Grandes nomes da literatura de crime e mistério (12): Stanislas-André Steeman (1908-1970)

Em Leituras

Deve-se a Stanislas-André Steeman, a fazer fé de confidências de sua viúva e seu filho (Krisha e Stéphane Steeman, respectivamente), a André-Paul Duchâteau, escritor de policial e banda desenhada francês, uma das mais ingénuas (e belas) definições do tipo de literatura que a sua obra na ficção de crime e mistério tentou abordar.

Dizia ele: “As fadas encontraram refúgio, por fim, num desses locais que os profanos chamam vulgarmente ‘o local do crime’. Abre-se um romance policial com o coração de uma criança, pois ele está mais próximo do poema que da verdade. É que, para escrever um bom romance policial, é necessário ter um espírito de infância ainda muito vivo. Vamos sempre acabar neste ponto: o romance policial é o conto de fadas do século XX”.

Steeman nasceu a 23 de janeiro de 1908, em Liège. Toda a sua vida e carreira(s) esvoaçarão entre esta cidade e Antuérpia, Bruxelas e Menton.

Liège, onde, com o correr dos tempos, construirá a base da sua enorme cultura livresca.

A Bélgica sempre foi um dos grandes focos de inovações em todos os campos da cultura. Proliferam Prémios Nobel, de Maurice Maeterlinck a Ilya Prigogine, pintores, de James Ensor ao “naturalizado” Magritte; autores geniais de BD, de Hergé a Edgar Jacobs, cantautores, de Jacques Brel a Arno; escritores, de Émile Verhaeren a Marguerite Yourcenar e Henri Michaux. E autores de policial, de Georges Simenon a Pieter Aspe e Jean Ray. Daí que em nada nos tenhamos de espantar que o mais tresloucado e versátil escritor no género tenha nascido na Bélgica, em Liége.

Antuérpia, onde, “raptado” a seu pai, por uma mãe que achava que o mesmo não atingia (mesmo) padrões mínimos para educar quem quer que fosse, vive uma infância difícil; Antuérpia, onde aprende a amar o desenho e a banda desenhada, produzindo, ainda muito criança, pequenas obras-primas admiráveis; ainda Antuérpia, onde estudará e começará a trabalhar muito cedo, em pequenos trabalhos de escriturário de uma companhia marítima, onde se “deixa fechar”, à noite, para poder dactilografar, no escritório vazio, os seus primeiros trabalhos literários.

Bruxelas, onde se torna (penosamente) jornalista na “Nation Belge”, jornal quotidiano onde afinará a linguagem, a concisão de estilo e o humor interminável.

Menton, por fim, para onde se retira, em 1947, para terminar o último capítulo da sua vida, em 1970.

Tem catorze anos quando aparece o seu primeiro conto (de Natal…) na revista “La Revue Sincère”: “Les Crottes de Chocolat”.

Não tão precoce como Mozart e intitulando a obra de forma pouco habitual…

Mas sempre orgulhoso, dogmático, pródigo do humor “Zwanze” de Bruxelas e arrogante, maneira de ser que nunca abandonará os escritos do autor.

Querem outro exemplo? Num dos seus últimos romances, (1960), “Faisons les Fous”, (Le Masque, nº 2122), passado num manicómio, escreve, no verso da capa, uma advertência e uma dedicatória. Advertência: “A história que vão ler inspira-se em factos parcialmente verídicos [o que é falso]. Qualquer semelhança das personagens com os verdadeiros loucos, entretanto falecidos ou ainda vivos, é garantida. Igualmente asseguramos toda a similitude de nomes próprios e de pseudónimos”.

Dedicatória: “Ao Professor Le Meur e ao Doutor Gaucher, que me permitiram entrar num verdadeiro manicómio e sair dele”.

Estuda no Colégio Albert I, em Antuérpia. Aí nascem a sua bibliofilia e curiosidade insaciáveis.

Estuda, pois. E não até muito tarde.

Mas para quê?

Um dia, os jornalistas da delegação do “Sourire” de Paris, na Bélgica, viram, siderados, chegar à tesouraria, um rapazote de calções curtos (imaginem o Tintin…), para receber os direitos de autor da sua colaboração habitual: Stanislas-André tinha quinze anos incompletos…

Entra para a “Nation Belge” com dezasseis anos.

Onde faz de tudo: de “atropelamentos” a manifestações políticas, da crítica cinematográfica, à reportagem dos grandes acontecimentos. Experiência inapreciável, que não cairá em saco roto.

