Porrada neles!

Em Opinião

Porrada nos ingleses! Que vão beber e ver futebol para a terra deles! Já agora, porrada nos nepaleses que trabalham nas estufas do Algarve! Que vão apanhar morangos e tomate cherry para a terra deles. E também porrada nos turistas que vêm cá apanhar o nosso sol e tomar banho no nosso mar!

Tenho lido e ouvido alguns dos mais populares comentadores opinar sobre o modo como deviam ter sido resolvidos os casos que envolveram estrangeiros na nossa querida e soberana pátria durante a atual fase da pandemia.

A primeira e mais expedita solução proposta pela nata dos opinadores é da que o governo devia ter impedido a sua entrada de estrangeiros e a realização dos eventos que os trouxeram. Em segundo lugar, dado o seu mau comportamento, o governo deveria ter imposto a sua autoridade à porrada e assim transmitido uma imagem de autoridade ao mundo. Não somos nenhuma república das bananas que admita ingleses bêbados no Porto e nepaleses com covid em Odemira! Já quanto a caloteiros de alto gabarito a questão muda de figura, são bem-vindos, tal como os descontaminados e purificados portadores de vistos gold!

Porrada e fecho de atividade é a solução proposta para Portugal botar figura no mundo. Segundo os comentadores estabelecidos, o plano de vacinações, de elevado custo, deveria ser um puro exercício destinado a promover desempregados saudáveis. Portugal passaria a ser a primeira sociedade paradisíaca: habitantes em lazer eterno e a respirar saúde! No limite, as propostas dos comentadores e políticos todo-o-terreno concluem que, com a exceção do ato de ministrar injeções, todo o outro trabalho mata, ou é de alto risco! O Criador, na sagrada Bíblia, no Génesis, no capítulo da criação do casal humano, terá pensado o mesmo. A desgraça aconteceu por desobediência das regras que impediam Adão e Eva de comer a maçã. Solução divina: Porrada neles! O Criador expulsou-os e passou a atezanar os seus descendentes até ao final dos tempos. O Almirante Gouveia e Melo anda de camuflado a vacinar, em pura perda de tempo e dinheiro, apenas para que os portugueses se mantenham pendurados na macieira, isolados, até cair de podres tal como a maçã do Paraíso, sem outra serventia que a de adubar a terra. Resta a pergunta de um inglês, no Porto: Para que quero a vacina se não me posso embebedar com os meus amigos? Entre muitas razções, também nos vacinamos para nos podermos embebedar. Mas os opinadores são adeptos do sacrifício e consideram o prazer um pecado. Há até uns que usam, ou usaram, cilícios para se mortificar!

A meta de sociedade imunizada, mas isolada, de farniente, mas tristeseria atingida, segundo os teóricos do “porrada neles”, através de uma espécie de Regulamento de Disciplina Militar, o RDM da tropa, ou de Normas de Execução Permanente, as NEP.

Os vários órgãos de poder, do governo da República à mais recôndita junta de freguesia, deviam já ter publicado um RDM, ou umas NEP para as festas populares, para fins de semana e dias de santo padroeiro, de mercado e procissão, de feira do livro e de jogo da bola, de festivais de música e de funerais, para o 10 de Junho, o 5 de Outubro, o Natal e a Páscoa do ano que vem. É necessário saber com o que contamos, exigem! O almirante Gouveia e Melo, em vez de dirigir um plano de vacinação deveria enviar ordens de serviço. Portugal não necessita de vacinas, mas de cabos do mar, fiscais de ajuntamentos, drones com câmaras de televisão, de demolidores de esplanadas.

Resta o pormenor de os opinadores acusarem de incompetência o autarca do Porto por autorizar as festas do São João na sua cidade e de igualmente acusarem de incompetente o autarca de Lisboa, ao não autorizar as do Santo António na capital! Ainda não se pronunciaram sobre a atitude certa de cada autarca ou polícia perante o consumo de sardinhas e de chouriço, mas não tardarão a emitir sentença sobre o magno assunto da relação destes dois consumíveis com o vírus do covid. Sardinhas não mais de meia dúzia por prato e chouriço apenas inteiro, para evitar as perigosas rodelas!

Ouvindo os zelotes das TVs podemos ser levados a acreditar que Portugal não é habitado por indivíduos que têm de fazer pela vida para sobreviver, mas sim por seres que escaparam à lei da evolução das espécies de Darwin, baseada nas tentativas de cada elemento vivo da natureza encontrar as melhores respostas para as situações, na aprendizagem com o sucesso e o insucesso, que Portugal será um projeto de marquise, isolada e transparente, uma bolha, um Éden em construção, uma escola de virtudes e de bom comportamento dirigida por vendedores de banha da cobra, a conhecida panaceia universal: Porrada nos portugueses e em quem os incomodar, mesmo que estejam vacinados!

Carlos Matos Gomes

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