Treinador do Sporting retribui confiança em época controversa

Em Nacional

O treinador Rúben Amorim retribuiu hoje o risco assumido pelo Sporting na sua contratação, ao devolvê-lo ao título de campeão da I Liga de futebol 19 anos depois, impondo um estilo diferenciado face a diversas polémicas disciplinares.

O Sporting tem 25 triunfos e sete empates e vai tentar nos derradeiros dois jogos, frente ao rival lisboeta Benfica, na Luz, e ao Marítimo, em Alvalade, ser o primeiro clube da história a acabar invicto uma edição do campeonato português disputada em mais de 30 jornadas.

Essa será a estatística mais eloquente da imberbe carreira do ex-internacional, prestes a completar a primeira época inteira nos bancos na I Liga, após ter orientado Casa Pia (2018/19) e as equipas B e principal do Sporting de Braga (2019/20), antes de rumar a Alvalade a troco de 10 milhões de euros.

O novo treinador campeão nacional pelo Sporting já tinha experienciado o sucesso gradual como jogador, num trilho quase sempre feito em Portugal, através do qual pisou os maiores palcos e aprendeu a lidar com a pressão inerente aos ‘grandes’.

Nascido em 27 de janeiro de 1985, em Lisboa, Rúben Filipe Marques Amorim cresceu entre Alverca e Charneca da Caparica e girou quase toda a infância à volta do futebol, incitado pela família, embora até tenha passado pelo hóquei em patins nos ribatejanos.

A paixão clubística pelo Benfica intensificou-se com uma passagem pela formação das ‘águias’, que acabou aos 13 anos e levou os seus pais a expandirem sacrifícios para prolongar o seu sonho de menino no CAC Pontinha, Ginásio de Corroios e Belenenses.

Cerebral em campo e brincalhão fora dele, despontou com Jorge Jesus no Restelo desde 2006 e mudou-se em definitivo para a Luz dois anos mais tarde, por um milhão de euros (ME), tendo o reencontro com o atual técnico do Benfica em 2009 ocasionado troféus.

O médio venceu três edições da I Ligas (2009/10, 2013/14 e 2014/15), uma da Taça de Portugal (2013/14), cinco da Taças da Liga (2008/09 a 2010/11, 2013/14 e 2015/16) e uma da Supertaça (2014) pelas ‘águias’, ao serviço das quais esteve na final da Liga Europa de 2013/14, perdida para o Sevilha.

Pelo caminho, Rúben Amorim alinhou época e meia emprestado ao Sporting de Braga e celebrou mais uma Taça da Liga (2012/13), enquanto atingia as 14 internacionalizações por Portugal, que representou desde o escalão sub-18 e nos Mundiais de 2010 e 2014.

Seguiu-se nova cedência, desta feita ao Al-Wakrah, do Qatar (2015/16), que precedeu a rescisão contratual com o Benfica e a consequente despedida dos relvados em abril de 2017, com apenas 32 anos, apoquentado pelas múltiplas lesões e cirurgias nos joelhos.

Volvidos 337 jogos e 18 golos, o polivalente centrocampista abraçou o primeiro grau do curso de treinador, que acumulou com uma experiência no Casa Pia, da qual se demitiu em janeiro de 2019, apesar de estar na zona de acesso ao ‘play-off’ de subida à II Liga.

O Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) puniu-o por indicações em jogos como estagiário, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) anulou a proibição de inscrição de um ano ao treinador e uma dedução de seis pontos ao clube.

O Casa Pia conquistaria o Campeonato de Portugal, patamar ao qual o ex-jogador regressaria em setembro para liderar o Sporting de Braga B até dezembro, altura em que subiu ao leme da equipa sénior para, já com o segundo nível, render Ricardo Sá Pinto.

À estreia fulgurante na I Liga, com oito vitórias, incluindo as visitas a FC Porto e Benfica e a receção ao Sporting, e um empate, amealhou novos triunfos sobre ‘leões’ e ‘dragões’ para reconquistar a Taça da Liga, inevitavelmente ligada à sua trajetória no futebol.

A vertiginosa projeção de Rúben Amorim levou os ‘leões’ a pagar a sua cláusula de rescisão de 10 ME em março de 2020, visando, com a então terceira venda mais cara de sempre de um treinador, o terceiro lugar no campeonato e a planificação de 2020/21.

O quarto técnico de 2019/20 e o sexto da presidência de Frederico Varandas estreou-se com um triunfo sobre o Desportivo das Aves (2-0), o último com público no Estádio José Alvalade, que antecedeu uma paragem de três meses, devido à pandemia de covid-19.

O regresso competitivo deu-se com os adeptos à distância e mediante cinco vitórias nas 10 rondas finais da I Liga, ainda que escassas para evitar a quarta ausência do pódio, o recorde de derrotas numa época e maior ‘jejum’ de campeonatos na história do clube.

O Sporting arrancou mais cedo 2020/21 e parecia fadado a novo fracasso quando foi afastado pelos austríacos do LASK Linz na fase preliminar da Liga Europa, embora tenha sabido madurar talento, beneficiando de um calendário aliviado e diminutas expectativas.

Irredutível ao 3-4-3 e sem as ‘estrelas’ dos rivais, Amorim cultivou exigência interna e um discurso externo empático, várias vezes com frases sonantes, que, sem nunca assumir a candidatura ao título, levaram o universo ‘leonino’ da tristeza à euforia em nove meses.

De três em três a somar, e com a ‘estrelinha’ a acompanhar, o Sporting apaziguou dores antigas e selou o tão desejado regresso à fase de grupos da Liga dos Campeões, que dará verbas úteis para ajudar a liquidar a aquisição do técnico ao Sporting de Braga.

O negócio encareceu até aos 14,4 ME e deu dores de cabeça aos ‘leões’, à imagem dos seis processos movidos pelo CD da FPF a Rúben Amorim, partindo de quatro expulsões, críticas aos árbitros e uma alegada fraude aquando da sua inscrição na Liga de clubes.

Ao todo, cumpriu 36 dias de suspensão, falhou seis jogos e recorreu do último castigo de mais seis dias para o TAD, com providência cautelar, estando a tirar o quarto nível e à espera do destino da queixa feita pela Associação Nacional dos Treinadores de Futebol.

Entusiasta de José Mourinho, apesar dos oito anos com Jorge Jesus, o principal rosto do 19.º título do Sporting, igualmente vencedor da Taça da Liga, renovou um ano depois da sua chegada até 2024, sinal do papel catalisador num clube talhado para a instabilidade.

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