Raymond Chandler, provavelmente um dos maiores escritores norte-americanos de sempre

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Vida movimentada, nasce em Chicago, educa-se em Inglaterra, onde não se deu bem, regressa aos Estados Unidos, é combatente no exército canadiano, fixa-se em Los Angeles, chega a administrador em empresas petrolíferas. Aos 44 anos, desempregado após a Grande Depressão, começa a escrever histórias policiais, ganha notoriedade, parece atraído pelo chamado “romance negro”. O seu primeiro romance intitula-se À beira do abismo, Chandler passa a ser visto com outros olhos até porque criou um detetive privado que passará a fazer parte da galeria das grandes lendas da literatura de crime e mistério, Philip Marlowe, o herói que o acompanhará noutras histórias de grande sucesso. Este detetive Marlowe é o espelho de Chandler e o seu oposto: bebe desalmadamente, vive dentro das normas, numa grande sobriedade, é desafetado e romântico, investiga em todas as direções e haverá um momento em que pespega a verdade dos acontecimentos na cara dos seus autores e volta à sua doce rotina, vai para casa, veste as suas roupas velhas e joga partidas de xadrez sozinho. É provável que o leitor iniciado se surpreenda com tantas referências a judeus e a certos preconceitos raciais, é fruto da época.

Que versa este espantoso romance intitulado A Janela Alta, Livros do Brasil/Porto Editora, 2021? O nosso detetive é contratado por uma ricaça para resgatar uma moeda rara. De imediato vamos ser envolvidos na definição de perfis e numa atmosfera de extravagâncias, bizantinices. Logo o local em que vive a ricaça, esta sempre com uma garrafa de Vinho do Porto na mão: “A sala era grande, quadrada, sombria e fresca e tinha a atmosfera sossegada de uma capela funerária. Tapeçarias nas paredes grosseiramente rebocadas, grades de ferro a imitar varandas por fora das janelas de sacada laterais, cadeiras pesadamente entalhadas com almofadas de veludo, costas de brocado e borlas de um dourado baço caído dos lados. Ao fundo, um vitral, quase do tamanho de um campo de ténis”. Daqui parte para a entrevista após dar referências à secretária Mrs. Elizabeth Bright Murdock, esta é premiada com a seguinte água-forte: “Tinha uma cara e um queixo enormes. O cabelo cinzento, cor de estanho, estava arranjado numa permanente rígida, o nariz duro tinha a forma de um bico e os olhos grandes e húmidos tinham a expressão compassiva das pedras molhadas. Tinha rendas à volta do pescoço, mas era um pescoço que ficaria melhor numa camisola de futebol. Vestia um vestido de seda acinzentada. Os braços nus eram grossos e eram sardentos. Ao lado dela estava uma mesa baixa com tampo de vidro e uma garrafa de vinho do Porto”. A ricaça quer saber os honorários, informa que tem um filho completamente idiota que fez um casamento estúpido sem o consentimento da mãe. Terá sido ela que levou o “Dobrão Brasher”. A moeda vale um dinheirão, é um exemplar fora de circulação. A senhora está inquieta porque um numismata telefonou-lhe para saber se lhe podia comprar a moeda, à cautela descobriu que a moeda levara sumiço. Tem início a investigação, encontrar uma amiga da esposa desaparecida, entretanto Marlowe apercebe-se que anda a ser seguido. Visita ao numismata, multiplicam-se as andanças. Marlowe descobre que o filho da sua cliente tem dívidas e que não são pequenas, acontece que o credor tem uma relação íntima com a amiga da esposa desaparecida, o credor pretende os serviços de Marlowe, são negados. Todos estes encontros são alvo de retratos poderosos, diálogos sóbrios, há muito humor cáustico, piadas e cinismo nas respostas. Em dado momento é como se estivéssemos a ler Steinbeck ou Faulkner, veja-se este primor: “Bunker Hill é cidade velha, cidade perdida, cidade miserável e cidade criminosa. Outrora, há muito tempo, era o bairro residencial mais seleto da cidade, e ainda estão de pé algumas das mansões góticas recortadas com pórticos amplos e paredes cobertas de telhas de madeira com as extremidades arredondadas e varandas envidraçadas de canto com torreões em agulha. Agora são todas pensões com os soalhos de parquê riscados, o brilhante polimento inicial gasto e as largas e vastas escadarias escurecidas pelo tempo e pelo verniz barato aplicado sobre gerações de sujidade. Nos quartos altos, as megeras das senhorias implicam com os inquilinos esquivos. Nos pórticos amplos e frescos, com os sapatos esburacados estendidos ao sol e a olhar para o nada, sentam-se os velhos com caras que lembram batalhas perdidas”.

Começam os crimes, irá ser baleado um jovem com pretensões a detetive que seguira Marlowe e lhe propusera parceria, na revelação do crime aparece um casal embebedado com a singularidade de a arma do crime estar debaixo da almofada da cama. É preciso talento a rodos para estar sempre a desenhar protagonistas, agora o Inspetor da Polícia, Jesse Breeze: “Era um homem grande, bastante barrigudo, com sapatos castanhos e brancos, meias descaídas, calças brancas com riscas pretas finas, camisa de colarinho aberto que deixava ver alguns pelos ruivos no cimo do peito, um casaco desportivo azul celeste que não tinha mais largura nos ombros do que uma garagem para dois carros”. O imbróglio ganha volume, vai ser assassinado o numismata, Marlowe recebe uma encomenda, alguém lhe envia o Dobrão Brasher. Aparentemente, a ricaça dá por findos os serviços de Marlowe, reaparecera a moeda, ela mal sabe que Marlowe também recebeu outra. No meio desta densa neblina, o detetive apercebe-se que há uma história de chantagem, há mesmo quem lhe proponha dinheiro generoso para estar calado. E Marlowe conhece a nora da ricaça, conversa esclarecedora, mais um perfil: “Tinha a boca larga e fria, o nariz pequeno, os grandes olhos frios, o cabelo escuro dividido ao meio por um risco largo e branco. Trazia um casaco branco por cima do vestido, com gola voltada para cima. Parecia mais velha, os olhos eram mais duros, os lábios pareciam ter-se esquecido de como é que se sorria”.

De novo reunido com a ricaça, aparece-lhe o filho que conta uma história da carochinha sobre a dívida, o desvio do Dobrão e como o recuperou. A polícia quer inteirar-se dos movimentos do detetive, este ajuda, vai dando pistas. Nestas movimentações, Marlowe descobre um falsário, ocorre uma nova morte e aproxima-se a hora da dedução final, há um velho segredo do passado, de uma janela alta alguém fotografou um abominável crime que origina chantagem e o uso de uma jovem inocente que leva regularmente dinheiro ao chantagista. Estamos em 1942 quando foi publicada A Janela Alta, ainda não era escandaloso escrever o que Chandler escreve: “O Dr. Carl Moss era um judeu grande e corpulento, com bigode à Hitler, olhos salientes e a calma de um glaciar”. Marlowe descobre a fotografia que é um móbil da chantagem bem como as razões de um suicídio, tudo vai contar à sua cliente e ao inspetor Breeze, há o final romântico de uma menina que volta para casa dos pais, a ricaça continua imperturbável a beber vinho do Porto, cada um parece seguir o seu destino, Marlowe veste as velhas roupas de trazer por casa e joga xadrez sozinho. O uísque nunca falta, ajuda a alta tensão entre os disparos. A Janela Alta é uma perfeição, digno dos aficionados da literatura de crime e mistério e de todos os outros que gostam de livros poderosos, inesquecíveis.

Mário Beja Santos

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