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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (13): Dorothy Sayers (1893-1957)

Em Leituras

Britânica, nascida em Oxford e falecida em Witham.

O autor de romances policiais, em geral, aspira à complicação e à inteligência, está sempre pronto a rejeitar a evidência e a absolver o culpado. Não se sente bem, enquanto não for ainda mais longe e tiver encontrado uma nova explicação satisfatória do problema”.

(In “THE MURDER OF JULIA WALLACE”)

Dorothy Sayers

Sempre viveu na sua amada Inglaterra. Sê-lo-ia? Inteligente como foi, tenho as minhas dúvidas. O que podemos dizer, sem margem a dúvidas é que veio ao mundo com o dom e a paixão das palavras.

Filha única de um clérigo, músico e tenaz defensor do que pensava certo, foi educada num meio enérgico, empreendedor e amigo da cultura.

Tem apenas quatro anos quando o seu pai é colocado numa paróquia do Cambridgeshire, e é aí que a sua gargantuesca voracidade pela leitura, se desenvolve ainda mais e atinge proporções de Himalaia.

Escreve poemas, histórias, peçazinhas.

Estuda a história do cristianismo, como se de uma história se tratasse, uma saga épica de bons e maus.

Verdadeira maria-rapaz, cheia de vida, inocente mas realista, com uma imaginação e sensibilidade peculiares, que a tornaram muito vulnerável no plano afetivo, mas que lhe servirão maravilhosamente para a sua carreira de escritora policial (e de publicitária, que também será).

Ingressa no Sommerville College, de Oxford, onde adquire uma excecional formação académica, sendo das primeiras mulheres que aí obtêm os graus de bacharel e mestre em Letras, numa só cerimónia (e lhe fornecerá ainda um excelente pano de fundo para o seu livro “Gaudy Night”).

A sua vida afetiva é particularmente infeliz (tem várias ligações que nunca correm bem; um filho ilegítimo, Anthony Fleming; terminando a vida, por fim, com um marido alcoólico e de terrível mau génio, que lhe amargura, ainda mais, os últimos anos de existência). É rechonchuda, pouco atraente e esse facto, a ela, embora pessoa muito inteligente, afeta-a muito.

Depois de algum tempo como secretária, trabalha vários anos como copywriter na principal agência publicitária de Londres (útil para a sua novela “Murder Must Advertise”).

Tem um papel decisivo na criação e prestígio mundial do Detection Club, por ela fundado, com Gilbert K. Chesterton, Agatha Christie, Anthony Berkeley e muitos outros valores de primeiro plano na época de ouro do policial dedutivo.

Exatamente como Henry James, quanto ao romance em geral, Dorothy tentou desenvolver uma teoria completa do romance policial (Longa introdução ao Omnibus of Crime, 1929), utilizando os seus profundos conhecimentos académicos, com muita seriedade, não destituída de humor.

Mais. Escreveu ainda um livro extraordinário, sobre estética, “The Mind of the Maker”, onde defende a tese que a experiência comum de fazer qualquer coisa (nomeadamente um romance policial) corresponde aos significados simbolizados pela Trindade. Primeiro vem a Ideia Criativa, que prevê toda a obra, como se já estivesse terminada. É o Pai. Segue-se-lhe a Energia Criativa, que se envolve numa luta vigorosa com a matéria e vai ultrapassando obstáculos á medida que surgem. É o Filho.

Em terceiro lugar, vem o Poder Criativo da própria obra, a sua influência sobre o mundo, por meio do efeito que tem no espírito do observador-leitor. É o Espírito Santo.

Três elementos indispensáveis à consumação da obra, que se fundem nela e, seguindo a obra de Deus pelo mesmo padrão, demonstra que o Homem foi feito à Sua imagem e semelhança.

Mas Dorothy Sayers não era uma evangelizadora nata (e muito menos beata ou fanática…).

Repetia constantemente uma frase: “… a primeira coisa que um princípio (ideológico) faz é matar alguém”.

Sabia que a imposição de uma conceção particular de divindade só poderia produzir divisão e opressão.

Era, explicitamente, uma relativista pragmática.

A I Guerra Mundial convenceu-a que, de facto, os princípios matam e que a Europa se convertera numa vasta oferenda queimada (um Holocausto) aos deuses dos Princípios, em que ambos os lados cooperavam, galvanizados pelos preconceitos e superstições, guiados por ideologias ou religiões de diferentes vestimentas, mas idêntica irracionalidade.

Dorothy Sayers, por Sir William Oliphant Hutchison

Escreveu muito, antes de morrer subitamente, aos sessenta e quatro anos: “Acredito que o principal problema das nações de hoje é o medo. O medo da morte e, sobretudo, o medo da vida. É isto que deprime os espíritos dos homens e paralisa o esforço construtivo. Creio que este medo só poderá ser eliminado mediante uma forte consciência do valor da vida. O nosso objetivo é dar, ao povo deste país, um propósito construtivo, pelo qual valha a pena viver e morrer”.