Com um colega de jornal, Sintair (pseudónimo de Herman Sartini), escreve o seu primeiro romance policial, “Le Mystère du Zoo d’Anvers”, gigantesco “puzzle-pastiche” de tudo o que se puderam lembrar, elaborado em 1926-7. Que é publicado por Albert Pigasse, como o nº 11 da sua coleção “Le Masque” (1928), que começara (nº 1) com o “Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie…

Este excelente percursor do policial humorístico (San Antonio e Léo Malet ainda estão longe…. mesmo o inimitável sargento Beef, criação de Leo Bruce [Rupert Croft-Cook], do Detection Club de Londres, com o seu “Case for Three Detectives”, está a nove anos de distância, no futuro…), paródia burlesca aos romances policiais em voga nos anos vinte, terá seguimento.

Seguem-se-lhe, sempre com Sintair, “Le Treizième Coup de Minuit” (com alguns “gags” antológicos, misturados com dramas de folhetim popular – amor e ódio…), nº 20 da “Collection Le Masque”; e “Le Diable au Collège”, nº 55 dessa coleção, de 1928 e 1930, respectivamente.

Mas iniciou ao mesmo tempo a escrita apenas sua, com duas obras premonitórias dos seus verdadeiros romances policiais: “Péril” e “Zéro”, ambos de 1929, publicados respectivamente, pela Editoras “De la Gaulle” e “La Renaissance du Livre”, ambas de Bruxelas. Anuncia-se a primeira grande criação do Maigret de Steeman, a surgir em 1930: o Commissaire Aimée Malaise.

A sua capacidade de descrição de um clima psicológico, do comportamento quotidiano de diferentes estratos sociais e seus rituais específicos, de descrição das personagens é (apesar da propensão extensiva para o calembure e a ironia deslocada) espantosa. Qualidade/defeito que o acompanhará ao longo de toda a sua obra.

Vejamos o começo de um livro escrito em 1931, “Le Démon de Sainte-Croix” (Le Masque nº 1902):

“ …une petite pièce garnie de objects de verre aux formes tourmentées… une horloge, dans la maison fit entendre un son clair qui la trahissait: elle ne pouvait être que de zinc doré, couronnée de fleurs de champs, accablantes de vérité et flanquée sûrement de chandeliers du même acabit”.

É extremamente curioso estabelecer uma análise comparativa das respectivas personalidades nas criações de personagens por Jacques Decrest, Georges Simenon e Stanislas-André: Comissários Gilles, Jules Maigret e Aimée Malaise.

Gilles, que nos é apresentado como um brilhante (e muito jovem) Comissário da polícia francesa, que sofre com a confusão de valores dominante e combate a complacência (leia-se corrupção) com os prevaricadores.

É rápido, ambicioso, conservador e de evidente origem social modesta.

É marido e pai exemplar, com imensos amigos, com que convive com enorme prazer, é superficial no convívio, embora inteligente, totalmente acomodado à sociedade vigente (no que é verdadeiramente importante) e previsível no seu comportamento numa investigação.

Maigret, em contrapartida, tem uma personalidade infinitamente mais rica, embora, em primeira análise, muito menos simpática.

Marido e chefe egoísta, dotado de maior espessura psicológica (e física…), tem origem numa pequena burguesia rural (seu pai era administrador-caseiro de um conde latifundiário e sonhava-o médico…).

Pequeno tiranete benévolo para sua mulher e colaboradores diretos, (que, apesar disso, o adoram), tem a desconfiança bisonha do camponês sobre a sociedade (em geral) e as pessoas (em particular).

Amigos, só os cunhados e a família Pardon, médico de origem igualmente rural.

Vida cultural, ocasionais idas, com a mulher, a cinemas de Paris. Apesar disso, uma férrea capacidade de raciocínio, uma infinita compreensão das fragilidades humanas, uma notável capacidade de apreensão das incongruências.

 Pouco contrastando, com o Inspector Studer, de Basileia, excelente criação do suíço Glauser.

O Malaise de Steeman é diferente. Homem muito inteligente e introvertido, que se move em cenários “belgas” de romance de terror.

Em 1932, em “Le Mannequin assassiné”, Malaise só poderia trabalhar, conceber-se como plausível, naquele ambiente glauco e cinzento, de chuva e casas sombrias e canais traiçoeiros, em plena Bélgica dos anos trinta…

O nosso amigo tem, entre muitas outras que Steeman lhe inculcou, uma mania: usar, como único confidente e conselheiro, um pequeno “Diário”, de capa encadernada em pele. Nele anota as suas impressões em cada investigação, os principais suspeitos, as suas dúvidas e sentimentos. “Fala” com o seu diário.

Vejamos o que Steeman nos diz sobre ele.

Em “Zéro” (1929) sabemo-lo robusto, de mãos enormes, malicioso, jovial e competente. De costumes não muito higiénicos e apetite excessivo.

E também que é, de início, soberbamente ridicularizado por um tabloide, “Le Phare” (já os havia em 1929, já…).

