Sonho com um mundo de liberdades amplas e a minha costela cigana

Em Opinião

               Sonho com um mundo de liberdades amplas, onde as escolhas morais, religiosas e sexuais, já não façam parte do debate político. Não porque não são importantes, mas precisamente pelo contrário. Um mundo onde a educação e o respeito (e sublinho respeito, não tolerância que tem uma carga semântica perversa) sejam tais que não seja preciso discutir o que nos define como pessoas perante outros que nos querem aniquilar a identidade. Tive uma vez uma amiga que se me definiu como pansexsual (palavra que o face está a tentar converter). Sonho com um mundo de educação constante onde não seja necessário explicitar isso porque intrinsecamente o apreendemos e passamos de geração e geração, juntamente com o respeito e educação. Abraços.

Óleo sobre tela, “Pousada de ciganos”, 1923, de EDUARDO VIANA

               Escrevi isto há meses num comentário de rede social e parece que o meu sonho é ancestral. Sem termos de sublinhar as diferenças, nos anos 90, a malta da minha geração aderiu em massa ao slogan “Todos diferentes todos iguais”. Agora essa máxima passa por racista porque promove a integração. Será? Nesse tempo, também havia piadas machistas, piadas racistas, piadas sexistas e, eu me confesso, até aos 17 ou 18 era bastante homofóbico. Fiquei mais um bocado quando fui vítima de assédio em vários locais, sim por ao contrário do que social media transparece o homens também podem ser assediados por ambos os sexos, de múltiplas formas. Eu depois menos pela forma como resolvi isso. Antes que me cancelem, não quero por tudo na mesma balança. O que nos distingue torna-nos únicos. As escolhas são nossas e não parece de todo que seja imutáveis consoante o tempo, a forma, o lugar e a pessoas (ou pessoas).

               Temos a tendência natural (fisológica mesmo, segundo alguns estudos com insetos) de pensar “no meu tempo é que era bom”. Passei a faculdade toda a ouvir isso. Da malta da “guerra colonial”, da malta fascista, da malta do “25 de abril”, da malta do “25 de novembro” da malta do “maio 68”, da malta do “abril de 69”, muito mesmo. Uma vez mais, não ponho todos no mesmo saco. Escolhi a melhor conversa, a escolha é conhecida. Junto ao Jardim da Sereia, com rapazes e raparigas à espera, abandonei um caminho para seguir outro. E, nessa mesma noite, jurei que nunca diria o adágio nostálgico. Aqui estou eu a escrevê-lo. Não vi esses tempos, lamento. Continuou a achar que se o meu tempo era bom o futuro tem de ser melhor…. mas fiam-se na Virgem e não corram.

               Disseram-me à boca cheia que os anos 80 também eram bons, sobretudo deste ponto de vista de libertação sexual. Vivi um tempo distinto. Sim de libertação múltipla na “Lusa-Atenas”, a ponto de liberais moças e moços lisboetas se chocarem com o impudor do Clube de Rugby de Coimbra[i], para nós “clube recreativo cigano”, por causa da música, não por causa dos calons. Foi um tempo onde chamar preta a uma amiga do peito era carinhoso, não suscitava olhares cruzados. Foi tempo onde não privei com ninguém que se julgasse melhor que outrem pela sua cor, sexo ou preferências libidinosas.

               Porém, um tempo onde a politiquice já era tramada. (Aí de quem quisesse apoiar o Cavaco Silva, deixaram a namorada em nervos causa disso, num estranho caso de bulling político). Esse tipo de labor estudantil e de boémia pode ser uma utopia? Não sei. Se o foi, foi pois… Ouvir Zé Mário Branco enquanto alguém se declara pansexual e tira a roupa no meio da festa, será sempre épico. Quase conseguir eleger um tipo anti-praxe e fazê-lo o mais votado sem capa batina, desde a “restauração da praxe” numa lista apoiada pelo BE e pela Opus Dei, em verdadeira democracia de base, foi algo sensacional.

