Grandes nomes da literatura de crime e mistério (10): Boris Akounine, nome literário de Grigori Chalvovitch Tchkhartichvili

Em Leituras

Nasceu a 20 de maio de 1956, na República da Geórgia, filho de mãe russa, terra para onde foi viver, desde adolescente.

Boris Akounine

Licenciado em História e Filologia pela Universidade de Moscovo, especializa- se ainda em língua e literatura japonesas, durante um ano, no local mais apropriado: a Universidade de Tokaï.

De 1979 a 1985, colabora na Revista Rousskij Iazyk (“A Língua Russa”); de 1986 a 2000, na prestigiada Innostranaïa Literatoura (“Literatura Estrangeira”), o que lhe vai dando uma experiência, cosmopolitismo que na sociedade soviética não conseguiria obter e o apetrecha com estilos, tendências e modas que o provincianismo da sua terra de origem (Geórgia, terra de Estaline, o tortuoso mujique) não facilitava, pelo menos ao cidadão comum.

Com rara beleza e lucidez, prova que a teoria da comunicação, formalizando as várias fases de passagem da informação, pode oferecer à classe média russa instrumentos úteis para diferenciar fenómenos que são diferentes e devem ser considerados como diferentes. Diga o que disser o Pravda

E é pela sua mão que os russos conhecem, nomeadamente, Kundera, Philippe Sollers, Perec, Mishima ou Houellebecq.

Em 2000, resolve (em boa hora), começar a escrever a tempo inteiro. Começa por preparar uma antologia de poesia japonesa (em russo) em vinte volumes. E, como ele mesmo diz, “para repousar deste trabalho longo e desmoralizante”, publica, em 1998, o seu primeiro policial histórico, “Azazel”, que começa um ciclo fascinante, erudito e brilhante na literatura de mistério.

O seu estilo, fértil em fintas e mistérios a sair de cada gaveta do investigador, a escrita notável, a visão sardónica da sociedade onde se passam os seus livros, a sagaz dose de aventura que perpassa (muito à James Bond…) aconselham a leitura dos seus livros.

Por oposição às figuras intemporais, a duas dimensões, que nunca envelhecem ou mudam (de Poirot a Ellery Queen), a não ser por meras questões de conveniência (o Autor resolve matá-las, para encerrar a série, por exemplo…), o seu herói, Eraste Petrovitch Fandorine, de origem nobre, mas sem um tostão, vive, entre 1876 e 1896 (mais ou menos), diversas investigações que conduz e coordena e nas quais envelhece.

Passa, ao mesmo tempo, por dramas pessoais dilacerantes, mas consegue, por mérito e tenacidade incansável, o milagre de ser constantemente promovido!

Vejamos.

Se em “Azazel” é um mero “escriturário colegial de 14ª categoria”, na rígida hierarquia burocrática russa, que remonta a Pedro Romanov I, um jovem ligeiramente gago, desajeitado e socialmente tímido; alguns livros depois, mais velho, com total controlo de si próprio, de fontes brancas e marcado por fortes rugas, ainda gago, mas já esbelto e altaneiro (postura de “casta”), é Conselheiro de Estado, por intervenção do Czar, fora da “ordem promocional regulamentar” (equiparado a Major-General, com direito a tratamento por “Excelência”), de Grau 4 (“Statskij Sovietnik”, sexto volume da série), com uma série impressionante de condecorações: Medalha de S. Vladimir de 4º Grau; Medalha de S. Stanislau de 3º Grau; Medalha de S. Ana de 4º Grau.

Eraste Fandorine, como se disse, foi compelido a ganhar a vida num departamento subalterno da polícia, instituição onde a pólvora, a corrupção, a intriga e a cupidez mais desenfreada ditavam em geral a lei.

Nos livros de Akounine existem várias peculiaridades extremamente originais, a par com lugares comuns e mistérios, que são velhos e batidos, como se fossem contemporâneos de Sherlock ou Valmont.

Comecemos pelos últimos.