E é a avó do seu Watson, o jornalista de “L’Éclair”, que entre dois trabalhos de tapeçaria, em que é exímia, que acabará por resolver o caso…

Em “Chargois” (1930-1932), “Archibald S. Brew” e “Les Trois Spectres”, Malaise não se comporta muito mais brilhantemente.

E só em “Le Doigt Volé” (1930), já em clima rural da Flandres (Campines) é que Malaise tem um papel central, ainda que, de início, o Procureur du Roi Substitut o considere ainda “muito jovem” para conduzir um inquérito…

Opiniões.

Este procurador não daria qualquer oportunidade a Mozart…

Mas Malaise resolve o caso. Com uma solução barroca e um pouco forçada, mas resolve-o, sem margem a dúvidas.

Embora (ao contrário de tudo fazer para isso) não conseguir que Steeman ganhe (o prémio vai para Pierre Véry), o Grand Prix du Roman d’Aventures de 1930….

Por fim, no ano seguinte, com vinte e quatro anos apenas, Steeman dá uma “alma” e sentimentos humanos a Malaise (que alguns, a partir deste excelente romance, não plagiado, querem vê-lo um imitador perfidamente descarado “do estilo Maigret“) e escreve “Mannequin Assassiné”.

Aqui, Malaise é, por fim, o centro da trama, num ambiente surdamente trágico, onde paira o fantástico, com um toque de humor, tão querido de Steeman.

A luta de Malaise com um “bourreau d’images, un tueur de souvenirs” constitui um dos melhores romances que escreveu.

Na caracterização das personagens, estilo narrativo e temas dos romances que apresentam o Commissaire Aimé Malaise, sente-se em Steeman um fascinante namoro com o surrealismo, um onirismo quase gótico, uma caracterização das personagens com um trágico fatalismo muito “eslavo”, barroco e de um pessimismo negro. O leitor é levado a saber da existência, em cada obra, da presença de um monstro de formas abomináveis e não consegue mais que pressentir o seu reflexo especular, com um rosto que Steeman nos oferece: o rosto irrepetível do nosso medo pessoal, dos nossos “fantasmas”…

Malaise é um Voltaire soturno, mas compreensivo, em anos de depressão…

O autor dos seus dias, por seu lado, amante da poesia e da literatura fantástica, não se reprime nestes primeiros romances.

Tem apenas vinte e dois anos.

Voltemos, pois, a Stanislas-André…

Temos duas descrições de si próprio, uma, séria, de seu filho, Stéphane, outra sua.

Diz seu filho (“Le Thyrse”): “Olho para a fronte de Steeman. É alta e abaulada, reforçada pela completa calvície, até meio do crânio. Nas têmporas, sinais evidentes de velhice. Olho para este romancista subtil e inteligente, cuja imaginação continua a ser jovem e inesgotável. A obra policial de Steeman é ele próprio: racional, clarividente, positivo. No entanto, ele, a propósito dos seus livros, evoca de bom grado a inspiração dos contos de fadas, mas de contos de fadas atuais, cheios de imagens novas e de trepidação. E surge uma nova poesia, uma poesia desse poeta singular que é André Steeman…”.

É-o também no quotidiano.

É pelo estado do seu pijama (sempre escreveu de pijama) que podemos avaliar se a jornada foi fasta ou nefasta. Se os colarinhos só estão mordidos é muito bom sinal. Se toda a parte da frente está literalmente despedaçada, é prudente não perguntar como correu o seu dia.”

Steeman parece Wens?

Talvez. Um Wens sem as fraquezas e inibições sociais do nosso Stanislas, em querelas perpétuas com produtores de cinema venais, editores mesquinhos e críticos venenosos, que (apesar disso…) convém não hostilizar.

Wens, a sua prima donna (como ele o concebeu) estar-se-ia nas tintas.

Wens é o que Steeman gostaria de poder ser…

Steeman retrata-se também: “Sou provavelmente o único homem do mundo que se assemelha a sete vedetas cinematográficas: Victor Francen, pela barba; Clark Gable, pelas orelhas; Greta Garbo, pelos pés; Yul Brynner, pela calvície; Eddie Constantine, pela pele acetinada; Darry Cowl, pelos óculos e Donald Duck, pelo bom feitio!”.

E Wens, o seu maior detective, como é? Ele retrata-o em parte: (“La Résurrection d’Atlas”): “Imaginem um homem de um metro e oitenta de altura, magro, de queixo proeminente, olhos claros, sobrancelhas espessas e móveis, fronte desguarnecida e gestos fleumáticos. Sem pretender ser belo, com um poder misterioso – a empatia – não hesitando em fazer uso dele, sobretudo com as mulheres….

Vestido sempre com rigor em todas as circunstâncias e chegando a perturbar-se e distrair-se, mesmo no decurso de uma investigação, por um vinco desalinhado das calças ou uma mancha nos sapatos, objetos do seu constante cuidado.