               Contundo, a nossa desfaçatez da libido não implicava qualquer tipo moral inversa. As regras judaico-cristãs andavam por lá, no “fundo do quadro”, a par das várias versões de comunismo dominantes e de um q. b. dos velhos hippie.  A jovem Paula, nome trocado, num dia era testemunha de Jeová, defendendo o que “as pessoas de bem” não devem fazer na cama. Na semana militava no MRPP, advogando a revolução a começar no quarto. Aos 24, dei por mim a pensar, que estava muito longe do miúdo de 12, crescido num salutar meio rural, que numa escola de Santarém, foi gozado pelos colegas (e pelo professor) por explicar o que era a menstruação (tal como pais, livros e ciência lhe ensinaram). Esse catraio ficou triste, quando lhe disseram, na aula, que não era nada disso era qualquer coisa meio mística, meio tabu. Foi daí que passou a confiar mais nos livros do que em alguns mestres. Sobre estas matérias de sexualidade na escola (e não só) para as várias idades recomenda-se os trabalhos de Vânia Beliz[ii], para quem prefere ler ao Netflix.

               O meu tempo está a passar. Corre depressa. Vem daí a promessa de não enganar crianças nestas coisas e de lhes explicar, comme il faut o mundo e que as rodeias. Daí a minha resistência em embarcar nos contos do Pai Natal, ou neste caso das cegonhas. Talvez seja hipócrita, talvez seja cruel contar aos pequenos como podem ser grandes. Entenda-se melhores e maiores do que nós. Talvez o segredo sejam contar-lhe que podem fazer isso tudo sem deixar de ser pequenos.

               Perguntam os que nos leiam. Porque misturar a sexulidade com a utopia? Não será melhor deixar o privado, privado? Pois, parece que não. Já escreveu o grande António Cândido Franco[iii], talvez o melhor em biográfo em português, neste século que no sexo começa vida. Todo este relambório, que vai para o jornal com bolinha vermelha, vai dirigido ao pai que não quer que os meninos tenham conteúdos de educação sexual nas escolas. Sejamos frontais, a tentativa de bloquear a “educação cívica”, por gradas figuras da praça pública, não tinha propriamente a ver com as regras de trânsito nem com as competências da Junta de Freguesia (as quais espera que estejam no programa), mas como a dimensão da sexualidade. Insistir em mantê-la fora da escola é perverso, perigoso e, até, contraditório com a mesma moral judaico-cristã que se diz defender. Isto não quer dizer que se defende a hipersexualização da sociedade, numa leitura simplista de Whillem Reich[iv]. A ideia de que um(a) professor(a) insufla nas mentes infantis uma suposta ideologia de género que os convida a transgredir a heteronormativa, não é um bocado absurda? A escola tende a normatizar é verdade, mas isso não consegue fazer. As crianças pensam por si próprios. Se não pensam algo está a falhar e não tão a só a educação para cidadania. 

               Nestes caminhos, do sonho, da vontade e de um mundo diferente, diferente porque melhor, é aos vindouros que cabe, “o meu tempo é que vai ser bom”. Podem argumentar, alguma malta funesta, mais avessa a travessuras eróticas não só tira os miúdos da escola se souber destas conversas, como ainda corta as goelas aos docentes. São gajos para isso.

               Não falou dos amigos calons que não fazem mal a mosca, mas também não gostam destas conversas com catraias de terna idade. Desculpem lá, gosto muito da música, gosto do estilo, curto-vos bué, mas não posso suportar casamentos combinados em tenra, não é nada contra vós. Deixamos de lado o cancelamento. Como a tipo que foi banida por dizer que há calons a maltratar animais, há todos como os outros, ou menos. Abandonemos a ideia de que uma crítica é sexista, machista ou racista por de dirigira a determinadas práticas comunitárias. Não gosto que obriguem crianças a casar, seja no caso no ducado de Bragança, seja onde for. Não que a malta nómada seja a única a obrigar pessoal a casar. Também não consta que calons da “tuga” ainda por aí a decapitar docentes, como os tipos que não sabem ler o sagrado Alcorão, a paz esteja com ele. Aliás, consta que um ciganito perdeu a cabeça em posto da guarda[v].

