Grandes nomes da literatura de crime e mistério (9) – Earl Derr Biggers

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Earl Derr Biggers (1884-1933)

Começo por vos oferecer (sem compromisso) alguns aforismos de Charlie Chan:

“Existem três coisas que um homem sábio deve evitar: trabalhar arduamente; pintar a superfície das águas; contradizer uma mulher.

Uma pedra preciosa só é polida esfregando-a vigorosamente; um homem só se aperfeiçoa nas provações.

A fortuna só visita pessoas com sorriso nos lábios.

Quem hoje perde tempo a falar sobre triunfo de ontem, não terá novas proezas para se gabar amanhã.

Um chinês não se considera mais que grão de areia em margens de eternidade, daí a sua calma e modéstia”.

Biggers, um norte-americano, típico, nascido em Warren, Ohio, em 26 de agosto de 1884, morto prematuramente, em 5 de abril de 1933, licenciou-se em Harvard (Cambridge – Massachusetts), em 1907, e encetou uma carreira de jornalista no “Boston Traveler”, com uma coluna humorística e a crítica teatral.

Escreve uma primeira peça de teatro em 1912 (fraca e com modesto êxito) e, finalmente, em 1913, publica o seu primeiro romance policial, “Seven Keys to Baldpate”, que relata uma véspera de Natal em Baldpate Inn, um hotelzito de uma pequena cidade, vizinha de Nova Iorque.

Desta vez a sorte (também indispensável nestas coisas…) sorri-lhe, o livro é um sucesso, a peça de teatro que George M. Cohan dela extrai é um êxito na Broadway e é filmada por três vezes, com diferentes realizadores.

Seguem-se-lhe três romances, diversas peças de teatro e, consagração final, lá vai para Hollywood escrever argumentos, como Hammett, Ben Hecht ou Chandler…

Deve-se-lhe, acima de tudo, a criação do chinês do lado da “lei e da ordem”, a antítese, bondosa e humana, do odioso Dr. Fú-Manchu: o polícia de Honolulu (Hawai), sargento, depois Inspetor Charlie Chan. Disse dele que o êxito o amarrara para sempre a Chan, mas tinha a sorte de ele ser um “bom companheiro, afável e com senso de humor“…

Que descreve, em “The House without a Key”, primeira obra com Chan, como “…um homenzinho muito gordo, mas com uma forma de andar que tinha a ligeireza e a flexibilidade da de uma mulher. Tinha uma face bolachuda de bebé, a pele aveludada da cor de marfim, uns olhos amendoados de cor de âmbar…”.

Como justamente salienta Francis Lacassin “…en prenant le parti courageux de l’égalité raciale, dans un pays qui semble avoir quelque difficulté à l’admettre” …

Biggers toma a decisão (extremamente ousada e comercialmente suicida, para a época, nos EUA) de defender a igualdade de direitos de americanos de todas as etnias.

No seu primeiro livro, “The House Without a Key” (1925), primeiro dos seis romances com Chan como protagonista, a personagem seduz, com a sua numerosa e cómica família, com pelo menos onze filhos numerados (tantos eles são), os gags, nunca ofensivos, sobre a maneira sino-americana de falar (e até raciocinar…), a sua confortável vivenda em Punchbow Hill, na ilha de Ohahu, o seu ar de Poirot hiper-cerimonioso e imperturbavelmente cortês, os seus intermináveis (e, por fim, já enfadonhos) silogismos, a propósito de tudo  e nada.

Com Charlie Chan, entramos no misterioso mundo do crime, mas com os passos aveludados de um gato, introduzindo-se pensativamente num pagode.  Mas, atenção! Temos que nos cingir às “Sete Flores”, que lhe ornamentam a vida: Cortesia, Humor, Paciência, Ponderação, Aceitação, Humildade, Prudência…

Uma linguagem refinada e elegante que obedece à regra suprema do chinês bem-educado: rebaixar as suas qualidades para agigantar (por oposição) as do interlocutor.