O excesso, num repetitivo recurso a tiques para caraterizar Fandorine (e habituar o leitor a adotá-lo, de certa forma): a gaguez; as têmporas prematuramente embranquecidas (a morte da noiva Lisanka Evert-Kolokoltseva, aniquila-o literalmente, por um longo período); a forma de exposição das soluções, enumerando-as monotonamente (e vai um; e vão dois, etc.); a admiração um pouco saloia (no que deve refletir a própria visão pessoal do autor) e exagerada do Japão, da arte nipónica, da eficácia dos “ninja”; do código de honra dos samurai; o culto do militar pela preparação física espartana, são excessivos e, por vezes, mais ridículos que os “gadgets” dos livros de Edgar Wallace ou Fleming.

Nas primeiras obras (e as qualidades são muitas), uma visão fascinante do “lado aventura” no romance policial, um pouco à maneira de Artur Peréz-Reverte.

Como o espanhol, consegue dar-lhe uma faceta “Alexandre Dumas”, num ritmo trepidante.

Por outro, deve-se-lhe uma série de “achados muito originais”, como, por exemplo, meter num dos romances (“Smert’ Akhillesa”) uma história completa dos crimes (com biografia e tudo) do super-assassino do livro, que nos dá, em contraponto, a versão autobiográfica, à maneira de Fântomas, dos seus “feitos”.

Ou ainda, em “Touretskij Gambit”, recurso ao mesmo artifício, na boca do assassino, o jornalista Paladin (Anvar Effendi, na realidade), com molho Quincey / Kropoktine, desta vez…

Por fim, o excelente recorte das personagens, seres (muito vivos) e credíveis, onde se sente o respeito pela herança de Eugène Sue e Tolstoï, Dumas e, curiosamente, Eric Ambler…

As reconstituições históricas e a atmosfera criada são perfeitas; sentimo-nos transportados, através do tempo e do espaço, para o local dos acontecimentos.

O estilo, ácido e sarcástico, lembra Gogol; os enigmas respeitam a tradição clássica do policial, embora, pelos temas, nos enviem para o que se convencionou chamar “subgénero” espionagem.

O drama de cada livro é também uma odisseia de manutenção de uma certa inteireza moral de Fandorine: manter os seus princípios da juventude, superar estoicamente os dramas pessoais que caem sobre ele e resolver os casos que lhe são confiados.

O que se revela quase sempre dificílimo.

Fandorine é bem filho do último quartel do século XIX, vivendo no complexo mundo de uma Rússia czarista agonizante, que nem se apercebe de quão doente se encontra.

Uma Rússia escassa em reformadores de visão, como o primeiro ministro, Stolypine e o seu ministro da Agricultura, Krivocheyen, tentando dar espessura a uma burguesia rural, de apenas três milhões de koulaks. Ou as figuras assustadoras, do Conde Serguei de Witte (que quase ninguém tenta compreender e ainda menos apoiar, apesar dos seus méritos), do incompreendido gendarme Alexandr Ivanovitch Spiridovitch.

Perpassa também nos seus livros a extraordinária geração de revolucionários, como Vladimir Illitch Oulianov, dito Lenine, Tchernychevski, Radek, Pissarev ou Trotsky; o odor acre do combate inconsequente e terrorista das diversas correntes do anarquismo de Michel Bakounine, Kropotkine e Soloviov; a que respondem, relatadas com objetividade, as estúpidas e fátuas medidas repressivas, lançadas à toa, a perseguição de estudantes e operários, o exílio no pesadelo da Sibéria ou as condenações à morte…

De uma imensa Rússia, onde, de grandes industriais milionários a miseráveis moujiks esfomeados, de intelectuais, desde filhos da grande aristocracia latifundiária a estudantes revolucionários pobres, se unem, numa exigência do fim da autocracia, da entrada na Europa comme il faut, de um imenso Império de cento e cinquenta milhões de seres.

Outro aspeto curioso deste autor (descobri alguns, outros encontrarão muitos mais) é uma espécie de “private joke” para o seu leitor (se algo conhecedor de literatura e política contemporânea…), retratando e ridicularizando, com uma crueldade implacável, algumas figuras da atualidade política, ou personagens de romances russos, ditos “clássicos”, ou mesmo dos de literatura policial.

Um exemplo de cada.