               Ficou para o fim a minha costela cigana. Um amigo recente chamou-me noutro dia “Lello Hermundo”, misto da alcunha que me pôs. Tal com nos versos de Almada de Negreiros[vi], a alcunha trai o preconceito, mas não é xenófoba. É isso que temos de refletir, parece que o Negreiros, de passado talvez obscuro, gostava tanto de ciganos como gostava do Júlio Dantas[vii]. Ao último tentou menosprezar fisiologicamente, aos outros não, aliás o pobre Dantas (um dos melhores escritores que tivemos) não se qualificava para ser calon, era só “meio cigano”. Posto, a razão da alcunha que o Nuno me pôs deveu-se à partilha na mesma rede social de um tema de Vitorino[viii], cantado pelo Rio Grande[ix], que reza «somos um pouco ciganos anda sempre alguém por fora»[x]. Soube que um bom amigo não me contratava se fosse cigano. Porém eu não sei se sou cigano. Isto é se nos quatro costados, tenho para lá esquecida uma costela calon. Vós sabeis se sóis ciganos?

               Deixo um apelo à malta um dia destes todos diferentes todos iguais peguemos em pintar por aí mural, com desenho tão ritmado como a grande música cigana portuguesa, com um velho amigo, (onde andará) tocava no antigo Bakus[xi].

José Raimundo Noras

Notas:


[i] Agremiacão que mantinha um bar discoteca em Coimbra.

[ii] Vânia Beliz é sexóloga, com trabalhos amplamente reconhecidos e obras para todas as idades na especialidade.

[iii] Referimo-nos a António Cândido Franco, O Estraníssimo Colosso – uma biografia de Agostinho da Silva, Lisboa: Quetzal, 2005, pp. 542-543. 

[iv] Whilem Reich (1897-1957) autor, bastante conhecido pela sua ligação à psicologia, escreveu também sobre ciência política e metodoligia histórica. Marxista, de certo modo proscrito, por via da sua ruptura quer com S. Freud, quer com o comunismo alemão, refugiou-nos nos EUA em fuga à 2.ª Guerra Mundial, onde foi colocado sob vigilância do FBI pelas suas ideias (essa secreta disponbiliza hoje os relatórios já desclassificados). Defendeia destimatização da sexualidade e seu enquadramento precoce no novo sistema de ensino socialista, num modelo que opunho ao de Estaline. As suas experiências e doutrina tiveram vasta influência na psicologia e na piscnálise e foi recuperado pelo movimento hippie nos anos 60/70. Sem edições atuais veja-se por exemplo os títulos O Combate Sexual da Juventude ou A Revolução Sexual.

[v] Referência ao caso de polícia dos anos 90 explorado no romance Antonio Tabucchi, A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, trad. Thereza de Lancastre, Lisboa: Quetzal, 1997.

[vi] Referimo-nos ao bem conhecido poema de Almada Negreiros, Manifesto anti-Dantas e por extenso por José de Almada-Negreiros poeta d’Orpheu futurista e tudo, veja edição recente da Assírio e Alvim (2013). Almada Negreiros (1893-1970) um dos nomes maiores da vanguarda portuguesa, do chamado “primeiro modernismo” foi artista plástico e escritor, parece ter exprimentado quase todos os géneros de arte é mais conhecido com pintor. No manifesto, uma reação futurista, chama a Dantas é “meio cigano”.

[vii] Júlio Dantas (1876-1962), médio, político, diplomata e escritor, ficou mais célebre com a famosa peça A Ceia dos Cardeiais que marcou o teatro a sua época, mas também pela reação de Almada coorporizando nele o “passadismos literário”, foi em vida um repudatadíssimo especialista em arte.

[viii] Vitorino Salomé é músico e escritor (cantautor) associado à música popular alentejana e à música de intrevenção.

[ix] Rio Grande, “grupo de grupos”, foi um projeto musical formado por Rui Veloso, Tim (Xutos & Pontapés), João Gil (ex-Trovante, Ala dos Namorados, Filarmónica Gil), Jorge Palma, Vitorino e João Monge, referimo-nos ao disco homónimo de 1996.

[x] Referimo-nos à música “Ponte do Guadiana”, Rio Grande¸ 1996; disponível em linha em: https://www.youtube.com/watch?v=qzIsmSmlAC8

[xi] Tratou-se de café-bar com karoeke e música em Santarém, na travessa traseira à atual sede da PSP.

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