Duma refinada cortesia, corrigida por uma dose de impertinência sarcástica, chocando-se, no entanto, com qualquer grosseria ou linguagem rude.

Dotado de mais imaginação do que de sentido de observação, de mais intuição do que de sagacidade.

Desprezando a polícia oficial, lamentando dever-lhe parte da sua experiência profissional, tendo da justiça uma noção muito pessoal…

Hábil a despojar os seus clientes de todos os bens, mas capaz igualmente de dar provas gritantes de total desinteresse.

Raramente sentindo antipatia, por mais horríveis que fossem os seus crimes, pelos que perseguia, mas sentindo imediata aversão por honestos cidadãos, só pelo aspecto.

Jogador sem freio. Conhecedor de dezanove métodos infalíveis de perder na roleta e, melhor ainda, de um meio de nela triunfar.

Preguiçoso como uma marmota, mas capaz de prescindir, sem fadiga aparente, de sono ou descanso, noites a fio.

De constituição delicada, capaz, por energia puramente nervosa, de executar verdadeiras proezas físicas.

Ora fiel, ora inconstante. Na amizade e no amor.

Enfim, um carácter feito de contradições, um humor sujeito a variações contínuas, gostando de Mussorgsky, Saint-Saëns e Ravel, de música negra, de “bowling” e de angustura”.

Disse que Steeman se imaginava (ou tentava identificar-se com) Wenceslas Vorobeitchïck.

Com a entrada triunfal em 1931, deste inimitável detective, Wenceslas Vorobeïtchick, o “Mr. Wens”, consagrada por um Prix du Roman d’Aventures, na obra-prima que é “Six Hommes Morts”, o estilo de Steeman muda radicalmente.

Dotado duma imaginação fascinante, aliada a uma força e dinâmica envolventes na intriga, a um insuperável senso de humor, um sentido de progressão dramática e de construção da intriga policial sempre renovada, inicia um percurso que lhe dará um lugar cimeiro.

De caminho, pequenos interregnos de “pastiches” não assumidos (de Wallace ou Gaston Leroux ou Sayers – Le Lévrier Bleu, Les Fils de Baloo, L’Infaillible Silas Lord -, entre 1934 e 1937). E, com “Crimes à Vendre”, de 1951, dá-nos uma pequena obra-prima, em namoro inteligente com a violência black mask.

Voltemos a Wens. Com uma enevoada narrativa romântica, romance fantástico ou de ficção científico-policial, publicado em 1941, “L’Ennemi sansVisage”,onde a [nova] história de amor de Wens, de um poético barroco, o enriquece com uma tonalidade trágica que por vezes nos faz lembrar “Frankenstein”, “Metropolis” ou “O Novo Adão”.

Sem perder (o que merece realce, porque não é fácil) o carácter estrito de um policial de enigma clássico, próprio da época.

Esta procura constante de estilos “novos” (usando por vezes o mesmo detective, mas alterando parte do texto) que se adaptem às mudanças sociais, de moda, políticas, culturais, que explodem á sua volta, apenas terminará com a sua dolorosa morte (por cancro), em 1970.

Mesmo quando não aparece o nosso russo-belga, o cínico M. Wens, o eslavo de Bruxelas produz obras fabulosas como a que, a meu ver, melhor representa o alto nível das qualidades literárias, que acima lhe atribui.

Refiro-me a “L’assassin habite au 21”, de 1939.

E cria ainda um detective, todo músculos e armas de fogo, na tradição do “black mask” norte-americano, aproveitando, à sua maneira, o plano Marshall…

Desiré Marco, o seu “private-eye”, da “fase americana”, surge em 1951 (“Madame la Mort”). Seguem-se-lhe “Dix-huit Fantômes”, de 1952 e “Faisons les Fous”, de 1961.

Mas mesmo aqui, o seu humor cáustico e inimitável, a originalidade da narrativa, continuam iguais.

Mas voltemos a Monsieur (Barine?) Wens.

O seu retrato não abrange um, mas os três Wens da obra de Steeman.

Sim, porque temos, como nos Bourbon franceses, por exemplo, um M. Wens I, um II e um III, que passarei a caracterizar.

O I M. Wens é uma curiosa figura de cartão, sem qualquer característica humana ou verosimilhança psicológica digna de realce, misto de Harley Quin e mago de circo provinciano. mas com algo de Voltaire, Bálsamo e Byron a dar-lhe espessura.

Com alterações de comportamento de livro para livro, embora mantendo sempre uma teatralidade à Paul Féval (o “bom” Paul Féval), assim nos aparece em “Six Hommes Morts”; “La Nuit du 12 au 13”; “Un dans Trois”; “Les Atouts de M. Wens” (que partilha com Aimé Malaise).

Como Steeman, trata com cuidados paranoicos o irrepreensível arranjo do resto de cabelos que ainda possui e o brilho sem mácula dos sapatos vermelho-acastanhados.

