êxitos comerciais: Roger Sheringham.

Este (outra das “emanações” Pessoanas do próprio Berkeley) é um coscuvilheiro agressivo, cínico para com a sociedade e para com todos que têm o azar de tropeçar nele, algo (ou muito) efeminado e dotado de uma invulgar autossuficiência.

British gentleman” da classe média, culto e inteligente (mais autoconvencido que inteligente, no fundo…) faz tudo o que a sua casta não deveria fazer…

Com uma descarada confiança na infalibilidade da sua deteção detectivesca, comete um sem número de asneiras e falhanços espetaculares (vide a situação Kafkiana em “The Vane Mystery” …) que o Inspetor Moresby, o seu paciente e brilhante amigo Chitterwick ou o acaso, irão corrigir.

Dotado de uma controversa e individualíssima noção de justiça privada (que o faz crer que o assassino pode ser, por vezes, uma benfeitoria feita à humanidade), é uma personagem nada simpática.

Jumping Jenny”, escrito em 1933, é uma verdadeira obra de mestre na concretização do seu ideal…

Mas o seu pedantismo inquebrantável, a sua “joie de vivre” no meio das asneiras que multiplica, fornece um toque de humor insuperável, nos livros ou contos que protagoniza.

Sheringham aparece em dez romances e cinco contos (publicados entre 1925 e 1943), a que convém adicionar um sexto, em duas versões diferentes, uma peça teatral e outra para a rádio, só publicadas – postumamente – em 1994.

O autor dá tal importância ao seu “herói” que chega a publicar (“Concerning Roger Sheringham”) uma curta biografia do mesmo (em 1933), como anexo á versão norte-americana de “Jumping Jenny” (“Dead Mrs. Stratton”), nos E.U.A.

Por ela sabemos que nasceu em 1891 (em Watford, provavelmente), filho de um médico rural abastado. Frequentou uma “Public School” (Winchester? Fernchurch?) onde os alunos eram ensinados a desprezar Eton e Harrow (que, por seu turno, nem sabiam da sua existência…).

Roger vai para Oxford em 1910 (Merton College?), joga rugby e golfe (Blue Medal).

Na primeira guerra mundial é ferido em combate e, terminada esta, trabalha (“em acessos espasmódicos”) no comércio, como professor (acabou por se licenciar em História e Literatura Clássica) e como criador de galinhas de raça. E, sem saber como, torna-se um escritor conhecido, muito bem pago e aqui começa a “tragédia” …

Porque então, livre de problemas financeiros, resolve tornar-se um “criminologista amador”, como o seu conhecido Lorde Peter Wimsey!

Como este, tem o seu fiel Jeeves, um mordomo chamado Meadows.

Adora comer bem (ou seja, cozinha estrangeira, penso eu), cerveja em quantidades imoderadas e é um jogador de “bridge” compulsivo. Quanto a necessidades sexuais…estamos conversados. Nunca as manifesta (e a avaliar pela história de inúmeros intelectuais do Reino Unido, ainda bem…)

Atarracado, olhinhos cinzentos e manhosos, titular de uma infatigável vivacidade que faz dele (como “investigador”) um touro, vestido de casacos Norfolk e flanelas escuras.

Dá-se também a envenenar permanentemente a atmosfera com boatos e cachimbos “bull-dog”, que enche com um tabaco medíocre.

Nada virado para a modernidade, ignora (ou ridiculariza) a “art deco”, o círculo de Bloomsbury, o Labour, o surrealismo e odeia cordialmente os (jovens) frequentadores dos locais “in” de Soho.

Lê o Punch “para o ajudar a adormecer”.

De si próprio, como escritor, tem uma fraca ideia. Num livro, diz, de si mesmo, a uma “Mrs. Purefoy”: “Espero que tenha tido mais prazer em ler os meus livros do que eu em escrevê-los”.

E repete incessantemente, em contos e romances onde figura como protagonista: “I write for a living”.

Solteirão assumido, deve a sua misoginia (diz ele) a uma jovem que amou e terá tido o bom gosto de casar com outro…

Terá existido? Seria uma jovem?