Por exemplo, com um colaborador: “É um detetive de primeira ordem. Se a admiração me não paralisasse por completo, iria imediatamente ter consigo”. Para um inglês: “É uma honra incomensurável a que me faz Sir Frederick; o tigre digna-se olhar para a mosca”. Se toma um café num bar é “uma taça do vosso inestimável café”. Se convida para um restaurante oferece “uma  indigna sopa”.

Rebaixa a sua opinião: “desculpe-me a impertinência, mas pergunta-se o caminho a um cego?”

Ao prender o criminoso: “Tenho imensa pena, mas não o posso deixar partir. Os factos explodem como foguetes em dia de festa e devo interrogá-lo sobre eles”.

Por fim, ao terminar um discurso, proferido num jantar em sua honra: “Vou-me sentar de novo; a minha espessa corpulência já lançou sombra suficiente sobre este jantar”.

Com cortesia e humor, vence qualquer impaciência. “O americano quer sempre agir a toda a velocidade. O sábio recua um passo para saltar melhor”. Pois o sábio não ignora que as nuvens passam, o céu azul permanece…

A ponderação também ajuda: “Dei-me conta que o norte-americano está sempre frenético, as suas têmporas palpitam, o seu coração bate descompassado, os seus nervos vibram com se fossem explodir. Resultado: um ano menos de vida!”.

Sabe aceitar a derrota: “…uma longa experiência ensinou-me a não contrariar o destino. O seu sorriso, para mim, desvanecer-se-ia”.

E sobretudo, ser modesto. “não passo de um mosquito, perdido numa jaula de leões”. E ser modesto (a sétima flor, lembram-se?) é ser prudente.

A queda é muito menos penosa para os que voam baixo”. E a prudência aconselha-o (sempre bem, a meu ver…) a pensar que “impressões digitais e outros mecanismos modernos são muito bons nos romances, mas sem interesse na vida real. A experiência diz-nos que melhor é estudar o homem e as suas paixões. Porque, afinal, que está escondido detrás de um crime? Ódio, vingança, necessidade de impor o silêncio, desejo de riqueza. Pelo que é ao homem que cabe estudar”.

Há sempre mistérios deliciosos, no caminho do estudioso. Que o diga Chan… Um cadáver, calçado com umas pantufas com inscrições bizarras, que ninguém conhece; o “assassinato” de um papagaio, um saquinho com pedras banais, abandonado junto à vítima, um criminoso com um relógio fosforescente que o  deveria trair, um odor inusitado a especiarias, numa ala de um jardim de hibiscus floridos….

Charlie Chan respeita os seus antepassados e também os de qualquer outro ser humano. Mesmo os de um arrogante inglês que chama bárbaros aos chineses.

Mas esse respeito não o impede de remexer, se indispensável, nas cinzas dos falecidos, pois sabe bem que imensas pessoas de aparência muito respeitável, tiveram no seu passado, episódios que estão muito longe de o ser.

O charme dos romances de Biggers, é Chan e a teia de encanto, gentileza, bondade que este espalha à sua volta, bojudo pai de uma família de onze filhos, em vias de aumentar, sempre calmo, porque sabe bem se não deve tentar passar à frente do desgosto, pois ele pode ter a tentação de olhar para trás.

A sua obra mantem, noventa anos depois, o seu encanto.

Inicialmente publicada em folhetim (no Saturday Evening Post), objecto de sempiternas reedições, transmissões de imensa popularidade, emitidas sob a forma de um serial radiofónico semanal, com a voz do ator Ed Begley; uma banda desenhada do célebre Alfred Andriola (1938-1942) e mais de quarenta filmes (dezasseis dos quais protagonizados pelo célebre “lobisomem”, o ator sueco Werner Oland), o seu êxito foi (ainda é) fulminante.

Destinado     a  ridicularizar os   lugares     comuns    racistas    dos    EUA,                     face nomeadamente    à   comunidade sino-americana, Biggers ultrapassou  o objetivo inicial e criou uma figura fascinante, descrita, pelo autor, como um modesto migrante que, antes de entrar na polícia de Honolulu, foi mordomo da família (milionária…) dos Philimore e sobe na vida, apesar de (e contra) preconceitos e racismos, muito enraizados na sociedade americana da época. Encontrará de novo os seus antigos patrões (“very liberal”) na investigação do caso do “The Chinese Parrot”, de 1926.