Em “Six Hommes Morts” trabalha ainda na polícia (“aprendiz-detective”, explica-nos o Inspector Wenceslas Vorobeïtchik, sem sorrir).

Este romance recebe menção honrosa, em 12 de junho de 1931, no Concurso anual do Grand Prix du Roman D’Aventures (por um júri que integra, entre outros, Joseph Kessel, Francis Carco, Pierre Mac Orlan, assim como Pierre Benoît, que preside).

O M. Wens neste livro (e nos seguintes que atrás mencionei) é cínico, pródigo em jogos de palavras algo cartesianas e nem sempre inspiradas. E muito “cerebral”.

Tem algo, disse-o já, do Henri Bencolin (John Dickson Carr), de Metternich, de Jorge Luis Borges.

Ou seja (não houve plágio), é o detective que criou para o mundo que prevê, no dealbar dos anos trinta…

Em “La Nuit du 12 au 13”, Wens e Malaise, em Antuérpia de 1931 (as concessões europeias, o tráfico de ópio, o exotismo aventureiro de viagens a lugares distantes, tudo aparece, como já se pressentia e era mesmo patente no enredo de “Six Hommes Morts”) trocam confidências e bebem “whisky”, tratando-se por tu, como antigos colegas.

Partilharão a investigação, após cinco anos de separação, o primeiro como “privado” de luxo, o segundo como Comissário da B.I.S. (Brigada Internacional de Estupefacientes, da S. D. N., talvez antepassada da Interpol…).

Wens é mais usado como o fio condutor do drama, de uma amarga ironia, e o carácter de Malaise parece reforçar-se, aqui, com a forte invulnerabilidade corpulenta do seu (distante) colega do Boulevard Richard-Lenoir…

Passada a guerra, muda o pobre Wens…

Noutro livro (“La Nuit du 12 au 13“), refeito em 1934, surge-nos um Wens sofisticado, com um fiel criado oriental; cínico, oportunista, muito sofisticado.  Um estilo de detecção superior, muito moderno e uma intriga engenhosa, que um completo “refazer” do livro, em 1952 (passando a chamar-lhe “Mystère à Xangai”), não melhorará.

Wens (“sondeur d’âmes et de mystères”) surge aqui, mais claramente, nesta versão Nº 2, como apaixonado, muito humano e vulnerável (e até suspeito…).

Este criar de versões quase completamente originais dos seus romances de 1930-1932, voltará a acontecer com “Les Atouts de M. Wens”, et “L’Assassin Assassiné” e até, com “Mannequin Assassiné”, (este protagonizado por Malaise), “remakes” por vezes destinados a facilitar, como aconteceu, a sua adaptação ao cinema.

Wens demite-se da polícia belga, onde fora Inspetor e colega de Malaise (o que explica o romance de Anvers-Shanghaï…), encontra a mulher da sua vida, casa-se e ela morre.

Para reaparecer, disfarçado de quirólogo e Saint-Germain, vestido de luto carregado, à cigano, no castelo de Loverval, pertencente a Hugo Schlim, onde consegue apresentar, com muito cabotinismo à mistura, três soluções possíveis (mas uma só verdadeira…) para o assassinato do seu anfitrião…usando o pseudónimo de M. de Saint-Phal, que tem um vago odor a Cagliostro.

E a Jean Ray, mas mais sofisticado (este é bem mais puro, na encantadora série dos Harry Dickson…)

Yves Olivier-Martin, num artigo da revista “Enigmatika” diz-nos:

Les démarrages, chez Steeman, participent (donc) d’une vision macrocosmique ou microcosmique de l’univers. Avec “Le Lévrier Bleu”, “L’Assassin Habite au 21”, nous avons une vision structurelle de la Ville, la ville tueuse et maléfique. Donc, la vision macrocosmique.

Autre démarrage, celui du rétrécissement, d’un amenuisement du décor, de la vision rendue: ce peut être un Château…la vision microcosmique, freudienne, introvertie, qui prédomine…le château de Hugo Schlim, en Liège, une atmosphère feutrée, chuchotante et vieillotte… récit bourré de références structurelles à G. K. Chesterton et S. S. Van Dine”.

A verdade é que este livro é talvez o mais cerebral e dedutivo (à Detection Club de Londres) de Steeman.

Tem talvez influência das múltiplas respostas de “The Poisoned Chocolates Case”, de Anthony Berkeley.

Mas, por enquanto, Wens continua a ser um entediante Acácio, um pedante, de erudição deslocada e desnecessária, réplicas de comédia à Sacha Guitry e de uma viuvez de tal teatralidade que se torna caricata, ou até suspeita.