Tem também o seu Watson / Hastings / Goodwin: Alec Grierson, um vago parente, que depois do segundo romance (e de um conto, “Double Bluff”) tem o bom senso de se casar com uma compreensiva Miss Barbara Shannon, com quem passa, a partir daí, a viver uma intensa lua de mel (sem Roger…) No Dorsetshire, de início, e por fim, como latifundiário no Brasil (como o pobre Hastings na Argentina, trocado pelo volúvel Poirot, sem misericórdia, pela citrina Miss Lemmon, pela odiosa Ariadne Oliver e pelo mordomo George, sucessivamente) …

No “Crime Circle”, a que preside (evidente vingança de Berkeley sobre o “Detection Club”, onde nunca conseguiu ser presidente, perdendo a sucessão de Gilbert K. Chesterton para Agatha Christie…), que apresenta com traços caricaturais, parece intemporal, condenado a um limbo de eterna “meia-idade”. Banal, autoconvencido, jingoísta.

É este o Sheringham.

Passemos a outros detectives na obra de ABC.

Para falar agora do anti-Sheringham: Mr. Ambrose Chitterwick.

Um tímido amador, como sinceramente se considera, resolve soberbamente o “Caso dos Chocolates Envenenados” (onde as estrelas do fictício Crime Club, Sheringham incluído, se espalham como recrutas…), os casos de Mr. Todhunter (“Trial and Error”) e o excelente “Piccadilly Murder”.

Mr. Ambrose Chitterwick, a “red-faced, early middle-aged gentleman, of independent means, with a gold-rimmed pince-nez and a very short nose”, retrata uma das facetas essenciais da sociedade inglesa de antes da guerra, no seu respectivo nicho social e profissional: o burguês de classe média, socialmente pouco saliente, apagado, conservador e anglicano, reservado e afável, mas de lucidez ímpar. Servidos por uma estatura diminuta, um ar roliço e meigo, olhos azuis baços e expressão de ovelha inteligente…

Aliás, para esta última personagem, não se sabe bem se Berkeley se inspira em si próprio (o caricaturista George Morrow, que o retratou, defende esta tese), ou em Mr. Pickwick…

O nome é revelador (AmBrose Chitterwick) …

E a sua situação doméstica, tão próxima (com pequenas diferenças, freudianamente reveladoras…) da de ABC.

Solteirão empedernido, vivendo com uma tia (ABC vivia com a irmã) de 79 anos, mas “mais fortes que o ferro” e um feitio insuportável, numa casa de estilo Jacobita, em Chiswick.

É uma espécie de catarse, que explica também a misoginia doentia de Berkeley….

Além do Crime Club, de que é o mais modesto dos membros, quebra a monotonia dos longos dias em Chiswick, com a participação ativa na Royal Horticultural Society, colecionando selos e selecionando, ocasionalmente, um bom clarete ou Sherry, pelos quais professa incontornável fraqueza. 

Um modesto observador do animal humano” permite-se dizer, sabendo (ou não…) que está a plagiar, quase palavra por palavra, o prodigioso Mr. Pickwick, notável criação de Charles Dickens.

Ambrose, a quem uma visita ao Museu Tussaud, de Londres (“Chamber of Horrors”), com a idade de nove anos, transformou (ou focalizou) numa paixão obsessiva pela criminologia.

Conhece nomes, datas, histórias, peculiaridades físicas, médicas e psicológicas, até a cor dos olhos de todos os criminosos célebres (do império britânico, claro) mesmo o número de dentes de cada assassino, desde Alice Arden of Faversham (m. 1551).

E, apesar de uma coragem de galinha e das constantes piadas demolidoras da que Deus lhe impôs como tia, coleciona e segue a pista de assassinos, como o saudoso Coronel Moran ou o Sandokan de Mompracem, seguiam a senda dos tigres…

Mas na verdade fica petrificado e horrorizado quando, pela primeira vez, se defronta com um verdadeiro assassino.

Depois de Brummell e Pickwick, um pacato Watson.

Refiro-me ao Chief-Inspector Moresby.

De bigode já acinzentado, o que lhe empresta um certo ar de “morsa benevolente”, encorpado e sempre afável, é genial e lúcido, sob uma espessa capa de hipocrisia, fazendo-se passar por tolo, sempre que lhe convém.

Fora disso, é casado, pai de dois jovens e muito reservado. Tanto que nunca se chega a conhecer o seu primeiro nome…

Moresby (se lhes atribuísse qualquer importância…) seria o ídolo dos seus colegas James Japp e Lestrade, já que defende, com inteligência, que o trabalho de investigação é, 99%, dar à perna, à língua e ao livro de apontamentos, com paciência e resistência física inquebrantáveis e não elaborar especulações, estudos psicológicos na moda ou teorias complicadas.

Nenhum bom detetive deve ou pode ter demasiada imaginação”, diz, certa vez, a Sheringham.

