O túmulo quase vazio da Igreja São João de Alporão de Santarém

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Há um túmulo embutido numa parede da Igreja de São João de Alporão que nunca chegou a receber o defunto a quem se destinava. Foi encomendado pela viúva que não se poupou para homenagear um cavaleiro desaparecido em África

D. Duarte de Meneses, Conde de Viana, foi um cavaleiro escalabitano que alcançou o posto de alferes-mor de Álcacer-Seguer, uma feitoria marroquina conquistada em 1458. Nesta praça do Norte de África, mais propriamente na serra de Benacofu, o guerreiro português terá caído em combate no ano de 1464, quando defendia a retirada do rei D.Afonso V.

Na sepultura que se encontra em Santarém, na Igreja São João de Alporão, pode ler-se um relato que acrescenta pormenores à história, ainda que dificilmente se consigam comprovar. Segundo a inscrição, conta-se que o militar, dispondo de apenas 500 soldados, enfrentou 500 mil mouros no conflito onde perdeu a vida, embora tenha sido bem sucedido ao conseguir salvar a vida do monarca português.

O monumento funerário de D. Duarte de Menezes, um cenotáfio encomendado pela viúva, D. Isabel de Castro, no final do século XV, destinava-se a acolher um pequeno cofre que guardava apenas um dente no interior, que, supostamente, pertencera ao falecido militar. Enquanto alguns investigadores alegam que o corpo de D. Duarte nunca foi resgatado do campo de batalha, outros garantem que o mesmo dente terá sido, precisamente, a única parte que se conseguiu recuperar do cadáver despedaçado do soldado português. 

Esculpido por canteiros da Batalha

Sem corpo, foi mandado construir um cenotáfio, um monumento funerário simbólico que tanto pode ser erguido para homenagear apenas uma pessoa, como um grupo de indivíduos. Poderá tratar-se de uma tumba vazia, destinada a guardar apenas alguma lembrança relacionada com a pessoa, ou acontecimento, que se pretende evocar.

Esculpida pelo mestre Gil Eanes Costa, da escola de canteiros do Mosteiro da Batalha, a tumba funerária de D. Duarte de Meneses, foi construída com calcário local e tem um peso impossível de calcular. Mede seis metros e meio de altura, e tem uma largura de quatro metros e trinta e cinco, com uma espessura com cerca de um metro de comprimento.

Monumento do gótico final português, esta tumba é considerada uma das jóias da arquitectura e da escultura tumular nacional. Mostra uma estátua de um guerreiro armado, rodeada por motivos decorativos que incluem plantas, animais e heráldica, um estilo directamente inspirado nos túmulos dos infantes, como pode ser visto no Convento da Batalha.

Mudança de casa

O cenotáfio de D. Duarte foi originalmente instalado na capela das Almas, no panteão dos condes de Viana, situado no interior do Convento de S. Francisco, também em Santarém. Em 1881 foi autorizada a sua transferência para o Museu do Carmo, em Lisboa. O que só não aconteceu devido aos protestos das autoridades locais e da população escalabitana, que se manifestaram ruidosamente contra a decisão, impedindo a desmontagem do mausoléu e a mudança de local, rumo à capital do país.

Apesar disso, uma parte do espólio monumental de Santarém não teve a mesma sorte e foi mesmo transferido para Lisboa no final do século XIX. Como justificação foi apontada a ausência de obras de conservação e o perigo de degradação, bem como as demolições e transformações operadas nos edifícios históricos da cidade.

Em 1889, a Igreja de São João de Alporão abriu ao público como museu, após uma das primeiras obras de conservação e restauro realizadas em Portugal. Uma das principais atracções era precisamente o cenotáfio de D. Duarte de Meneses, que fora desmontado sob a supervisão de um mestre-pedreiro do Convento da Batalha, e transferido da sua localização original na capela das Almas. Antes, fora aberto na presença das autoridades e arqueólogos locais, que encontraram uma tumba vazia, contendo apenas um pequeno cofre com um dente no seu interior. Estudos mais recentes viriam a revelar que o dente fazia parte da dentição de uma criança.

Carlos Quintino

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