Apesar dos altos e baixos da sua caracterização psicológica e social, face à teatralidade revisteira de Wens, Malaise parece ter a profundidade, humanidade e complexidade caracterial de uma personagem de Tchekov ou Thomas Mann…

Wens, de Feydeau.

Les Atouts de M. Wens”, transformado, mais tarde, em 1959, em “Les Cierges Au Diable”, continua a apresentar-nos um M. Wens de opereta, num Jaguar “bleu-pastel”.

Mas aqui, já subjaz um humor cáustico, começa a sobressair uma ironia mordente, um vitríolo não diluído, que salva o romance, por diálogos introduzidos na versão 1959.

Dignos de Jacques Prévert!

Aqui, sem qualquer hesitação, Wens infringe praticamente todas as regras do romance policial, segundo Van Dine ou Ronald Knox, a ponto de terminar, partindo num cruzeiro amoroso (mais ou menos…) com a … companheira do criminoso.

Há culpabilidade do narrador, irmãos gémeos, passagens subterrâneas, culpas do investigador principal (e herói…), um assassinato inútil de uma criança, que sei eu…provocação inédita ao “code moral” do policial!

De tudo, aliás. Wens personifica a iconoclastia da sua própria personalidade nos livros anteriores…

Carlo Bronne, aparentemente menos injusto que eu, aponta um pedacito deste livro que lhe parece de realçar (com efeito…lembra Simenon, num dos seus dias “não”) : “Viendrait l’été. On donnerait cinq sous – au moins cinq sous – à l’orgue de Barbarie, qui chaque été ramène les mêmes vieux airs qui semblent neufs chaque été. Le soir venu, le marchand de crème glacée, amputé d’un bras par sa charrette aux ventouses de cuivre jaune, consommerait son fonds sans remords. Des gramophones brailleraient au coeur d’appartements ouverts á tous vents et les gens, installés aux terrasses des cafés, prendraient tous cet air d’attendre quelque chose qui se donne volontiers aux gens qui n’attendent rien”.

De 1932 é igualmente “L’Assassin Assassiné”, transformado, em 1959, em “Le Traject De La Foudre”, depois de uma segunda versão, de 1944.

Três, ao todo.

E aqui, começa a ver-se que um Wens II já chegou. Mais espirituoso, com um saudável toque de cinismo que o torna gémeo de Sam Spade, no “Falcão de Malta”, um humor corrosivo, que exige o reforço de diálogos que o realcem, que o autor não lhe recusa, nem regateia, nas versões 1944 e 1959.

Assim é também em “Virage Dangereux”, (que em 1933 se chamava “L’ Yo-Yo de Verre”, antes da reconstrução quase integral a que é submetido onze anos depois… não ficando, no entanto, por aqui e reaparecendo, modificado, como “Tous Droits Reservés”, mais tarde), onde o nosso cínico de espírito cáustico, de novo se entrega a uma pedante exibição de erudição sobre “les petits événements de l’Histoire”.

L’Ennemi Sans Visage”, de 1934, transforma-se em “M. Wens et L’Automate”, em 1943.

O II M. Wens, surge-nos nesta nova versão de “Frankenstein”, de Mary Shelley, apresentada e desenvolvida com muito brio, envolvido numa história amorosa (entre Wens e a etérea filha do assassinado), que se desenvolve através de contos góticos que este lembra à sua amada, com imensa originalidade e aqui, também, com nível literário indiscutível (Le Zébu Noir, Ossian Wikander, Les Jumeaux de Bingen) para a ajudar a combater o medo e o pesar. Cada história uma parábola, que a (nos) prepara para um trágico desfecho.

Nenhum policial de Steeman está mais próximo dos contos de fadas (como definia o “género”), do que este.

O aspecto onírico em que se desenvolve a trama dos crimes, a tragédia Dostoievskiana da família Arthus e do condenado á morte Clarence Jund, dão um indiscutível encanto á história do “Novo Adão” (ou será Caim?).

M. Wens aqui, é apenas um homem (embora um pedante de um snobismo retorcido) que ama uma mulher e a quer conquistar.

E será provavelmente a destinada a morrer, pouco depois do casamento. Dado que, em “Un dans Trois”, o nosso Wens nos aparece travestido de Monsieur de Saint-Phal, proferindo algumas banalidades sobre quiromancia, um tudo nada grotesco (e deslocado, mesmo na Bélgica dos anos trinta…) no seu luto rigoroso de viúvo-cangalheiro.

Finalmente, M. Wens, o III. 

Que surge em 1940-1941, exatamente.

Numa nova coleção, criada precisamente por Steeman, durante a guerra (“Le Jury”, que os ocupantes nazis acabarão por proibir), onde são obrigatórios um “Correio do Leitor”; um “Pomar dos Outros” (crítica de romances policiais por Steeman); um “Museu dos Horrores” e um “Desafio ao Leitor”.