De quem aprecia os jantares caros que por vezes lhe oferece (cozinhados pelo inevitável Meadows…), que o ordenado de “Chief-Inspector” não dá para esses requintes. Agradece sem estados de alma complicados, consciência tranquila e a grandeza dos simples, algumas sugestões de Seringham, que nunca despreza…embora raramente lhe sejam úteis.

Nos livros que Moresby protagoniza (“Murder in the Basement”, por exemplo) a investigação policial não tem “glamour”. Não é “excitante” … é chata, monótona e aridamente científica (como o demonstra a totalidade da ilegível obra de R. Austin Freeman).

Mas na vida real, não se pode passar sem ela (e mesmo na ficção policial, é responsável pelo maior número de êxitos).

Moresby é uma antecipação de Wexford.

Inspira uma imediata e inevitável simpatia.

E passamos ao “alter ego” mais significativo de Cox: Francis Iles.

Os livros e contos assinados com este pseudónimo apresentam uma técnica radicalmente diferente dos de Berkeley: o leitor sabe o que está a ser planeado, conhece o assassino, não há questões insolúveis para esclarecer nas últimas páginas, no entanto, a tensão e o interesse do leitor mantêm-se intactos e este, encantado. Ou seja, como disse Melvyn Barnes de Iles, “…com uma soberba genialidade cria inúmeras formas de chocar o leitor, eliminando por completo o elemento “whodunit” dos seus livros”.

Com ele, potencia a qualidade da sua obra de ficcionista, alcança a plenitude da “story of a murder, rather than the story of the detection of a murder”.

É um antigo potencial que Fedor Dostoievsky tão bem explorou, em “Crime e Castigo” e “Noites Brancas” … onde interessa mais o “antes” e o “porquê” que o “depois” e o “como”. As relações entre o criminoso e a vítima, a ambiguidade entre domínio e submissão, o complexo dos atos humanos, sejam quais forem.

E, como Francis Iles, sobretudo em “Malice Aforethought” e “Before the Fact”, consegue-o plenamente, introduzindo o Mal num tranquilo e “normal” ambiente suburbano ou rural, impregnado, por vezes, pelo deletério e perverso entrechocar das personalidades dos protagonistas.

O desenvolvimento narrativo do enredo, dissecando selvaticamente o carácter e idiossincrasias daqueles e, sobretudo, rodeando toda a trama de uma irónica compaixão, dá-nos algumas páginas soberbas. Ou, se se preferir, põe (e é dos primeiros a fazê-lo…) toda a ênfase no ponto de vista e motivações do criminoso.

O banal Dr. Bickleigh, o patético assassino de “Malice Aforethought” é um João Semana vulgar que, sob o peso de um “stress” insustentável, se descobre qualidades e manha para fazer algo que, em princípio, lhe pareceria monstruosamente perigoso.

Isto é, matar.

Em “Before the Fact” vai ainda mais longe e a narrativa é-nos dada pelos olhos e perspectiva da vítima. Quando da publicação, chega a ser comparado pela crítica a “Turn of the Screw” de Henry James, pelo “quase intolerável” do clima criado ao longo da obra. Trata-se “…de sheer, nightmarish horror”, em que vejo mais de Hardy (“Tess d’Urberville”) que de James.

Não admira que Alfred Hitchcock não tenha resistido a passar o livro para o cinema (Suspicion, 1941, com Joan Fontaine e Gary Grant), numa versão relativamente fiel.

Não admira também que quem o ler, nos dias de hoje, possa sofrer uma profunda desilusão, num mundo onde os êxitos dos James Ellroy, Thomas Harris, Mo Hayder ou Caleb Carr, tornaram o policial num misto de manicómio ensanguentado e necrotério nazi.

O terceiro romance, “As for the Woman”, menos significativo, mas de maior densidade psicológica das personagens, é apesar disso, uma obra pouco inovadora.

Restam os contos. Ignoramos esquemas não acabados que ABC começou, para publicação como Francis Iles, e que, ou por os editores os acharem “unpublishable” por “muito ousados”, “amorais” ou “francamente eróticos” nunca se concretizaram (“On His Deliverance”, uma sequela de “As For The Woman”, etc.).

Em suma, Francis Iles foi o Sigmund Freud que sublimou os evidentes traumas sexuais de que não tenho dúvida, ABC padecia…

A primeira das histórias não publicadas é praticamente, em tema e desenvolvimento narrativo, uma versão curta de “An American Tragedy”, de Theodor Dreyser.

