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Na História de Portugal dos dois últimos séculos compreendemos como somos hoje

Em Leituras

Já muitos o disseram: Uma longa viagem com Vasco Pulido Valente, por João Céu e Silva, Contraponto Editores, 2021, é um livro cheio de significado, ultrapassa o sentido das mais de 40 sessões em que o entrevistado acede ao questionamento do entrevistador, também este deve ser saudado por ter criado um engaste de comunicação, pergunta e resposta e num adequado rodapé expor o pensamento do historiador, registado em trabalhos já publicados. Deixo deliberadamente de lado a estafada questão do analista político, de alguém que julgava poder ter desempenhado o papel de mentor da Direita portuguesa, o que ocorreu na sua breve carreira na política, em que acompanhou Sá Carneiro. O que tomo como mais palpitante e perdurável da montagem efetuada por João Céu e Silva é o pensamento fino e concreto de alguém que passou uma parte da vida a contar aos retalhos a História de Portugal desde a partida do rei D. João VI para o Brasil até ao presente (incluindo-se neste presente os seus textos acutilantes, encáusticos, por vezes cruéis, da sua intervenção jornalística).

Vê-se sem dificuldade alguma que aquelas sessões de trabalho eram um tanto ziguezagueantes e que coube ao entrevistador cozer a manta, e há que gabar o produto final, mesmo aqui inserindo apartes cruéis, do tipo chamar a Fernando Nogueira um tapadinho de todo, até pulsar vida ao historiador ele parece ter sonhado juntar corretamente as parcelas destes dois últimos séculos, não se confinar ao Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano, entrar mesmo nas últimas décadas, com a alvorada democrática. E saltando pelas bicadas do historiador, do seu currículo, do que pretendeu fazer para ajudar a criar essa Direita moderna (processo que acabou no malogro), o que há de mais palpitante é o que ele transmite sobre as mudanças operadas em Portugal.

Confessa-se um rato de biblioteca, isto a propósito de dar como ponto assente que os portugueses querem conhecer a sua História, como escreveu num dos seus livros: “Estão interessados em saber porque é que problemas tão antigos continuam a existir atualmente. É a questão do Estado, do emprego público, do défice das Finanças, como é que se fazem os partidos, como se sobe nas hierarquias políticas, como é que o poder distribui as benesses”.

A sua tese de doutoramento em Oxford andou à volta da I República, mas era sempre cuidadoso a pontuar mesmo curtos períodos da História, por vezes cuidamos com indiferença. É o que ele diz quanto ao período entre 1834 e 1836, que ele enfatiza: “Nestes dois anos estabeleceram-se os fundamentos do regime liberal, definiu-se a posição da Igreja na sociedade, a nova estrutura administrativa e a futura organização judicial. Tudo começa aí, e a reorganização administrativa e judicial perdura até hoje”.

Legou ensaios de excelência indiscutível, caso das suas investigações sobre a República Velha, as invasões francesas, a biografia de Paiva Couceiro ou o primeiro estudo sobre Marcello Caetano feito entre nós.

Confessa ao entrevistador que a sua máxima ambição era fazer um ensaio bibliográfico sobre Hitler e embora deplore não ter feito integralmente a História de Portugal dos dois últimos séculos, afirma com segurança: “Estou perfeitamente feliz dentro dos limites em que vivo”.

João Céu e Silva usa da verruma na hora própria, estão a falar do livro Ir para o Maneta, livro de Vasco Pulido Valente, publicado em 2007, a pergunta é direta quanto à ponderação das invasões francesas, veja-se o brilho da resposta: “Foram a maior tragédia que houve em toda a História Portuguesa, mesmo que fossem o motor de grandes mudanças. O príncipe regente D. João VI fora para o Brasil e tinha uma política de duplicidade, negociando com os ingleses em segredo a transferência do governo português para o Rio de Janeiro e sendo escoltado por uma esquadra inglesa até lá. Ao chegar ao Brasil, foi logo obrigado a assinar um decreto que entregava aos ingleses grande parte do comércio para esta província. Quando o poder político se transfere para o Brasil, deixa cá uma regência a que o rei aconselhou a cooperar com os franceses. O exército de Junot chega a Lisboa num estado miserável, 1500 homens esfarrapados e cheios de fome; se o Exército Português quisesse ter batido o Exército de Junot às portas de Lisboa, teria vencido, pelo que estava bem armado e aprovisionado”. E explica adiante que os portugueses se renderam porque temeram que Napoleão mandaria novo exército, muito mais punitivo. Numa atmosfera de Antigo Regime, o povo revoltava-se, e a aristocracia e os senhores da terra perceberam que não podiam ficar de fora. Esta revolta popular será local de cultura na emergência do liberalismo.

Questionado sobre este século XIX como o tempo preferido da sua investigação, responde de imediato: “É a identidade nacional que ainda estamos a viver se a identidade for tomada num sentido restritivo; ou seja, política e institucionalmente, o Portugal de Novecentos permanece no Portugal do século XXI e até mesmo agora os problemas também se mantêm. Ao querer perceber as origens das instituições do século XIX e essa repetição dos problemas de Novecentos, a resposta que lhes é dada e a retórica que esses problemas faziam nascer, ao ir cada vez mais para trás, até às Invasões Francesas, fazia parte de uma tentativa de construir um modelo para a compreensão do Portugal contemporâneo”. E João Céu e Silva repesca textos que tornam esta visão não só plausível, mas que permite ver como a comunicação do historiador é acessível e admirável.

Seguem as sessões, fala-se do sidonismo, começa a ascensão de Salazar, desvaloriza o homem e a obra: “Tende-se a pensar que, como ele o fez durante todo esse tempo, era um homem de umas proporções intelectuais extraordinárias. Não era, ele não inventou nada disto (…) Mentia ao dizer que não queria o poder. Ele foi o porta-voz da Igreja em várias conferências. Toda a gente o considerava um homem da Igreja e o favorito a nível institucional do clero português (…) A eficácia desta política foi extraordinária por duas razões: a primeira, pelo facto de os monárquicos não terem projeto, portanto, ser monárquico queria dizer o mesmo que ser católico. Havia também um vazio político da parte dos restauracionistas e mesmo dos monárquicos, nem sequer se entendiam muito bem sobre quem era o herdeiro do trono”. E é perfeitamente esclarecedor sobre o papel da Igreja entre a República e o Estado Novo.

Entrementes, faz uma apreciação clara sobre os fermentos que levam ao 28 de maio de 1926. Passa em revista o ideário salazarista, verruma algumas das instituições, desde a Mocidade Portuguesa à PIDE e assim se avança para a iminência dos acontecimentos da década de 1960 e mais adiante a chegada de Marcello Caetano e entramos depois no regime democrático, chegou a hora do historiador dar um salto até à política onde confessa que conheceu muita deceção.

Livro imperdível, para avaliar um historiador de exceção e o trabalho de um jornalista de gabarito.

Mário Beja Santos

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