Estava-se á beira de 1940…

Mas não se pense que Sayers era uma mulher sombria e amargurada pela vida (que já expus, muito pudica e sucintamente) que teve.

Um exemplo: alguém da patética hidra, a Imprensa, pediu-lhe que analisasse a literatura de ficção policial do ponto de vista da mulher. Resposta: “Imbecis e editores de revistas formularam-me semelhante tipo de perguntas. A única coisa que posso responder é: ora, vá-se embora e não seja tonto!”.

Outra faceta sua: aprendeu italiano (associando-o aos seus conhecimentos de latim, história e literatura medievais), a fim de traduzir a “Divina Comédia” de Dante para a língua inglesa, libertando-o das solenidades pomposas de traduções anteriores, fiel à terza rima do original, dando o devido espaço ao engenho, sarcasmo e humor de Alighieri e isto num inglês simples, fácil de ler e eficaz do ponto de vista dramático.

Publicada na Penguin, recebeu elogios de imensos sectores, nomeadamente o de C.S. Lewis.

Mas falemos agora da faceta “criminosa” de Sayers, até porque, numa gigantesca sondagem, feita sobre quais as personagens de romances policiais mais conhecidas do grande público (e ao contrário do que se poderia pensar), logo a seguir a Sherlock Holmes (que não conta, é doutro campeonato…) estão Maigret e… Lord Peter Wimsey!

Lord Peter Wimsey numa das séries televisivas

Inicialmente, Lord Peter é um insuportável pedante, quando fala, com as suas piadas parvas de aristocrata anos vinte e os seus maneirismos verbais de fake idiot.

Mesmo quando está calado, com o monóculo cintilante, o polido rebrilhante dos sapatos, o inconcebível escravovalet Bunter, o cabelinho de risca ao lado, sem um pelo no ar, este tipo-padrão da English cant converteria (em poucos minutos de forçado convívio), a Rainha Vitória ao socialismo….

Sayers tem consciência do facto e tenta desagregar e diminuir a personagem, que acaba pesando pouco (quase nada) na resolução do verdadeiro problema de “Gaudy Night” e ainda menos (se possível) em “Bushman’s Honeymoon”.

Nestes livros revela real talento e a sua teorização da técnica do policial dedutivo é de uma concisão e talento admiráveis: o detetive deve ser, sobretudo, sensível e intuitivo, mas edificar o seu raciocínio sempre em dados objetivos. O argumento deve dinamizar-se constantemente, por reviravoltas inesperadas da ação, e nunca deixar de ter em conta o meio e casta social onde se passa. Deve ser (também) uma lúcida análise de costumes, que obrigue o leitor a pensar em algo mais do que quem foi o autor do(s) crimes…

Em “Whose Body?”, por exemplo, Sayers (ao mesmo tempo que admite as suas simpatias conservadoras, “a contrario senso” …) descreve impiedosamente Peter: “quando tocava piano, os seus olhos adoçavam-se-lhe um pouco; contudo, em circunstância alguma podia considerar-se belo, prejudicado pelo seu queixo longo e afilado e pela testa fugidia, desmesurada, que a cabeleira loura e penteada para trás ainda mais acentuava. Os jornais trabalhistas, quando publicavam a sua caricatura, desenhavam-no como o aristocrata-tipo, tendo o cuidado de acentuar, ainda mais, a curva oblíqua do seu queixo.”

Num preâmbulo (falso) a este livro, datado de 1935, um nobre tio de Peter Wimsey, um Paul Austin de Lagardie, dá-nos uma biografia arrepiante do jovem (de quarenta e cinco anos…) herói, onde é difícil saber quem é mais odiosamente pedante, narciso e amoral: o biógrafo ou o biografado.

Peter é, para seu tio, um erudito e um gentleman.

E, também, um pretensioso, abusador da sua riqueza e origem de classe, que usa desavergonhadamente em todos os seus inquéritos (irmão mais novo do Duque de Denver…) a sua origem aristocrática, para forçar a obtenção de informações confidenciais e reservadas, beneficia sem vergonha de trabalhos gratuitos da polícia oficial, etc…

Há que dizer, no entanto, que foi um herói de guerra (1914-1918), promovido a major e largamente condecorado (cumpriu o seu dever, segundo o tio, ou seja, matou imensos seres humanos…).

É também um desprezível opressor do seu fiel mordomo Bunter (que o idolatra), tratando-o como um misto de escravo romano, palhaço a tempo inteiro e investigador e fotógrafo forense-criminal, usando as suas excecionais qualidades nesse campo, sem apreciação séria, agradecimento ou recompensa material e destituído do menor escrúpulo nessa exploração recorrente.