O terceiro, na versão de 1943 (depois alterada em 1950) tem diversas referências antissemíticas de péssimo gosto (reforçando o que já disse sobre o fundo ultrarreacionário de “ABC – cidadão”).  

Criou, para a rádio mais alguns episódios muito mais “Iles” que “Berkeley”. Nomeadamente: “Bus Nº 36”; “The House Opposite”; “Checkmate”, entre outros.       

               

BIBLIOGRAFIA

  • “Antony Berkeley Cox”, de Howard Haycraft, Wilson Library Bulletin, Dezembro de 1939.
  • “A.B. Cox”, de Chris Steinbrenner e Otto Penzler, Encyclopaedia of Mystery and Detection, New York, 1976.
  • “The Wonderfully Fallible Roger Sheringham”, de M. J. Turnbull, in Clues: A Journal of Detection, 17 – 1996, páginas 59-85.
  •  
PUBLICADO EM PORTUGUÊS

Na COLECÇÃO VAMPIRO (Livros do Brasil, Lisboa) publicaram-se:

  • A FESTA DA ENFORCADA (Jumping Jenny), nº 178;
  • ERRO JUDICIÁRIO (Trial and Error), nº 169;
  • O MISTÉRIO DOS BOMBONS ENVENENADOS (Poisoned Chocolates Case), nº 185;
  • DROGA FATAL (Not to be Taken), nº 209;
  • A CULPA FOI DO VENENO (The Picadilly Murder), nº 554;
  • CRUZEIRO FATÍDICO (Panic Party), nº 218;
  • O CRIME DAS MEIAS DE SEDA (Silk Stocking Murders), nº 196;
  • CRIME NO ÚLTIMO ANDAR (Top Storey Murder), nº 542.
  •     QUEM MATOU O ALMIRANTE? (The Floating Admiral), Nº500, já referida.

 No VAMPIRO MAGAZINE (ANTOLOGIA Livros do Brasil), organizada por Victor Palla publicaram-se:

  • Nº 5 – Carta-Prefácio ao romance policial THE SECOND SHOT (julho de 1950);
  • Nº 9 – Uma minibiografia de Anthony Berkeley (com numerosos lapsos) e um conto (“AVENGING CHANCE”, traduzido como “O DESTINO VINGADOR”, que ABC, mais tarde, transformará em “O Mistério dos Bombons Envenenados” (novembro de 1950).

Na COLECÇÃO ALIBI (Edições 70, Lisboa) publicaram-se:

  • A CAIXA (The Scoop), Nº 7.
  • POR TRÁS DO BIOMBO (Behind the Screen), Nº 8.
Anthony Berkeley Cox