Em “La Vieille Dame Qui Se Défend” e “La Résurrection D’Atlas”, mais contos longos (cinquenta páginas) que romances, Wenceslas criou a sua própria agência de investigações privadas (como Silas Lord, outra criação de Steeman) e os seus assistentes, a bela Norah e o seu Boswell, Walter.

Malaise, a menos que tenha ido ter com os Aliados (muito provável), em Londres, reformou-se e os seus “contactos” na polícia e Justiça são, agora, o Inspetor Ruth (cio?), o Juiz Faulx (falsa foice?) e o Procurador do Rei, M. Fordebras (de braço forte).

No segundo romance aparecem, de novo, como em “Un dans Trois”, um anão e um gigante e um empresário circense que não se chama Barnum, mas Burnam….

E Wens mudou, de novo.

O diabo do homem parece ter engolido um livro de provérbios e frases célebres, respira calembures, vive para dar respostas espirituosas.

Ou seja, escreve-se já a pensar no diálogo do filme que se seguirá ao livro….

Quando reaparece em 1945, em “Crimes à Vendre”, Norah e Walter evaporaram-se como Himmler e Patton, Marika Röok e Lilli Marlene. Wens regressa de Nova Iorque, totalmente americanizado, com um criado chinês (Chew-Chee), sempre desfiando piadas nem sempre engraçadas e de um cinismo revoltante.

Wens, já quarentão, de fontes brancas, usa óculos de lentes fumadas e espessas. Tornou-se jogador compulsivo, perdoa um homicídio a uma bela mulher, com quem bebe tranquilamente “champanhe”, no final da obra…

Surge, então, a partir de 1946, a fase final da obra de Steeman, já sem Wens, tipo “loufoque”, aliás muito secundário na intriga: “Madame La Mort”; “Dix-Huit Fantômes”; “Poker D’Enfer”; “Six Hommes à Tuer” (de novo restaurado…); “Que Personne Ne Sorte”; “LeCondamné Meurt à Cinq Heures”; “Haute Tension”, “Peut-être Un Vendredi”; Une Veuve Dort Seule”, “Autopsie d’Un Viol”.

Temas, construção narrativa, estilo tudo mudou.

Última cambalhota, que tinha começado em “Légitime Défense-Quai des Orfèvres”. Com a sua publicação, Steeman rompe definitivamente com o romance de enigma puro (muito anos trinta) e introduz o policial “thriller”, psicológico, tornando o “britânico” Wens, o Mutante, numa espécie de “Missão-Impossível-Para-um-Homem-Só”, um camaleão com mais talentos que o Santo e mais personificações enganosas que Arsène Lupin.

Autor sucessivo de thrillers de mérito, muito de estilo “Huis Clos”, como “Peut-être Un Vendredi” ou americanadas de tipo Rei Ubu – “trial-book”, passado nos E.U.A. dos anos cinquenta, como “Autopsie d’Un Viol”, assim oscilará Steeman até à morte, em 1970.

Que, para homens como ele, será sempre prematura e injusta.

Uma referência muito especial, ainda.

Em 1931, mais exatamente, entre fevereiro e junho desse ano, Steeman escreve, para a editora belga Moorthamers, um livro verdadeiramente diferente daqueles a que nos habituou, de enredo terrificante, sem concessões ao humor “vaudevillesco” e por vezes despropositado, a que nos condena em tantas das suas obras: “Le Démon de Sainte-Croix”.

Nesse romance apresenta-nos um jovem investigador, o Inspector Sébastien Soroge, de apenas trinta anos (Wens é muito mais velho, Malaise, ainda mais), contente de viver e que recentemente ficou noivo. 

E é a ele que cabe ir a Sainte-Croix, a dois quilómetros de Brugge, defrontar um “serial-killer”, criminoso sádico e diabólico, que pratica sete assassinatos num ambiente cinzento e chuvoso, num quotidiano que respira opressão, rotina e tédio, na linha tradicional do fantástico em Michel de Ghelderode, Jean Ray ou Thomas Owen.

Num pequeno burgo flamengo, esmagado por uma rotina burguesa ultrapassada pelo século vinte e os hábitos sociais do pós-guerra (1914-1918), de preocupações e interesses sórdidos ou ridículos, um “plat pays”, sem horizonte, mas com rotinas, começa-se a matar, sem piedade…

Lastimo que o clima e o ambiente deste livro (com ou sem Seb Soroge), não tenham tido sequelas….  

Resta-me ainda falar de Desiré Marco, um “private-eye” da linha dura (Lemmy Caution-Mike Hammer), que nos é apresentado em “Madame La Mort”.

Cita muito um avô Pons, é bêbedo contumaz (o que não é nada original), femeeiro (o que ainda o é menos), fala com uso constante de calão americano (o que é abaixo de vulgar, de tão banal) e diz-se duro, cínico e brutal.

