Bodas de diamante da visita da imagem peregrina a Constância

Em Correio dos Leitores

Aproxima-se o 13 de Maio e despertam em nós memórias do que ouvimos dizer sobre a visita da imagem peregrina em 1946, no caso, à vila de Constância. Estava-se no tricentenário da proclamação de Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Portugal e a imagem peregrina visitava Constância, no seu périplo pelo Ribatejo. O facto ficou registado em azulejos na soleira de algumas casas.

Pagela da imagem peregrina que visitou a vila de Constância há 75 anos.

A imagem comemorativa da visita à igreja matriz de Constância de há 75 anos e que se guarda religiosamente na nossa família, é a que acompanha este artigo.

As gerações mais novas e desprendidas da devoção mariana local não terão porventura a ideia do que era, por exemplo, o mês de Maria na nossa vila na primeira metade do século XX.  A igreja era muito concorrida tidos os dias. O órgão enchia o templo. Era uma atmosfera indescritível. As  antigas zeladoras Maria  José Fonseca e Maria  José Delgado emocionavam-se sempre quando se referiam a estas cerimónias. Parecia que se transformavam . A organista era tia da D. Maria José Falcão  e também se chamava Maria José.

Havia na vila inclusive uma das testemunhas do milagre do Sol. E havia outra testemunha desse dia bíblico de 13 de Outubro, a qual entrevistei nos anos 90, que vinha a pé da Praia do Ribatejo a Constância, todos os dias, ao terço. A minha mãe via-a passar à nossa porta. 
Nesse ano de 1946 em dia que não consegui apurar, a população foi esperar a chegada da imagem peregrina à cantina, local junto à ponte do Zêzere. E o cortejo seguiu daí até à igreja matriz de Nossa Senhora dos Mártires (havia na vila  outro costume, de esperar os carros funerários naquele local e de se rumar em cortejo para a matriz. O que acabou nos anos 80).

De noite houve também a vigília onde estiveram  a minha mãe, a esposa do Engenheiro Vicente Themudo de Castro, Luísa Folque, entre outras pessoas. Um dos anjos do cortejo, uma vizinha minha,  por descuido deixou queimar o véu com uma vela e uma das pessoas que ajudou a apagar o fogo foi a D. Judite que morava defronte do Dr Cassapo e que tinha uma cadeira própria na igreja. 

Mais pormenores? A filha do padeiro sr. Maia, que veio de Aveiro, era invisual (irmã do Manelito) e puseram-na junto à imagem na esperança de algum milagre.  Sei também que houve famílias que não se falavam e que naquele dia  voltaram a falar-se por ocasião do incidente que relatei.  Esse terá sido o “milagre” não esperado…

Recentemente falei com duas idosas, uma com 90 anos e outra com 81 anos. Para confirmar coisas que em parte já sabia. Voltaram a dizer-me que a visita da imagem peregrina foi um acontecimento muito importante na vila. A imagem ficou junto ao altar do Sagrado Coração de Jesus. Como esta visita ocorreu em 1946, (estive a apurar este facto) creio que ainda não existiria a imagem de Nossa Senhora de Fátima que se encontra no referido altar. Ou já existia? Não teriam lá ficado as duas na ocasião. Não se fala disso. Possivelmente a actual imagem terá sido adquirida na sequência desta visita. Só pesquisando. Na vila dizem que a actual imagem é muito antiga.

Torre da matriz de Constância, em imagem de Ricardo Escada. Neste “carrilhão” tocava-se o “Avé de Lourdes” no mês de Maria.

O mês de Maria é de tradição anterior às aparições de Fátima. Nos anos 70 e 80 tocava-se no “carrilhão” improvisado da torre, nomeadamente, uma versão aproximada do “Avé de Lourdes”. Cresci a ouvir esse “Avé” o qual teria sido experimentado nos anos 30 pelo então seminarista de nome José Remelhe facto que me foi contado pelas Burguetes. Na minha adolescência toquei com alguma frequência esse “toque do mês de Maria” como se dizia então.

Outros tempos em que não havia medo nem vergonha de se ir ao “mês de Maria” e em que havia respeito pelo cancioneiro religioso. 

Até a música na Igreja tem arte e regras próprias. Mas adiante! No final do terço havia missa no altar de Nossa Senhora da Boa Viagem. Já nesse tempo era organista. Mas não tocava no terço na Vila. Curiosamente tocava no terço em Montalvo. A Dona Maria Serpa,  antiga proprietária do actual Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança, tinha doado um órgão para a matriz daquela povoação e eu, a convite do padre Vermelho, tocava nas duas igrejas ( em Constância tocava já, mas na missa). Quero com estas explicações dar público testemunho do que vivi. Quer em Constância quer em Montalvo, o mês de Maria era  bem concorrido e pleno de devoção.

A mensagem de Fátima é simples. Os homens é que são complicados.

A luta entre a Mulher toda vestida de Sol e o dragão antigo, dizem, não cessou…”Rezem o terço!”


José Luz

(Constância)


PS- não uso o dito AOLP

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