OBRAS PUBLICADAS

COM O NOME DE ANTHONY BERKELEY

  • The Layton Court Mystery – Herbert Jenkins, 1925, London. Primeiro caso com Roger Sheringham (aqui acolitado pelo “Watson” Alec Grierson). Caso de “quarto fechado”.
  • The Wychiford Poisoning Case – Collins, 1926, London. Segundo Caso de Roger Sheringham. Baseado num caso da vida real, levou o verdadeiro assassino à forca.
  • Roger Sheringham and the Vane Mystery – Collins, 1927, London. Aparece outro Watson, mas inteligente, o Inspetor-Chefe Moresby, da Scotland Yard. Nos E.U.A. foi publicado (Simon& Schuster) como The Mystery of the Lover’s Cave.
  • The Silk Stocking Murders – Collins, 1928, London. Roger Sheringham defronta um “serial-killer” estrangulador. Aqui derrota Moresby…
  • The Poisoned Chocolates Case – Collins, 1929, London. Que considero o melhor “tour-de-force” de Berkeley, é uma versão aumentada da sua “novelette” “The Avenging Chance”. Roger Sheringham e os seus amigos do Crime Circle apresentam diferentes soluções do crime. Triunfo e aparição de um novo e modesto “anti-herói”: Mr. Chitterwick, refrescante alternativa ao pedantismo insuportável de Roger S.
  • The Picadilly Murder – Collins, 1929, London. Mr. Chitterwick, o tímido detective amador resolve um complicado envenenamento.
  • The Second Shot – Hodder & Stoughton, 1930, London. Ambiente de aristocracia rural. Desenvolvimento do conto “Perfect Alibi”, reintroduzindo o odioso “Noel Coward-detective”, Mr. Roger Sheringham, Esq.
  • Top Storey Murder – Hodder & Stoughton, 1931, London. De novo Sheringham e Moresby, a investigar em equipa o estrangulamento de uma anciã, num modesto bloco de apartamentos. Dois métodos de abordagem numa curiosa competição. “Top Story Murder”, na versão americana da Doubleday, no mesmo ano.
  • Murder in the Basement – Hodder & Stoughton, 1932, London. Novamente Sheringham e Moresby. Especialmente ortodoxa, no sistema dedutivo, para chegar à solução.
  • Jumping Jenny – Hodder & Stoughton, 1933, London. “Murder Party”, tomado a sério por um assassino. Um dos melhores Berkeley, a meu ver. Publicado nos E.U.A. pela Doubleday (Dead Mrs. Stratton).
  • Panic Party – Hodder & Stoughton, 1934, London. Decano de Oxford, cruzeiro misterioso, ilha deserta. Todos os ingredientes para um curioso livro, diferente dos habituais, mas (hélas!), com Roger Sheringham. Mas a última, felizmente! Publicado pela Doubleday, nos E.U.A., como Mr. Pidgeon’s Island.
  • Trial and Error – Hodder & Stoughton, 1937, London. Indubitavelmente um dos melhores do autor, com um assassino moribundo a cometer um crime para bem da humanidade. Mr. Chitterwick e o Inspector Moresby não faltam à chamada. Deu um filme em 1941, “Flight from Destiny”.
  • Not to be Taken – Hodder & Stoughton, 1938, London. Novo envenenamento numa típica “cozy village”. Mas sem nenhum dos heróis habituais.
  • Death in The House – O detective, neste último livro assinado Anthony Berkeley, é o “Subsecretário de Estado para a India, Sir Arthur Linton”. Três assassinatos de parlamentares, na House of Commons, fornece pano de fundo a uma intriga algo pesada e complexa.
  • The Roger Sheringham Stories – Ayresome/ Thomas Carnacki, 1994, London. Contem contos curtos (“The Avenging Chance”; “White Butterfly”; “Perfect Alibi”; “The Wrong Jar”; “Mr. Bearstowe says…”; a sua versão para a rádio “Red Anemones”; a peça de teatro “Temporary Insanity” (baseada em Layton Court Mystery); o episódio de rádio “The Body’s Upstairs”; “Double Bluff”; “Direct Evidence” (variante do anterior).
  • Mr. Simpson goes to the Dogs – onde aparece um protagonista não habitual, Mr. Horace Simpson, em 1934, história com imensa graça e um anticlímax curioso.

COM O NOME A. B. COX

The Wintringham Mystery – Daily Mirror Serial, 1926, London – Mistério no encantador “cottage” que só o campo inglês produz(ia) em profusão. Publicado na ABC, London, já revisto, em 1927, como “As Cicely Disappears”, sob o pseudónimo A. Monmouth Platts.

Mr. Priestley’s Problem: an Extravaganza in Crime – Collins, 1927, London – Excelente humor num “thriller”, também publicado nos E.U.A., na Doubleday, em 1928, como “The Amateur Crime”.

COM O NOME DE FRANCIS ILES

  • Malice Aforethought: The Story of a Commonplace Crime – Mundanus (Gollancz), 1931, London – Um extraordinário estudo da mente de um criminoso (um João Semana rural) que, tendo tido êxito na morte da mulher, se torna, por vingança, um “serial-killer”.
  • Before the Fact – (antes publicado em folhetim como “Married to a Murder”), é um thriller de grande nível, filmado (“Suspicion”) por Alfred Hitchcock em 1941.
  • As For The Woman – Jarrolds, 1939, London. Última obra de A.B.C., pretendia iniciar uma trilogia e constitui um fascinante estudo de personalidades.

COLABORAÇÃO COM O “DETECTION CLUB”

