“Chona” – um desaparecimento que não mereceu luto municipal (áudio)

Em Opinião

Foi, é e será uma figura ímpar que muitos de nós, scalabitanos e não só, bem conhecemos. Ator, encenador, produtor, dramaturgo e dirigente associativo. Mais ainda um exemplo de caráter humano, solidariedade social, um Grande Amigo…

Falo de quem?! Do Carlos Oliveira, do por todos conhecido como “Chona”, que deixou de estar connosco no passado dia 21, aos 72 anos, depois de ter sofrido durante três semanas.

Conheci-o melhor pessoalmente há não muitos anos; muita gente haverá que poderá melhor falar sobre ele, sobre quem era.

O meu último contacto de cidadania com ele foi quando há pouco mais de três meses travámos juntos mais uma luta em defesa dos comerciantes do Mercado Municipal de Santarém, assunto que o moía, entristecia e incomodava pela forma como foi conduzido por quem deveria ser o primeiro a defender e a proteger os munícipes que representa.

Mas a questão que aqui queria deixar hoje é a do sentido ou não sentido de decretar luto municipal por esta figura que perdemos.  Agora já não o fará, será extemporâneo, mas ainda o teria feito quando o propus nas redes sociais e no dia do funeral pessoalmente ao presidente da autarquia. Das respostas credíveis e com sentido, houve uma pessoa que não concordou em mais de duzentas que se manifestaram, mas claro que o assunto é discutível.

Fotos da Rua Carlos Oliveira

Diz a Lei 40/2006, no seu Artigo 42º, números 2 e 3:

  • O luto nacional é declarado pelo falecimento do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-Ministro e ainda dos antigos Presidentes da República.
  • O luto nacional é ainda declarado pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de excepcional relevância.

E ao luto municipal aplica-se, com as devidas adaptações, o regime previsto para o luto nacional.

Referem as “regras do cerimonial” da Câmara Municipal de Silves, por exemplo: “O luto municipal poderá ser decretado aquando do óbito de alguma figura de vulto para o concelho, que pela sua acção e mérito tenha contribuído para o desenvolvimento económico, cultural, social, desportivo, ou que pelo seu empenho tenham projectado o concelho de Silves para lá dos limites do concelho.” – penso que em Santarém não existe este tipo de documento, mas também não vem mal ao mundo por isso.

Mas não estará o “Chona” nas condições referidas?!

Mesmo que os nossos decisores camarários não tivessem por lapso pensado na conveniência e no adequado e merecido que seria decretar luto municipal pela morte do “Chona”, poderiam tê-lo feito sem problema após a divulgação da proposta: apesar de preferível, não teria de ser no dia da morte, nem do funeral. O luto nacional pelo falecimento de Carlos do Carmo foi a 4 de janeiro e ele morreu no dia 1.

Não há sequer ausência de tradição de decretar luto municipal em Santarém: aconteceu, certamente entre outras situações, aquando da morte do Prof. Veríssimo Serrão em 2020, aquando do morte do empresário Joaquim Louro em 2014 e da de José Niza em 2011.

Mas mesmo que este “esquecimento” tivesse sido uma falha, crassa na minha opinião, pode ser perfeitamente corrigida por outras formas. Se Carlos Oliveira já tem o nome de rua atribuído em vida, homenagem que ele muito pouco relevou, ainda que num por agora quase deserto local das Fontainhas/Grainho que poucos conhecerão e sem sequer placas identificativas no local, já houve quem alvitrasse também a possibilidade de o “Chona” dar nome a um edifício público. Eu arriscaria propor que o seu nome fosse dado a uma sala de espetáculos com 4 a 6 centenas de lugares, de que Santarém carece, a edificar no Campo Emílio Infante da Câmara, no seguimento de proposta unânime da Assembleia Municipal em 2018. Mas não vale a pena, isso seria muito provavelmente o mesmo que dizer que Carlos Oliveira nunca teria o seu nome associado a um marco da nossa cultura municipal!

Francisco Mendes

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