Em “Smert’ Akhillesa” e “Touretshkij Gambit” aparece-nos um heroico General Mikhail Dmitriévitch Sobolev, que é uma caricatura inquietante (e premonitória) do falecido General Aleksandr Lebed, o candidato ao poder presidencial na Federação Russa, para um “saneamento gaullista” da gigantesca fábrica de corrupção implantada por Ieltsin, mas que morre (é morto) convenientemente, num desastre de helicóptero no Pacífico, quando, bem colocado nas sondagens, preparara já um programa de reformas, garantido o apoio das forças armadas que na generalidade o idolatravam.

Em “Levjafan”, um clone de Jules Maigret, honesto “Commissaire” da polícia francesa, mata (e é morto), porque, quando o preço da desonestidade são cinquenta milhões de libras (de 1879). Quem é que resiste?

É a tese e pergunta implícita do nosso Autor.

Por tal fortuna, entendamo-nos, até os melhores Maigret perderiam a cabeça…

Finalmente, em “Azazel”, vimos ressuscitar, de forma saborosa, o Ivan Nikiforovitch, do ciclo Mirgorod, de Nikolaï Gogol.

E ainda Arsène Lupin (“Valet de Pique”, em homenagem a Pouchkine), em “Ossobye Porucenija” …

O ciclo Fandorine tem doze romances publicados e foi dado como “terminado” (o que nunca é certo…lembremos Conan Doyle e as cataratas de Reichenbach!).

No fim deste ciclo inicia um outro, com várias obras já publicadas: o da Irmã Pelágia, monja cristã ortodoxa, ensinando num colégio de raparigas, na cidade de Zavolzsk, na margem esquerda do Volga, sob a orientação amigável de uma figura simpática: o Bispo Mitrofanii. Os romances da trilogia que os integra passam-se entre 1890 e 1900.

No ano 2000, faz surgir uma nova série de romances que têm por herói, na atualidade, um descendente do velho James Bond-Miguel Strogoff-Fandorine: o seu neto…

Filho de Sir Alexander Fandorine, médico enobrecido pela rainha de Inglaterra, nascido em Inglaterra, Nicholas Fandorine, tornou-se mais britânico que Lord Peter Wimsey…

Mas voltará à terra dos seus antepassados, na procura do seu Graal privativo: um documento da autoria de um mercenário holandês do Século XVII, Cornelius Van Dorn (Korneï Fondorn…).

Em “Altyn Tolbas”, de 2004, Akounine pisca com elegância o olho a Umberto Eco e ao seu “Nome da Rosa”, excedendo-o até, talvez, em rigor histórico e elegância de estilo. E já apareceram novos livros desta série: “Bom sangue não Mente”, de 2008; “”F. M.”, de 2010 e o “Falcão e a Andorinha“, de 2012; outro romance desponta já no horizonte.

Muito se pode esperar ainda deste recém-chegado. O ciclo iniciado em 2000 promete.

E, sobretudo, a surgirem outros que se lhe aproximem (e com ele concorram…), que refrescante escola de literatura policial vai surgir dos países eslavos!

Edição brasileira

CICLO ERASTE PÉTROVICH FANDORINE

AZAZEL, 1996

LE GAMBIT TURC (TOURETSKIJ GAMBIT), 1996

LÉVIATHAN (LEVJAFAN), 1997

LA MORT D’ACHILLE (SMERT AKHILESSA), 1998

MISSIONS SPÉCIALES (OSOBIEPOROUTCHENIA), 1998

 LE CONSEILLER D’ÉTAT (STASKII SOVIETNIK), 1998

LE COURONNEMENT (KORONATSIA), 1998

L’AMANT DE LA MORT (LIOUBOVNIK SMIERTI), 2001

LE CHAPELET DE JADE (SIGUMO /NEFRITOVYE COTKI/DOLINA MECTY), 2007

 LA MAÎTRESSE DE MORT, 2005

MAIS CINCO, AINDA NÃO TÃO DIFUNDIDOS AO NÍVEL MUNDIAL, 1999 –2000.

CICLO IRMÃ PELÁGIA

PELÁGIA E O BULLDOG BRANCO, 2003

PELÁGIA E O MONGE NEGRO, 2005

PELÁGIA E O GALO VERMELHO, 2008

CICLO “NETO” DE ERASTE PETROVICH

ALTYN-TOLOBAS, 2004.

BON SANG NE SAURAIT MENTIR, 2008.

F. M., 2010.

LE FAUCON ET L’HIRONDELLE, 2012.

Carlos Macedo

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