  • Publicado em 1936 com o nome de “Six Against The Yard” (“The Anatomy of Murder”), no qual sete membros do Detection Club, ABC, Dorothy Sayers, Margery Allingham, Freeman Wills Crofts, Rev. Ronald Knox e Russell Thorndike, onde se tentavam apresentar casos de assassínio que o Criminal Investigation Department não fosse (na pessoa do Ex-Superintendent Cornish) capaz de resolver. A colaboração de Berkeley era uma deliciosa paródia a James Cain e ao “Black Mask”: “The Policeman only taps once” …
  • Existem nos arquivos de ABC diversos itens que não desenvolveu completamente ou apenas foram objecto de transmissão na rádio (“Trial and Error”; “An Amateur Adventuress”; “Publicity Heroine”, etc.).
  • Mas o melhor da colaboração no e com o Detection Club foram “The Anatomy of Murder” (publicado em 1936), em que diversos membros do clube tentam resolver casos reais (ABC colabora no capítulo VII – Rattenbury Case) e sobretudo o “jogo – série de autores múltiplos”, no qual diferentes membros do clube escreviam um capítulo de um romance (ou novela de rádio) de tema policial e o seguinte tinha de seguir a intriga, sem ajuda e com lógica e verosimilhança. O mesmo tinham feito, entre outros, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (“O Mistério da estrada de Sintra”); Herman Santini (Sintair) e Stanislas-André Steeman (“Le Mystère du Zoo d’Anvers”; “Le Trezième Coup de Minuit”;Maître de Trois Vies”, …); Mário de Carvalho e Clara Pinto Correia (“E Se Tivesse a Bondade De Me Dizer Porquê?”, Relógio de Água, 1986).

Nesta base de jogo, alegremente assumido por todos (embora eu não responda pela alegria do ácido ABC …) surgem para a rádio, Behind the Screen e The Scoop e como livros (desde o início, depois os outros também serão publicados).

The Floating Admiral e Ask a Policeman. Pensado de início como meio de encher os cofres do Club, o projeto é organizado por Hugh Walpole. Iniciado em 1930 (“Behind the Screen”) envolve Berkeley (capítulo IV – “In the Aspidistra”), Ronald Knox, Agatha Christie, Hugh Walpole, Dorothy Sayers e E. C. Bentley.  O êxito na transmissão via BBC leva à sequela (“The Scoop”), desta vez com Berkeley, D. Sayers, Freeman Wills Crofts, E. C. Bentley e Clemence Dane. Aqui contribui com dois dos episódios-capítulos (V e IX – “Tracing Tracey” e “Bond Street or Broad Street?”, respectivamente). E finalmente esta mina de génios lança um romance de “autor-múltiplo” (nada menos que catorze!!!): “The Floating Admiral”. O detective, o Inspector Rudge, “a quite ordinary man…” deve-se a ABC, G. K. Chesterton, Victor Whitechurch, G. D. H. e M. Cole, Henry Wade, Agatha Christie, John Rhode, Milward Kennedy, Dorothy Sayers, Ronald Knox, Freeman Wills Crofts, Edgar Jepson e Clemence Dane. A ABC cabe a nada invejável tarefa de ligar uma série de pistas desconexas, o que faz no capítulo final “Clearing up the Mess”.

O último trabalho de equipa, “Ask a Policeman”, de 1933, deve-se sobretudo à genialidade de John Rhode e põe diferentes autores a parodiar os detectives de outro na pesquisa de um homicídio. Desta vez são Gladys Mitchell, Helen Simpson, Milward Kennedy, Dorothy Sayers e ABC que compõem o “team”: Sayers parodia Sheringham; Berkeley, Lord Peter Wimsey; Gladys Mitchell, Sir John Saumarez; H.Simpson, Mrs. Beatrice Bradley… O resultado é um dos mais deliciosos “pastiches” da literatura policial. O capítulo de ABC (“Lord Peter’s Privy Counsel”), apresenta o herói de Sayers como um encantador asno, fértil em citações e paternal educador do pobre Inspector Parker nos segredos da enologia e dos esconderijos de verdadeiros gourmets…, acabando por acusar do crime o Ministro do Interior, Sir Philip Brackenthorpe, que contratou os diversos detectives…


[1] Vide posição do Presidente Trump (2018), face ao porte de armas nas escolas.

[2] Com exceção de alguns heróis de Cheyney, John Creasey, David Hume, poucos mais…

[3] Não é por acaso que os seus pares, entre os quais se encontram Dorothy L. Sayers, Agatha Christie, Patricia Wentworth, Gladys Mitchell, Freeman Wills Crofts, Margery Allingham, o Padre Ronald Knox, G.D.H. e Margaret Cole, H. C. Bailey, Herbert Adams, J. S. Fletcher, Henry Wade, Anthony Gilbert e, um pouco mais tarde, Ngaio Marsh, Georgette Heyer, Cyril Hare, Michael Innes, Nicholas Blake e John Dickson Carr, o tenham pelo “spirit gallant of them all” (James Sandoe, 1960)…

[4] Hamish Hamilton, London, 1934.

Carlos Macedo

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