Tudo isto por duzentas e cinquenta libras anuais (Wimsey gasta, numa tarde ociosa, setecentas e cinquenta em dois livros antigos, licitados, aliás, com inteligência… por Bunter).

Apesar de tudo isso, Wimsey era um rapaz encantador, franco, modesto e de excelentes maneiras, aos dezanove anos. Vai para Balliol (Oxford) estudar história e tornou-se afectado, comprou monóculo e arranjou um ar muito Oxford, começando a blasonar inanidades pelos salões (segundo o tio, que o estima mais do que a ninguém).

Ao contrário do espesso imbecil, o arrogante duque, seu irmão, Duque de Denver (que salva, aliás, de uma embrulhada sexual em que a sua lúbrica e boçal ineptidão o metera…) cresce, desde criança, com a paixão dos livros e da música.

E, também, como disse a idosa Duquesa de Denver, sua mãe, “Peter consegue tudo, excepto aquilo que deseja verdadeiramente”.

E aquele tudo que consegue, sobretudo em matéria sentimental, não o desejaríamos ao nosso pior inimigo.

Pobre Peter, vivendo o drama de se fazer constantemente passar por um idiota e frívolo aristocrata, desejando, no íntimo, ser mesmo esse idiota e não um inteligente e atento observador da sociedade decadente, na qual está condenado a mover-se ritualmente, até à morte…

A sua vida sentimental não é menos embrulhada.

Conhece a que será sua mulher, defendendo-a numa posição quase desesperada, num processo de homicídio, onde é acusada de ter assassinado (com arsénico) o amante, um tal Philip Boyes.

Imagine-se, na cant londrina da época (se esta parábola fosse realidade) o que seria a vida, após o casamento, de Peter e da sua envenenadora e promíscua Maria Madalena.

Que se nos apresenta como uma adepta do amor-livre e outras sufragices na moda àquela época, mas de um egoísmo monstruoso, afetando um desprezo evidente pela paixão canina de Peter (pelo menos de início). E mais calculista que Mae West, quando se trata de salvar a pele…

Aí temos a Eva da saga Wimsey que, no caso vertente, se chamava Harriet Vane. Talvez corporização freudiana, vingança, se preferirem, dos traumas de Dorothy, nas suas relações amorosas com o sexo oposto.

Também ela escritora de romances policiais, “todos eles tratando de modos variados e engenhosos de praticar crimes” …

Terminado este escandaloso caso, onde (escusado será dizê-lo) Peter Wimsey consegue a absolvição da sua adorada Harriet e escandaliza de forma indescritível o duque seu irmão e toda a família, ao anunciar a intenção inquebrantável de concretizar o seu casamento com a ainda presa (por homicídio) Miss Vane…

Fá-lo com austera simplicidade: “…se essa presa me considerar digno dela, é claro!”. Para a conquistar, recorre a processos em que era impossível ser mais cabotino: “…confesso-me disposto a deixar crescer a barba, a mudar a posição do risco do penteado, enfim, o que lhe agradar mais! E apresentar-me-ei de fato novo de todas as vezes que a visitar, a fim de lhe dar uma ideia da opulência do meu guarda-roupa…Bunter, o meu criado de quarto, redobrará de cuidados e não há segundo como ele para me escolher uma gravata… mas, acima de tudo, não hesite em avisar- me, se não houver maneira de se habituar a mim…”.

Deste modo, Sayers, feiosa, infeliz nas patéticas ligações amorosas, casando, por fim, com um homem que lhe fez a vida num inferno, longe de ser rica, vinga-se, idealizando um herói que nos faz voltar, ao que de melhor poderiam ter concebido Laurence Sterne ou William Makepeace Tackeray…

Deus a abençoe por isso.

OBRAS PUBLICADAS

  • LORD PETER WIMSEY WHOSE BODY?, 1923
  • MURDER MUST ADVERTISE, 1933 CLOUDS OF WITNESS, 1928
  • THE DOCUMENTS IN THE CASE (WITH ROBERT EUSTACE), 1934
  • FIVE RED HERRINGS, 1927
  • HANGMAN’S HOLIDAY, 1932
  •  HAVE HIS CARCASE, 1929
  • IN THE TEETH OF THE EVIDENCE, 1931
  •  LORD PETER VIEWS THE BODY, 1930
  • THE NINE TAILORS, 1930
  •  STRIDING FOLLY, 1932
  • STRONG POISON, 1932
  • UNNATURAL DEATH, 1932
  • THE UNPLEASANTNESS AT THE BELLONA CLUB, 1929
  •  GAUDY NIGHT, 1935
  • BUSHMAN’S HONEYMOON, 1937
  • THRONES, DOMINATIONS, 1936-1998 (COM JILL PATTON WALSH)
  • A PRESUMPTION OF DEATH (IDEIA DE D. SAYERS) / JILL PATTON WALSH, 2002
  • OUTRAS OBRAS

Carlos Macedo

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