É falso. É apenas de uma banalidade revoltante.

Madame la Mort” é um livro que lido, esquece-se de imediato.

A chegar-se ao fim.

Quando morreu acabava “Passeport Pour Le Ciel”. Tinha já um “carnet” de sequências a jogar a seguir: “Le Tout-Puissant”, “Foen”, “Le Pére du Mercredi”, “Notre Crime Quotidien”, “Ni Le Jour, Ni L’Heure”, “L’Atoll Aux Mouches”, “Crime Sur Orbite”, Mémoires D’un Amnésique”.

Alguém, neste pequeno mundo do policial, se atreverá a continuar a caminhada por ele iniciada, guiando os seus passos por estes títulos?

Já se fez com Conan Doyle e Wilkie Collins. Porque não com Steeman?

Vem, Wens! “The game is afoot”!

OBRAS PUBLICADAS

Mr. WENS

  • SIX HOMMES MORTS, LE MASQUE Nº84, 1930 / NOVA VERSÃO LE MASQUE Nº 95, 1952
  • L’ENNEMI SANS VISAGE
  • CRIMES À VENDRE
  • LA NUIT DU 12 AU 13
  • UN DANS TROIS
  • LE TRAJET DE LA FOUDRE, 1959 (L’ASSASSIN ASSASSINÉ, 1933)
  • LA MORT SURVIT AU TREIZE
  • LES ATOUTS DE MR. WENS (LES CIERGES AU DIABLE)
  • LE YO-YO DE VERRE, 1933 (LE VIRAGE DANGEREUX, 1944 / TOUS DROITS RÉSERVÉS, 1959)
  • LA RÉSURRECTION D’ATLAS
  • CRIMES À VENDRE
  • LA VIEILLE DAME QUI SE DÉFEND

CICLO COMMISSAIRE AIMÉ MALAISE

  • LE MANNEQUIN ASSASSINÉ
  • LE DOIGT VOLÉ
  • ZÉRO
  • PÉRIL
  • CHARGOIS
  • ARCHIBALD S. BREW
  • LES TROIS SPECTRES

CICLO SINTAIR (COM HERMAN SANTINI)

  • LE MYSTÈRE DU ZOO D’ANVERS
  • LE TREIZIÈME COUP DE MINUIT
  • LE DIABLE AU COLLÈGE
  • LE MAITRE DE TROIS VIES
  • LE GUET-APENS
  • LE MORT À ROULETTES

CICLO SILAS LORD

  • PLUS FORT QUE SHERLOCK HOLMES
  • “BOB”
  • LE MORT BURLESQUE OU CRIME À DISTANCE
  • SILAS LORD SAUVE UNE VIE
  • L’OMBRE SANS CORPS
  • VOL À BORD DU S. S. WYOMING
  • LES YEUX ÉTEINTS
  • DER KÖNIG DER GAUKLER
  • LES MAINS QUI PARLENT
  • UN ÉCHEC DE SILAS LORD
  • L’AFFAIRE PATRICOLA

CICLO SEB SOROGE

  • LE DÉMON DE SAINTE-CROIX, 1931

OUTRAS OBRAS

  • LES FILS DE BALAOO, 1933
  • L’ASSASSIN HABITE AU “21” – Prix du Roman d’Aventures 1931
  • LÉGITIME DÉFENSE (QUAI DES ORFÈVRES)
  • CÔTÉ CRIME, CÔTÉ MARTYRE
  • UN ROMAN POUR JEUNES FILLES
  • FAISONS LES FOUS
  • DIX-HUIT FÂNTOMES (DORTOIR DES GRANDES)
  • L’AUTOPSIE D’UN VIOL
  • LE CONDAMNÉ MEURT À CINQ HEURES
  • MADAME LA MORT, 1951
  • LE LÉVRIER BLEU, 1930
  • LE MUR ROUGE, 1930
  • CHERCHEZ LE COUPABLE, 1930
  • CHÈRE INQUIETUDE…, 1930
  • LA MORT DE TURK, 1930
  • TERREUR, 1929
  • LES RECOMENCEMENTS, 1931
  • L’OFFENSE, 1931
  • L’IMPOSTURE, 1931
  • COMME JE SUIS BON! , 1930
  • UN JEUNE HOMME, 1930
  • L’ADORABLE SPECTRE (FEU LADY ANN), 1934
  • UNE VEUVE DORT SEULE, 1960
  • HAUTE TENSION, 1968
  • AUTOPSIE D’UN VIOL, 1967

OBRAS DE JUVENTUDE

  • LA PEUR
  • LA VOIX DU DÉSERT
  • LE TOUT JEUNE KOBOLD
  • À COUPS DE DAGUE !
  • LA SIRÈNE
  • LES CROTTES DE CHOCOLAT

ETC…

Carlos Macedo

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