Atormentado pela imperiosa necessidade de assistir ao nascimento do seu undécimo filho, Chan acaba por não viajar para a ilha de Oahu, onde estão a sua encantadora vivenda em Punchbowl Hill e a mulher e resolve, num golpe de génio, o caso das “pérolas” …

A sua numerosa prole, a mulher (que se pressente apaixonada e atenciosa aos seus deveres de esposa chinesa) rodeiam-no (por vezes de forma invisível, pensando nele com inquietação) e apoiam-no sempre, mesmo nos mais tenebrosos dos seus inquéritos…

Humanista autodidata, profundo conhecedor da filosofia chinesa, prefere, no entanto, influenciado sem dúvida pela filha mais nova, Evelyne, de quinze anos, especialista em “slang” (calão americano) usar uma linguagem de comédia, ao brindar-nos com algumas “joias” da sua sabedoria.

Como “…o silêncio é de ouro, salvo num Comissariado da Polícia…”. “De acordo com um provérbio chinês, um quadro é um poema mudo…”

“…um cavalheiro que conheci disse-me que Boston parece a China. O futuro de ambas, disse ele, repousa nos cemitérios onde estão inúteis corpos de enormes antepassados…”

“…China, uma raça pagã, que se ocupava em inventar a arte da imprensa, na mesma época em que os cavalheiros na Grã-Bretanha ainda andavam a quebrar a cabeça uns aos outros com cacetes…”.

“…o que descobri? Até agora parece-me que estive a apanhar água com um cesto de vime…”.

“Um homem prudente, sabendo que está em perigo, não se detém para amarrar os cordões dos sapatos no meio da corrida”.

“Uma viagem de mil léguas começa sempre por uma pequena passada…”.

Ama a sua terra: “As ilhas havaianas repousam no meio do oceano, como uma fieira de pérolas das ilhas Philimore num seio palpitante. A minha ilha, Ohahu, tem um clima muito húmido, onde a chuva parece sol líquido…no oceano sobe um vapor amortecido. Aqui o ar é seco como um jornal do ano passado!”

Uma modéstia sábia, um “tom” que é a perfeita antítese do de Poirot, impregnado de benevolência e tenacidade, aliados a uma intuição e um conhecimento da psicologia humana que bate, de longe o Hercule belga.

O sargento Charlie Chan fica por muito tempo popular e amado de inúmeros leitores. O que se compreende.

Maurice Horn[1], salienta muito especialmente, o charme de Biggers, pleno, ainda hoje de atualidade, o qual decorre, em grande parte de «au lieu de se servir de la chronologie inversée, qui consiste à reconstituer les évènements, de leur aboutissement à leur origine, Biggers emploie un récit oblique qui remet en cause la réalité des évènements, tels qu’ils se sont produits et leur importance objective. Ainsi, dans le “Perroquet Chinois”, le problème n’est pas de savoir qui a tué (le fait est établi dans les premiers chapitres) mais qui l’on a tué et l’investigation qui s’ensuit n’est pas sans analogie avec le thème de l’identité perdue, cher à nombre de romanciers contemporains…

L’ambiguïté dont est nécessairement empreinte une narration oblique lui sert à construire et à renforcer une atmosphère d’étrangeté et de dépaysement dans laquelle, de suspense en suspense, jusqu’à la surprise finale, son lecteur se trouve plongé ».

Morre de um ataque cardíaco com 48 anos, depois de uma vida de fumador compulsivo, amador da boa mesa e de bons vinhos…

Charlie Chan

OBRAS PRINCIPAIS

CICLO CHARLIE CHAN

The House without a Key, 1925

The Chinese Parrot, 1926

Behind this Curtain, 1928 The Black Camel, 1929

Charlie Chan Carries On, 1930 The Keeper of The Keys, 1932

OUTROS

Seven Keys to Baldpate, 1913

CONTOS E NOVELAS

The Apron of Genius, 1909 The Ebony Stick, 1916

The 40-H of Miss Bluebotte, 1917 Nina and the Blemish, 1928

The Dollar Chasers, p., 1961


[1] Phoenix, Nº 2, 1967

Carlos Macedo

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