Leituras inextinguíveis (28): William Shakespeare é o maior, o seu teatro do mundo continua a existir no nosso tempo

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

William Shakespeare

Será o único autor de que se recomenda a leitura de toda a sua obra, congrega a mais universal catalogação de personagens de todos os tempos, é tudo uma questão de nos vermos ao espelho. Ele foi dramaturgo, comediógrafo, comediante, poeta (além de empresário), continua a ser um permanente enigma como é que aquele filho de um luveiro de Stratford-upon-Avon revelou tal genialidade, seria medianamente instruído, independentemente do seu ímpeto ousado e do seu excecional poder de observação.

Escreveu como um autor do Renascimento, é patente na sua formação que participava na vida do seu burgo, conhecia os divertimentos populares, as festas, as tradições e superstições. Frequentou a escola, comprovadamente teve rudimentos de gramática, lógica e retórica, conheceu os clássicos romanos. As suas obras são recorrentes em alusões à natureza, às flores, às árvores, aos animais, seja comédia, drama ou poesia. Ouviu falar em bruxas e feiticeiras, viu o esplendor da corte de Isabel I e de Jaime I.

Não se sabe bem em que circunstâncias vai para Londres e entra no mundo do teatro, teatro esse que aparecerá expressivamente na sua obra, recorde-se que no drama Hamlet quando os comediantes chegam a Elsinor, o príncipe dinamarquês dirá: “Os atores merecem consideração, pois eles são a breve crónica do nosso tempo”. E dominou magistralmente o teatro dentro do teatro, quando Hamlet oferece à Corte da Dinamarca o espetáculo do “assassínio de Gonzaga”, é durante a representação que ele pretende desmascarar o seu tio que matou o irmão rei e casou com a mãe de Hamlet. É como se o fantasma do pai entrasse em cena para incomodar o regicida, como diz o príncipe Hamlet: “Ouvi dizer que há criminosos que, ao assistirem a uma representação teatral, ficam tão comovidos com a cena que confessam de imediato o seu crime. Pois o crime, sem recorrer a palavras, exprime-se com uma maravilhosa eloquência. Quero que esses atores representem diante do meu tio uma cena semelhante ao assassínio do meu pai. Eu vigiarei os seus olhares, farei pressão para que reaja, e sei bem o que me resta fazer”.

Macbeth e as Feiticeiras

Somos indubitavelmente obrigados a questionar um génio que transvasa todas as épocas, fatalmente mercado (caso de Shakespeare) por um mundo maravilhoso, ainda com amarras medievais, atmosferas pagãs, fantasmas e crendices sobrenaturais; questionar o génio que a centelha se acendeu em Londres, transformada numa metrópole de 200 mil habitantes, carente de lazeres e onde os teatros se tornaram polo de atração, basta lembrar Christopher Marlowe e Thomas Kyd.

Na sua ascensão meteórica (vamos situá-la entre 1590 a 1597) compõe dramas históricos, continuam a dar brado em todos os palcos mundiais: Henrique VI, Ricardo III, Ricardo II, Henrique IV, Henrique V. Entretanto enceta um conjunto de 10 comédias, onde podemos distinguir As Alegres Comadres de Windsor, Sonho de uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, Noite de Reis. Não negligencia as tragédias, caso de Tito Andrónico e abre a porta a um drama de paixão e comédia que acaba mal, Romeu e Julieta, o zénite do texto amoroso, ainda hoje arrepiante.

“Todo o mundo faz comédia”, parece ser a consigna da Companhia de Shakespeare, um duplo da vida e espelho da Natureza. Ainda hoje nos empolga ver estes teatros públicos da sua arquitetura, a natureza do palco, os espetadores e os atores, os papéis femininos entregues a homens.

Shakespeare responde cabalmente a um público que está ávido de sensações fortes e que se deixava subjugar pelo valor da palavra, pronto a perceber as lições moralizantes sobre traições e crimes, a volúpia do poder, a ética do castigo, os avisos à navegação de quem com ferro mata ferro morre.

Shakespeare Globe, Londres

Atenda-se igualmente aos conhecimentos científicos da época, a que Shakespeare esteve atento, a curiosidade desponta, Copérnico, Kepler e Galileu promovem a Astronomia, a Astrologia é retificada, progride a Medicina, assiste-se ao desencravamento do mundo, mudou a arte de marear, conhecem-se novas plantas e novas culturas. Shakespeare insiste em catapultar o seu génio: Medida por Medida, Otelo, António e Cleópatra, Tímon de Atenas, Coriolano, as chamadas peças de problemas ou comédias negras, reajusta-se a estética, a imagem do mundo medieval ainda é um apelo, mas são as narrativas do novo mundo que abrem caminho para os seus derradeiros textos.


Rei Lear e o bobo

Enfim, um teatro uniforme que quando se publica em 1623 irá surpreender os estudiosos e os leitores: dramas históricos de toda a ordem, comédias de juventude, romanescas, tragicomédias, tragédias romanas, tragédias de paixão, tragédias de vingança, um tom declamatório de que jamais se perdeu a apetência, teatros, canais de televisão, cinema, ópera, todos os meios serão arrastados para trazer o universo shakespeariano ao quotidiano das nossas vidas, e daí soletrarmos: “Ser ou não ser, eis a questão: /Se é mais nobre no espírito sofrer /As fundas e flechas da fortuna ultrajante, /Ou brandir armas contra um mar de agravos, /E, opondo-os, fazê-los cessar. Morrer – / Dormir, / Mais nada; E num sono dizer que cessou /O torno no peito e os mil choques naturais /De que a carne é herdeira:”. Estarrecemos com o final de Otelo, com a fúria e a aproximação da loucura do rei Lear, o delírio de Macbeth quando lhe comunicam que a mulher morreu, os textos belíssimos de O Conto de Inverno ou de A Tempestade, e cedemos a toda e qualquer forma de representação, vamos à procura da encenação mais inovadora do intérprete mais sublime. Porque todo este teatro do mundo é um permanente desafio para encenadores e atores, todos se mostram dispostos ao risco. Veja-se o caso de Ricardo III, Ricardo de Gloucester, da Casa de York, um autêntico príncipe do mal, coxo, corcunda e com um braço atrofiado, papel que obriga a uma eloquência e exposição de talento, mostrando sedução e perversão, estamos perante um monstro que prepara a tirania e levará o país à ruína: “Eu, a quem a caprichosa natureza negou belas formas e nobres feições, eu, que ela colocou neste mundo dos vivos antes do prazo natural, disforme, incompleto, apenas esboçado, e isso mesmo por um modo tão defeituoso e desagradável que os cães me perseguem ladrando, quando passo coxeando ao pé deles; durante esses efeminados divertimentos da paz, não me resta outro meio de me entreter, senão olhar para a minha sombra, quando o sol brilha e analisar a minha própria deformidade”.

Quem pode resistir a este Shakespeare que partiu do vasto e miserável palco do mundo para o encher de obras-primas.

Mário Beja Santos

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