Oficina para artistas combate estigmas na Psiquiatria do Hospital de Santarém

Em Ribatejo Cool/Saúde

O Departamento de Saúde Mental do Hospital de Santarém ganhou uma nova sala, um espaço iluminado, decorado com peças recuperadas do seu espólio, pronto a acolher artistas utentes e artistas da comunidade, eliminando estigmas e preconceitos.

“Vamos subir de patamar”, disse à Lusa Carla Ferreira, enfermeira da equipa que acompanha os utentes do hospital de dia do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental (DPSM) do Hospital Distrital de Santarém (HDS), a qual tem vindo a desenvolver, desde 2015, projetos que visam a redução do estigma e a reinserção plena das pessoas com doença mental.

Nesse trabalho integra-se a realização do projeto INcluir, iniciado em 2016, com oficinas artísticas que funcionaram no Convento de S. Francisco e em vários locais públicos da cidade de Santarém, envolvendo utentes do hospital de dia do DPSM e membros da comunidade. Daí nasceu agora a OficINa – Arte Bruta Inclusiva, que foi formalmente inaugurada na quarta-feira.

“Neste novo espaço-oficina de criação artística, aberta aos nossos artistas e artistas da comunidade, tudo vai valer, desde expressão plástica, costura, reciclagem de móveis, qualquer oficina pode ser aqui desenvolvida”, salientou Carla Ferreira.

Trata-se de um “passo em frente”, depois de o trabalho realizado com o artista plástico João Maria Ferreira ter permitido revelar que os utentes “têm muitas habilidades, muito potencial artístico”.

Carla Ferreira fala do projeto OficiNa ao Mais Ribatejo

“Então vamos subir de patamar, vamos ser mais exigentes, vamos olhá-los como artistas”, declarou a enfermeira. Nesta oficina os artistas utentes “vão trabalhar de forma autónoma e num espaço partilhado com outros artistas, sem horários, sem regras, de forma descontraída”.

“Acreditamos que será um espaço efetivo de combate ao estigma da doença mental, de reintegração e de inclusão na sociedade”, acrescentou, destacando o facto de o projeto incluir uma “componente muito valorizável” ao prever o pagamento de um subsídio aos cinco artistas que ali estarão a produzir arte.

A OficINa, decorada com as peças que resultaram de uma oficina de restauro criativo de móveis e decoração orientado por Ana Carvalho, resulta de duas candidaturas a prémios no âmbito da responsabilidade social, um da Fidelidade Comunidade, que permitiu construir a sala, anexa ao serviço de psiquiatria, e outro do BPI “la Caixa” Capacitar, que permitiu dinamizar o espaço.

A reciclagem de móveis, com o reaproveitamento dos que não eram utilizados no hospital, decorreu com ajuda de uma monitora, no âmbito da preocupação da sustentabilidade que tem sido marca dos projetos do DPSM.

Além da reabilitação dos móveis e das peças que decoram o espaço, feita por um grupo de 10 utentes do hospital de dia, com o financiamento obtido foi adquirido um programa informático de reabilitação cognitiva, o RehaCom, “com bastante evidência científica no trabalho com pessoas com doença mental”.

“Este programa aliado com a parte das artes vai marcar a diferença no dia-a-dia deles”, salientou a enfermeira, adiantando que diariamente 35 utentes poderão fazer reabilitação cognitiva, através de programas parametrizados individualmente.

A nova sala exibe peças como um candeeiro de bloco operatório recreado com tule ou um espelho aproveitando a roda de uma velha cadeira de rodas, dispondo de mesas amplas de trabalho, um cantinho para leitura ou para quem queira aqui escrever, zona dos computadores e muitos materiais de artes arrumados em armários reaproveitados.

Ana Carvalho, que tem um ateliê de restauro criativo, foi desafiada a dar corpo ao que era apenas uma ideia da equipa e, disse à Lusa, a “experiência está a ser espetacular, tanto a nível profissional como pessoal”.

“Fiz muitos amigos. É uma ligação que vai ficar para sempre”, afirmou, confessando que também ela chegou com receios inculcados por estereótipos, receando não saber lidar com os utentes, e que sente hoje “muito orgulho” do que resultou desta experiência.

“Dificuldade é sair”, disse, adiantando que, provavelmente, irá passar “a usar mais” este espaço do que o seu ateliê, “porque tem condições fabulosas”, e esperando ver nele outros artistas da comunidade, de todas as áreas artísticas, sem qualquer restrição.

Em vésperas de regressar ao seu trabalho numa empresa da região, depois de uma baixa de sete meses, Samuel reconhece que a oficina de restauro “ajudou imenso” na sua recuperação.

“Acho que evoluí bastante. Porque é uma atividade em que desenvolvemos várias coisas”, relatou, contando como antes “tinha dificuldade em perceber mensagens, o que era indicado para fazer, pintar ou lixar ou o que fosse”, sentia-se “preso das ideias”, mas melhorou bastante “em termos de raciocínio”.

Para Samuel, como também para João Roxo, o trabalho com Ana deu-lhes autonomia na forma como realizaram as tarefas “e isso foi muito importante”, num processo em que o acesso ao RehaCom foi uma ferramenta fundamental para o sucesso da reabilitação, frisou Carla Ferreira.

A nova sala teve um financiamento de 47.500 euros do programa Fidelidade Comunidade, para a sua construção, e de 28.670 euros BPI “la Caixa” Capacitar para equipamento do espaço e aquisição do RehaCom.

Na inauguração, na quarta-feira, estiveram a presidente do conselho de administração do HDS, Ana Infante, que preside igualmente à assembleia-geral da r.INseRIR, associação que candidatou o projeto; a diretora do DPSM e presidente da associação, Paula Pinheiro; as dinamizadoras do projeto e representantes das entidades financiadoras e da Câmara de Santarém.

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