Novo livro de António Monteiro revela indícios de corrupção na Misericórdia de Santarém

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Apaixonado pela história local, António Monteiro, tentou decifrar no seu segundo livro um enigma que surgiu na entrada da Igreja da Misericórdia após as obras da nova fachada do monumento, arruinado pelos estragos provocados pelo terramoto de 1755

Apresentação do livro na Igreja da Misericórdia. Foto Carlos Marecos

“Este livro é quase uma provocação”, avisa António Monteiro, o autor de A Tamareira de Débora, obra lançada no passado sábado, 29 de Maio, na Igreja da Misericórdia, no centro histórico de Santarém.

Investigador autodidata e responsável pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Santarém (SCMS), Monteiro aponta a provocação no sentido em que nada “justifica que um indivíduo que não é licenciado, venha agora apresentar esta obra”, que “não é um exercício pretensioso”, garante.

O autor realizou um estudo sobre arte e história que revela informações sobre Santarém durante o reinado de D. José I. A obra nasceu pela consulta e análise de um grande acervo documental ainda intocado. A investigação de António Monteiro aborda a campanha de obras de reconstrução da fachada da Igreja da Misericórdia, em Santarém, que decorreu ao longo de 10 anos, entre 1757-1767, após os danos causados pelo terramoto de 1755.

A Tamareira de Débora partiu da observação de um emblema que foi colocado sobre o portal da entrada da igreja. Começou por ser apenas um trabalho que seria incluído no boletim editado pela SCMS. Depressa ganhou novos contornos perante várias dúvidas que intrigaram o autor e o levaram a uma investigação mais aprofundada quando se deparou com a existência de dois irmãos de apelido Salinas de Benevides que moravam na zona da Alcáçova, junto da Porta de Santiago, numa altura em que Santarém teria nove mil habitantes.

Ao longo da investigação, o autor revela ter encontrado dados que indicam um possível “processo de manipulação nas eleições para a administração da instituição e das quais sobreviveu alguma documentação” no arquivo da SCMS. Há suspeitas de que os irmãos Salinas terão tentado manter-se nos cargos que ocupavam durante o período da realização das obras, mas acabariam por ser afastados dos destinos da Santa Casa. Um esforço de conversão do valor gasto na época para o câmbio atual, levou ainda António Monteiro a “tentar perceber se o dinheiro tinha sido a razão da expulsão” dos irmãos.

Documentos ressuscitados

Convidado a apresentar A Tamareira de Débora, Vítor Serrão não tem dúvida em considerar o autor como “um homem que tem as qualidades que um historiador tem”, sendo “este livro é uma prova real”. O professor e académico com ligações familiares a Santarém, e apontado como um dos maiores especialistas do país em história de arte, vê António Monteiro como “alguém que é capaz de dar vida a um documento”.

Foto: Carlos Marecos

Vítor Serrão, que acompanhou o evoluir da investigação, realça que “em boa hora o património escalabitano vai ficar mais rico”, com este estudo que “vai muito mais além da história”, habitualmente conhecida. Acrescenta ainda que “este livro vem revelar nomes que ganham agora uma nova perspectiva”, como pedreiros e outros trabalhadores. “É um contributo válido e inovador para contar uma pequena história”, acrescenta.

Para o historiador, A Tamareira de Débora é “um título que é mais do que um trabalho para colocar na estante”. Além de “dignificar o autor”, mostra que “a história de Portugal é muito mais” do que se conhece, esperando, no futuro ver surgir “novos contributos para a historiografia escalabitana”, conclui.

O livro é uma edição de autor que contou com o patrocínio da SCMS que “adquiriu exemplares suficientes para serem distribuídos pelos mais de 500 irmãos desta Santa Casa”, revelou Hermínio Martinho, provedor da instituição onde tomou posse em Janeiro de 2020. 

“Ao fim de pouco mais de um ano este é um dos actos que me dão mais prazer em concretizar”, confessou ainda. O atual provedor recordou também o percurso de António Monteiro, que entrou ainda criança para o Lar dos Rapazes da SCMS, onde chegou a ser distinguido como o aluno interno com melhor comportamento.

Continuou profissionalmente ligado à Santa Casa, onde passou por diversos sectores até ser convidado para integrar a área do património da instituição. Hermínio Martinho realçou ainda “a referência, sobretudo do ponto de vista cultural”, que vê em António Monteiro. Apesar de já ter dado início ao processo de reforma, o provedor da Misericórdia destaca que, para além dos “serviços inestimáveis vai ainda continuar a prestar esse mesmo serviço”, assegura.

Veja aqui a entrevista com António Monteiro. Subscreva o canal do Youtube do Mais Ribatejo

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